Distorção, ratos mortos e delicadeza: por dentro do novo disco de Lúcia Vulcano

Entre a distorção das guitarras, a contundência das letras e a abertura para a vulnerabilidade, Lúcia Vulcano constrói em chucra & sensível um trabalho que explora os contrastes de sua identidade artística. Lançado como seu segundo álbum solo, depois de vim, vi e me fudi (2024), o disco reúne oito faixas concebidas para formar um conjunto coeso, no qual a aspereza e a delicadeza convivem sem se anularem.
Com referências que atravessam o grunge, o heavy metal e a música brasileira, o álbum transita por diferentes atmosferas e sonoridades. Nomes como L7, Soundgarden, Black Sabbath, Hole, Jeff Buckley e Marília Mendonça ajudam a compor o universo musical de Lúcia, que também revisita “Eu Sei de Cor”.
Na construção do disco, a parceria com o produtor Rafael Dutra e a colaboração de outros músicos contribuíram para dar forma às oito canções. A experiência de Lúcia à frente de seu projeto solo também estabelece um diálogo com sua trajetória na pata, banda da qual fez parte e cuja dinâmica de power trio contrasta com as possibilidades de experimentação de seu trabalho individual.
Além das escolhas musicais, chucra & sensível abre caminhos para reflexões sobre gênero, expectativas sociais e o papel da arte como espaço de expressão e provocação. A concepção visual do álbum, inspirada em imagens de ratos mortos em Belo Horizonte, amplia esse universo ao incorporar elementos de estranhamento e desconforto.
Nesta entrevista, Lúcia fala sobre o processo de composição, as referências e parcerias que atravessam o novo trabalho, a relação com a cena musical de Belo Horizonte e os desafios de fazer música independente. A conversa também aborda os planos de levar o álbum aos palcos e as dificuldades de viabilizar a circulação de artistas fora dos grandes circuitos. Em chucra & sensível, suas diferentes facetas encontram espaço para coexistir, sem que a força precise excluir a delicadeza — ou vice-versa. Leia a entrevista na íntegra!
Em 2024, você lançou seu primeiro disco solo, vim, vi e me fudi, que, aliás, tem um título maravilhoso. Agora, você apresenta chucra & sensível, que também tem um título incrível. O que mudou na sua maneira de compor e pensar sua própria identidade artística entre os dois trabalhos? Você acredita que o novo álbum dá continuidade ao anterior ou pretende trilhar um caminho diferente?
O vim, vi e me fudi foi meio que uma despedida, sabe? Tudo aconteceu um pouco no susto. Eu tinha algumas músicas que haviam sobrado do repertório da minha banda, a pata. A banda continua existindo, mas não temos planos de retomar as atividades.
Entre 2018 e 2019, a gente circulava muito e fazia muitos shows. Então veio a pandemia, e eu estava naquele ritmo frenético, com muita coisa acontecendo. Além de trabalhar com música, eu também sou CLT e, na época, trabalhava com gestão cultural. Com a pandemia, tudo parou, os contratos foram encerrados e muita gente ficou sem trabalho. Foi um período muito difícil.
Como fui obrigada a parar, comecei a repensar várias coisas: se queria continuar fazendo o que fazia e, principalmente, se queria continuar daquela maneira. Ter uma banda independente é bastante estressante, porque você precisa cuidar de tudo, dos mínimos detalhes à revisão de um parágrafo. É muita responsabilidade. Quando parei, percebi que estava cansada daquela dinâmica.
Aos poucos, fui pensando no que queria fazer dali em diante. Já tinha algumas músicas que poderiam entrar em um segundo disco da pata. Nosso único álbum, Shit & Blood, era em inglês e tinha apenas uma música em português. Eu também queria compor mais em português.
Nesse período, comecei a revisitar minhas experiências e pensar no que ainda queria viver. Decidi fazer um disco solo, sem compromisso. Já tinha algumas músicas e pensei: vou aproveitar esse material e ver no que dá. Não queria fazer shows nem assumir nenhuma obrigação, porque estava cansada.
Isso acabou se refletindo no primeiro álbum, que considero mais fragmentado em termos de escolhas musicais, temáticas e estética. Eu não tinha pensado muito em uma unidade conceitual. Simplesmente queria fazer alguma coisa com aquelas músicas. Chamei um grande amigo, que também gravou as guitarras do disco novo, para produzir o trabalho no home studio dele. A gente começou a fazer e foi seguindo.
A pré-produção levou quase oito meses. Eu não tinha cronograma nem grandes expectativas. Queria experimentar para descobrir se ainda tinha vontade de continuar fazendo música daquela maneira.
O resultado acabou sendo muito positivo. As pessoas gostaram bastante, e eu realmente não esperava que houvesse tanta identificação com Ninguém Manda em Mim. Já tinha feito muitas músicas punk, com letras escrachadas, então aquilo não era novidade para mim. Fiquei surpresa ao perceber como a canção foi sendo compartilhada, ganhando público e furando a bolha.
Tanto que só fiz o primeiro show do vim, vi e me fudi mais de um ano depois do lançamento. Eu realmente não queria tocar. Não queria mexer na agenda de outras pessoas, marcar ensaios ou tirar dinheiro do meu bolso para cobrir despesas. A rotina de uma banda independente já tinha sido muito desgastante.
Mas meus amigos começaram a insistir, dizendo que eu precisava tocar porque as pessoas estavam gostando do disco. Acabei fazendo o primeiro show no Estúdio Central, e foi muito legal. Depois, começaram a surgir outros convites. Tocamos na Virada Cultural, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em festivais de Belo Horizonte e também com a Dominatrix, no Fúria.
Nesse meio-tempo, decidi fazer outro disco. É engraçado porque fazer música parece uma espécie de maldição. É tudo muito estressante, mas existe alguma coisa em mim que diz que preciso continuar. É como tomar banho ou comer: preciso fazer isso, não pelos outros, mas por mim mesma. Se realmente não quisesse, não precisaria. Tenho meu trabalho, estou perto dos 40 anos e poderia simplesmente seguir a vida. Mas é um desejo que me acompanha há muito tempo e do qual, felizmente ou infelizmente, não consigo me desvencilhar.
No chucra & sensível, compus as músicas já pensando em um álbum. São oito faixas, incluindo uma versão de Eu Sei de Cor, que ficou conhecida na voz de Marília Mendonça. Durante o processo, descobri que a canção foi composta por quatro pessoas, o que é bastante comum no sertanejo: existe uma rede de compositores que cria músicas e depois as apresenta aos intérpretes.
Acho interessante essa profissão de compositor, que parece ter perdido espaço no rock. Antigamente, também existia muito essa dinâmica de pessoas compondo para diferentes artistas. Acho que gostaria de trabalhar mais como compositora, criando músicas para outras pessoas, em vez de necessariamente ocupar o lugar de artista.
Ainda não virei essa chave. Não componho o tempo todo, e meus trabalhos são pontuais. Quando decido fazer um disco, sento e componho. Não sou alguém que está sempre esperando uma inspiração aparecer para pegar a guitarra e começar a tocar. Para mim, é mais uma questão de decidir fazer.
Acho que essa postura contribuiu para que chucra & sensível tivesse um fio condutor mais definido. Existe uma unidade maior entre a sonoridade, as temáticas e a história que o álbum conta. Essa é a principal diferença em relação ao primeiro disco e talvez seja também o motivo de eu me sentir mais próxima deste trabalho.

O título chucra & sensível traz essa dualidade entre ser sentimentalmente chucra e brutalmente sensível. Como essa oposição se manifesta nas canções e o que revela sobre sua maneira de lidar com sentimentos, comportamentos e relações?
A questão da sensibilidade é relativamente nova para mim. Sempre me considerei uma pessoa mais rústica, mas percebi que as pessoas já sabiam que eu era sensível antes mesmo de eu reconhecer isso em mim. Eu me via como alguém durona, mas havia uma vulnerabilidade que eu ainda não tinha aprendido a aceitar.
Esse processo de entender que sou sensível e que não há problema nisso foi importante. A vulnerabilidade pode coexistir com a rusticidade, com a brutalidade e com aquilo que considero chucro. Gosto muito dessa palavra.
Tem a ver com aceitar uma dualidade que não precisa ser resolvida. Uma coisa não precisa justificar nem anular a outra. Elas simplesmente coexistem.
No disco, isso aparece de maneiras diferentes. Algumas músicas são mais pesadas, com bastante distorção, enquanto Tudo que existe nessa terra é maldito é mais leve e cadenciada. A Bruna Vilela gravou as guitarras dessa faixa, e o resultado ficou maravilhoso. Ela é muito talentosa e foi a primeira pessoa em quem pensei para esse trabalho.
Mas a sensibilidade também aparece em músicas pesadas, como Demônio de Minas Gerais e Monstro. Animal também tem essa dimensão, com aquele sentimento de não aguentar mais ser humano e querer se transformar em um animal. São diferentes formas de expressar essa vulnerabilidade. Nem sempre ela está evidente na sonoridade; às vezes, está naquilo que a música diz.
Você descreve a composição como parte da rotina, quase uma necessidade cotidiana. Como foi o processo de construção deste álbum? Houve alguma mudança na sua maneira de trabalhar?
A composição acontece de forma relativamente rápida. Consigo criar a estrutura inicial de uma música em pouco tempo. Tenho uma interface de áudio de dois canais, gravo guitarra e voz e vou trabalhando a partir dessas primeiras ideias. Depois, reviso e ajusto os detalhes para chegar mais perto do que quero transmitir.
Mas a composição não depende apenas de mim. Embora comece como um processo solitário, ela se transforma em algo coletivo à medida que outras pessoas participam.
Eu sempre quis fazer um álbum com oito músicas. É uma quantidade que considero ideal: um disco curto, mas não tão curto, que me permite trabalhar bem o material sem tornar o processo excessivamente desgastante. Meu principal argumento é que o Black Sabbath já fez muitos discos assim. Se eles podem fazer, eu também posso.
Durante a composição deste álbum, fiquei com preguiça de escrever uma das músicas e pedi ao Porquinho, do grupo Porco, que compusesse algo para mim. Falei que queria uma coisa com uma pegada próxima de Alice in Chains, e ele me trouxe Hábito. Depois que ele fez o instrumental, fiz a letra e a melodia vocal.
O Rafael Dutra, que produziu o disco, também propõe muitas ideias durante o processo. Ele sugere uma guitarra, um efeito ou algum detalhe, e eu avalio. Uma contribuição importante dele foi a utilização de efeitos vocais que não fazem parte do meu repertório habitual de referências. Ele trouxe possibilidades diferentes, nas quais eu provavelmente não teria pensado sozinha.
A Bruna também teve uma contribuição fundamental em Tudo que existe nessa terra é maldito. Eu queria uma música mais vazia, que transmitisse abandono e desespero. A faixa era mais rápida, em um compasso de 6/8, mas decidi desacelerá-la e buscar outra sensação rítmica. Expliquei a ideia para ela, e a resposta veio de uma maneira que achei maravilhosa.
O Rafael também acrescentou guitarras, e o Fernando Bones trouxe linhas de baixo muito interessantes. Então, apesar de a composição começar de maneira individual, o resultado final depende bastante da participação dos músicos.
Você citou referências como L7, Soundgarden, Black Sabbath e Hole, mas também artistas como Jeff Buckley e Marília Mendonça. Como essas influências tão distintas se encontram na construção da sonoridade do álbum?
Não é algo intencional. Acho que essas diferenças se encontram naturalmente ao longo da vida, por meio das experiências e das coisas que a gente escuta. Não sento para compor pensando que vou fazer uma música com a sonoridade de determinada banda.
Meu jeito de compor é um pouco imprevisível, com muitas mudanças de compasso e quebras de expectativa. Isso vem de tudo o que vivi e processei ao longo dos meus 38 anos. Não saberia apontar uma influência específica para cada escolha.
Essas referências costumam aparecer depois que a música está pronta. Na etapa de produção, consigo pensar em determinado elemento que gostaria de acrescentar ou em uma sonoridade que quero explorar. Nesse momento, faz sentido usar alguma referência como ponto de partida.
Mas o processo de composição em si é mais orgânico. Não penso em reproduzir o som de um artista específico. As influências fazem parte de quem sou e acabam aparecendo naturalmente na música.

Você comentou que o trabalho solo também é um processo coletivo. O álbum reúne músicos como Pedro Esteves, Bruna Vilela, Fernando Bones e Ciro Trevisan, além do próprio Rafael. Como se deu essa construção coletiva e de que maneira as contribuições deles ajudaram a definir o resultado do disco?
São pessoas que conheci ao longo da vida. Quando você começa a trabalhar com música, acaba conhecendo muitos músicos, e tive a sorte de encontrar pessoas talentosas e com quem é agradável trabalhar.
O Ciro, por exemplo, eu conheci anos atrás, em uma festa na casa de um amigo. Achei ele muito legal, trocamos contatos e continuamos nos acompanhando pelas redes sociais. Quando precisei de um baterista para o disco, lembrei dele porque já conhecia um pouco do trabalho que fazia, inclusive com projetos ligados ao metal. Queria explorar alguns elementos dessa sonoridade, e achei que ele poderia contribuir.
Acho que o processo coletivo aconteceu principalmente dentro do estúdio. O Rafael é muito talentoso e consegue criar um ambiente em que as ideias surgem durante a gravação. Você passa horas imerso naquele trabalho e, de repente, aparece uma solução que não teria surgido antes.
Ele também dá espaço para cada músico desenvolver suas próprias ideias. Se a Bruna chega com uma proposta de guitarra, por exemplo, ele não tenta impor uma maneira diferente de fazer. Procura entender como aquela ideia pode ser complementada. Isso é muito importante para mim: as contribuições precisam ampliar o trabalho, não se sobrepor às ideias de quem está tocando.
É um processo que me lembra um pouco o trabalho de Steve Albini, que preferia ser creditado como engenheiro de som, e não como produtor. A ideia era captar o que o artista tinha a oferecer e fazer aquilo soar da melhor maneira possível, sem determinar como a música deveria ser construída.
Sua trajetória na pata também foi importante para sua formação musical. Quais são as principais diferenças entre compor e tocar em uma banda e desenvolver um projeto solo? O que você consegue explorar hoje que talvez fosse diferente naquele contexto coletivo?
Mesmo no projeto solo, existe um processo coletivo, mas o direcionamento final fica comigo. A música é minha, a carreira é minha e, quando preciso escolher entre caminhos diferentes, sou eu quem toma a decisão.
Na época da pata, essas decisões eram compartilhadas entre três pessoas. Quando gravamos Shit & Blood, por exemplo, a gente se reunia para ouvir as músicas e discutir os arranjos. Às vezes, eu gostava de uma ideia, outra pessoa discordava, alguém apresentava uma alternativa e tentávamos chegar a um consenso.
Era um processo muito interessante, porque eu também aprendia a ouvir as outras pessoas. Lembro de situações em que detestei alguma ideia inicialmente, mas, depois de conversar com os integrantes da banda, percebi que fazia sentido e passei a gostar do resultado.
No projeto solo, perco um pouco dessa troca na hora de tomar decisões, mas ganho liberdade para seguir uma direção mais pessoal. O trabalho acaba ficando mais idiossincrático, mais ligado às minhas escolhas e àquilo que quero expressar.
Na composição, também me sinto mais livre. Quando tocava na pata, eu chegava a escrever partes de bateria e baixo, além de escrever partituras, mesmo sem dominar esses instrumentos. Às vezes, criava coisas praticamente impossíveis de executar e precisava adaptá-las com os outros músicos.
Hoje, sinto que o processo é um pouco mais orgânico. Continuo compondo de maneira intuitiva, sem ficar pensando tecnicamente em cada mudança de compasso. Para mim, a música precisa fazer sentido. Talvez isso não seja tão óbvio para quem ouve, mas é assim que funciona na minha cabeça.

O título chucra & sensível também permite pensar nas expectativas impostas às mulheres, frequentemente cobradas por delicadeza e controle emocional, mas vistas com estranhamento quando demonstram firmeza ou agressividade. Você acredita que essa dimensão está presente no disco? Assumir esse lugar de mulher chucra também pode significar rejeitar comportamentos que a sociedade espera de você?
Acho que sim, mas isso sempre foi muito natural para mim. Desde a infância, lembro de situações em que esperavam determinadas coisas de mim que simplesmente não faziam sentido. Eram questões práticas. Quando eu era criança, por exemplo, usava-se saia na escola, mas, se você usasse saia, não podia mostrar a calcinha. Então precisava ficar mais quietinha, tomar cuidado ao brincar e segurar a roupa em determinadas situações.
Lembro de pensar que não queria me preocupar com aquilo durante o dia. Se os meninos podiam usar short, por que eu não podia? Eu simplesmente não queria usar saia. Preferia ir de short e brincar sem precisar ficar pensando nessas coisas. Era uma questão que já aparecia no jardim de infância.
Essas experiências me fizeram questionar muito cedo as expectativas sobre o que uma mulher deveria ser e como deveria se comportar. Também me fazem pensar no que chamamos de feminino e masculino. Será que essas categorias realmente definem quem somos? Será que existe uma maneira única de expressar essas identidades ou elas são muito mais diversas, atravessadas por diferentes possibilidades?
Não acho que o comportamento de alguém deva ser determinado pelo sexo com que nasceu. Essas imposições limitam muito a individualidade.
A própria masculinidade pode funcionar como uma prisão. Existe essa ideia de que homem não pode chorar…
Não pode dançar determinada música ou demonstrar certos sentimentos sem que sua sexualidade seja questionada.
Tudo isso é muito limitador. Não deveria existir uma obrigação de se comportar de determinada maneira para ser reconhecido como homem ou mulher.
Acho que a postura chucra de uma mulher nem sempre é bem-vista porque parece que ninguém gosta de uma mulher que sabe o que quer, que estabelece limites e consegue dizer não. Quando um homem faz isso, costuma ser considerado assertivo. Quando uma mulher faz a mesma coisa, pode ser vista como grosseira ou difícil.
Essa diferença de tratamento me incomoda. Existe uma ideia de que a firmeza e a capacidade de se impor seriam características exclusivamente masculinas, quando, na verdade, são características humanas.
Ao mesmo tempo, acho importante reconhecer a sensibilidade. Os brutos também amam. Uma coisa não exclui a outra, e acredito que essa convivência entre diferentes aspectos da personalidade está presente no disco.

Acompanho seu trabalho e suas redes sociais, e vejo que sua própria expressão artística também carrega uma dimensão política. Em uma sociedade marcada pela misoginia e pela violência de gênero, como você entende a relação entre música e posicionamento político? Você acredita que a arte precisa assumir explicitamente um discurso de enfrentamento ou essa também não é uma obrigação de todo artista?
Acho que não é uma obrigação. Para mim, a arte tem muito a ver com o desconforto, com aquilo que tira a gente do lugar em que está acostumado a viver. Às vezes, você escuta uma música ou assiste a um filme e fica impactado, começa a pensar que a vida talvez seja diferente daquilo que sempre imaginou. Nem sempre consegue explicar por que determinada obra provocou essa sensação.
Acho que esse é um dos papéis do artista: provocar alguma coisa, fazer as pessoas pensarem e tirá-las um pouco do cotidiano. Se esse impacto vai se transformar em uma reflexão política, depende de cada pessoa.
É claro que a arte pode ser explicitamente política, e acho isso importante. Mas não acredito que uma mulher precise escrever uma música sobre ser mulher para que seu trabalho tenha valor. Nem toda canção precisa tratar diretamente de questões de gênero ou apresentar uma mensagem de enfrentamento.
Em Ninguém Manda em Mim, por exemplo, falo sobre não querer usar botox, aceitar o envelhecimento, ter barriga e viver sem me preocupar tanto com a opinião dos outros. Não sentei para escrever uma música sobre me libertar das imposições de gênero. Essas ideias surgiram naturalmente.
Acho que parte do espanto que a música provoca vem justamente disso: da possibilidade de uma mulher querer envelhecer, ter barriga, beber, se divertir e simplesmente viver sem estar preocupada com o que os outros pensam sobre sua aparência. Ela está vivendo, feliz, fazendo suas coisas e seguindo em frente.
A arte pode ter esse papel sem necessariamente ser panfletária. Gosto de música com uma mensagem política explícita, como acontece em parte do punk rock, mas não acho que exista uma obrigação de fazer isso.
Ao mesmo tempo, considero importante que artistas se posicionem, especialmente aqueles que construíram suas carreiras com o apoio de públicos historicamente marginalizados, como mulheres e pessoas LGBT+. É importante assumir responsabilidades diante das questões do nosso tempo. Isso não significa, porém, que toda obra precise carregar uma mensagem política explícita.
Uma música sobre estar com os amigos, beber e ser feliz também pode ter uma dimensão política. A própria felicidade pode ser uma forma de resistência.
Suas letras combinam sarcasmo, agressividade e sentimentalismo. Como você trabalha essas diferentes emoções sem suavizar suas contradições?
Não penso muito sobre isso. Para mim, as letras surgem de maneira bastante natural, quase inconsciente. Sei que existem pessoas que trabalham a escrita como um processo muito consciente, lapidando cada palavra, pensando na prosódia e fazendo várias revisões. Eu não costumo trabalhar dessa forma.
Às vezes, faço ajustes por causa da métrica. Preciso tirar uma palavra, mudar a ordem de uma frase ou encontrar uma maneira diferente de expressar determinada ideia. O português pode ser desafiador nesse sentido, porque, em inglês, às vezes você consegue colocar mais informação em um espaço menor, enquanto em português precisa fazer mais malabarismos com as palavras.
Mas, em relação aos sentimentos e às temáticas, não existe um planejamento muito racional. As coisas vão surgindo, como se já estivessem ali, borbulhando em algum lugar da minha cabeça, até encontrarem uma maneira de sair.
A capa do álbum nasceu de fotografias de ratos mortos encontrados pelas ruas de Belo Horizonte, em um processo que se estendeu por quase um ano. Como essa imagem se conectou ao universo de chucra & sensível?
No começo, não pensei em uma relação direta com o conceito do disco. Foi mais uma experiência parecida com aquilo que falei sobre o papel da arte: alguma coisa me tirou do cotidiano e me fez parar para olhar.
Depois de um dia de chuva, encontrei um rato morto perto de um bueiro. Ele estava com o pelo todo arrumadinho, como se tivesse o cabelo repartido de lado, e tinha uma expressão que me pareceu quase dócil. Uma das patinhas estava presa em uma parte do bueiro. Imaginei que ele tivesse morrido afogado e fiquei triste com aquela cena.
Parei para olhar, sentir pena daquele animal e tirar uma fotografia. Fiquei pensando em como a vida pode ser brutal. Era um animalzinho que simplesmente não conseguiu escapar. A partir daquele momento, pensei que aquela imagem poderia ser a capa do meu disco.
Durante um tempo, achei que usaria justamente aquela primeira fotografia. Depois, comecei a encontrar tantos ratos mortos que passei a fotografá-los para escolher a imagem mais adequada. A capa acabou surgindo desse processo de observação do cotidiano.
A fotografia escolhida tem uma composição interessante e não é tão explícita quanto algumas das outras que fiz. Ela permite que as pessoas construam uma narrativa própria a partir da imagem, sem provocar uma repulsa imediata.
Também pensei na tradição de capas mais grotescas, especialmente no punk e no metal extremo, que usam imagens capazes de provocar choque. Essa possibilidade passou pela minha cabeça, mas, no fim, a fotografia escolhida foi a mais votada pelos meus amigos, justamente por ter um enquadramento mais interessante e funcionar melhor como capa de disco.
Depois que fecharam o bueiro, voltei ao local e fotografei a cena no mesmo ângulo. Pensei que, se um dia lançar o álbum em formato físico, essa imagem poderá aparecer na contracapa.
Cheguei a considerar outras fotografias muito mais explícitas, algumas com imagens bastante fortes, mas meus amigos acharam que seriam excessivas. No fim, acredito que a escolha foi acertada. A capa mantém essa relação com a brutalidade e com o cotidiano, mas deixa espaço para a sensibilidade e para a interpretação de quem olha.

Belo Horizonte também faz parte da história de produção e desenvolvimento do álbum. Qual é a importância da cidade, das relações construídas nesse ambiente e da cena musical local na sua formação e na realização desse trabalho?
Tudo. Belo Horizonte é onde vivi, onde estão minha família, meus amigos e o Clube Atlético Mineiro. Não teria como fazer alguma coisa que não viesse também desse lugar, porque ele faz parte de mim.
Acho engraçado falar em cena musical, porque, para mim, são simplesmente meus amigos. Talvez seja necessário um olhar mais institucional para identificar quem são as pessoas envolvidas, quais projetos desenvolvem e como tudo isso se conecta. Mas, musicalmente, não vejo necessariamente uma cena com uma identidade estética única, uma sonoridade ou uma temática comum.
Existem muitas bandas e pessoas talentosas fazendo trabalhos diferentes, que acabam se encontrando. Vejo essa diversidade como uma característica importante do ambiente musical de Belo Horizonte.
Minha relação com a cidade aparece no trabalho porque faz parte da minha vida. Não é uma decisão calculada, como se eu pensasse que preciso fazer uma música sobre Belo Horizonte ou mencionar Minas Gerais. É simplesmente quem eu sou, onde vivo e o que experimento. Minha família, meus amigos, o Galo: tudo isso faz parte da minha identidade.
Às vezes, existe uma cobrança para que a música feita em Minas Gerais consiga alcançar outros lugares, como se falar muito da própria realidade fosse um obstáculo para chegar a outros públicos. Mas acho que isso tem muito a ver com uma visão centralizadora da cultura brasileira.
O Rio de Janeiro, por exemplo, muitas vezes é tratado como se representasse o Brasil inteiro. O samba é maravilhoso, mas o Brasil não se resume a ele. Todas as regiões precisam ter liberdade para expressar suas próprias experiências.
Não vou fingir ser alguém que não sou para tentar alcançar determinado público. Não componho pensando deliberadamente em representar Belo Horizonte, mas também não tenho como me dissociar da minha história. O lugar de onde venho está presente na minha música porque está presente em mim.
Para encerrar, agora que chucra & sensível acaba de ser lançado, quais são seus planos para apresentar o álbum ao público e ampliar sua circulação? Que caminhos pretende explorar nos próximos meses e que tipo de diálogo gostaria de construir com os ouvintes?
Esse é um grande desafio, porque circular está muito caro. Minha banda é formada por cinco pessoas, então precisamos considerar transporte, alimentação, cachês e todas as despesas envolvidas. Na prática, é muito difícil viabilizar uma circulação independente.
Ainda assim, quero fazer o disco chegar a mais lugares, até porque tenho gostado muito de tocar ao vivo. Uma das vantagens do projeto solo é que não preciso mais carregar guitarra e equipamentos. Chego, levo o microfone e tenho menos responsabilidades na montagem do palco. É uma mudança que facilita um pouco as coisas.
Já temos shows marcados em Belo Horizonte, no dia 6 de novembro, e em São Paulo, no dia 7 de novembro. Também estou fechando uma apresentação no Rio de Janeiro para 12 de dezembro. A ideia é continuar trabalhando para que o álbum circule, embora ainda existam limitações financeiras importantes.
Recebo mensagens de pessoas querendo que eu toque no Nordeste, em Curitiba, em Brasília e em outras cidades. Fico muito feliz com esse interesse e tenho vontade de ir, mas preciso encontrar maneiras de viabilizar essas apresentações.
Talvez, no futuro, eu consiga trabalhar com pessoas que cuidem dessa parte da carreira ou encontrar recursos para investir na circulação. Ainda estou tentando entender como organizar essa estrutura. Por enquanto, sou eu quem precisa resolver praticamente tudo.
Faço questão de falar sobre a questão financeira porque essa é a realidade de muitos artistas independentes. Às vezes, as pessoas interpretam isso como vitimismo, mas é uma limitação concreta que pode impedir alguém de levar seu trabalho adiante. E, na tentativa de realizar um desejo, você acaba entrando em situações complicadas.
Com a pata, por exemplo, já tivemos experiências difíceis. Em uma ocasião, ficamos presos no Rio de Janeiro durante a greve dos caminhoneiros, sem saber muito bem como resolver a situação. Quando você quer muito fazer música, acaba enfrentando uma série de dificuldades porque tem aquele desejo de continuar, de tocar, de fazer o trabalho acontecer.
Mas existe um limite. Nem todo mundo tem uma família com dinheiro, contatos ou uma estrutura que permita sustentar uma carreira artística. Na minha família, ninguém é músico, e não tenho grandes recursos para investir nisso. O que tenho é a vontade de fazer música e o trabalho que consigo colocar no mundo.
Se um dia aparecerem condições melhores, certamente vou aproveitar as oportunidades. Por enquanto, vou avançando aos poucos, dentro das minhas possibilidades.
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