Almir Sater e a Música Perfeita

A viola caipira é um instrumento genuinamente brasileiro, que define como poucos o Brasil profundo, do interior (mas não só), estando muitas vezes associado à música caipira ou sertaneja. Isso tudo é verdade, claro, mas seu universo vai muito além.


Há na música brasileira, em especial no gênero instrumental, inúmeros discos que revelam a riqueza e a potência da viola. Um exemplo dessa força está no único e antológico álbum do Quarteto Novo, a superbanda brasileira do final dos anos 1960, onde está presente as dez cordas do pernambucano Heraldo do Monte.

Mas aqui, neste texto, vou me ater àquele que é, certamente, o violeiro mais famoso do Brasil: Almir Sater.


Nascido em Campo Grande (MS) em 1956, o violeiro, cantor e compositor lançou o primeiro disco em 1981 e tornou-se nacionalmente conhecido na virada da década de 1990, após ter participado de algumas novelas (o que ajudou a impulsionar sua carreira musical, como admite) e por músicas como “Tocando em Frente”, que ele compôs com Renato Teixeira e que é uma canção conhecida por qualquer brasileiro.

Foto: Daniel Kersys

Almir é citado por estudiosos da viola caipira como um dos principais responsáveis por popularizar o instrumento, que passara muitos anos em baixa, marginalizado e restrito ao universo caipira. Além de exímio instrumentista, o músico é também um homem bonito, o que deve ter contribuído.


Com mais de uma dezena de discos, Almir Sater gravou dois álbuns instrumentais que se tornaram antológicos e que podem figurar em qualquer coletânea de alto nível da música brasileira. Intitulados Instrumental Um e Instrumental Dois, eles foram lançados respectivamente em 1985 e 1990. São os trabalhos menos conhecidos do grande público que o artista conquistou nas últimas décadas, mas eles tornaram-se referência entre violeiros, ajudando a criar uma prolífica e bem-sucedida escola de música instrumental na qual a viola é protagonista.


O primeiro instrumental, terceiro disco da carreira do artista, surpreendeu pela originalidade e foi muito elogiado pela crítica quando lançado.


Tárik de Souza, referência da crítica musical que escrevia no finado Jornal do Brasil, notou como o artista “fica à vontade para combinar sua fala instrumental sempre distante do lugar comum com os mais variados cruzamentos timbrísticos”. Ele completou: “Almir Sater acrescenta uma nota de pessoal originalidade à uniformização de timbres da Babel do consumo. Nada mais moderno que a tradição captada com ouvidos novos e dedos sem preconceito”.


Na Folha de S.Paulo, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves chegou a comparar Almir Sater a Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti, embora “mais fresco e menos grandiloquente”.


O disco foi gravado um ano depois da Comitiva Esperança, grupo integrado pelo violeiro que viajou a região pantaneira em 1984 tocando de fazenda em fazenda, como disse certa vez, e realizando um trabalho de pesquisa sobre a cultura local. A comitiva, claro, influenciou fortemente o disco.


De polcas paraguaias a toadas da música caipira que foram recriadas, o disco tem pérolas como “Luzeiro” (música que por anos foi tema de abertura do programa Globo Rural e foi feita para um cavalo que pertenceu ao pai dele) e “Corumbá”. “Benzinho” e “Rio de Piracicaba” (clássico sertanejo de Tião Carrero e Lourival dos Santos, que ganhou uma nova versão) são outros dos pontos altos. Há ainda uma música do compositor mineiro Tavinho Moura, “Na Piratininga de Jeep”, que marca o início de uma amizade entre eles que daria novos frutos musicais nos anos seguintes.


Em Instrumental Dois, lançado em 1990, a excelência e a inventividade do artista seguem no mesmo nível. Do regional ao clássico, ele mostra um instrumentista mais maduro. A música de abertura é um petardo, “Fronteira”, uma das criações mais bonitas de sua carreira.


A sequência tem peças como “Mazurca-Choro”, de Heitor Villa-Lobos, “Moura”, composição de Almir Sater no violão de seis cordas afinado em Si (com uma sonoridade muito particular) e finalmente “Encontro das Águas”, outra música composta por Tavinho Moura que ganhou ali um registro épico, beirando as melhores sinfonias.


Em entrevistas, Almir Sater sempre se referiu aos seus dois discos instrumentais com muito carinho, colocando-os entre os melhores trabalhos de sua carreira (ao lado de outro ótimo disco, “Terra de Sonhos”). Certamente eles merecem serem descobertos – só fui conhecê-los, infelizmente, no ano passado.


Certa vez, numa entrevista no Pantanal, o artista disse: “A música, quando é perfeita, basta tocar. Quando ela não fica muito boa, você canta em cima, coloca a poesia. Mas quando ela é perfeita, não precisa nem da poesia. Tocar é algo sagrado, a música fala por ela”.


É o que Almir Sater fez com maestria nos seus dois discos instrumentais: a música por ela mesma.

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