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Diretamente de Uberlândia, Oblomov lança álbum de estreia Questão de Fogo

Atualizado: há 1 dia

Fotos: Diany Dias
Fotos: Diany Dias

Formada em 2017, em São Simão (GO), por Jô Queiroz e José Eduardo, a Oblomov surgiu a partir de sessões de improviso e de uma afinidade com o rock. Ao longo da trajetória, a banda ampliou suas referências, incorporando elementos da Tropicália, do Clube da Esquina, da psicodelia nordestina, do indie rock, do choro, do jazz, do techno e da rave.


Depois de se estabelecer em Uberlândia (MG), o grupo passou de um duo a uma formação mais ampla e flexível. O processo foi impulsionado pelo retorno dos integrantes à cidade no período pós-pandemia. “No fim da pandemia, regressamos a Uberlândia, e ali tudo mudou. A cidade grande influenciou em tudo. O que antes era duo se transformou em banda completa, formando também uma amizade sólida”, conta a banda.


Após os EPs Oblomov (2019) e Oblomov II (2021), ambos produzidos de forma independente, a banda apresenta seu primeiro álbum, Questão de fogo. Marcado por camadas de guitarra, batidas mais pulsantes e novas possibilidades de experimentação, o disco inaugura uma nova fase do grupo, que mantém a psicodelia como ponto de partida enquanto amplia suas referências e explora diferentes caminhos de criação.


Produzido de maneira independente pela própria banda, em parceria com Vitória Saiago, o álbum foi construído sem um conceito prévio, mas encontrou posteriormente na ideia de mudança seu eixo central. “Percebemos, então, que o álbum era sobre isso: a mudança. O fogo poderia representar esse símbolo de transformação. Daí surgiu o nome Questão de fogo”, explicam.


Nessa entrevista, a banda fala sobre a sua trajetória desde sua formação em Goiás até a consolidação em Uberlândia, a influência da cena independente local e o processo coletivo e autônomo de criação de Questão de fogo. Entre os temas discutidos estão a mudança e a transformação como eixos do disco, as experimentações sonoras, as participações de outros artistas, a convivência entre os integrantes e a importância do apartamento que serviu como espaço de ensaio e gravação. A banda também comenta a relação da banda com outras linguagens artísticas, o espírito do “faça você mesmo”, os desafios da produção independente e os caminhos que a Oblomov pretende explorar após o lançamento do álbum. Leia a entrevista na íntegra!


O álbum Questão de fogo foi composto e gravado ao longo de um período de muitas mudanças para a banda, sem partir de um conceito definido. Como foi esse processo de composição e gravação do álbum? Em que momento vocês perceberam que todas aquelas experiências acabavam convergindo para uma mesma narrativa?

O processo de composição varia bastante de música para música. Algumas foram compostas individualmente, com uma pessoa só compondo; outras foram feitas em dupla, em trio ou com a banda inteira.


“Decidi mudar”, por exemplo, foi criada coletivamente e de maneira espontânea, como uma jam. “Tamarineiro” e “Cansade” partiram de bases harmônicas criadas pelo Sidiminuto, sobre as quais a Jô colocou letra. “Perererou” e “Amei Demais” foram processos criativos da Jô e do José. Já “Pavão Azul” e “Questão de Fogo” foram compostas de maneira mais individual pela Jô.


Apesar dessas variações nos processos de composição, a materialização das músicas — tocar e gravar — contou com a participação de todo mundo, ainda que as pessoas responsáveis pelos instrumentos variassem bastante de uma faixa para outra. Em algumas músicas, José Eduardo toca bateria; em outras, José Neto, por exemplo. Algumas foram gravadas faixa por faixa, enquanto outras tiveram a base registrada ao vivo, com todos tocando ao mesmo tempo, na casa do nosso amigo Miguel Lima.


Outro ponto importante foram algumas espécies de co-composições que aconteceram durante e depois das gravações. Em “Pavão Azul”, por exemplo, o saxofonista e compositor J. G. Joshua acrescentou linhas de flauta que mudaram completamente a música. O mesmo aconteceu com as participações de Clóvis Cosmo, Miguel Lima e Dinho Almeida, respectivamente, em “Cabeça de Pedra”, “Tamarineiro” e “Amei Demais”. Hoje, não conseguimos mais imaginar essas músicas sem essas participações.


Ao final de todo o processo, nos reunimos com nossa produtora, Vitória Saiago, para pensar sobre o álbum. Percebemos, então, que a mudança era um tema recorrente no disco, fosse de forma direta ou indireta. “Questão de Fogo” começa melancólica e depois se transforma em revolta. “Dos Trilhos” fala do desejo de ser quem se é. “Decidi Mudar” expressa literalmente essa vontade de mudança.

Percebemos, então, que o álbum era sobre isso: a mudança. O fogo poderia representar esse símbolo de transformação. Daí surgiu o nome Questão de fogo.


O álbum nasce de um período de mudanças pessoais e geográficas, especialmente com o retorno a Uberlândia. Como essa volta à cidade influenciou a escrita, os ensaios e a sonoridade do disco?

Antes de responder, é importante esclarecer que a banda surgiu como um duo em Goiás, fundado por Jô Queiroz e José Eduardo. Em 2019, Jô passou na UFU. Em 2020, foi a vez de José. Foi a primeira ida dos dois para Uberlândia. Com a pandemia, eles retornaram para São Simão.

No fim da pandemia, regressaram a Uberlândia, e ali tudo mudou. A cidade grande influenciou em tudo. O que antes era um duo se transformou em uma banda completa, formando também uma amizade sólida.


Em Uberlândia, pudemos, enquanto banda e grupo de amigues, assistir a shows de artistas que admiramos, ter lugares para tocar juntes e, por último, mas não menos importante, acessar a Universidade Federal de Uberlândia e as aulas de música. Afinal, foi lá que nos conhecemos, no curso de Música da UFU. Tudo isso nos influenciou muito.


O que a cena independente de Uberlândia ofereceu para a banda e como ela ajudou a moldar a identidade musical do grupo?

Acreditamos que a cena independente nos deu várias oportunidades, principalmente por meio de coletivos que abriram espaço para nossos primeiros shows, quando ninguém conhecia nosso som.

A cena independente é formada por muitas pessoas tentando fazer o rolê acontecer. Nesses espaços, fizemos alguns shows de graça, mas, em determinado momento, passamos a ser mais conhecides na cidade. Capivara Rock, Feirinha do Amor, Cena Cerrado, Funkse, Festival Manso, Dboche, Casa Verde e Porão Estúdio foram algumas das iniciativas que nos ajudaram muito nessa jornada.


Quanto às influências, existem vários fluxos que vão além do rock, embora passem por ele. Temos profunda admiração por Jack Will, percussionista incrível e padrinho cordial. O choro também é um movimento que amamos muito, com nosso outro padrinho, Wellington Gama. Jazz, choro, techno, rave, arte drag: tudo isso agregou de alguma forma, em diferentes níveis de intensidade para cada integrante.


Esses espaços também nos deram a possibilidade de conhecer muitas pessoas de outras áreas, principalmente das artes visuais, com as quais tivemos uma troca mais intensa. Entre essas experiências estão as live paintings de Gab Motah, uma das quais acabou se tornando capa de single, a maquete feita por Diany Dias e os designs de Bruno Aleixo. Outras pessoas queridas que conhecemos no caminho e que vale mencionar são AGABI e Murilo “Verso”.


Uberlândia ocupa um lugar curioso na música brasileira: tem uma produção intensa, mas muitas vezes fica fora dos grandes holofotes. Como vocês enxergam a cena local hoje e o papel da Oblomov dentro dela?

Uberlândia já teve um papel muito importante na cena independente, especialmente durante o circuito Fora do Eixo, o Goma e a Jambolada. São movimentos que não vivemos diretamente, mas cuja importância conhecemos.

Chegamos depois da pandemia, em outro contexto, em uma cidade onde existe de tudo, mas não em grande quantidade.


Aqui, os nichos vão se constituindo a partir de determinados grupos de pessoas que se reúnem em torno de cada movimento. Há algumas bandas psicodélicas, coletivos de techno, bandas de hardcore, grupos de choro regional, músicos de jazz e bandas de punk.


Talvez nosso papel seja reunir algumas dessas pessoas, fazer um som psicodélico, compor, gravar, divulgar e proporcionar momentos, seja em uma gravação ou em um show ao vivo. Ou talvez nosso papel esteja relacionado a algo que ultrapasse a música: o coletivo, a possibilidade de reunir pessoas que querem estar juntas. Às vezes, um show reúne jovens, pessoas mais velhas e trabalhadores de diferentes áreas em um mesmo público.


O alternativo é uma alternativa ao mainstream. Sempre buscamos incluir improvisos, viagens, experimentações e sons específicos, seja em um show ou em um disco.

Acreditamos que existe muita coisa nessa cena que ainda não conhecemos, então não temos propriedade para dar uma resposta tão completa quanto gostaríamos. Quanto ao nosso papel, acreditamos que esteja ligado principalmente à psicodelia.


O disco reúne participações de Dinho Almeida, Clóvis Cosmo e J. G. Joshua, artistas com trajetórias bastante distintas. Como surgiram esses encontros e de que maneira cada colaboração contribuiu para a construção das faixas?

Todos são amizades construídas a partir de uma sintonia musical em comum. Foram pessoas que conhecemos em diferentes momentos da vida e em diferentes contextos.


Clóvis é de Uberlândia e já teve projetos com membros da Oblomov, o que proporcionou diversas trocas. Tanto em “Cabeça de Pedra” quanto em “Dos Trilhos”, ele acrescentou partes que se somaram muito aos arranjos. Ele tem essa capacidade de trabalhar com o ruído e de inserir diversos detalhes de percussão nas músicas. É um artista muito criativo e um ótimo arranjador. Quando o convidamos, já imaginávamos que ele daria às músicas aquele elemento que estava faltando.


Conhecemos Joshua em Brasília, no CIVEBRA (Curso Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília). Ele é um grande músico, saxofonista e flautista multifacetado, embora atue principalmente no jazz.


Os processos de sua participação em “Tamarineiro” e “Pavão Azul” foram bastante espontâneos. Cantávamos a melodia, ele a compreendia imediatamente e acrescentava ideias maravilhosas, que enriqueciam muito as músicas. Já Dinho foi um pouco diferente. Antes de conhecê-lo, já havia uma grande admiração por seu trabalho no Boogarins.


Quando compusemos a canção, pensamos que ela tinha relação com ele e com o Boogarins. Por isso, decidimos fazer o convite, que ele felizmente aceitou.n Pensamos nas partes que ele cantaria e demos liberdade para que fizesse o que quisesse. Ele brincou muito com sua voz. Sua participação deixou uma marca na música e alterou até mesmo a maneira como a cantamos. Além dessas, houve outras participações muito importantes.


Miguel, com seu violão de sete cordas, trouxe uma brasilidade ainda maior para “Tamarineiro”. Neei, gênio da percussão, colocou cuíca em “Perererou” e congas em “Pavão Azul”. Open tocou os teclados em “Questão de Fogo”, e Mikael gravou a percussão nessa faixa. Por fim, Gervásio e Ceci se juntaram ao coro do final de “Tamarineiro”.


Vocês assumiram praticamente todas as etapas da produção do álbum. Em que momentos essa autonomia foi um desafio e em quais ela acabou abrindo possibilidades criativas que talvez não surgissem em um estúdio convencional?

Tivemos liberdade demais sobre o processo criativo. Poderíamos fazer as coisas de mil maneiras diferentes. Foi difícil encontrar apenas uma possibilidade e, por isso, fomos testando várias, até nos perdermos um pouco nessa procura.


Também foi difícil tomar decisões finais e abandonar ideias pré-concebidas sobre como queríamos o som para abraçar aquilo que era possível fazer. Foi preciso aprender a confiar no processo. Nessas idas e vindas, não há uma música que tenha ficado igual à outra.

Outros desafios foram os compromissos da vida, a dificuldade de encontrar um lugar onde pudéssemos tocar em volume alto e a dificuldade de encontrar tempo para experimentar com as músicas novas e fazer isso com frequência.



A capa retrata justamente o apartamento onde aconteceram os ensaios e boa parte da convivência da banda. Que importância esse espaço teve para a construção de Questão de fogo e o que ele simboliza para vocês hoje?

Foi muito importante. Tudo passa pela Tita e pela Pitu, as gatinhas do José Eduardo (risos). Ali era nosso espaço de ensaio, gravação, mixagem e reuniões. Depois de nossas próprias casas, talvez fosse o lugar que mais frequentávamos.


Os encontros naquele espaço surgiram muito de uma necessidade que sentimos de conviver para além dos shows: ouvir discos juntes, conversar, almoçar, ouvir um vinil.

Talvez esse espaço tenha permitido que nos aproximássemos para além do som, o que, paradoxalmente, influencia e melhora a própria música, pois nos proporciona mais afinidade e entendimento da sensibilidade de cada um.


Após o lançamento do álbum, quais caminhos artísticos a Oblomov pretende explorar daqui para frente?

As possibilidades são várias e temos muitas ideias. Queremos fazer clipes, ampliar os caminhos artísticos e colaborar com outros artistas, tanto das artes visuais quanto de outras áreas.

Também queremos fazer turnês e lançar novos álbuns, mantendo a ideia do “faça você mesmo”, mas buscando realizar esse processo com mais facilidade, agora que já passamos por toda essa experiência criativa.



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