"A gente é irmão de alma": Podé e Maurinho celebram reencontro no projeto OS DOIS e revisitam a história do Tianastácia
- Bruno Lisboa
- 28 de jul.
- 17 min de leitura
Atualizado: há 1 dia

Algumas parcerias atravessam o tempo sem perder o sentido. É justamente essa relação construída ao longo de décadas que Podé e Maurinho levam ao palco no OS DOIS, projeto que marca o reencontro dos dois ex-vocalistas do Tianastácia e estreia oficialmente no dia 7 de agosto, na Autêntica, em Belo Horizonte.
Muito antes de integrarem uma das principais bandas do rock mineiro, os dois já dividiam os palcos. A amizade nasceu na Escola de Canto Babaya, onde formaram, ao lado de Marina Machado, o grupo Zoom Bee Doo. Anos depois, ajudariam a construir uma das trajetórias mais importantes da música produzida em Minas Gerais, com canções que marcaram gerações e consolidaram o Tianastácia como um dos grandes nomes do rock mineiro.
Em entrevista, Podé relembra a trajetória do Tianastácia, fala sobre o reencontro com Maurinho e explica como nasceu o OS DOIS, projeto que surgiu de forma inesperada e ganhou força após a receptividade do público nos primeiros shows. O músico também conta que a ideia inicial era mesclar sucessos da banda com releituras, mas que a dupla decidiu revisitar a própria história, resgatando clássicos e músicas pouco conhecidas do repertório.
Na conversa, Podé ainda reflete sobre as transformações da indústria fonográfica, do período das gravadoras e da venda de CDs à era das plataformas digitais, e destaca a importância do Tianastácia para o rock mineiro. Segundo ele, o OS DOIS celebra esse legado, mas também mira o futuro, com planos de lançar músicas inéditas e levar o espetáculo para outras cidades do Brasil.
O OS DOIS nasce depois de muitos anos desde a saída de vocês do Tianastácia. Por que esse reencontro acontece justamente agora? O que precisou amadurecer, tanto artisticamente quanto pessoalmente, para que esse projeto finalmente ganhasse vida?
O Maurinho saiu da banda antes de mim. Eu deixei o Tianastácia cerca de quatro anos depois, e passamos sete anos sem cantar juntos. É um tempo suficiente para refletir sobre muitas coisas, amadurecer e se redescobrir.
Nos reencontramos em uma circunstância muito triste: o velório do irmão do Maurinho, o Fabinho. Mas, ao mesmo tempo, aquele foi um momento muito especial. Quando nos vimos e nos abraçamos, senti que era exatamente a energia de que ambos precisávamos naquele instante. Foi um abraço de entrega, de acolhimento e de reencontro.
Nossa amizade nasceu muito antes do Tianastácia. Nós nos conhecemos na Escola de Canto Babaya e formamos um grupo chamado Zoom Bee Doo, ao lado da Marina Machado. Ou seja, nossa história começou muitos anos antes de integrarmos a banda.
Quando nos abraçamos naquele dia, tive a sensação de que qualquer barreira que pudesse existir entre nós havia desaparecido. Da minha parte, nunca houve rancor. O Maurinho sempre foi uma pessoa muito especial na minha vida. Quando ele saiu da banda, porém, ficou magoado porque, na prática, foi retirado do grupo. Eu nunca concordei com aquela decisão e sempre achei que aquilo não deveria acontecer. Mesmo assim, acabei sendo associado a essa escolha, e ele interpretou que eu fazia parte dela.
Aquele abraço que demos no velório foi tão forte que rompeu qualquer corrente que ainda prendesse nossa amizade, nossa verdade e a cumplicidade que sempre existiu entre nós.
Uma semana depois, o Djowzinho, do Bloco da Insanidade, me convidou para fazer uma participação na ressaca de carnaval do bloco, do qual o Maurinho já era o cantor principal havia alguns anos. Quando subi ao palco para cantar com eles, a reação do público foi muito intensa, espontânea e calorosa.
A apresentação aconteceu em um fim de semana, na Praça JK. Na segunda-feira, publiquei uma foto nossa abraçados no palco. A repercussão foi impressionante. A imagem viralizou e ultrapassou 70 mil visualizações, algo completamente fora da realidade das minhas redes sociais. Até então, a foto mais vista no meu perfil havia alcançado cerca de 25 mil visualizações.
Ao perceber toda aquela mobilização acontecendo de forma tão espontânea e orgânica, o Maurinho me ligou perguntando se eu toparia desenvolver um projeto para retomarmos nossa parceria. Depois, ele entrou em contato com a minha empresária, Bebel, para saber o que ela achava da ideia. Ela ficou encantada e respondeu que aquele seria o melhor presente de aniversário que poderia receber.
Foi assim que nasceu o projeto OS DOIS — um reencontro que começou com um abraço, ganhou força na resposta espontânea do público e acabou se transformando em uma nova etapa da nossa história, construída sobre uma amizade que existe desde antes do Tianastácia e que, depois de tantos anos, encontrou um novo caminho para seguir.
O Tianastácia ocupa um lugar muito especial na história da música mineira. Quando vocês olham para trás, qual acreditam que seja o principal legado que a banda deixou para o rock de Minas e para o rock brasileiro?
O Tianastácia começou em 1996 com outro vocalista, o André Miglio. Futuramente, depois que saiu da banda, ele montou a Falcatrua.
Eu já conhecia o Tianastácia porque, na época, namorava a Marina Machado, e o André morava no mesmo prédio que ela, o Edifício Veritas, na Avenida Afonso Pena. Os ensaios do Tianastácia aconteciam na garagem do prédio.
O surgimento da banda foi um verdadeiro boom. Em Belo Horizonte, só se falava no Tianastácia. Eu frequentava os ensaios, dava alguns palpites e ficava encantado. Era muito fã da banda e achava que eles tinham algo muito especial.
Acho que o Tianastácia conquistou esse espaço muito pela verdade e pela irreverência das letras, que soavam quase como algo lúdico. Eram músicas muito irreverentes, brincalhonas, com uma identidade muito própria.
Naquele momento, a banda ocupou uma lacuna que existia na música mineira. Se voltarmos um pouco no tempo, o Skank começa por volta de 1991 e abre caminho para outras bandas, como Jota Quest e Pato Fu. Mas havia um espaço que ainda não estava sendo ocupado: o do rock na sua forma mais crua.
O Skank é uma banda de rock, mas começou muito influenciado pelo reggae. Depois, principalmente a partir do disco Maquinarama, mudou um pouco o caminho que vinha seguindo, incorporando mais baladas e um rock mais voltado para o pop, consolidando essa identidade de pop rock. O Jota Quest, da mesma forma, sempre teve um apelo ainda maior para o pop, com fortes influências de soul e groove. Já o Pato Fu, que começou com uma pegada mais punk, também caminhou depois para um universo mais pop. Nesse cenário, existia essa lacuna do rock propriamente dito, e o Tianastácia chegou justamente para ocupar esse lugar.
Além disso, a banda trouxe uma energia muito alegre. Trouxe irreverência, humor e uma forma muito particular de fazer música. Acho que foi essa combinação — um rock verdadeiro, aliado a letras inteligentes, divertidas e cheias de personalidade — que levou o Tianastácia a conquistar espaço não apenas em Minas Gerais, mas em todo o Brasil.
O grupo construiu uma relação muito forte com Belo Horizonte e com o interior de Minas. Era uma banda que fazia muitos shows e estava presente na vida das pessoas. Como vocês enxergam essa conexão tão genuína com o público mineiro? O quanto essa vivência moldou a identidade musical da banda?
Acho que a própria pergunta já responde. O Tianastácia é uma banda genuinamente mineira.
No primeiro disco, por exemplo, tinha "Pinga o Plim", que trazia ainda mais essa irreverência. Depois da minha entrada, eu e o Antônio Júlio, principalmente, começamos a compor músicas com uma postura um pouco mais política, mais voltada ao questionamento. É o caso de "Fora de Controle", que fala sobre a nossa alienação, sobre como somos praticamente conduzidos e, muitas vezes, feitos de fantoche.
Mas o Tianastácia sempre foi, genuinamente, mineiro, e isso passa de verdade pela música. Tem uma canção que diz: "Eu sou mineiro, cobra criada, gosto de samba e tomo pinga com torresmo. Sou calejado, não dou bobeira, meu peito é pulso na roda de capoeira."
O Tianastácia começou a falar pelo mineiro, pela cultura mineira. Além disso, fizemos várias ações nesse sentido. Lembro do "Eu Amo BH Radicalmente", que era uma vinheta, uma campanha exaltando a cultura mineira. Participamos algumas vezes desse projeto. Fizemos música, gravamos um clipe homenageando Belo Horizonte e também participamos das comemorações dos 100 anos de BH, que tinha o jingle “100 de BH: mude a sua cabeça para o país poder mudar”. Também fizemos um jingle para a Rede Globo. Ou seja, o Tianastácia sempre esteve muito ligado à identidade de Minas Gerais.
Minas é um estado muito grande, com dimensões de um país. São mais de 840 municípios. A nossa base foi construída aqui. O nosso alicerce é mineiro. Foi a partir dessa base que conseguimos ultrapassar as montanhas. Quando assinamos contrato com a gravadora EMI, nossa atuação se ampliou. Conseguimos romper a fronteira mineira e começamos a tocar no Sul do país, no Rio de Janeiro, em São Paulo e em várias outras regiões.
Participar do Rock in Rio 3, em 2001, também foi um momento muito importante para a banda.
Eu falo isso também de um lugar muito pessoal: fui, de certa forma, formado musicalmente pelo Tianastácia. É uma das bandas que mais vi ao vivo na vida. Imagino que muita gente da minha geração compartilhe desse sentimento. Quando vocês percebem que as músicas passaram a fazer parte da memória afetiva das pessoas, o que isso representa para vocês?
Na verdade, acho que isso aconteceu desde o início. Ao mesmo tempo, porém, não tínhamos muita noção do tamanho que o Tianastácia estava alcançando.
A gente percebia que havia uma aceitação muito grande, principalmente por parte do público mineiro. O começo da nossa trajetória foi praticamente todo em Minas Gerais, tanto nas grandes cidades quanto nas pequenas.
Teve ano em que fizemos mais de 200 shows, e cerca de 60% deles aconteceram em Minas. Acho que foi aí que fomos entendendo a dimensão da relação que a banda estava construindo com o público. Sempre fomos muito bem recebidos, não só em Minas, mas também fora do estado.
Lembro que um amigo da gravadora dizia que o Tianastácia era "a banda mineira mais carioca que existia". Acho que isso tinha muito a ver com a nossa irreverência e com a maneira como a música chegava às pessoas. Mas, mesmo vivendo tudo isso, a verdade é que nunca tivemos muita noção do tamanho que a banda realmente alcançou.
O OS DOIS revisita esse repertório, mas sem a proposta de simplesmente reproduzir o passado. Como vocês encontraram o equilíbrio entre homenagear essa história e, ao mesmo tempo, apresentar algo novo?
Inicialmente, a ideia para o repertório do OS DOIS era dividir o show em 50% de músicas do Tianastácia e 50% de releituras de artistas de quem eu e o Maurinho gostamos. Mas, em determinado momento, a gente virou a chave. Caiu a ficha de que a história do Tianastácia também foi construída por nós. Eu sou compositor de várias músicas da banda, algumas individualmente e a grande maioria em parceria. O Maurinho também compôs algumas sozinho e é coautor de muitas outras.
Então, não existe nada mais justo do que cantarmos essas músicas. Elas também fazem parte da nossa história. Inclusive, no repertório estamos revisitando canções que nem eram tocadas na época áurea do Tianastácia. Muitas delas entravam no repertório apenas quando um disco era lançado e, depois, acabavam ficando de fora dos shows. Naturalmente, a gente priorizava as músicas que fizeram mais sucesso, e algumas acabaram sendo esquecidas.
Agora estamos tendo a oportunidade de resgatar esse repertório. Estamos trazendo, por exemplo, músicas do chamado Disco Branco do Tianastácia, um trabalho independente, gravado antes mesmo do Tá na Boa, que foi o primeiro álbum lançado por uma gravadora. Nós produzimos esse disco de forma independente e, depois, assinamos com a gravadora. Poder revisitar essas músicas e apresentá-las novamente ao público é uma oportunidade muito especial, e estamos muito felizes com isso.
Vocês começaram a carreira em um mercado completamente diferente. Existiam gravadoras, rádio, MTV e uma dinâmica de consumo da música que praticamente desapareceu. Hoje qualquer artista consegue lançar uma canção instantaneamente nas plataformas digitais. O que essa transformação trouxe de positivo e o que vocês sentem que se perdeu nesse processo?
A gente começou em outro momento. Existiam gravadoras, MTV, venda de discos e de CDs. A gente já começou na era do CD. Logo depois que assinamos com a EMI, a pirataria tomou conta do mercado. Lembro de um episódio que ilustra bem isso. Quando lançamos o segundo disco do Tianastácia, fizemos o show de lançamento na Serraria Souza Pinto. O pessoal da EMI, que era a nossa gravadora, veio para Belo Horizonte participar desse momento e ficou hospedado no Hotel Othon Palace, na Avenida Afonso Pena.
O show era no sábado. Na manhã daquele dia, eles tomaram café e saíram para conhecer Belo Horizonte, indo em direção à Praça da Liberdade. Assim que saíram do hotel, encontraram vários camelôs vendendo o nosso segundo disco, justamente o álbum que seria lançado oficialmente naquela noite. Ou seja, já existia uma máfia da pirataria muito estruturada.
Na segunda parte da sua pergunta, você fala que hoje qualquer artista consegue colocar a sua música nas plataformas digitais. Isso é verdade. Mas isso representa, talvez, apenas 5% do que precisa ser feito. Não adianta colocar uma música na plataforma se você não tem uma base, se não tem um show, um público, fãs. O que parece fácil hoje, na verdade, não é. Existem muitas outras coisas necessárias para se construir um artista.
Hoje existe também uma falsa impressão muito grande na internet. A gente vê coaches ensinando como ser artista. Eu não acredito que alguém aprenda a ser artista seguindo uma regra criada por uma pessoa que, muitas vezes, nem passou por esse caminho.
O artista está muito ligado à sua verdade. E o público percebe quando essa verdade não existe. Não adianta ser apenas mais um fantoche. É preciso criar a própria história, construir o próprio enredo e transmitir aquilo que realmente se é. Também é preciso contar com a sorte, com o imprevisto e passar por dificuldades para dar valor ao que se faz. É preciso construir um público.
Não adianta ter milhões de reproduções no Spotify e, na hora de fazer um show, não ter plateia. Até porque, a cada execução na plataforma, o retorno financeiro é muito pequeno. Muitas vezes, quem está ouvindo chegou até aquela música por influência de mecanismos de entrega ou de estratégias pagas. Hoje é sabido que existe investimento para fazer determinadas músicas chegarem a determinados públicos.
Por isso, acredito que o artista precisa conversar com a sua verdade, com a sua alma. Precisa fazer o próprio caminho e ser aceito pelas pessoas por aquilo que realmente é. Não basta simplesmente colocar uma música nas plataformas digitais. Hoje, inclusive, muitas músicas já estão sendo feitas por inteligência artificial.
Ao mesmo tempo em que a tecnologia democratizou o acesso, ela também tornou o mercado muito mais competitivo e acelerado. Para artistas que construíram suas carreiras nos anos 1990, qual foi o maior desafio para compreender e atuar nesse novo cenário da música independente?
Essa transição para o mercado digital não aconteceu de uma hora para outra. Antes mesmo dela, a gente passou por um período muito difícil com a pirataria, que prejudicou demais o mercado da música.
A EMI era uma estrutura gigantesca. Tinha mais de 200 funcionários no prédio da Rua Mena Barreto, no Rio de Janeiro. Havia, inclusive, um estúdio histórico no primeiro andar, onde foram gravados discos de artistas como Elis Regina, Milton Nascimento e o Clube da Esquina. Quando assinamos contrato com a gravadora, fizemos um show para o presidente, o vice-presidente e os funcionários da EMI. Era uma empresa muito sólida, mas nem ela conseguiu escapar dos impactos da pirataria.
Depois veio a mídia digital. Quando ela chegou, acabou sendo a pá de cal para aquele modelo de mercado. Tudo era muito novo, e confesso que o Tianastácia não soube lidar muito bem com essa transformação. Nessa época, a banda já tinha voltado a ser independente, porque a EMI, assim como fez com diversos outros artistas, encerrou o nosso contrato.
Como aconteceu com muitas bandas da nossa geração, tivemos dificuldade para entender e trabalhar essa nova realidade. Até a minha saída do Tianastácia, em 2021 ou 2022, ainda estávamos aprendendo a lidar com essas ferramentas. Com o tempo, fomos entendendo melhor esse universo, mas era um processo de adaptação constante.
Hoje, quem não sabe trabalhar o ambiente digital acaba perdendo muito espaço. E uma banda como o Tianastácia, que já tem uma história consolidada e um público formado, precisa saber utilizar essas ferramentas da melhor maneira possível.
No caso do OS DOIS, além de revisitar toda essa história por meio das músicas que marcaram a trajetória da banda, a gente também pensa no futuro. Não é uma coisa para agora, mas eu já comecei a compor músicas inéditas para que, mais adiante, a gente possa gravar e lançar esse novo material.

O rock deixou de ocupar o espaço central que teve durante os anos 1990 e 2000. Vocês acreditam que o gênero perdeu força ou simplesmente mudou de lugar dentro da cultura? Como enxergam o momento atual do rock mineiro?
Eu compartilho dessa sua colocação de que o rock perdeu muito espaço. Isso é verdade, mas acho que é normal. As coisas são cíclicas. Com a entrada dessa música muito descartável, o rock perdeu espaço principalmente neste momento. Porque o rock não é apenas a música rock. É muito mais do que isso. O roqueiro de verdade tem a alma do rock, tem a atitude roqueira. Ele é um contestador, é irreverente.
As coisas mudam. Hoje existem bandas que aparecem com uma música e, na sequência, já desaparecem. Tudo é consumido com muita rapidez. A pessoa nem escuta a música inteira. Coloca a música e, se nos primeiros cinco ou dez segundos não gostou, já muda, já pula para outra.
Hoje em dia, quase ninguém escuta um disco inteiro. Você lança um álbum, mas poucas pessoas ouvem o trabalho completo do artista.
Eu, graças a Deus, tive a oportunidade de passar por isso, e isso me ensinou muito. Escutei muito vinil. Tirava as músicas dos artistas de que eu gostava ouvindo o disco. Voltava a agulha, escutava de novo, voltava mais uma vez para entender como o cara estava tocando. A gente não tinha YouTube, não tinha alguém ensinando em vídeo como tocar determinada música. Então, me considero privilegiado por ter vivido esse momento, por ter acompanhado essa mudança do analógico para o digital.
Acho que o rock perdeu espaço. E acredito também que o próprio roqueiro tem responsabilidade nisso. Quando o rock apareceu, era uma música contestadora. Era uma música irreverente. Era uma coisa diferente, talvez um pouco mais agressiva, mais pesada. Na época, as pessoas criticavam muito.
Meus pais, por exemplo, não aceitavam o rock. Não era uma música que eles tinham o costume de ouvir. O que eles escutavam era Nelson Gonçalves, Bossa Nova, Caetano, Gil. Embora o próprio Caetano e o Gil, junto com os Mutantes, também tenham ajudado a trazer esse rock brasileiro.
Hoje eu vejo vários roqueiros dizendo: "Ah, mas é essa porcaria desse som", ou "Só tem músico medíocre". Conheço muita gente que fala isso. E eu discordo. Acho que tudo é cíclico e as coisas mudam. Eu vejo muita gente boa surgindo. O que acredito é que talvez não exista espaço suficiente para aquilo que é realmente feito de verdade, para uma arte entregue com coração.
Hoje, o que é descartável é muito mais consumido do que um artista que se preocupa em pensar a ordem das músicas do álbum, em fazer o encarte do disco, em construir um trabalho completo. Isso perdeu muito espaço. Quem tem muito espaço hoje é o funk, o piseiro e vários outros estilos. Ao mesmo tempo, existem grandes artistas surgindo que também mereciam muito mais espaço. Tem a Marina Sena, que é mineira. Tem a Roberta Campos, o Zé Ibarra, a Da Parte, banda do filho do Samuel Rosa. Tem o FBC, que é daqui de Belo Horizonte. Tem o Djonga. Eles estão conseguindo na marra. Porque, se você souber trabalhar hoje, consegue fazer uma boa divulgação, montar o seu selo, ter o seu estúdio, gravar e construir o seu público. Estou falando principalmente do FBC e do Djonga, que vêm do hip-hop e do rap. O FBC, inclusive, coloca muito rock nas músicas dele, e eu acho isso muito legal.
Se você cria a sua própria empresa, o mais bonito é que acaba trazendo para perto as pessoas que sempre estiveram ao seu lado. São familiares, amigos, gente que talvez nunca tivesse uma oportunidade e passa a ter. Então, acho que hoje é muito necessário saber trabalhar todas essas frentes para não depender de uma gravadora. As gravadoras ainda existem, mas muitas vezes ficam até com parte do cachê do artista. Eu não concordo muito com isso. Por isso, acredito que a gente precisa aprender a trabalhar dentro desse novo momento da música. É esse o caminho.
Vocês começaram juntos ainda na Escola Babaya, passaram pelo Zoom Bee Doo, viveram décadas de estrada com o Tianastácia e agora se reencontram no OS DOIS. Quando sobem ao palco hoje, o que permanece exatamente igual entre aqueles dois jovens músicos e o que mudou completamente?
Acho que não dá para dizer que exista alguma coisa exatamente igual a quando éramos jovens. Até porque eu ainda me considero jovem. Sou um jovem cinquentão, feliz da vida. (risos). Mas, se existe algo que permanece o mesmo, é a nossa verdade, a nossa cumplicidade, a nossa alegria e, principalmente, o nosso amor pela música.
O que mudou foi a maturidade. Hoje a gente tem uma experiência que não tinha naquela época, tanto na forma de enxergar a música quanto na maneira de trabalhar essa nova fase do mercado musical.
Existe uma responsabilidade ao revisitar uma história que marcou tantas pessoas? Em algum momento vocês sentiram o peso da expectativa dos fãs ou encararam esse projeto com total liberdade artística?
Existe, sim, uma responsabilidade em revisitar o repertório do Tianastácia. Mas eu também acho que não existe ninguém melhor do que a gente para fazer isso, porque essa é uma história que nós ajudamos a construir.
O respeito que temos por essa obra é muito grande. Existe, claro, uma expectativa por parte do público, mas acho que ela está muito mais ligada à nostalgia do que a qualquer outra coisa. As pessoas querem ver o Podé e o Maurinho cantando juntos de novo, tocando músicas que nasceram ainda na década de 1990, antes mesmo de lançarmos o primeiro disco. Por isso, não sinto que a expectativa pese.
É claro que existe também a curiosidade para ouvir músicas novas, mas acho que o principal é esse reencontro. Quando eu e o Maurinho nos reunimos, as pessoas ficam encantadas. A gente percebe isso pelo trabalho que está fazendo nas redes sociais. Esse encantamento acontece porque, de alguma forma, nós também fizemos parte da história dessas pessoas. Muita gente se aproxima de mim e diz: "Cara, eu me casei com essa música", ou "Conheci a minha namorada e a gente só escutava essa música". Então, está muito mais no coração, na nostalgia, na memória coletiva, no imaginário das pessoas.
A nossa maior preocupação é passar a nossa verdade. E, sinceramente, a gente não sabe fazer diferente disso. Então, está tudo certo.
A próxima apresentação ocorrerá na Autêntica, em Belo Horizonte, cidade onde essa história começou. O que esse show representa para vocês? O que o público pode esperar dessa noite e qual é a expectativa de reencontrar tantos fãs justamente em casa?
Esse show acontece na Autêntica, que é um lugar muito bacana e com o qual a gente tem uma história. Na época em que a casa ainda era a Lapa Multishow, a gente lançou lá o nosso disco independente, Tá na Boa. Naquele show, eu convidei o Samuel Rosa para participar com a gente.
Então, existe uma coisa muito afetiva ali. É um lugar muito especial para nós. Acho que vai ser um momento muito especial porque muitos fãs da época, das antigas mesmo, que conhecem a gente há mais de 20 anos, vão estar presentes. E também vão ter novos fãs. Tenho certeza disso.
Para a gente, tocar em Belo Horizonte é como jogar em casa, usando uma comparação com o futebol. Mas isso não quer dizer que esteja tudo ganho. A gente já fez dois shows com esse projeto. Fizemos um em Belo Horizonte e outro em Nova Lima. Mas esse é o lançamento oficial do OS DOIS, e estamos muito felizes por poder fazer esse lançamento em primeira mão aqui em BH.
Na verdade, o primeiro show foi em uma festa junina do UniBH. Era um evento mais voltado para o público da instituição, para as famílias. Apesar de quase metade do público já ser formada por pessoas que acompanham o nosso trabalho, ainda não era exatamente o nosso público.
Agora é diferente. Nesse show da Autêntica, o público vai ser o público do Podé e do Maurinho. É esse reencontro que a gente quer viver e compartilhar com as pessoas que acompanharam toda essa história.
OS DOIS nasce como um espetáculo de celebração, mas vocês imaginam que ele possa se tornar algo ainda maior? Existem planos para músicas inéditas, gravações, turnês ou outros projetos que deem continuidade a essa parceria?
A gente tem, sim, a ideia de fazer novas composições. Inclusive, já fiz duas, como respondi em outra pergunta. Eu estou sempre compondo. Não paro. Acho que esse processo criativo precisa ser alimentado o tempo todo.
Quando esse projeto começou, foi uma coisa completamente inesperada, tanto para mim quanto para o Maurinho. Não foi nada planejado. Eu, inclusive, já estava com o meu terceiro disco autoral pronto, com dez, na verdade onze músicas, que fiz ao lado do Barral Lima, produtor do disco, e do Márcio Buzelin, meu irmão de alma, tecladista do Jota Quest.
Eu já tenho dois discos autorais, com músicas só minhas: Ânima (2015) e Poemas para Ouvir (2018). Agora, estava prestes a lançar esse terceiro trabalho solo, mas resolvi segurar um pouco, porque a gente precisa se dedicar ao OS DOIS. Não dá para confundir a cabeça das pessoas lançando um disco solo ao mesmo tempo em que começo um projeto com o Maurinho.
A ideia é fazer esse projeto circular mesmo. Já tem muita gente de São Paulo, do Rio de Janeiro e de outras capitais procurando a gente. A ideia é rodar o Brasil com esse show. E, ao longo dessa caminhada, ir apresentando também uma ou outra música inédita que a gente venha a fazer.
Para encerrar: se vocês pudessem resumir o OS DOIS em uma única mensagem para quem acompanhou toda a trajetória do Tianastácia — e também para quem está conhecendo vocês agora — qual seria essa mensagem?
A mensagem que eu posso deixar sobre o OS DOIS é que as pessoas podem esperar muita verdade, muita alegria, muita cumplicidade, muito amor e muita amizade. Eu e o Maurinho somos irmãos. Não de sangue, mas de alma, com certeza.
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