Crossover de Ratos de Porão e D.R.I. faz o Catavento girar
- Alexandre Biciati
- há 1 dia
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Atualizado: há 22 horas
Em uma noite que tinha ingredientes para dar errado, os expoentes do crossover thrash, Ratos de Porão e D.R.I. (Dirty Rotten Imbeciles), fizeram sua parte e garantiram o sucesso de mais um evento promovido pelo Punk no Parque com realização das produtoras Maraty e Powerline.
Afinal, desde que foi anunciado, o show teve duas opções de local fechado e, por fim, foi transferido para o Catavento Cultural. As características do espaço, que já entrou no circuito de grandes datas de BH, são bem peculiares, contando com uma cobertura de tenda de circo e comportando um público limitado. Havia um risco meteorológico e a região foi, de fato, cometida por um temporal poucas horas antes da apresentação que, por pouco, não foi comprometida.

Nesse cenário, a noite recebeu a abertura da paulistana Blasthrash, que teve tempo de apresentar um repertório reduzido, mas que gerou resposta positiva no público que ainda ganhava as dependências. Faixas como “Violence Just For Fun”, “Fake News” e “On The Shore of Uncertainty” foram executadas com toda energia explorando o som do espaço que impressionava pelo volume.

Cada dia mais sujos e agressivos
Encerrada a abertura, subiu ao palco o Ratos de Porão — talvez a instituição mais íntegra do rock pesado brasileiro, dada a longevidade e discografia do grupo. Forjados por um posicionamento contundente e uma paixão perceptível pelo que fazem, o quarteto que consolidou reconhecido sucesso mundo afora ainda faz shows como se fosse a primeira vez. Não é força de expressão: por mais que a performance tenha suas repetições, o show do Ratos é capaz de empolgar aquele que, porventura, nunca tenha visto o RDP ao vivo.

A banda subiu ao palco desfalcada pelo guitarrista Jão, afastado por um acidente no dedo, e com João Gordo ainda se queixando das consequências de uma intoxicação alimentar. Mas, se a expectativa era do frontman evitando excessos, o que vimos foi o oposto. O punk mais notório do Brasil, mesmo com a voz prejudicada, conseguiu conduzir um show que valeu o ingresso. Com a tradicional postura que oscila entre o tosco e o carismático, João Gordo reclamou do som quando precisou, mas foi saudoso ao lembrar o primeiro show do RDP em BH, no DCE da Federal. “Quem estava lá?”, tentou interagir, mas o público da vez estava, literalmente, sujando as fraldas no início dos anos 80.

Com um repertório cheio de clássicos que não envelhecem, o Ratos provou que mesmo as composições mais novas amadurecem rápido na boca dos fãs. Nesse sentido, “Alerta Antifascista” (2022), que abriu o set, estabelece diálogo e encontra eco em “Farsa Nacionalista” (1989). A porção do público que não estava se descabelando na perene roda de mosh cantou com vigor todas as letras. “Crucificados Pelo Sistema”, “Beber Até Morrer”, “Sofrer”, “Aids, Pop, Repressão”, “Amazônia Nunca Mais” e “Igreja Universal” soaram enérgicas e contagiantes mesmo com as limitações mencionadas. Na cozinha, Boka e Juninho não pouparam energia, enquanto Maurício Nogueira, que substitui Jão na turnê, mostrou estar em sintonia com o conjunto — exceto por umas notas a mais no solo, segundo comentário provocativo do próprio João Gordo.

O Ratos deixou o palco ao som de “Preciso Me Encontrar”, de Cartola, nos PAs, modulando a energia de forma tão competente e atípica que merece o destaque.
I win, you lose!
Diferente da explosão física que marcou o show anterior, o D.R.I. subiu ao palco sob um clima de absorção total. A variação rítmica e as nuances das composições pareceram manter o público à frente do palco em um estado de vigília, onde cada transição era celebrada com empolgação.

Spike Cassidy (guitarra) e Kurt Brecht (vocal), os pilares fundamentais, conduziram o set com a estabilidade de quem domina o palco há quatro décadas, transformando a euforia em um respeito profundo pela evolução sonora da banda. A formação ainda contou com o baixista Greg Orr (ex-Attitude Adjustment) e o baterista Danny Walker (ex-Exhumed).

O setlist cobriu praticamente todas as fases importantes, do hardcore punk ultraveloz ao crossover thrash. Clássicos dos anos 80 como as influentes “Abduction” e “I Don’t Need Society” e a crítica “Beneath the Wheel” foram combustível para um mosh pit incessante. Músicas que explicam a evolução da banda carregadas de riffs contagiantes e letras que continuam atuais. O hino geracional “The Five Years Plan” ainda tiraria o último fôlego da turma da gargarejo que curtiu o show, literalmente, a 2 metros da banda.

Se por um lado topar um evento desta proporção em espaço semiaberto foi um risco frente ao clima, a realização de um espetáculo neste formato foge aos demais palcos da turnê e dá um tom de exclusividade. Os shows foram intensos e a interação olho no olho sempre garante uma troca calorosa entre pista e palco. Ratos de Porão e D.R.I., após 40 anos, ainda mantêm uma carga performática ativa que, agregada ao peso histórico de músicos com bagagem sexagenária, elevaram a dobradinha ao status de show histórico na capital.
























































