Arrigo Barnabé e Lívia Nestrovski magnetizam público no Teatro Municipal de Sabará
- Maron Filho

- 22 de abr.
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Texto: Maron Filho | Fotos: Francielle Cota
Arrigo Barnabé é reconhecido como o introdutor do estranhamento na música popular brasileira. Ao unir, no início dos anos 80, letras tiradas de histórias em quadrinhos e experiências das vanguardas eruditas do século XX, o compositor criou uma linguagem que desloca o ouvido nacional do seu fluido lugar comum. Lívia Nestrovski bebe na fonte do jazz e da MPB e, com seu acurado canto, já passou por diversos países, de todos os quadrantes do globo. No contraste entre limpidez vocal e ranhuras harmônicas, os artistas transformaram o elizabetano Teatro Municipal de Sabará, construído em 1819, em espaço de experimentação artística. Dividida em duas partes, a apresentação traz uma seleta da carreira do compositor, seguida de mergulho no icônico disco “Clara Crocodilo” (1980). Em dúvida se se tratava de poesia, música, performance, teatro ou happening, o público, que lotava o teatro, foi absorvido em cerca de 1h30 de show, feito para agradar e provocar.

Com roupa metálica, como um escudo dourado, pernas e braços de acrobata expostos, Lívia Nestrovski sobe ao palco, ao lado de Arrigo Barnabé: calça, camisa vermelha, blazer e cabelo desgrenhado, faz lembrar um Beethoven nos trópicos. Parceria com o poeta concreto Augusto de Campos, gravada em 1982 por Tetê Espíndola, “Jaguadarte” abre a apresentação. Já insinuando que não estava ali apenas como cantora, Lívia craveja todas as notas do piano atonal, como se estivesse no estúdio; performando, como se fosse atriz. “Canção dos Vagalumes” vem logo em seguida, mantendo o estranhamento do público atento.

Arrigo sutil — Em uma guinada para a melancolia e o lirismo, os artistas caminham por faixas avessas à intrincada e insólita música que canonizou o compositor. “Lenda”, “Tempo Meu”, “Cidade Oculta”, “Londrina”, “Brinco”, “Frente a Frente” e “Ano Bom” compõem a primeira parte do show, que mostra um Arrigo mestre também de canções sensíveis e sentimentais. Armada em sua dourada roupa futurista, Lívia Nestrovski palmilha cada música, sem qualquer deslize técnico ou expressivo.

Blackout, segundo round — Ao finalizar “Ano Bom”, de Arrigo Barnabé e Luiz Tati, Lívia Nestroviski se exalta, teatral, “Eu estou cansada desse teatro!”. Sai do palco. Sozinho ao piano, Arrigo dispara “Outros Sons”, anunciando o que seria o segundo momento. Revirando as teclas por cinco minutos, com a palma, o dorso e todos os dedos das mãos, potencializados por sua insígnia voz gutural, sob iluminação vermelha, o músico sacode a plateia, absorta na proposta aberta. Lívia volta ao palco com roupa sadô, chicote na mão, recitando um poema, enquanto se revira no chão, dando chicotadas no piano, que improvisava. O que agradava agora provoca; o que provoca, o público gosta.

Começam, então, as músicas de “Clara Crocodilo”. Água de seringa lançadas no público, tiros e tiradas contra a plateia e corridas persecutórias pelo charmoso teatrinho elizabetano mostram que a voz lírica de Lívia está num corpo livre e ousado, que sabe trazer para a cena, incendiar e magnetizar quem vê. “Acapulco, “Sabor de Veneno”, “Orgasmo total”, “Infortúnio”, “Office Boy” e “Clara Crocodilo” fazem, em sequência, o momento agudo e arrojado do espetáculo.

Sem comentários sobre as faixas, sem quase nenhuma palavra, Arrigo Barnabé e Lívia Nestrovski levaram o público a uma atmosfera de suspensão. Numa época de discursos onipresentes, de micro-narrativas cotidianamente atualizadas, da necessidade de alinhamento instantâneo de artistas a esta ou aquela posição, deixar a arte falar por si é gesto firme a dizer que o que importa é a expressão, que agrada ou provoca o pensamento e as sensações. Por 1h30, o centro histórico da cidade deixou de existir lá fora; dentro do teatro, as marcas de passado são alçadas a um tempo sem hora: o tempo da experiência artística.

ASSOMBRO — Realizado na quinta-feira (16/4), o show teve como proposta apresentar, em piano e duas vozes, a obra de Arrigo Barnabé além de “Clara Crocodilo”. Estreando em 2025 na Europa, o projeto foi acolhido em Sabará pela mostra ASSOMBRO, que tem trazido nomes da cena de música experimental brasileira ao Teatro Municipal do centro histórico da cidade. Lotando o espaço em todas as edições até aqui, o público aguarda as próximas atrações.

texto impecável! Estreia memorável aqui no Phono! Parabéns Maron!