Carolina Diz voltou — e ainda tem muito a dizer

Após 17 anos longe dos palcos, a Carolina Diz retorna com sua formação renovada, novas músicas e a mesma disposição de fazer da canção um espaço de reflexão sobre o seu tempo. Surgida na cena independente de Belo Horizonte nos anos 2000, a banda lançou Se Perder (2004) e Crônicas do Amanhecer (2008), construindo uma identidade marcada por guitarras, melodias pop e letras que abordavam violência, desigualdade social, feminicídio e abandono.
O reencontro aconteceu de forma espontânea e mostrou que a química entre os integrantes permanecia viva. À formação original somaram-se Tiago Sales, na terceira guitarra, e Mauro Novaes, na bateria. Gilcevi, que originalmente acumulava bateria e vocais, agora divide a frente da banda com Humberto Teixeira. Em pouco mais de um mês, os músicos já haviam composto um novo álbum, deixando claro que o retorno não se limita à nostalgia.
Esse novo momento ganhou seu primeiro registro com “Pode Ser”, primeiro single da nova fase da Carolina Diz, já disponível nas plataformas digitais. Produzida e gravada por Fernando Bones, no Galvani Estúdio, a canção traz ainda na capa uma pintura de César Gilcevi.
Para Gilcevi, as antigas canções continuam atuais porque tratavam de problemas que permanecem presentes na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, as novas composições refletem as experiências e transformações vividas pelos integrantes durante quase duas décadas. A banda também revisita a trajetória da cena independente de Belo Horizonte e as profundas mudanças ocorridas na música desde os anos 2000.
Nesta entrevista, Gilcevi fala sobre o reencontro da Carolina Diz, a nova formação, o processo de criação do próximo álbum, o lançamento de Pode Ser, a dimensão política das canções, as transformações pessoais vividas durante os 17 anos de hiato e os caminhos da cena independente de Belo Horizonte. Uma conversa sobre passado, presente e futuro — e sobre uma Carolina Diz que, nas palavras de Gilcevi, “tem muito a dizer ainda”.
Depois de um longo tempo longe dos palcos, o que fez a Carolina Diz voltar justamente agora? Foi algo planejado ou o reencontro aconteceu de forma espontânea?
Foi totalmente espontâneo. Na verdade, além da vontade de tocar juntos novamente, nós percebemos que as letras, escritas há quase duas décadas, não envelheceram. Ao contrário, dialogam bastante com o momento atual da América Latina. Afinal, em quinhentos anos desde a invasão europeia pouca coisa mudou, nosso lindo continente segue sendo espoliado, roubado e invadido. Tivemos o respiro democrático e de avanço das políticas sociais e de inclusão dos governos Lula e Dilma, mas como é recorrente na nossa história sempre vem um golpe ou a ingerência do imperialismo estadunidense que regride tudo à estaca zero. Nós sempre estivemos em guerra e ainda estamos. Como cantou o poeta Caetano: “Aqui tudo parece ainda construção e já é ruína.”
Vocês disseram num post no Instagram que “a química da banda ainda segue viva e latente”. Quando voltaram a tocar juntos, houve imediatamente a sensação de que a Carolina Diz ainda estava ali?
Sim, mesmo depois de tanto tempo sem ensaiar ou compor juntos quando nos reunimos foi como se tivéssemos recomeçado do último ensaio. A boa química musical da banda ainda funciona e a criatividade coletiva ainda segue pulsante e viva. Nossas referências continuam sendo os grandes videntes visionários: Rimbaud, Lou Reed, Drummond, os tropicalistas, o xamanismo e a macumba.
A nova formação traz Tiago Sales na terceira guitarra e Mauro Novaes na bateria. O que eles acrescentaram à sonoridade e à identidade da banda? E como foi para eles entrar em uma história que já existia?
Foi um processo bem natural. Sempre admiramos o trabalho musical do Tiago e ele também frequentava nossos shows. Era uma admiração mútua. Então quando decidimos inserir uma terceira guitarra o nome dele foi sugerido por todos.
Sempre enxerguei o Carolina Diz como uma guitar band pop. A primeira crítica que saiu sobre a gente na imprensa, em 2004, foi escrita pelo crítico Arhur Couto Duarte e ele de cara já sacou isso. O título da resenha era: “Carolina Diz lança disco e mostra como deve ser uma guitar band.”
Já o Mauro Novaes, na minha opinião, é um dos melhores bateristas de rock em atividade no Brasil. Costumo dizer que ele é meu Ogan particular (risos).
Já havíamos tocado juntos no Cadelas Magnéticas e fiquei muito feliz quando ele topou gravar com a gente. Ele é autodidata como eu e também lançou uma das coisas mais interessantes da música contemporânea que é a persona do Abelha e essa coisa super brasileira que é o The Clash com (Chiclete) com Banana, sua mistura genial de Axé com punk.
Você, que era baterista e letrista, agora divide os vocais com Humberto Teixeira. Como surgiu essa nova configuração e como ela mudou a interpretação das músicas?
Na verdade, foi mais uma questão de saúde minha. Tenho duas doenças ósseas crônicas que se agravaram nos últimos anos e que não me permitem mais tocar bateria com o mesmo vigor de antes. Então, resolvemos dividir os vocais para que a banda não abandonasse sua formação original e também para se renovar esteticamente. Acho que as canções ganharam muito em inventividade e densidade. Ficamos com medo de não funcionar, mas depois do primeiro ensaio tudo fluiu muito bem. São vozes distintas que se complementam.
Vocês afirmam que, depois do reencontro, compuseram um álbum inteiro em pouco mais de um mês. De onde veio essa explosão criativa depois de tanto tempo?
Quando resolvemos voltar com a banda decidimos que não seriamos refém do passado.
A ideia era retornar mas com repertório e canções inéditas, falando de como nós somo hoje. Não somos mais garotos de 20 anos bêbados e inconsequentes curtindo a vida. Acho que o fato de sermos pessoas mais experimentadas e mais calmas naturalmente refletiu nas novas composições.
A primeira obra da lavra recente fizemos em um dia. Humberto me mandou uma música pelo zap e em meia hora escrevi uma letra e fiz uma melodia vocal e reenviei pra ele. Como ele é um puta melodista deixou bem melhor o que eu tinha feito e assim seguimos. Depois realizamos encontros regulares na minha casa já com Dennis e Fernando presentes e quando vimos já tínhamos muita coisa composta.
Essas novas músicas representam uma continuidade natural da Carolina Diz dos anos 2000 ou vocês sentem que estão construindo uma nova Carolina Diz?
As duas coisas. As músicas que estamos construindo têm essa permanência natural da nossa assinatura clássica: melodias líricas, letras fortes e refrões grudentos, mas os assuntos são os que vivenciamos hoje.
Em uma publicação do Insta vocês afirmam que as músicas escritas há cerca de 20 anos “soam mais atuais do que nunca”. O que existe nessas canções que faz com que elas dialoguem tão fortemente com o Brasil de hoje?
Nós sempre fomos uma banda fora da curva na cena musical do início dos 2000.
Enquanto 99,7% dos grupos repetiam os maneirismos dos Los Hermanos ou dos Strokes - que eram o zeitgeist sonoro da época - nós, mesmo sendo uma banda teoricamente pop, falávamos de feminícidio, prostituição infantil, violência policial, crack e população de rua, enfim, sempre falamos do Brasil real, racista e socialmente desigual.
De lá pra cá, com a ascensão do fascismo, da extrema direita e do narcopentecostalismo as canções voltaram a ecoar no presente. Na música "A mesma cruz", escrita em 2007, por exemplo, a gente diz:
“Os tênis importados
Dançam sobre as cinzas de Galdino
E sobre os muros eletrificados
O faminto será o assassino
O ódio vomitou na esperança
Nós todos em regime fechado
Os prisioneiros em dia de cobrança
E caímos sempre, sempre do mesmo lado errado”
O contexto político atual mudou a maneira como vocês escutam e interpretam o repertório antigo? Alguma música ganhou um significado completamente diferente para vocês?
Como eu disse antes, para a gente pelo menos, a maioria das músicas seguem atuais.
Se você estiver andando pelas ruas centrais de BH ou qualquer outra grande cidade brasileira hoje e ouvir uma canção como “O migrante”, por exemplo, parece que ela acabou de ser escrita como denúncia do enorme contingente de pessoas que estão vagando famintas, viciadas e abandonadas pelo estado. Outra canção como “Letícia”, que é uma letra crua e direta sobre feminicídio, infelizmente hoje também não envelheceu, ao contrário, desde que esse câncer do bolsonarismo adoeceu nosso povo, as estatísticas de assassinatos de mulheres só aumentam. “Amanda”, também uma canção do nosso primeiro disco, que fala sobre abuso e prostituição infantil hoje ecoaria a bárbarie dos garimpos. E, claro, há também as canções que versam sobre o amor que, espero, sejam atemporais.
E uma ou outra canção que não envelheceu bem eu mudei as letras. Não temos problemas com isso. Toda boa obra tem que dialogar, se renovar e espelhar o seu tempo ou ser abandonada.
Vocês estão chamando as novas músicas de “atualíssimas porradas sonoras”. O que podemos esperar dessa nova sonoridade e do novo álbum?
Acho que hoje somos músicos e homens mais maduros. Nesses quase vinte anos de hiato todos nós levamos muitas porradas da vida e também vivemos muitas renovações e alegrias. Eu mesmo fiz minha retomada indígena e me conectei com meus ancestrais através do Candomblé e isso mudou completamente meu modo de ver e pensar a sociedade.
E o mais importante, sempre fomos e continuamos a ser uma banda super politizada, como toda banda deveria ser aliás. Afinal, absolutamente nada escapa da política e quem não acredita nisso é cínico ou só burro mesmo. Então continuamos nessa toada. O que podem esperar é que seguiremos sendo uma banda política, socialista, anti racista, que tem como assunto nossas questões pessoais, como seres históricos que todos somos, e que escreve, canta os amores, as incertezas e conquistas e também expõe as mazelas seculares do Brasil. Eu e Humberto somos ambos filhos de metalúrgicos.
Cresci na região do Barreiro vendo meu pai correr de tiro da polícia por liderar greves e o Humberto cresceu no ABC paulista também em meio a toda ebulição do movimento sindical dos anos 1980; o Dennis é professor de escola pública e o Fernando é operário da cultura, então nossa visão de mundo sempre foi da margem, de esquerda e de revolta contra o sistema capitalista.
Como vocês imaginam o reencontro com o público? O que esperam encontrar nesse público e o que acham que mudou nele — e na cena independente de Belo Horizonte?
Fizemos nosso show de retorno na Virada Cultural de BH e foi emocionante e muito lindo! Muitos fãs que iam aos nossos shows quando eram adolescentes e hoje estão na casa dos trinta e poucos anos e também muita gente nova que não nos conhecia. O auxílio luxuoso do Tiago Sales e do Mauro Novaes também empoderou muito mais a apresentação. Espero que seja a primeira de muitas.
Sobre o cena independente da cidade ela segue sendo muito boa e inventiva, como sempre foi. BH era e é pródiga em gerar grandes artistas, veja por exemplo a cena dos 1980s com coletivos como o Cemflores e bandas como O Último Número, Divergência Socialista; a cena primorosa do metal que renovou o gênero em nível mundial, o pessoal mais recente da Geração Perdida e do Rap etc.
Um fator complicador e frustrante da nossa geração é que literalmente vivenciamos o limbo cultural do início do século XXI. Era uma era de fim das gravadoras, mas ainda pré redes sociais. Um momento de transição que foi muito difícil de lidar. Fim do CD e das mídias físicas, o nascente mais ainda pouco popular MP3, redes sociais praticamente inexistentes… enfim, uma mudança de paradigma da indústria cultural que hoje está no seu auge mas que não existia naqueles tempos. Tanto que a maioria das bandas não conseguiu sobreviver e interrompeu suas carreiras. Parece que foi uma cena que não existiu e que a BH contemporânea desconhece.
Hoje o rolê é completamente diferente.. Para o bem e para o mal as grandes transformações se estabeleceram. Também a geração Djonga, FBC, o pessoal do Funk, da filmes de plástico etc. finalmente furaram a milenar bolha burguesa de BH e reinventaram completamente a cidade. Acho que muito em breve vai nascer uma nova geração de bandas de rock que vai mudar tudo também. Como diria Gonzaguinha “Eu tenho fé é nessa juventude!”
Existe algo que vocês gostariam de ter feito na primeira fase da Carolina Diz e que agora, com essa volta, finalmente terão a oportunidade de fazer?
Continuamos querendo fazer o que sempre nos propomos: tentar compor boas canções e gravá-las da melhor forma possível. Nosso primeiro álbum (Se perder – 2004) foi gravado num porão e é o que se chamava na época de cd demo, e nem chegou a ser mixado e masterizado porque o dono do estúdio perdeu os arquivos; como não tínhamos como regravar, decidimos lançar daquele jeito mesmo.
O segundo (Crônicas do amanhecer - 2008) era para ser um disco a la Sonic Youth, com as guitarras berrando, mas na hora da masterização o técnico responsável comprimiu tudo e ficou uma sonoridade sem força que nunca nos agradou. Mas reouvindo agora os dois discos têm uma estética low-fi interessante como documento daquele período.
Nos dias atuais há muito mais facilidade em adquirir equipamentos melhores e acho que por isso talvez finalmente a banda pode soar como a gente sempre quis. Por isso, escolhemos o Fernando Bones para produzir e gravar. É um cara que entende nossa proposta e que só melhorou o resultado final. “Pode ser”, nosso single de reestréia, é só o primeiro de muitos que ainda virão.
A Carolina Diz voltou apenas para revisitar sua história ou vocês enxergam um futuro para a banda? Afinal, vocês voltaram porque o momento atual precisava novamente da Carolina Diz ou porque perceberam que ainda tinham algo a dizer?
Com certeza temos muito a dizer ainda! Quem tiver ouvidos que ouça (risos).
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