A cidade clama: continua, Graveola!
- Alexandre Biciati
- há 20 horas
- 3 min de leitura
Quando o Graveola subiu ao palco do luxuoso Cine Theatro Brasil para o último show da carreira, o público já havia contemplado cada detalhe da icônica cenografia que emoldurava o palco. Com pouquíssimos assentos vagos e uma atmosfera latente de despedida, o primeiro acorde soou não apenas como o início de um show, mas como o despertar de uma antologia viva. O que se viu no último sábado foi uma performance cronológica e simbólica, que elevou o coletivo ao posto de uma das forças criativas mais representativas de Belo Horizonte.

Mais do que um público comum, a plateia era um reflexo da própria história da cidade. Entre fãs e artistas de diversos nichos, estavam ali os rostos que ressignificaram a capital mineira em meados dos anos 2010, por meio de movimentos de ocupação e efervescência cultural. Essa geração, que outrora ocupava as ruas, agora lotava as poltronas do teatro com seus filhos a tiracolo — crianças que tiveram a oportunidade de mimetizar a lúdica revolução forjada no cimento da Praia da Estação.

A abertura ficou por conta da voz singela de Luiza Brina com "Dois Lados", dando o tom de um setlist que equilibrou hits clássicos e raridades. Ao lado dela, José Luís Braga (Zelu), com seu registro vocal inconfundível, atuou como um mestre de cerimônias afetivo, convocando ao palco os alicerces da banda. A novíssima “Horizonte” foi recebida e entoada pelos presentes como a mesma empolgação dos hits que viriam a seguir.

O desfile de talentos que passaram pelo grupo ao longo dos anos reafirmou o Graveola como uma verdadeira incubadora artística. Além da formação inicial — composta por Thiago Correa, Gabriel Bruce e Bruno Oliveira —, o palco logo ganhou o reforço rítmico de Flora Lopes e Marcelo Podestá na percussão. Luiz Gabriel (Luizga), Gustavito e Juliana Perdigão surgiram em momentos pontuais, elevando o sarrafo técnico da noite. Entre as pérolas do disco de estreia (Graveola e o Lixo Polifônico, 2008), como "Supra Sumo" e "Amaciar Dureza", a banda transitou para a fase solar de Eu Preciso de um Liquidificador, emendando a tríade festiva "Blues Via Satélite", "Desdenha" e "Farewell Love Song".

A cada número, o Graveola enaltecia predicados individuais e coletivos. Brina foi ovacionada pela entrega crescente em “Nosso Estranho Amor” e foi difícil manter-se sentado ao som de “Tão Tá”. A performance vocal de Ju Perdigão durante “Envelhecer” foi enaltecida pelo próprio Zelu que, por sua vez, ocupava todos os espaços do palco com rara propriedade. Juntariam-se à festa ainda o baterista Yuri Vellasco e, no naipe de sopros, Henrique Staino e João Paulo Prazeres.


O show também abriu espaço para o DNA político do grupo. Rafa Barros (Tcha Tcha) protagonizou um dos momentos mais emocionantes ao relembrar o vínculo histórico da banda com a Comunidade Dandara, reforçando que o Graveola nunca foi apenas sobre música, mas sobre território e resistência. Já Di Souza quebrou o protocolo ao propor um minuto de aplausos com toda a banda à frente do palco, transformando a melancolia do fim em puro reconhecimento.

A plateia, entretanto, não escondia o lamento. Gritos de “O Graveola não pode acabar!” partiam especialmente dos fãs mirins, ecoando o sentimento geral de que sonoridade da banda está entranhada na identidade mineira. No encerramento, a energia explodiu com "Babulina’s Trip" e "Insensatez", que tiraram, finalmente, o público das cadeiras. Em um gesto de renovação, as crianças foram convidadas ao palco, dividindo o espaço com os músicos em uma celebração geracional.

Antes do adeus definitivo, Zelu ainda prestou homenagem àqueles que contribuíram direta e indiretamente com a banda, pedindo que se levantassem na plateia para receber os aplausos. O encerramento veio no bis: uma jam acústica reunindo todos os convidados, transformando o teatro em um grande quintal de amigos.

“Representativo!”, “Histórico!”, “Simbólico!”… na saída, os comentários exaltavam a experiência de exatas duas horas de um show que, mais do que bem produzido, transbordou uma sinergia interna rara em bandas de tantas formações. Talvez isso explique a longevidade do coletivo: a essência do Graveola transcende a música e conecta cada integrante por um viés político, revolucionário, tropicalista, latino, progressista e malemolente.

O Graveola se despede dos palcos com o lançamento de Horizonte, mas, como provou a noite de sábado, a trajetória do grupo vai além da discografia para se tornar um patrimônio afetivo da música brasileira.




























































































Comentários