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Adrian Younge e Leo Moraes falam sobre a atual fase do projeto Jazz is Dead


Belo Horizonte se prepara para receber uma programação inédita que celebra a interseção entre música e cinema. De 16 a 23 de abril, o Minas Tênis Clube sedia a Semana Jazz Is Dead, uma mostra gratuita de filmes que exploram o universo do icônico selo e movimento. A programação inclui sessões comentadas com artistas nacionais e internacionais, debates, encontros com o público e um concerto especial de abertura que marca o início dessa imersão estética e política na cultura negra global. Além das exibições, o evento propõe uma experiência expandida, conectando música, cinema e memória cultural em torno de temas como resistência, identidade e legado artístico.


O Jazz Is Dead é um selo musical e coletivo fundado em 2017 por Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad, focado em celebrar lendas do jazz e soul. O projeto se destaca pela produção totalmente analógica e por dar protagonismo a artistas históricos, não apenas resgatando suas trajetórias, mas atualizando suas sonoridades para novas gerações. Com laços profundos com a música brasileira, o selo lançou discos de ícones como João Donato, Marcos Valle, Joyce Moreno e Azymuth, consolidando uma ponte cultural sólida entre o Brasil e o cenário internacional.


No dia 16 de abril, às 20h, a semana tem início com um concerto inédito: Adrian Younge sobe ao palco ao lado dos convidados especiais Hyldon e Carlos Dafé. Younge,. Vencedor do Emmy, Adrian é reconhecido por sua abordagem analógica e cinematográfica da música, tendo trabalhos sampleados por Jay-Z, Kendrick Lamar e Common, além de produzir para nomes como Snoop Dogg, Cee-Lo Green e Tony Allen. Suas composições também marcam presença no audiovisual, com trilhas para produções como Marvel’s Luke Cage e Black Dynamite.


Após a abertura, entre os dias 17 e 23 de abril, a mostra ocupa o clube com sessões gratuitas que homenageiam a estética e o legado do Jazz Is Dead, reunindo filmes que transitam entre música, cultura negra e resistência. Entre os destaques está a exibição de Black Dynamite, acompanhada de uma sessão comentada com Adrian Younge, o ator Loren Oden e mediação de Gabriel Martins, cineasta mineiro reconhecido internacionalmente por obras como Marte Um. Outro momento importante será a exibição de As Dores do Mundo, biografia de Hyldon, seguida de debate com o artista e os diretores Emilio Domingos e Felipe Rodrigues, proporcionando ao público uma leitura aprofundada sobre sua trajetória e impacto na música brasileira.


Dentro desse contexto, o trabalho de Léo Moraes junto ao Jazz Is Dead tem sido fundamental para fortalecer a conexão entre o Brasil e o projeto global. Com experiência tanto no estúdio quanto na produção de shows, ele atua como uma ponte estratégica e criativa, aproximando artistas brasileiros do selo e ampliando o alcance da música nacional no cenário internacional. Sua trajetória no mercado brasileiro e sua rede de contatos contribuíram diretamente para colaborações com nomes relevantes e para a presença consistente da música brasileira no catálogo do Jazz Is Dead. Além disso, Moraes participa ativamente do desenvolvimento de projetos ao vivo e iniciativas culturais, ajudando a traduzir os valores centrais do selo — como comunidade, legado e experimentação — para diferentes contextos e públicos.


A entrevista com Adrian Younge e Léo Moraes evidencia temas centrais que atravessam todo o projeto: a valorização da cultura negra como eixo global, a construção de comunidade como fundamento artístico, a preservação do legado musical como processo vivo — e não como peça de museu —, além da expansão do Jazz Is Dead para além da música, incorporando cinema, artes visuais e experiências ao vivo. Também se destacam a relação orgânica entre som e imagem no processo criativo, a importância da produção analógica como linguagem estética e política, e o fortalecimento de pontes culturais, especialmente entre o Brasil e os Estados Unidos, reafirmando a arte como ferramenta de resistência, educação e transformação social. Leia a entrevista na íntegra!


O Jazz Is Dead começou muito centrado em lançamentos fonográficos, mas hoje se expande para experiências ao vivo e audiovisuais. Como vocês enxergam essa transformação no formato do projeto ao longo do tempo?


Adrian: O Jazz Is Dead, na verdade, começou com apresentações ao vivo, iniciando oficialmente em 2017 com um show apresentando o trompetista Keyon Harold. Logo depois, começamos a gravadora.


Léo: O Jazz Is Dead na verdade começou com os shows ao vivo, quando surgiu a idéia de trazer os mestres que vinham tocar em LA ao estúdio num espírito de fazer um som com o Adrian e o Ali. Daí surgiu a série de álbuns, e os outros desdobramentos, como o audio-visual, a marca de lifestyle (que também começa com o merch dos shows). 


Hoje, o Jazz Is Dead parece ir além de um selo e se afirmar como uma plataforma cultural. Como vocês definem o projeto nesse momento?


Adrian: O Jazz Is Dead é definitivamente uma instituição que vai além da música. Acreditamos na comunidade, no compartilhamento de cultura e em dar suporte a artistas esquecidos. Também expandimos para o cinema, pois somos contadores de histórias que acreditam ser importante destacar as histórias dos marginalizados.


Léo: Embora tenha a música na sua origem, outras coisas vão surgindo ao redor do sentimento de comunidade, da cultura do vinil, da arte analógica, da idéia de legado não como peça de museu, mas como processo vivo, coisas que estão na essência do que é o Jazz Is Dead. Quando surge alguma possibilidade de colaboração, ou alguma proposta (interna ou externa) de desdobramento, a idéia é sempre confrontada com esses valores. Se for compatível, mesmo se não for diretamente relacionada à música, acaba sendo incorporada. Hoje a palavra chave dentro do Jazz Is Dead é “comunidade”.


Como a relação entre música e cinema influencia a forma como vocês pensam e constroem o Jazz Is Dead?


Adrian: Foi difícil fazer a curadoria, porque há muitos filmes que gostaríamos de exibir. Ainda assim, tivemos que limitar àqueles que achamos que causariam o maior impacto para o nosso público. Acho que fizemos as escolhas certas.


Léo: O Adrian e o Ali sempre compuseram muitas trilhas para filmes e séries. Mas para além disso, o Adrian é editor de cinema, diretor e roteirista. Além de ser um fotógrafo e cinegrafista (sempre em filme) apaixonado. A própria forma como ele produz seus discos é sempre da perspectiva de ser uma trilha de um filme que ele imagina na sua cabeça. A trilogia Something About April poderia ser uma trilogia de filmes. Então essa conexão é muito natural.


Como foi o processo de curadoria da semana no Minas Tênis Clube? Que conexões vocês buscaram criar entre os filmes e o universo do projeto?


Léo: A curadoria da mostra teve como fio condutor a idéia do cinema de resistência. O primeiro filme a ser escolhido foi o Black Dynamite, que é uma afirmação do gênero dos anos 70 conhecido como blaxploitation, um termo pejorativo na época para um estilo que nasceu como uma resposta à falta de representatividade negra no cinema. E um estilo que tinha na trilha sonora grande parte da sua força. Filmes como Super Fly, Trouble Man, e tantos outros contavam com trilhas de lendas da música negra. A partir daí construiu-se uma mostra com filmes com esse espírito. Rockers, As Dores do Mundo, Boyz’n the Hood, Killer of Sheep, Our Vinyl Weight a Ton, todos têm esse fio da resistência e da conexão com a música.


Como surgiu a conexão entre vocês dentro do Jazz Is Dead e como essa parceria se desenvolve no dia a dia criativo?


Adrian: Jazz Is Dead é algo que queríamos fazer há anos. Já éramos amigos e trabalhávamos juntos na indústria musical. Nos reunimos com grandes gravadoras, conversando com elas sobre a nossa ideia de criar esse selo e viabilizar certas séries, mas nenhuma realmente entendeu a nossa visão. Então decidimos que teríamos que fazer isso por conta própria — e estamos felizes por termos tomado essa decisão.


Léo: Falando por mim, que sou mais recente na equipe, a conexão aconteceu porque já trabalhamos com vários artistas em comum, eu na Autêntica e eles no JID, como Céu, João Donato, Tim Bernardes, Kassin, e vários outros. A minha formação tanto no estúdio quanto no universo da música ao vivo acabou encaixando muito bem com o que o Jazz Is Dead faz. A nossa forma de trabalhar e de enxergar a música e o mundo é muito parecida, então foi muito natural.


O que cada um de vocês traz de diferente para o projeto em termos de referências e visão artística?


Adrian: Cada um de nós traz sua perspectiva única para a empresa. Isso vai desde escolher quais discos produzir, com quem, e quais shows devemos realizar. Todos contribuem e somos todos iguais. Eu, principalmente, faço todas as gravações de música no meu estúdio totalmente analógico, Linear Labs.


Léo: A nossa equipe é pequena, mas extremamente diversa em sua composição. O Ali era um ídolo do Adrian, na época do A Tribe Called Quest, e traz uma bagagem não só artística, mas também de contatos, e humana, que é riquíssima. A mãe dele foi uma das fundadoras dos Panteras Negras, então o papo ali é sério. O Andrew (Dru) Lojero tem anos de experiência na produção de shows e turnês, e tem um olhar curatorial que dá a cara ao Jazz Is Dead. Todos os artistas que gravaram com o selo chegaram por ele. Junto com o Adrian, que é a mente criativa, o artista obcecado, eles formam a dupla que é o motor da empresa.  O Adam Block tem um histórico longo na indústria fonográfica, trabalhou em várias majors, e ele traz um olhar mais mercadológico para a mesa. A Jazmin Hicks, que foi a primeira “funcionária” da empresa e hoje é sócia, é uma artista visual incrível. Ilustradora, fotógrafa, ela foi responsável por criar a identidade visual, que é uma das características mais marcantes do Jazz Is Dead. Aí chego eu,  com minha experiência de anos transitando no cenário musical brasileiro, e com um acesso que eles sempre quiseram ter. Ainda temos na equipe os jovens Kat Linares, que é designer, e hoje faz a criação de toda a parte gráfica e redes sociais, e o Mauricio Lopez, que é o responsável por toda a parte operacional do selo.


A presença brasileira no Jazz Is Dead é muito forte. Como vocês constroem essa ponte entre o Brasil e o contexto global do projeto?


Adrian: Nós simplesmente amamos a cultura brasileira e a música. Poucas pessoas no mundo conhecem a música brasileira além da bossa nova e do samba. Nosso objetivo é mudar e ampliar essa visão.


Léo: Uma coisa que é sempre dita lá, é que a música brasileira é um mergulho infinito. Eles falam que quando descobriram a música brasileira para além dos clichês, e isso se deu através de samples, eles foram puxando o fio e descobrindo todo um universo que não acaba. Então, a cada artista que eles “descobriam” logo vinha outro na sequência. O engraçado para mim é que fui conhecer muita coisa de música brasileira através deles. O próprio Carlos Dafé, que eu já tinha ouvido falar mas nunca tinha de fato escutado, e coisas como Evinha, o primeiro disco do Wando, que é incrível, e eu talvez nunca escutaria devido à imagem que eu, como brasileiro, tinha dele. Também é interessante observar como eles reagem a coisas que para mim são absolutamente parte da minha identidade brasileira. O olhar deles não é contaminado pelo contexto cultural.


O encontro com Hyldon e Carlos Dafé na abertura carrega um peso simbólico importante. Como vocês pensaram esse show e o que ele representa para vocês?


Adrian: Nós os escolhemos porque os amamos. Eu tenho um disco com Carlos Dafé e um disco com Hyldon. Amo o que a música deles representa para a cultura negra, e isso coincide diretamente com as escolhas que fizemos para o festival de cinema, já que os filmes são baseados na experiência negra.


Léo: Hyldon e Dafé fizeram parte de um mesmo movimento musical. Hyldon é parte da santíssima trindade do soul, junto com Tim Maia e Cassiano, e Carlos Dafé é chamado de “o príncipe do soul” por Nelson Motta. Tudo a ver com o Jazz Is Dead. E o filme do Hyldon está na mostra também, fazendo mais conexão do concerto com a mostra de cinema.


Pensando na apresentação do projeto para o público em Belo Horizonte, o que vocês buscam provocar nesta nova empreitada? O que o público belo-horizontino pode ganhar ou levar dessa experiência que une música, cinema e memória cultural?


Adrian: Esperamos que as pessoas entendam que há mais na cultura negra, internacionalmente. Não somos um grupo monolítico, mas todos enfrentamos muitos dos mesmos tipos de injustiça institucional. É importante para nós mostrar isso por meio de filmes e música, na esperança de estarmos contribuindo para uma educação positiva — um tipo de aprendizado que pode ajudar a promover mudanças.


Léo: Esperamos que as pessoas possam mergulhar um pouco mais nesse universo do Jazz Is Dead, e entenderem o que há por trás de um nome tão provocador. Resistência e comunidade, e como arte e expressão são essenciais na construção das relações humanas e da existência em momentos de opressão.



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