5 Fatores que Influenciam no Preço do Vinil

Quanto vale um disco de vinil? A única resposta possível é: depende. E depende de muita coisa quando nos referimos ao mercado de usados. À medida que compramos e vendemos discos ganhamos intimidade com o mercado e essa é a melhor maneira de entender a lógica por trás da precificação.


Quem compra discos usados a mais tempo consegue avaliar no ato se uma oferta é justa ou não. Aqueles que começaram a comprar discos recentemente podem não entender quão complexa é a tarefa de definir o preço. Entender as especificidades desse mercado são importantes para avaliar uma boa oportunidade de compra ou até para saber se cabe negociar a oferta.


Listamos abaixo 5 fatores que influenciam no preço de um disco usado.



1. Estado de Conservação


A primeira coisa que separa discos vendáveis de discos imprestáveis é a qualidade da capa e da mídia. Quem compra discos prefere itens impecáveis e você só terá discos assim se foram guardados da forma correta ao longo dos anos. Acredite, ainda existem vinis velhos que parecem ter saído da fábrica para os dias atuais e soam como tal. Não é à toa que o formato é reconhecido por sua longevidade. Entretanto, certos discos são mais difíceis de serem encontrados em ótimo estado, especialmente aqueles que foram populares a ponto de não saírem da ponta da agulha.


A capa é uma embalagem frágil que suja, amassa, rasga, umedece e acumula impurezas. Cada um desses defeitos aparentes depreciam o disco. Algumas marcas são aceitáveis, como, por exemplo, o halo que se forma pela borda do disco na capa ou a comum assinatura do antigo dono em caneta Bic, mas tudo depende da exigência de quem compra. Para ajudar a conservar a capa do disco existem ainda os polêmicos plásticos transparentes que muitos não vivem sem e outros acham dispensáveis.


Capa em estado de conservação "poor" (P)

Obviamente, o vinil em si também precisa estar em condições de uso. O maior dos problemas são os riscos que podem interferir na reprodução. Se superficiais, conferem um chiado indesejável que lembra o chiado de fritura; se profundos, podem fazer a agulha pular o sulco ou, em casos extremos, até danificá-la. Não muito difíceis de se ver são os buracos feito por insetos que condenam definitivamente a peça. Compradores com alguma prática sabem identificar tais problemas analisando o disco visualmente ou tocando as imperfeições.


Mídia em estado "Mint" aparenta nunca ter sido trilhado

Para ajudar nas negociações, especialmente online, foi criado uma categorização do estado de conservação para capa e disco individualmente. Essa gradação varia de Novo (M, ou Mint) até Ruim (P, ou Poor). Com o uso dessas siglas as negociações ficaram mais fáceis, mas também dependem da honestidade de quem classifica.


2. Edição e tiragem


A tiragem se refere a quantos discos foram prensados e colocados à venda e pode definir quão raro um disco é. É comum que discos que fizeram sucesso tenham sido relançados, mas muitos tiveram poucas ou apenas uma tiragem pequena - seja porque foi uma aposta de início de carreira do artista, seja por se tratar de um projeto de selo independente - o que os torna uma agulha no palheiro. As tiragens podem ser facilmente identificadas pelo ano de lançamento impresso e até pela cor e design do selo.


A maioria dos compradores prefere tiragens mais antigas por creditarem algo de “original” à obra. Do ponto de vista técnico, existe também a certeza de que uma primeira tiragem foi prensada a partir de fitas master, o que pode não ser uma verdade, especialmente para discos relançados recentemente. A forma mais precisa de se identificar a edição de um disco é através do código de catálogo impresso no selo, mas para isso é preciso recorrer a consultas online.


O mesmo Stone Flower em 3 ediçôes diferentes

Entenda então que, a raridade muda de item para item e de obra para obra, ou seja, o disco do Roberto Carlos que você herdou do seu tio não tem valor por ser da década de 70. Esse talvez seja o melhor dos exemplos, pois estamos falando do artista que mais vendeu LPs no Brasil, ou seja, não existe nada de raro num disco nacional do Roberto Carlos, já que pode ser encontrado facilmente. Porém, se estamos falando do primeiro disco de carreira que teve baixa tiragem, aí sim, trata-se de uma “mosca branca” e você tem chance de conseguir um bom preço por ele se estiver, claro, em boas condições de conservação.


Outro exemplo são os discos da banda Os Mutantes que tiveram mais de uma prensagem. Qualquer uma delas é muito valorizada, inclusive as mais recentes. O preço de um disco do Mutantes cresce exponencialmente quanto mais velha for a edição. Existem os discos com selo Polyfar na cor verde que são muito bem quistos, mas os discos com selo Polydor vermelho são os mais raros e mais procurados no mercado.


3. Nacionalidade


De forma geral, discos importados são mais caros que discos nacionais. Principalmente, se estamos falando de um artista internacional. Se for uma obra do país de origem do artista, mais valor ainda ele tem.


Quanto aos discos nacionais, muitos foram prensados fora e são bem valiosos, como os discos da bossa nova. Isso porque a qualidade de fabricação dos discos fora do Brasil são, de forma geral, superior no que diz respeito a matéria-prima e qualidade gráfica de impressão da capa. Inclusive, reza a lenda que, nos anos 90, o Brasil produziu muitos discos a partir de insumo reciclado. Tais discos são mais opacos, visualmente diferentes do que estamos acostumados e soam realmente muito piores se comparados a edições tradicionais.


Edição inglesa do Sgt. Peppers's Lonely Hearts Club Band

Os discos da banda The Beatles que foram fabricados no mundo todo são um ótimo exemplo de variação de preço por nacionalidade. Existem edições americanas do selo Capitol que são muito cobiçadas, mas nada se compara às tiragens britânicas com selo Parlaphone. No Brasil, os discos dos Beatles mais procurados foram lançados pela Odeon, mas existem diversas outras tiragens com diferenças gritantes entre elas.


Alguns discos ainda podem ser valorizados por virem de países europeus ou da Austrália por selos que tenham tradição em lançar discos nesses países. Os discos japoneses, por sua vez, são um capítulo à parte dado o preciosismo que o país tem com a prensagem de vinil. Os discos japoneses podem vir acompanhados por uma tira de papel que os identifica e chancela a obra como oriunda daquele país. Essas tarjas são chamadas de OBI e trazem informações básicas como nome do disco e artista, mas são super valorizadas no mercado e precisam estar intactas para que o disco possa ser vendido pelo preço certo.


4. Particularidades


Existem aspectos que fazem com que um disco seja uma peça única e exclusiva. Algumas são bastante óbvias, outras mais subjetivas.


A primeira delas diz respeito ao modo de gravação do disco: mono ou stereo. De forma bem simples, discos mono são aqueles em que a música soa idêntica em ambas as caixas de som e discos stereo são discos cujas músicas foram mixadas de forma que cada instrumento separadamente nas caixas direita e esquerda. Existem, porém, outras características que podem fazer com que uma versão mono ou stereo seja mais procurada. É sabido, por exemplo, que os Beatles se debruçaram sobre a mixagem dos discos em versões mono e deixavam a versão stereo a cargo do estúdio. Isso faz com que alguns discos mono dos Beatles sejam mais procurados que suas versões em stereo.


Discos autografados pelo artista também ganham um novo patamar de preço. Se o artista já faleceu, naturalmente, o item torna-se algo realmente exclusivo. Uma questão importante é que a única forma de se comprovar a autenticidade de um autógrafo é com um documento técnico ou registro fotográfico da ocasião, o que é muito difícil de se ver. Então, acreditar ou não que se trata de um autógrafo legítimo e não de uma falsificação depende de alguma habilidade e conhecimento. Autógrafos do Roberto Carlos, por exemplo, tem características que dão pista da sua veracidade: o rei geralmente autografa no verso do disco e sempre data o autógrafo com a data invertida.


Autógrafo de Roberto Carlos: ano, mês e dia.

O tipo de capa confere ao disco alguma raridade, assim como a presença ou não do encarte original. Existem discos muito raros em suas versões de capa dupla ou tripla como é o caso do Tim Maia de 1971 e O Papa é Pop do Engenheiros do Havaii, respectivamente. O disco Krig Ha Bandolo de Raul Seixas ou Alucinação de Belchior com encarte anexo são itens realmente difíceis de encontrar.


Discos numerados são muito comuns para tiragens limitadas e quanto menor o número, mais valor agregado. Um item clássico é a versão numerada como 0000001 do Álbum Branco dos Beatles que era propriedade do próprio Ringo Starr e foi vendida pela fábula de 790.000 dólares (R$ 4,3 mi) em 2015.


5. Preço de Aquisição


Independente de tudo o que foi abordado, quem vende discos pode se basear ainda no preço de compra. Muitas vezes vale a pena o lojista comprar um disco simplesmente para atrair negócios para a loja, mesmo que a margem de ganho seja menor. Naturalmente, isso vai impactar no preço final e a cada repasse o item vai ficando ainda mais caro. Isso é muito comum para discos mais raros e itens importados que sofrem com a alta do dólar e taxas de importação.


Detalhe de um disco de 1973 lacrado com o preço de capa da época

Como muitos discos são comprados em lotes, é importante entender que também podem herdar o preço do investimento de aquisição. Ou seja, negociações mais apertadas resultam em discos mais caros. Eventualmente, uma cópia da mesma edição pode ter preço mais em conta se vier num lote adquirido por melhor preço.


Muitas lojas ainda se valem de pesquisa online e taxam preço pela média das ofertas. Sites como o Mercado Livre ou Discogs são hoje ferramentas úteis, mas que, muitas vezes, inflacionam o mercado. Porém, lojistas e vendedores com experiências saberão usá-las com critério filtrando ofertas absurdas e sendo coerentes com o perfil de clientes que atendem.



Agora você já sabe, em tese, como são precificados os discos usados. São se esqueça que, como todo negócio, o relacionamento pode ser um aliado na hora de negociar uma compra. Seja empático e coerente nas propostas. Afinal de contas, o disco mais procurado por qualquer colecionador ainda é o “disconto”.