Desejo Terrível celebra um década de história com lançamento de novo EP Neurose do Momento

Formado por Drin Cortes na voz, Lucas Sallum na guitarra, Vinicius França (Herói do Mal) no baixo e Mauro Novaes (O Abelha/Lupe de Lupe) na bateria, a Desejo Terrível construiu ao longo de uma década de trajetória uma identidade própria na cena independente de Belo Horizonte ao combinar a urgência do punk rock com incursões pela psicodelia, música brasileira e outras experimentações sonoras.
Ao longo de dez anos de trajetória, o Desejo Terrível construiu uma discografia marcada pela experimentação e pela constante transformação de sua linguagem. O percurso começou com o single "O Canto da Andorinha" (2017), seguido do EP Intererrático (2018). Na sequência veio o single "Jurema" que já apontava a fusão entre punk rock, garage rock e psicodelia que se tornaria marca da banda. Em 2023, o grupo lançou o single "Frame do Caos", que antecedeu o EP Natureza Subterrânea, trabalho em que ampliou o diálogo com diferentes referências da música brasileira e aprofundou reflexões sobre identidade e as inquietações do presente.
Esse percurso desemboca em Neurose do Momento, EP lançado em julho que reúne três canções lapidadas ao longo de anos de ensaios e apresentações, transformando em música questões como hiperconectividade, ansiedade, paranoia e o cotidiano contemporâneo. Ainda em 2026, a banda pretende celebrar essa década de atividade independente com Década Dodói, uma coletânea em fita cassete que reunirá toda a sua produção fonográfica, do primeiro single ao lançamento mais recente.
Em entrevista, o vocalista Drin Cortes reflete sobre a longevidade da banda, o processo criativo marcado pela permanente transformação das canções, a relação com Belo Horizonte e os desafios de produzir música autoral em um mercado cada vez mais concentrado. "A música vai ser sempre um reflexo do espírito de seu tempo", afirma. Confira a entrevista na íntegra!
Vocês completam dez anos de banda num momento em que muitos projetos independentes não chegam nem ao segundo disco. O que manteve o Desejo Terrível vivo durante esse tempo?
A gente gosta muito de tocar, compor junto, desenvolver as ideias...
Pessoalmente, considero o Desejo Terrível uma espécie de motor que alimenta todos os aspectos criativos da minha vida.
Além disso, a reação das pessoas aos nossos shows traz um retorno muito satisfatório, o que estimula a continuidade do movimento.
O release diz que "a neurose não é o tema do disco, é o idioma do século XXI". Até que ponto vocês acham que a música consegue elaborar essa ansiedade coletiva e até que ponto ela acaba sendo apenas mais um reflexo dela?
Acho que a música vai ser sempre um reflexo do espírito de seu tempo. Atualmente, a ansiedade é o estado permanente a que estamos condicionados, com toda essa overdose de estímulos e urgências das redes sociais. Este é, inclusive, o tema de Mordendo a Orelha, faixa que abre o EP e que através de oscilações entre acordes maiores e menores, além de variações na dinâmica, dialogam com a volatilidade de humor, peculiar a tal estado psicológico.
A música pode abraçar ou negar essa urgência, já que a experiência musical em si propõe uma imersão rítmica e conceitual, ne...
As músicas passaram anos sendo transformadas nos ensaios e nos shows antes de serem gravadas. Existe um momento em que uma canção está pronta ou gravar um disco é simplesmente congelar uma etapa provisória desse processo?
Em Neurose do Momento a gente traz Paranoia e Planando em Campos Tóxicos do Goiás, que são músicas do início da banda, além de Mordendo a Orelha, que a gente compôs já na formação atual, com o Sallas na guitarra.
Então, todas têm arranjos novos, já muito próximos da forma como atualmente as executamos nos shows. Só não podemos afirmar que o registro determina uma sentença de imutabilidade, já que a maioria das nossas músicas ganha ou perde elementos conforme as experimentamos ao vivo.
O punk sempre carregou uma ideia de urgência, enquanto a psicodelia costuma apontar para a experimentação e a dilatação do tempo. Como essas duas linguagens convivem na prática da composição de vocês? Existe conflito entre elas?
O punk é de onde a gente vem, e os estados alterados da percepção são formas particulares de subversão da realidade. Em nosso exercício de composição, a musicalidade atende ao clímax da narrativa, então a psicodelia surge exatamente como uma forma de trazer sensações e texturas à ideia que está sendo elaborada nas letras. Nós tiramos o freio do punk rock e na nossa mão ele pôde dialogar com outras sonoridades e influências. Tem sido divertido de fazer e acho que de ouvir também!
Belo Horizonte aparece de forma indireta na sonoridade e no imaginário do Desejo Terrível. O que há de especificamente belo-horizontino nesse disco? É possível fazer música em Minas sem dialogar, mesmo que por contraste, com a tradição musical do estado?
Acho que o ambiente sempre vai influenciar o que é produzido ali, mas as coisas mudam muito, né… não creio que a belo-horizonte de hoje seja a mesma que trouxe o Milton Nascimento e sua turma, nem a mesma que gerou o Sepultura, mas se ainda tiver alguma coisa daquilo na água a gente tá bebendo até sem saber…
O "Neurose" apresenta três cenários que refletem diferentes aspectos que considero serem traços bem belo-horizontinos:
- Mordendo a Orelha traz uma reflexão sobre a hiperconectividade sob uma perspectiva desconfiada do ambiente virtual, da radiação das ondas wi-fi e da forma como somos capturados por redes sociais.
- Paranoia descreve um conflito interno e pessoal em uma mesa de bar entre goles de uísque, em uma cena possível de ser vivenciada toda quarta-feira à tarde em um boteco qualquer do baixo-centro.
- Planando em Campos Tóxicos do Goiás é uma música que dá contorno a uma experiência que tive justamente por entender a necessidade de caminhar por terrenos além das montanhas, na jornada mística que inspirou a formação da banda.

A cena musical de Belo Horizonte costuma ser celebrada pela diversidade, mas muitos artistas independentes relatam dificuldades para circular, conseguir público e manter uma carreira sustentável. Como vocês enxergam a cidade hoje: ela impulsiona ou limita quem produz música autoral?
Acho que nada se compara à época em que as pastas de mp3 compartilhadas aglutinavam jovens em rolés presenciais, né...
Acho que a experiência musical ficou meio diluída entre outros estímulos e o excesso de informação acabou com a surpresa de um rolé inesperado.
Ninguém sai mais de casa sem saber exatamente onde vai e o que vai escutar, quem estará lá... acho que isso esvaziou muito as casas que abrem espaço para a música autoral na cidade, que, cercada por montanhas, limita a ampliação dos horizontes, o que reflete também na mentalidade dos produtores de festivais locais, que não se arriscam como proponentes de novos sons, apostando sempre em nomes já conhecidos e legitimados em outros estados. Apesar disso, a cena independente segue nos brindando com artistas talentosos e insistentes que enxergam no fazer a salvação para o marasmo e conservadorismo assombrosos.
Ser independente, em 2026, ainda significa liberdade ou também virou uma forma de assumir todos os riscos e custos que antes eram divididos com gravadoras e produtores? O que vocês ganharam e perderam permanecendo independentes?
É o único caminho que a gente conhece. Todos da banda desempenham outras funções profissionais e nenhum de nós depende da música como fonte de renda. Provavelmente a gente circularia mais se tivesse alguém além de nós mesmos vendendo shows e bancando material, mas sei lá o que isso custaria ao nosso tesão de tocar, de fazer música e poesia para derreter entre amigos.
O EP tem pouco mais de dez minutos. Num cenário em que as plataformas privilegiam lançamentos constantes e músicas cada vez mais curtas, essa duração é uma escolha estética, uma estratégia de mercado ou uma maneira de resistir às duas coisas?
O tamanho das faixas é muito mais determinado pela nossa experimentação do que intencionalmente. Geralmente nossas composições partem das letras. Na hora de fazer o arranjo a gente enxuga o que estiver se delongando muito, ou acrescenta coisas para encorpar... e depois ainda tem o crivo do público nos shows... a gente tá sempre observando se a música está acertando a turma de jeito. Se não tiver, a gente segue lapidando.
Há uma dimensão bem-humorada nas letras, mesmo quando elas falam de paranoia, hiperconectividade e ansiedade. O humor funciona como mecanismo de sobrevivência, como crítica ou como uma forma de tornar o absurdo contemporâneo ainda mais evidente?
Acho que é tipo rir de nervoso... (risos)
A vida é complexa e cheia de subjetividade, então passar pelo tempo enxergando a poesia nas trivialidades é uma estratégia de sobrevivência.
Vocês anunciam uma coletânea em fita cassete para celebrar os dez anos da banda. Em um momento dominado pelo streaming, o que representa lançar um formato físico tão específico? É um gesto de afeto, de memória ou também uma crítica à forma como consumimos música hoje?
A gente tem essa nostalgia da fitinha, né... muita coisa legal que eu escuto até hoje chegou assim na minha mão. "Década Dodói" é uma coletânea de toda a produção do Desejo Terrível em retrospectiva, do lançamento atual ao primeiro single.
Acho que a fita tem essa cara de atemporal, de objeto passível de ser encontrado anos depois, tipo uma capsula do tempo, cheia de memória... Quando o Sallum trouxe a ideia a gente achou que tinha tudo a ver.
As plataformas de streaming fazem parte de um conglomerado do mal, né...
financiam guerras estúpidas e são força atuante aí nessa frente tecno-fascista que vem crescendo pelo mundo. Sendo assim, a fita é um passo que a gente dá na direção contrária, criando uma alternativa de acesso ao nosso trabalho. Acho que serve como atestado do nosso posicionamento em relação a essa década dodói.
O trabalho de vocês parece rejeitar a ideia de identidade fixa: o punk se mistura com bolero, música brasileira, psicodelia e texturas eletrônicas. Em um mercado que costuma exigir que os artistas sejam facilmente classificáveis, essa recusa em caber numa prateleira dificulta a trajetória da banda ou justamente se tornou sua maior força?
Tenho a impressão de que "mercado" pouco tem a ver com música, na verdade.
A gente vem do punk rock, do pós-punk... isso está em nosso DNA, mas a ideia da banda é deixar isso ser contaminado por outras sonoridades que nos cercam, e o Brasil é riquíssimo em sonoridade.... Então é força, porque traz algo diferente para nós e para quem escuta. A gente não precisa ficar repetindo os clássicos, até porque os clássicos estão aí, super acessíveis, imutáveis e indestrutíveis...
Depois de dez anos, qual é o maior desafio do Desejo Terrível hoje: continuar experimentando sem perder a própria identidade ou manter uma identidade sem deixar que ela se transforme numa fórmula?
Acho que o desafio é continuar pedalando apesar do conservadorismo, da mesmice dos line-ups de festivais, das casas de shows autorais fechando... Nossa identidade é uma construção que só cessa quando a banda acabar. Se esse quadro melhorar a gente garante mais dez anos, fácil!


Comentários