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Céu retorna às origens e faz apresentação especial no Sesc Palladium


Texto e fotos: Bruno Lisboa


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Tive o privilégio de acompanhar Céu em diversos momentos ao longo de sua carreira — e assistir à turnê que celebra os 20 anos de seu disco de estreia é como rever um velho amigo depois de muito tempo: um exercício de memória e afeto, desses que nos lembram de onde viemos e o quanto mudamos. A primeira vez que a vi em Belo Horizonte foi justamente na turnê de lançamento de seu álbum homônimo, em uma noite memorável na Funarte em que dividiu o palco com o Funk Como Le Gusta. Desde então, sua trajetória tem sido uma constante celebração da mistura, da curiosidade e da elegância sonora.


Lançado em 2005, “Céu” é um retrato luminoso de uma época em que a nova geração da MPB expandia fronteiras, unindo o Brasil urbano ao global. O disco expõe a versatilidade da artista — qualidade que a acompanharia para sempre — ao fundir samba, reggae, dub, hip hop e música eletrônica com naturalidade rara. É uma obra que carrega uma brasilidade sem fronteiras, uma sonoridade carrega de referências que se comunica com o mundo sem deixar de ser profundamente local.


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A apresentação no Sesc Palladium, em Belo Horizonte, no dia 21 de novembro, fez jus a essa aura de reencontro. O show integrou o projeto Mesa Brasil Sesc, uma iniciativa nacional de combate à fome e ao desperdício que há três décadas atua em rede, redistribuindo alimentos e mobilizando ações culturais e educativas em prol da segurança alimentar.


Acompanhada por uma banda afiada — Lucas Martins no baixo, Sthe Araújo na percussão e vocais, Leonardo Mendes na guitarra, Pedro Lacerda na bateria, Zé Ruivo nos teclados e o DJ Marco, integrante da turnê original — Céu dividiu o show em dois tomos. No primeiro, revisitou seu disco de estreia na íntegra, faixa a faixa, como quem abre um velho álbum de fotografias sonoras. No segundo, pinçou pérolas de outras fases da carreira, reafirmando a amplitude e coerência de sua trajetória.


Entre essas canções de seu debut se destacam a versão para “O Ronco da Cuíca” (de João Bosco e Aldir Blanc) e a emocionante “Valsa pra Biu Roque” além de faixas como “Vinheta Quebrante”, “Lenda”, “Malemolência / Mora na Filosofia”, “Roda”, “Rainha”, “Bobagem”, “10 Contados”, “Concrete Jungle” (cover de The Wailers), “Véu da Noite”, “Ave Cruz” e “Samba na Sola” que ao vivo ganham força própria.


No bis, Céu costurou um panorama delicado de sua discografia recente, reafirmando a coerência de uma artista sempre em movimento. Vieram “A Nave Vai” e “Varanda Suspensa”, ambas de Tropix (2016); “Coreto”, do disco Apká! (2019); “Contravento”, do psicodélico Caravana Sereia Bloom (2012); “Cremosa”, do álbum Novela (2024); e “Grains de Beauté”, do hipnótico Vagarosa (2009). Um fecho elegante e simbólico, que amarra passado e presente com a mesma sensibilidade que sempre guiou sua obra.


Assistir Céu hoje é testemunhar uma artista em pleno domínio de sua história. Ao celebrar o passado, ela reafirma o futuro — com a mesma leveza e coragem que marcaram sua estreia. Esses 20 anos de “Céu” não são apenas uma efeméride: são a prova de que certas obras atravessam o tempo sem envelhecer, tal como a própria voz da cantora, que continua fazendo da música brasileira um idioma universal.



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