Black Pantera captura a eletricidade dos palcos em histórico álbum ao vivo
- Bruno Lisboa
- 27 de mai.
- 8 min de leitura
Atualizado: 28 de mai.

O Black Pantera consolidou, ao longo de pouco mais de uma década, uma trajetória marcada por crescimento contínuo, afirmação artística e presença cada vez mais forte dentro e fora do Brasil. Formada por Chaene da Gama, Charles Gama e Rodrigo “Pancho” Augusto, a banda mineira construiu sua identidade no cruzamento entre potência sonora, discurso político e uma postura incansável de estrada. De forma independente no início da carreira, o grupo rapidamente ultrapassou fronteiras nacionais, chegando a palcos internacionais ainda nos primeiros anos de existência — um movimento que reposicionou sua percepção dentro da cena do rock brasileiro.
Esse percurso ganha novos contornos a partir da fase recente, marcada pelo álbum Ascensão, pelo reconhecimento em festivais como Rock in Rio, Lollapalooza, Hellfest e Rock al Parque, além da circulação internacional constante e do fortalecimento de sua base de fãs. Em paralelo, o lançamento de Resistência! Ao Vivo no Circo Voador registra um momento simbólico da banda: um show na véspera do Dia da Consciência Negra, em celebração aos 11 anos de trajetória, captando a intensidade que sempre definiu sua relação com o palco. Agora, em um novo ciclo criativo — com disco de inéditas em fase final e uma nova fase já em construção — o Black Pantera amplia suas ambições sem perder o vínculo com suas origens e com a urgência de sua mensagem.
Nesta entrevista, Chaene reflete sobre os momentos decisivos que redefiniram sua trajetória, desde as primeiras turnês internacionais até a consolidação em grandes festivais globais, passando pela força do ao vivo como essência do projeto. Também aborda a importância de Ascensão como ponto de virada, a potência simbólica de Resistência, o papel da ancestralidade e da consciência negra em sua obra, além das transformações no consumo musical e a permanência do desejo por formatos físicos como vinil, CD e audiovisual.
Entre memórias, conquistas e projeções, o grupo também discute o desafio de equilibrar reconhecimento e reinvenção, destacando que, mesmo em um dos momentos mais importantes da carreira, o foco segue sendo o mesmo: ampliar alcance, aprofundar discurso e seguir em movimento. Como sintetiza a própria banda, “a gente sempre quer mais” e “o desafio continua sendo o mesmo: ampliar nosso alcance e fazer com que cada vez mais pessoas conheçam e se conectem com a nossa música.” Leia a entrevista na íntegra!
O Black Pantera vive hoje um momento de reconhecimento que inclui festivais gigantes, circulação internacional, indicações e novos projetos. Quando vocês olham para essa trajetória de mais de uma década, qual foi o momento em que perceberam que a banda tinha ultrapassado uma fase de resistência e começado, de fato, a ocupar um novo lugar dentro do rock brasileiro?
Quando gravamos Ascensão, tivemos essa percepção. O disco saiu em 2022, mas foi concluído em 2020, em plena pandemia. Naquele momento, existia até um receio de lançá-lo, porque já sentíamos que aquelas músicas mudariam nossa trajetória. Era um período de incerteza, e o mundo inteiro atravessava algo muito pesado.
Ao mesmo tempo, já sabíamos que tocaríamos no Rock in Rio, o que também representava uma virada importante. Quando finalizamos Ascensão — com faixas como “Padrão”, “Fogo nos Racistas” e “Mosha”, que desde então estão em praticamente todos os nossos setlists — entendemos que aquele trabalho ocuparia um lugar muito especial.
Depois vieram as consequências: Rock in Rio, Lollapalooza e um reconhecimento muito maior. O show no Rock in Rio superou todas as nossas expectativas e confirmou que as coisas realmente tinham mudado. A banda já vinha crescendo, já tínhamos feito turnês pela Europa e pelos Estados Unidos, mas foi a chegada desse disco, junto da produção do Rafael Ramos e da parceria com a Deck, que ampliou nosso discurso e nossos horizontes.
“Resistência! Ao Vivo no Circo Voador” chega como o primeiro registro audiovisual da banda. Por que sentiram que este era o momento certo para transformar a experiência do palco em um documento permanente? O que existia naquele show que merecia ficar registrado?
Todos os nossos shows no Circo Voador foram históricos. Existe uma energia muito particular entre o Black Pantera e o Circo, algo realmente único. E sentimos que não havia momento melhor para registrar isso.
Já são quatro álbuns de estúdio, além de singles e EPs lançados ao longo desses 11 anos. A banda está em um momento de conexão muito forte: nós três estamos extremamente entrosados, e isso ficou muito evidente nesse show.
Também existia esse desejo desde o início da parceria com a Deck. Então tudo se alinhou no momento certo: repertório, público, energia e timing. Quem esteve lá — inclusive a equipe — sentiu que foi um dos melhores shows da nossa vida.
Pensar em tudo o que atravessamos para chegar até aqui torna esse registro ainda mais especial. Foi a hora certa, no lugar certo.
Existe uma diferença entre ouvir Black Pantera e assistir ao Black Pantera ao vivo. O que o palco permite comunicar que o estúdio ou as plataformas de áudio não conseguem alcançar?
Essa pergunta é muito pertinente porque ouvimos isso o tempo inteiro. O cartão de visitas do Black Pantera sempre foi o show ao vivo. A gente ama o processo de estúdio, se dedica muito a ele. Passamos dias internados compondo e gravando com o Rafael Ramos. Mas entendemos que o palco proporciona uma experiência única. É por isso que a banda toca tanto e por isso os shows cresceram dessa maneira.
Existe uma energia difícil de explicar. É uma mistura de sentimento, intensidade e conexão. As pessoas vão ao show para extravasar, gritar, se emocionar. O álbum consegue transmitir parte disso, mas o palco é a celebração máxima.
Inclusive, muitas músicas já são pensadas imaginando como soarão ao vivo. Enquanto gravamos, pensamos: “isso aqui vai funcionar muito bem ao vivo”, “essa parte a galera vai cantar”. O show sempre esteve no centro da nossa construção artística.

O show registrado aconteceu na véspera do Dia da Consciência Negra e celebrando os 11 anos da banda. Como essas camadas — tempo de estrada, memória, afirmação e presença — atravessaram a construção desse audiovisual?
Tudo foi pensado de maneira muito simbólica. Queríamos que o show acontecesse exatamente naquela data. Ficamos felizes porque o Circo Voador, a gravadora e toda a equipe entenderam a importância disso.
O Black Pantera vive a consciência negra todos os dias do ano, mas celebrar essa data tinha um peso especial. Nosso trabalho também passa por revisitar heróis abolicionistas, movimentos negros e figuras históricas importantes para a cultura preta. Queremos ampliar essas referências para além de uma visão eurocêntrica da história.
Isso aparece nas letras, nas citações, nos livros e personagens que mencionamos. Muitas pessoas chegam até nós dizendo que descobriram autores, poetas ou histórias através das músicas da banda. Em um show tão importante como esse, era fundamental que tudo estivesse conectado à nossa luta e à nossa identidade.
Em um momento em que o consumo musical parece cada vez mais fragmentado e acelerado, o que significa para vocês investir em um projeto audiovisual completo? Vocês enxergam esse lançamento como memória, expansão artística ou uma nova forma de criar conexão com o público?
O Black Pantera vive muito intensamente essa retomada do físico. Vendemos muitos vinis, CDs e camisetas. Existe um público que quer ter esses objetos, guardar esse material como lembrança.
Quando falamos em “gravar um DVD”, existe também uma conexão afetiva com a nossa geração. Crescemos passando pelo vinil, fita cassete, CD, DVD e depois pelas plataformas digitais. Agora estamos vendo o vinil voltar com muita força, e isso é muito interessante.
Também pensamos muito na parte gráfica. Os encartes, os projetos visuais, os clipes em formato de HQ — tudo isso faz parte da experiência. As pessoas querem vestir a camiseta da banda, colecionar os discos, criar uma relação física e afetiva com aquilo.
Ao mesmo tempo em que vivem um dos períodos mais importantes da carreira, vocês já estão produzindo um novo álbum. Como equilibrar celebração do que foi construído com a necessidade de continuar se reinventando?
A gente sempre gostou de produzir. Durante grande parte da vida trabalhamos em empregos que não valorizavam nossa arte. Tivemos rotina CLT, escala pesada, outras profissões. E aliás estamos torcendo aí para que pelo fim da escala 6 x 1. Mas a vida toda a gente trabalhou de outras maneiras, né? Com outras coisas. Então poder viver da música hoje é uma benção.
E sentimos que ainda temos muito a dizer. O Black Pantera continua olhando para o mundo e transformando isso em música. Essa é a nossa maneira de registrar o tempo em que vivemos.
O novo disco já está pronto e em processo de mixagem. E honestamente sentimos que ele é tão poderoso quanto — ou até mais — do que os anteriores. Existe uma sensação de crescimento contínuo desde o primeiro álbum, passando por Ascensão e Perpétuo.
Mesmo com esse novo trabalho praticamente finalizado, as ideias continuam surgindo. Estamos vivendo um momento muito criativo e queremos deixar esse fluxo acontecer naturalmente.
Dividir palco com nomes históricos e ampliar a presença fora do Brasil muda a percepção que vocês têm sobre o alcance da banda? Hoje, o que o Black Pantera quer provocar — artística e politicamente — que talvez não fosse possível alguns anos atrás?
A gente teve várias viradas de chave ao longo do tempo. Começamos a tocar fora do Brasil com apenas um ano e meio de banda, sem nunca ter viajado de avião, tendo que tirar passaporte às pressas. O primeiro show internacional foi em Paris. Isso, inevitavelmente, muda a mentalidade de qualquer banda.
Mesmo tendo praticamente pago para tocar, aqueles 25 minutos foram fundamentais. Depois voltamos em 2017, fomos aos Estados Unidos em 2018, e só então as coisas começaram a acontecer com mais força no Brasil. Já vínhamos de um percurso em que tocávamos com bandas grandes, mas muitas vezes o público brasileiro ainda não sabia exatamente o que era o Black Pantera. Em 2017, por exemplo, temos fotos no Download Festival, em Paris, dividindo espaço com algumas das maiores bandas de rock do mundo, com a banda ainda com três anos de existência. A partir disso, passamos a ter outra visão do que queríamos construir. Cada etapa foi sólida, verdadeira, sem retrocessos. A nossa trajetória sempre foi guiada por essa busca de avançar, de não se acomodar. Tocamos em grandes palcos, resultado de uma combinação de sorte, trabalho intenso, correria e vontade constante de se desafiar.
Essa é uma das forças que movem o Black Pantera: pensar sempre adiante e buscar o extraordinário. Não nos contentamos. Fizemos o Rock in Rio uma vez e queremos mais; hoje, já estamos indo para a terceira participação desde 2022. Também estivemos no Hellfest, um dos maiores festivais de rock do mundo, e no Rock al Parque, em Bogotá, o maior festival aberto da América Latina. Chegamos a realizar uma espécie de mini turnê internacional em três países na mesma semana, algo intenso e marcante.
Mais recentemente, abrimos um show do Korn no Brasil. No backstage, encontramos o Shavo Odadjian, do System of a Down e do Seven Hours After Violet, que veio conversar conosco, disse que gostava muito da banda e demonstrou grande respeito pelo nosso trabalho. Essas situações reforçam como o Black Pantera vem sendo percebido de forma diferente no cenário internacional.
Mas não há romantização nisso. Nada disso é fruto de facilidade ou de estrutura pronta. É consequência de muito trabalho, esforço contínuo, suor e persistência. Ainda assim, apesar de tudo o que já vivemos, queremos mais. Queremos tocar em novos países, incluindo regiões onde ainda não estivemos, como África e Ásia, além de muitas cidades no Brasil.
O desafio continua sendo o mesmo: ampliar nosso alcance e fazer com que cada vez mais pessoas conheçam e se conectem com a nossa música.
Se este audiovisual registra uma chegada importante, qual é a próxima fronteira que o Black Pantera quer atravessar?
Resistência sela essa primeira grande fase da banda de maneira épica. É como o encerramento de um primeiro ciclo. Agora começa uma nova etapa, impulsionada pelo próximo disco de inéditas. Queremos ampliar ainda mais o alcance da banda e continuar expandindo nossas possibilidades musicais e emocionais.
Em Perpétuo, por exemplo, nos permitimos falar de outros temas e explorar novas emoções. Faixas como “Perpétuo” e “Tradução” tocaram profundamente as pessoas justamente por essa dimensão mais emotiva e ancestral.
Entendemos que também é importante falar sobre nossas dores e experiências de maneira mais sensível. A ancestralidade sempre esteve presente no Black Pantera, e talvez esse seja justamente o “pulo da pantera”: transformar essa conexão ancestral em música, discurso e sentimento.
Temos certeza de que o próximo álbum vai ampliar ainda mais nossos horizontes — e abrir caminho para trabalhos ainda maiores.
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