Desejo Terrível celebra um década de história com lançamento de novo EP Neurose do Momento
- Bruno Lisboa
- há 4 dias
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Formado por Drin Cortes na voz, Lucas Sallum na guitarra, Vinicius França (Herói do Mal) no baixo e Mauro Novaes (O Abelha/Lupe de Lupe) na bateria, a Desejo Terrível construiu ao longo de uma década de trajetória uma identidade própria na cena independente de Belo Horizonte ao combinar a urgência do punk rock com incursões pela psicodelia, música brasileira e outras experimentações sonoras.
Ao longo de dez anos de trajetória, o Desejo Terrível construiu uma discografia marcada pela experimentação e pela constante transformação de sua linguagem. O percurso começou com o single "O Canto da Andorinha" (2017), seguido do EP Intererrático (2018). Na sequência veio o single "Jurema" que já apontava a fusão entre punk rock, garage rock e psicodelia que se tornaria marca da banda. Em 2023, o grupo lançou o single "Frame do Caos", que antecedeu o EP Natureza Subterrânea, trabalho em que ampliou o diálogo com diferentes referências da música brasileira e aprofundou reflexões sobre identidade e as inquietações do presente.
Esse percurso desemboca em Neurose do Momento, EP lançado em julho que reúne três canções lapidadas ao longo de anos de ensaios e apresentações, transformando em música questões como hiperconectividade, ansiedade, paranoia e o cotidiano contemporâneo. Ainda em 2026, a banda pretende celebrar essa década de atividade independente com Década Dodói, uma coletânea em fita cassete que reunirá toda a sua produção fonográfica, do primeiro single ao lançamento mais recente.
Em entrevista, o vocalista Drin Cortes reflete sobre a longevidade da banda, o processo criativo marcado pela permanente transformação das canções, a relação com Belo Horizonte e os desafios de produzir música autoral em um mercado cada vez mais concentrado. "A música vai ser sempre um reflexo do espírito de seu tempo", afirma. Confira a entrevista na íntegra!
Vocês completam dez anos de banda num momento em que muitos projetos independentes não chegam nem ao segundo disco. O que manteve o Desejo Terrível vivo durante esse tempo?
A gente gosta muito de tocar, compor junto, desenvolver as ideias...
Pessoalmente, considero o Desejo Terrível uma espécie de motor que alimenta todos os aspectos criativos da minha vida.
Além disso, a reação das pessoas aos nossos shows traz um retorno muito satisfatório, o que estimula a continuidade do movimento.
O release diz que "a neurose não é o tema do disco, é o idioma do século XXI". Até que ponto vocês acham que a música consegue elaborar essa ansiedade coletiva e até que ponto ela acaba sendo apenas mais um reflexo dela?
Acho que a música vai ser sempre um reflexo do espírito de seu tempo. Atualmente, a ansiedade é o estado permanente a que estamos condicionados, com toda essa overdose de estímulos e urgências das redes sociais. Este é, inclusive, o tema de Mordendo a Orelha, faixa que abre o EP e que através de oscilações entre acordes maiores e menores, além de variações na dinâmica, dialogam com a volatilidade de humor, peculiar a tal estado psicológico.
A música pode abraçar ou negar essa urgência, já que a experiência musical em si propõe uma imersão rítmica e conceitual, ne...
As músicas passaram anos sendo transformadas nos ensaios e nos shows antes de serem gravadas. Existe um momento em que uma canção está pronta ou gravar um disco é simplesmente congelar uma etapa provisória desse processo?
Em Neurose do Momento a gente traz Paranoia e Planando em Campos Tóxicos do Goiás, que são músicas do início da banda, além de Mordendo a Orelha, que a gente compôs já na formação atual, com o Sallas na guitarra.
Então, todas têm arranjos novos, já muito próximos da forma como atualmente as executamos nos shows. Só não podemos afirmar que o registro determina uma sentença de imutabilidade, já que a maioria das nossas músicas ganha ou perde elementos conforme as experimentamos ao vivo.
O punk sempre carregou uma ideia de urgência, enquanto a psicodelia costuma apontar para a experimentação e a dilatação do tempo. Como essas duas linguagens convivem na prática da composição de vocês? Existe conflito entre elas?
O punk é de onde a gente vem, e os estados alterados da percepção são formas particulares de subversão da realidade. Em nosso exercício de composição, a musicalidade atende ao clímax da narrativa, então a psicodelia surge exatamente como uma forma de trazer sensações e texturas à ideia que está sendo elaborada nas letras. Nós tiramos o freio do punk rock e na nossa mão ele pôde dialogar com outras sonoridades e influências. Tem sido divertido de fazer e acho que de ouvir também!
Belo Horizonte aparece de forma indireta na sonoridade e no imaginário do Desejo Terrível. O que há de especificamente belo-horizontino nesse disco? É possível fazer música em Minas sem dialogar, mesmo que por contraste, com a tradição musical do estado?
Acho que o ambiente sempre vai influenciar o que é produzido ali, mas as coisas mudam muito, né… não creio que a belo-horizonte de hoje seja a mesma que trouxe o Milton Nascimento e sua turma, nem a mesma que gerou o Sepultura, mas se ainda tiver alguma coisa daquilo na água a gente tá bebendo até sem saber…
O "Neurose" apresenta três cenários que refletem diferentes aspectos que considero serem traços bem belo-horizontinos:
- Mordendo a Orelha traz uma reflexão sobre a hiperconectividade sob uma perspectiva desconfiada do ambiente virtual, da radiação das ondas wi-fi e da forma como somos capturados por redes sociais.
- Paranoia descreve um conflito interno e pessoal em uma mesa de bar entre goles de uísque, em uma cena possível de ser vivenciada toda quarta-feira à tarde em um boteco qualquer do baixo-centro.
- Planando em Campos Tóxicos do Goiás é uma música que dá contorno a uma experiência que tive justamente por entender a necessidade de caminhar por terrenos além das montanhas, na jornada mística que inspirou a formação da banda.

A cena musical de Belo Horizonte costuma ser celebrada pela diversidade, mas muitos artistas independentes relatam dificuldades para circular, conseguir público e manter uma carreira sustentável. Como vocês enxergam a cidade hoje: ela impulsiona ou limita quem produz música autoral?
Acho que nada se compara à época em que as pastas de mp3 compartilhadas aglutinavam jovens em rolés presenciais, né...
Acho que a experiência musical ficou meio diluída entre outros estímulos e o excesso de informação acabou com a surpresa de um rolé inesperado.
Ninguém sai mais de casa sem saber exatamente onde vai e o que vai escutar, quem estará lá... acho que isso esvaziou muito as casas que abrem espaço para a música autoral na cidade, que, cercada por montanhas, limita a ampliação dos horizontes, o que reflete também na mentalidade dos produtores de festivais locais, que não se arriscam como proponentes de novos sons, apostando sempre em nomes já conhecidos e legitimados em outros estados. Apesar disso, a cena independente segue nos brindando com artistas talentosos e insistentes que enxergam no fazer a salvação para o marasmo e conservadorismo assombrosos.
Ser independente, em 2026, ainda significa liberdade ou também virou uma forma de assumir todos os riscos e custos que antes eram divididos com gravadoras e produtores? O que vocês ganharam e perderam permanecendo independentes?
É o único caminho que a gente conhece. Todos da banda desempenham outras funções profissionais e nenhum de nós depende da música como fonte de renda. Provavelmente a gente circularia mais se tivesse alguém além de nós mesmos vendendo shows e bancando material, mas sei lá o que isso custaria ao nosso tesão de tocar, de fazer música e poesia para derreter entre amigos.
O EP tem pouco mais de dez minutos. Num cenário em que as plataformas privilegiam lançamentos constantes e músicas cada vez mais curtas, essa duração é uma escolha estética, uma estratégia de mercado ou uma maneira de resistir às duas coisas?
O tamanho das faixas é muito mais determinado pela nossa experimentação do que intencionalmente. Geralmente nossas composições partem das letras. Na hora de fazer o arranjo a gente enxuga o que estiver se delongando muito, ou acrescenta coisas para encorpar... e depois ainda tem o crivo do público nos shows... a gente tá sempre observando se a música está acertando a turma de jeito. Se não tiver, a gente segue lapidando.
Há uma dimensão bem-humorada nas letras, mesmo quando elas falam de paranoia, hiperconectividade e ansiedade. O humor funciona como mecanismo de sobrevivência, como crítica ou como uma forma de tornar o absurdo contemporâneo ainda mais evidente?
Acho que é tipo rir de nervoso... (risos)
A vida é complexa e cheia de subjetividade, então passar pelo tempo enxergando a poesia nas trivialidades é uma estratégia de sobrevivência.
Vocês anunciam uma coletânea em fita cassete para celebrar os dez anos da banda. Em um momento dominado pelo streaming, o que representa lançar um formato físico tão específico? É um gesto de afeto, de memória ou também uma crítica à forma como consumimos música hoje?
A gente tem essa nostalgia da fitinha, né... muita coisa legal que eu escuto até hoje chegou assim na minha mão. "Década Dodói" é uma coletânea de toda a produção do Desejo Terrível em retrospectiva, do lançamento atual ao primeiro single.
Acho que a fita tem essa cara de atemporal, de objeto passível de ser encontrado anos depois, tipo uma capsula do tempo, cheia de memória... Quando o Sallum trouxe a ideia a gente achou que tinha tudo a ver.
As plataformas de streaming fazem parte de um conglomerado do mal, né...
financiam guerras estúpidas e são força atuante aí nessa frente tecno-fascista que vem crescendo pelo mundo. Sendo assim, a fita é um passo que a gente dá na direção contrária, criando uma alternativa de acesso ao nosso trabalho. Acho que serve como atestado do nosso posicionamento em relação a essa década dodói.
O trabalho de vocês parece rejeitar a ideia de identidade fixa: o punk se mistura com bolero, música brasileira, psicodelia e texturas eletrônicas. Em um mercado que costuma exigir que os artistas sejam facilmente classificáveis, essa recusa em caber numa prateleira dificulta a trajetória da banda ou justamente se tornou sua maior força?
Tenho a impressão de que "mercado" pouco tem a ver com música, na verdade.
A gente vem do punk rock, do pós-punk... isso está em nosso DNA, mas a ideia da banda é deixar isso ser contaminado por outras sonoridades que nos cercam, e o Brasil é riquíssimo em sonoridade.... Então é força, porque traz algo diferente para nós e para quem escuta. A gente não precisa ficar repetindo os clássicos, até porque os clássicos estão aí, super acessíveis, imutáveis e indestrutíveis...
Depois de dez anos, qual é o maior desafio do Desejo Terrível hoje: continuar experimentando sem perder a própria identidade ou manter uma identidade sem deixar que ela se transforme numa fórmula?
Acho que o desafio é continuar pedalando apesar do conservadorismo, da mesmice dos line-ups de festivais, das casas de shows autorais fechando... Nossa identidade é uma construção que só cessa quando a banda acabar. Se esse quadro melhorar a gente garante mais dez anos, fácil!


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