Drowned celebra três décadas de resistência e dedicação ao metal extremo

Nascido em Belo Horizonte, em 1994, o Drowned atravessou diferentes gerações, transformações na indústria fonográfica e mudanças profundas na maneira de produzir, distribuir e consumir música. Em uma trajetória construída longe das concessões e sustentada pela independência artística, a banda consolidou seu nome no metal extremo brasileiro sem abrir mão de uma característica que permanece central desde os primeiros registros: a disposição de confrontar as contradições de seu tempo.
Desde a demo Where Dark and Light Divide… e a chegada à Cogumelo Records, o grupo construiu uma discografia marcada pela inquietação e pela recusa em permanecer dentro de fórmulas estabelecidas. De Bonegrinder, primeiro álbum, a Abismo, EP mais recente, cada lançamento representa uma etapa particular dessa caminhada, na qual a brutalidade sonora convive com experimentações e uma abordagem lírica cada vez mais direta. Não por acaso, a decisão de abandonar o inglês e passar a cantar em português aprofundou a relação entre música, identidade e realidade social. Como observa a banda, cantar na língua materna confere às composições “uma carga agressiva muito maior”.
A história do Drowned também se confunde com a própria tradição do metal de Belo Horizonte, cidade cuja produção extrema ajudou a projetar o Brasil no mapa internacional do gênero. Mais do que uma referência geográfica, essa origem representa uma vivência construída nos shows, nas amizades e na convivência com bandas que fizeram da diversidade e da personalidade artística marcas da cena local. É nesse ambiente que o grupo encontra parte de sua identidade e do sentido de continuidade que o mantém ativo.
Na formação atual, Fernando Lima (vocal), Marcos Amorim (guitarra), Rodrigo Nunes (baixo) e Beto Loureiro (bateria) seguem conduzindo essa trajetória, conciliando a preservação de uma história de quase três décadas com a necessidade de continuar produzindo e provocando.
Nesta entrevista, Fernando Lima revisita suas origens, reflete sobre a preservação de seu catálogo por meio de relançamentos remasterizados e explica o processo de regravação, em português, de músicas originalmente compostas em inglês. A conversa também percorre as relações entre música extrema e posicionamento político, o papel da cena independente diante da lógica dos algoritmos e do streaming, a transformação do metal em produto de mercado e a importância da transmissão de seu legado entre gerações.
Sem disfarçar suas convicções, a banda fala sobre consciência de classe, conservadorismo, desigualdade e a necessidade de transformar indignação em expressão artística. Ao discutir a diferença entre ressentimento e revolta, o grupo reafirma que sua música não existe apenas para provocar impacto sonoro, mas também para despertar reflexão. Leia a entrevista na íntegra!
O Drowned nasceu em Belo Horizonte em 1994 e atravessou mais de três décadas de transformações na música e na própria sociedade. Olhando para aquele início, o que ainda permanece no DNA da banda?
Primeiro, obrigado por esta oportunidade de mostrar nosso trabalho e falar um pouco sobre a banda.Eu posso falar que o Drowned foi crescendo ao longo desses anos de carreira. Fomos nos adaptando e refletindo cada momento de mudança tanto musical quanto social. O mais importante é que o Drowned sempre foi uma banda contestadora e questionadora da sociedade pseudomoralista e conservadora cristã. Agora que mudamos do inglês para o português, esta mensagem está cada vez mais clara. Na parte instrumental, nunca fomos presos a um tipo de “regra” do que pode ou não pode. Temos nossas referências, mas também ouvimos sons novos, e exploramos de várias maneiras e tentamos deixar tudo o mais criativo possível. Apesar de cada disco nosso ser diferente um do outro, ainda sim é possível identificar que é um álbum do Drowned.
Em algum momento vocês perceberam que o Drowned havia deixado de ser apenas uma banda para se tornar parte da história do metal de Belo Horizonte e do Brasil? Como vocês enxergam esse legado hoje?
O Drowned é motivo de orgulho para cada integrante. Desde o dia em que gravamos a demo “Where Dark and Light Divide…”, assinamos com a Cogumelo Records até hoje, sempre tivemos muito orgulho de ser da cena de Belo Horizonte. Dedicamos muito para esta arte e hoje quando vejo que ainda somos relevantes e temos algo a dizer e pessoas que querem nos ouvir, quase 30 anos depois. Nossa história é de resistência e amor a arte da música extrema. Recentemente, algumas pessoas nos shows me falam que seus pais ouviam o Drowned e agora, eles ouvem também. Quando a música passa de uma geração para outra, conseguimos ter mais noção de que estamos fazendo história.O mais importante a meu ver, é ter uma história sempre em construção. Enquanto tivermos energia vamos seguindo sempre em frente.
Vocês atravessaram diferentes gerações, formatos e maneiras de consumir música. O que mudou mais nesse período: a cena, o público, o mercado ou a própria maneira de fazer música?
O “mercado” foi degradando a música e a cada onda de formatos e “maneiras diferentes de ouvir música” que foi sendo jogada para as pessoas. Em nome de uma praticidade desnecessária, lucro para controladores comerciais e controle cultural das massas a música foi a cada dia ficando mais de lado e músicos passaram a ter que ser influencers, e qualquer outra coisa para conseguir fazer sua banda ser relevante, porque ficaram reféns de redes sociais e algoritmos de empresas de streaming. Mas vivemos o subsolo do Metal. As pessoas tendem a apoiar mais e fazem a cena acontecer. É onde a arte é real.
Belo Horizonte sempre teve uma cena pesada muito particular. O que a cidade colocou na identidade do Drowned e que talvez não existisse se a banda tivesse surgido em outro lugar?
Acho que por vivenciar a cena extrema de Belo Horizonte de perto, conhecer as bandas, ir aos shows e as amizades desse ciclo, criamos uma identidade própria. É uma cena com bandas diferentes, com personalidade. Cada banda daqui é única. Isso é uma inspiração e creio que somos quem somos por essa trajetória no Metal de BH.
O Drowned está revisitando músicas originalmente escritas em inglês e apresentando algumas delas agora em português. O que muda quando uma letra antiga passa a ser cantada na língua em que vocês vivem e experimentam a realidade? Ao revisitar essas músicas antigas, vocês também revisitam as pessoas que eram quando as compuseram. Houve alguma letra que ganhou um significado completamente diferente com o passar dos anos?
Percebi de um tempo pra cá que cantar em português tem uma carga agressiva muito maior. Fizemos o nosso disco recente, o “Brasil Visceral” todo em português e é um disco muito raivoso e com letras claras e direto ao ponto. Daí, começamos a compor material novo e surgiu a ideia de regravar algumas músicas dos álbuns anteriores em português. O sentido delas ficou intacto, é a mesma coisa de sempre, porém, cantadas de forma que todos aqui entendam com muita clareza. Com certeza me vem à mente a época que as letras foram feitas, os sentimentos e momentos. De certa forma, ajuda a consolidar ainda mais quem somos hoje, porque foi de lá que viemos. Continuamos incomodando, dedo na ferida. Nenhuma música teve sentido alterado com o passar dos anos, pelo contrário. Muitas vezes dá impressão que a letra é nova, atual. As coisas não mudam…
Por que apostar no português neste momento da trajetória? Existe algo que vocês conseguem expressar em português que não conseguiriam da mesma maneira em inglês?
Contar em português é muito mais natural para uma banda Brasileira. É como realmente pensamos, é como expressamos as emoções e conseguimos passar o real sentimento do que contamos. Para falar de coisas relacionadas ao país e das pessoas que vivem aqui não existe outra forma de ser mais claro e objetivo.
O relançamento de discos remasterizados também é uma forma de preservar a memória da banda. Quando vocês voltam a esses álbuns, conseguem ouvir apenas a música ou também escutam o contexto histórico em que ela foi criada?
Com toda certeza o sentimento e a lembrança da época vem na minha cabeça. Cada disco é muito especial e foi feito da melhor maneira possível. Quase tudo que foi escrito na época, se fosse escrito hoje, seria atual. O Brasil nasceu Visceral, cresceu visceral e segue visceral. Complexo, violento…
Existe algum disco ou período da trajetória do Drowned que vocês consideram subestimado e que gostariam que uma nova geração descobrisse?
Não existe um período específico. Eu gostaria que nossa música rompesse certas barreiras e fosse apresentada para outras gerações. Se você olhar desde o primeiro disco Bonegrinder, até o mais recente, Brasil Visceral, não fizemos um disco igual ao outro. Acho isso muito bom para uma banda com quase 30 anos de atividades ininterruptas. Vale a pena conhecer! (risos)
As letras do Drowned sempre tiveram uma dimensão política, falando de violência, guerra, desigualdade, religião e conflitos sociais. De onde vem essa necessidade de transformar o incômodo com o mundo em música?
Eu creio que a nossa arte é assim. Quando escolhemos a música extrema, não passou outra coisa na nossa cabeça, senão expressar nossa visão, nosso incômodo diante das desgraças do Brasil e do mundo. O capitalismo corrompe o planeta desde que eu me entendo por gente. Aqui no Brasil nunca foi diferente e isso é combustível para nossa arte.
Em tempos de polarização e de uma pressão para que artistas não “misturem música com política”, vocês acreditam que uma banda tem responsabilidade de se posicionar? E qual é o preço de assumir publicamente uma posição?
Isso, para nós não é problema. Sempre fomos assim e não será diferente. Quem parou de ouvir o Drowned porque é ou ficou reaça e agora entende as letras e se sente incomodado, eu não me importo e até fico feliz. Isso é um bom sinal. Na verdade, não é que o Drowned se posiciona. A questão é que eu toco em uma banda de Metal Extremo no Brasil. Não tem como ser diferente. Não fazemos música de elevador ou música sertaneja. O posicionamento nasce na arte, naturalmente. Consciência de classe.
O metal nasceu também como uma linguagem de confronto e contestação, mas hoje está inserido em um mercado muito maior. Vocês acham que o gênero ainda conserva esse potencial de enfrentamento ou foi, em parte, domesticado pelo mercado?
Com toda certeza, foi sim domesticado quando entrou no mainstream. Absorveram o metal que era ameaça. Seguimentaram o público, dividiram a audiência e dissolveram a cena. Agora o Metal mainstream tem ouvintes diários e consumidores colonizados, no caso do Brasil. O Metal de verdade hoje, como forma de arte e com força de enfrentamento está no subsolo. Aqui sim, temos uma cena, com colaboração, amizade entre as bandas e pouco ou nenhum controle externo de mercado. O Metal do Subsolo é a ferida aberta sem cura. Que incomoda.
Para uma banda independente e longeva, como o Drowned, o que significa fazer música em 2026, em um cenário dominado por streaming, algoritmos, redes sociais e lançamentos cada vez mais rápidos? Ainda é possível construir uma carreira sustentável sem abrir mão dos próprios princípios?
Ao longo dos anos, fomos construindo nossos mecanismos de produção. Fomos conquistando nossa liberdade criativa para conseguirmos viver no meio desse caos. Aprendemos a lidar com as redes sociais e manter a produtividade em alta sem perder a qualidade e principalmente, nossos princípios. As pessoas reconhecem quando a arte é sincera e apoiam, compram CDs, camisetas e coisas da banda. Somos muito gratos a todos que seguem o Drowned. Sem eles seria muito difícil continuar.
Depois de mais de três décadas, tantos discos, shows, mudanças e experiências, o que ainda move o Drowned? O que vocês ainda sentem que precisam dizer — e fazer — como banda?
A arte extrema. A satisfação de fazer música legal, ensaiar, gravar e tocar isso ao vivo. Passar algo para as pessoas que faça elas pensarem. A sociedade como um todo, não se revolta. As pessoas foram induzidas pelas redes e todo esse sistema de controle a se ressentir e não se revoltar. O ressentimento tem um alvo e elas atiram todo esse ódio em determinado grupo estrategicamente escolhido. Isso é fascismo. É preciso revolta. A revolta une todos com o objetivo comum e faz a reação acontecer de verdade contra aqueles que querem lucrar às custas da miséria das pessoas.
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