top of page

De São João del Rei, Falsa Modéstia encara o presente com punk, ironia e crítica social

há 21 horas
6 min de leitura

Em Triunfo, Igor Monteiro reúne punk, post-punk e rock brasileiro dos anos 80 em nove faixas que atravessam temas como fascismo, guerras, capitalismo, inteligência artificial e as transformações do cotidiano. Músico atuante há mais de uma década na cena independente de São João del-Rei, Igor compôs, gravou e arranjou o disco sozinho, antes de levar as músicas aos palcos ao lado de Luiz Ramos e Breno Assis.


O próprio título sintetiza a ambiguidade do trabalho. “Para a Falsa Modéstia, o termo não significa uma coisa só. É para ser ambíguo mesmo”, explica. Nas letras, a crítica política se mistura ao humor e à ironia, recursos que, segundo o músico, tornam a mensagem “até mais contundente e sagaz”.


Lançado oficialmente em 27 de agosto, Triunfo também reflete os desafios de produzir e circular música longe dos grandes centros. A experiência com a audição antecipada, criada como alternativa à lógica dos streamings, reforçou para Igor “a necessidade dos artistas serem ainda mais criativos” para não depender exclusivamente das plataformas digitais.


Nesta entrevista, Igor fala sobre o processo de criação do disco, suas referências musicais, política, inteligência artificial, os desafios de fazer música no interior de Minas e os próximos passos da Falsa Modéstia.


“Triunfo” é um título curioso para um disco atravessado por temas como fascismo, guerras, inteligência artificial e cinismo. O que, afinal, significa “triunfo” para a Falsa Modéstia?

Olá, pessoal. Primeiramente, muito obrigado pelo espaço concedido à minha arte, significa muito pra mim. Bom, eu escolhi o título “Triunfo” justamente pela enorme ambiguidade do termo. Pode tanto representar o “triunfo” almejado sob uma ótica neoliberal ou fascista da qual as letras são críticas ou um “triunfo” pessoal, de superação de adversidades enquanto um músico CLT no interior de Minas fazendo um disco sozinho, risos. Para a Falsa Modéstia, o termo não significa uma coisa só. É para ser ambíguo mesmo.


Você compôs, gravou e arranjou todas as músicas do disco. Em que momento um projeto essencialmente individual passou a se tornar uma banda — e o que mudou quando Luiz Ramos e Breno Assis entraram nesse processo?

Foi quando me encontrei pessoalmente com os dois em um bar em BH. Eu já conhecia os dois há muitos anos e já sabia que se eu quisesse tocar essas músicas ao vivo, precisaria de músicos competentes e que entendessem a minha proposta. Então eu contei que estava produzindo um disco sozinho e perguntei se tinham interesse, ainda que fosse um projeto “solo”. Puxei um fone de ouvido ali mesmo e mostrei as demos para eles. A partir do momento que eles aceitaram, o projeto tomou forma. Eles ficaram motivados e isso foi determinante para que eu tivesse forças para terminar a produção.


Existe uma decisão muito clara de evitar os excessos tradicionalmente associados ao rock: solos longos, virtuosismo, músicas extensas, uma produção excessivamente elaborada. De onde vem essa necessidade de ir direto ao ponto?

Isso vem da origem do Punk. Há 50 anos atrás, jovens entediados com o rock progressivo criaram uma música crua que tentava resgatar a energia dançante do rock n’ roll. E eles acrescentaram uma dinâmica política ao som que me inspira muito. Além disso, sinto que não quero compor algo para mostrar que sei tocar bem um instrumento. Não faço música apenas para músicos, quero que minha mensagem seja transmitida para as pessoas em geral.


O disco dialoga com o punk e o post-punk britânicos e com o rock brasileiro dos anos 80. Como absorver essas referências sem transformar a Falsa Modéstia apenas em uma reprodução de uma estética que já existe?

Esse é um desafio enorme e acho que não cheguei lá, apesar de me propor a fazer isso desde o começo desse projeto. Já comecei a tentar criar minha própria identidade musical no primeiro disco, mas acredito que com o tempo é que ela se tornará mais evidente.


As letras tratam de assuntos políticos bastante concretos, mas muitas vezes através do sarcasmo. O que o humor e a ironia permitem dizer que uma abordagem política mais direta talvez não permitisse?

Eles possibilitam uma penetração maior da mensagem. Uma abordagem mais direta pode soar militante demais. Eu não teria o menor problema com isso, mas acho que utilizando o humor e a ironia a crítica é até mais contundente e sagaz.


Falar de fascismo, guerra e inteligência artificial no mesmo disco parece uma tentativa de olhar para diferentes sintomas do presente. Existe, para você, alguma questão central que conecta esses temas?

Para mim é, sem sombra de dúvidas, o capitalismo. Acredito que fascismo e as guerras, coisas interdependentes, só existem para aprofundar ainda mais o conflito de classes. Tudo que é país com viés expansionista colabora drasticamente para isso. E a Inteligência Artificial, que já se tornou, em certa medida, parte do nosso dia-a-dia, pode tanto ajudar alguém a fazer miojo quanto fortalecer o monopólio das big techs.


Foto: Tereza Isabel
Foto: Tereza Isabel

A inteligência artificial aparece como um dos temas abordados em “Triunfo”. O que levou vocês a transformar esse assunto em matéria de uma canção — e o que a IA representa, para vocês, no contexto político e social do presente?

A letra que mais trata desse tema é, obviamente, “Artificial”. O que me levou a escrever essa letra foram as pessoas que perdem tudo apostando na internet e as pessoas que fazem terapia através do ChatGPT. Como disse anteriormente, eu não vejo problema em consultar a IA para questões práticas do dia-a-dia. Mas acho que ela pode prejudicar, e muito, a qualidade de vida, quando mal utilizada. Repare como apostar ou abusar da IA são dois problemas que podem surgir de fragilidade financeira, acentuada por um mundo cada vez mais capitalista.


A campanha de audição antecipada procurou justamente escapar, ainda que momentaneamente, da lógica de distribuição do Spotify. O que essa experiência revelou sobre as dificuldades de uma banda independente para fazer sua música circular hoje?

Revelou a necessidade dos artistas serem ainda mais criativos para não se tornarem tão dependentes dos streamings e das redes sociais, pois eles operam numa lógica anti-arte. Posso citar, por exemplo, a Trash No Star que, do nada, perdeu uma conta no Instagram recentemente e anos de trabalho por isso. Elas criaram uma newsletter como alternativa. E posso citar o caso da minha outra banda, Remédio Sem Causa, que fez a mesma campanha de audição antecipada que eu e arrecadou o equivalente a 70.000 plays no Spotify de forma direta.


São João del-Rei está fora dos grandes centros da música independente, mas a Falsa Modéstia vem de uma trajetória construída há mais de uma década na cidade. O quanto estar no interior de Minas influencia a maneira como vocês fazem música e constroem uma carreira?

Para mim, influencia muito. Por ter vivido sempre numa cidade com menos de 100.000 habitantes, sinto que tenho uma relação problemática com urbanização. A construção desenfreada de prédios gigantes em uma cidade sem planejamento para isso é tema da canção “Cinza”, por exemplo. O trânsito já ficou problemático por aqui também. Aos poucos, os dramas e dilemas da cidade grande vão sendo incorporados. Mas ainda é bem diferente. O ritmo das coisas é bem mais lento e acredito que isso colabora para uma visão mais reflexiva e filosófica sobre tudo. Sinto também uma grande dificuldade para um artista do interior ser levado tão a sério quanto alguém da capital. Ainda não sei o por quê. Por isso, agradeço novamente e valorizo a iniciativa de uma mídia da capital se interessar pelo meu trabalho.


Depois do lançamento de “Triunfo” e dos primeiros shows, o que vocês descobriram sobre o disco que não estava necessariamente presente quando ele foi gravado? Quais são os planos futuros?Boa pergunta. Eu descobri que as músicas são mais pegajosas do que eu imaginava. Dezenas de pessoas vieram me falar que as músicas não saem da cabeça, risos. Mas também vi a potência do som ao vivo e o quanto os músicos que convidei elevaram a qualidade das mesmas. Esse disco me deu tanto trabalho que agora eu quero extrair o máximo possível dele, tocando ao vivo e divulgando as músicas do jeito que for possível. Mas pretendo criar uma rotina regular de lançamentos anuais, valorizando a liberdade que conquistei criando sozinho. Sinto que posso abordar temas ainda mais pessoais dessa maneira.


Foto: Samya Pereira
Foto: Samya Pereira


Comentários


  • Instagram
  • mail

©2026 por Phono Brasil. Marca registrada. É proibida a reprodução total ou parcial de textos, fotos e ilustrações, por qualquer meio, sem prévia autorização.

bottom of page