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Edssada fala sobre seu mais novo disco e suas conexões com a música das Gerais

Atualizado: há 1 hora

Foto: Maria Clara Miranda
Foto: Maria Clara Miranda

Andarilho sensível entre o sertão e o mundo, o mineiro Edssada chega ao seu segundo trabalho solo, Observatório das Micro Belezas II, expandindo uma poética que já se anunciava em sua estreia, mas que agora ganha novas camadas de maturidade estética, política e sensorial. Filho do Vale do Jequitinhonha e radicado em Montes Claros, o artista constrói uma obra que atravessa cultura popular, experimentalismo e uma escuta atenta das tradições — não como passado, mas como tecnologia viva.


Se no primeiro disco Observatório das Micro Belezas (2022), havia uma abertura de caminhos, neste novo trabalho há mergulho. Como ele próprio define, trata-se de um exercício de percepção: “as micro belezas estão colocadas no signo do cotidiano da gente simples”, revelando saberes historicamente invisibilizados, mas profundamente sofisticados. Ao mesmo tempo, essas micro belezas também habitam o som — “a sutileza nos arranjos, como cada instrumento entra e sai, as nuances de cada faixa” afirma.


Essa travessia estética acompanha também uma transformação pessoal e artística. “Foi nesse Observatório 2 que pude mergulhar mais fundo na minha busca artística”, afirma Edssada, destacando um processo mais autoral e colaborativo, que envolve desde a produção musical até a direção criativa visual. A música, aqui, se expande para além do som, dialogando com cinema, corpo e artes visuais.


Fortemente enraizado no norte de Minas, seu trabalho reafirma o que ele chama de identidade “geraizeira” — distinta e conectada com o Nordeste brasileiro. “O Gerais me molda muito naturalmente e me provoca a ter um olhar cosmopolita”, diz, sintetizando uma obra que transita entre territórios sem perder o chão.


Esse chão também é político como também ancestral. Em diálogo com pensadores como Nêgo Bispo e Pepe Mujica (ex-presidente uruguaio), o disco articula reflexões sobre tecnologia, natureza e modos de vida. “Observatório das micro belezas é um símbolo de identidade cultural, de relação de respeito da gente com a natureza”, afirma o artista, apontando para uma consciência alinhada aos povos originários e às epistemologias do sul global.


A dimensão coletiva também atravessa o projeto — seja nas parcerias antigas, como com Marina Sena na faixa “In Natura”, ou na herança criativa d’A Outra Banda da Lua. Sobre essa colaboração, ele destaca uma conexão profunda: “nós dois temos um sentimento muito íntimo, visceral e transcendente com a música”.


Entre reverência ao território, experimentação sonora e afirmação de pertencimento latino-americano, Observatório das Micro Belezas II se apresenta não apenas como um disco, mas como um gesto — quase ritual — de escuta e existência. Afinal, como resume Edssada, em tempos incertos, a música segue sendo guia e cura: “ela tem poderes de cura… e sigo me permitindo a aprender e partilhar conhecimento sobre”. Leia a entrevista na íntegra!


O título Observatório das Micro Belezas II carrega uma ideia forte de contemplação e sensibilidade. O que são essas “micro belezas” para você e como elas conduzem este novo disco?


Esse título tem dois caminhos. Dois signos semióticos. Em um deles as micro belezas estão colocadas  no signo do cotidiano da gente simples. Aqueles que, no geral, são chamadas de pessoas, do campo, pessoas da roça, dos interiores do país. Fora dos eixos centrais. Seus dizeres, gestos, maneiras de fazer mais comuns. Essas que de tão simples, foram por tempos, mal interpretadas como sem cultura, sem saberes. quando na realidade existe toda profunda tecnologia e gestão de saberes orgânicos, de bem viver, dentro desses grupos e comunidades tradicionais. E isso em traço sutilmente durante o álbum. Desde citando povos e comunidades tradicionais, lugares onde eles se encontram e confluem seus saberem na cidade, como o mercado central, até as expressões da sua oralidade, citando benzedeiras e seus rezos populares, palavras e linguajar comum entre os nossos: butuca, “imbigo”, “meus fi”. O outro signo das micro belezas são traçados no plano dos sons. O álbum imprime um pouco da minha maturidade musical. Dialogar a música minimalista com pitadas de música palatável e world music. Alquimia dos sons e narrativa. Cada música traz especificidades e a sutileza nos arranjos, como cada instrumento entra e sai, as nuances de cada faixa.


Do primeiro Observatório das Micro Belezas até este segundo trabalho, o que mudou no seu olhar artístico, pessoal e no seu modo de compor?


O primeiro, produzido junto ao Nihil Studio (Caio Bastos/André Oliva). Eles imprimiram muito a estética deles, que é ligada a música mais acústica, trovador etc. Na época dei alguns passos que já estavam claros dentro da minha trajetória de conversar com o mundo através da música. Coloquei sitar, surbahar (conhecido também “baixo sitar”), fiz feat com artista do RN, inseri poesia em espanhol dentro de uma faixa, mas foi nesse Observatório 2 que pude mergulhar mais fundo na minha busca artística. Pude envolver mais amizades. Ter um tempo maior pra fazer uma boa pré produção. Amadureci meu olhar pra produção musical e pro mercado da música. Passei a acreditar muito mais na minha sensibilidade artística a ponto de estabelecer para além das composições, os arranjos, duas releituras com toda essa direção musical e é claro que contei com excelentes musicistas que contribuíram nesse fazer. Além disso, ampliei o álbum dialogando linguagens artísticas. Das cênicas, cinema, passando pelo movimento do corpo, a literatura e todas elas expressadas dentro das artes visuais. Assino a direção criativa juntamente com uma equipe visual incrível. Nomes como Fiona Aman (Diretora, Animator 2D, Filmmaker), Tainá de Castro (Stilyst) , Rafael Barbosa (Diretor Cinema), Maria Clara Miranda (Fotografia), Caril (Designer Gráfico) e Malu Ferreira (Produção Executiva)


Você é filho do Vale do Jequitinhonha e radicado em Montes Claros. Como o norte de Minas, o sertão e o Gerais moldam sua identidade musical e sua forma de enxergar o mundo?


Essa região é o lugar que me ensina até hoje, que eu vi as primeiras coisas, senti os primeiros cheiros e tive as primeiras sensações e impressões das gentes e do mundo. O Gerais me molda muito naturalmente e me provoca a ter um olhar cosmopolita.  De me entender como cidadão do mundo, de botar fé na diversidade humana e no diálogo intercultural sem que eu perca minha essência. Saber de onde venho e como vou e posso voltar, entende?


Sua obra transita entre cultura popular, world music, música brasileira, jazz fusion e até referências da música indiana. Como você constrói esse diálogo entre tradição, experimentação e identidade própria?


Exatamente. Isso é muito intencional. Esse é um diálogo que venho construindo

com os anos de maneira muito natural e sutil. Como uma alquimia de sons e narrativas. Me entendendo com esse ser rurbano, cosmopolita e pisando no meu terreiro original com os pés firmes e atentos com o que acontece no mundo. 


O disco também aponta para uma conexão latino-americana muito forte, especialmente em faixas como “Película Brasileña”. Existe uma intenção de reafirmação desse pertencimento à Ayba Yala (expressão que significa "terra madura", "terra viva" ou "terra em florescimento")  através da música?


Sim, existe relação de respeito, de dar amplitude aos ensinamentos dos povos que estão muito vivos e pertencentes ao caminhar da terra. Essa intenção e relação estão ali no disco de maneira muito explícita quando, através da voz de Fernanda Govinda, mando um salve pra latinoamérica em Película Brasileña.  Quando canto “pisar no chão, colher do pé, o som da cachoeira é música pra dançar” em no mato no sertão. Quando cito os Xacriabá de São João das Missões na faixa Garupa. Os povos originários estão atentos e nos alertando sobre o avanços e impactos do mundo, a muito tempo. Tô totalmente em confluência com a contracolonização. Observatório das micro belezas é um símbolo de identidade cultural, de relação de respeito da gente com a natureza.


A ancestralidade aparece como um eixo central do álbum, inclusive em diálogo com pensamentos como os de Nêgo Bispo. Como essa visão influencia sua arte e sua forma de compreender o futuro?


De maneira muito atenta, provocativa. Tem ideias de Nego Bispo em seu “A terra dá a terra quer” que dialogam com a práxis de Abya Yala. Sampleei a voz de Pepe Mujica quando ele faz reflexões sobre os avanços tecnológicos e a relação de nós, humanos com o trabalho. Tá ali no finalzinho da faixa No mato no Sertão. Vira um paradoxo. De “Do lado de cá não tem computador. Sabiá, calango e João de barro tiram sarro da tecnologia” com “Y puede ser maravilloso pa la especie humana si los robots trabajan para el confort de la humanidad”. Sou muito grato por ter acesso ao pensamento crítico de pessoas tão sábias como Nêgo Bispo, Mujica, entre outras figuras e lideranças populares que através do diálogo de uma forma muito oral e clara, para todos, apontam possíveis caminhos pra gente se antenar e seguir com a vida de uma forma mais proveitosa possível.


“In Natura”, com participação de Marina Sena, é um dos momentos mais simbólicos do disco. Como surgiu essa parceria e o que essa faixa representa dentro da narrativa do álbum?


Marina e eu já somos parceiros desde 2015, quando fundámos A Outra Banda da Lua. No geral rola assim: eu chego com uma música e ela coloca voz e cria arranjando melódicos para além dos que já estão sugeridos na música. E também rola dela chegar com uma música e abrir pra eu arranjar. Nossas primeiras parcerias se deram no disco homônimo da A outra banda da lua. Faixas como O novo baile perfumado e Mês de cores na avenida que são minhas e ela e os meninos somaram lindamente. Em “In Natura”, acredito que exista aqui uma inter-relação entre a gente, sabe? Algo que a gente revisitou por meio dessa música. Nós dois temos um sentimento muito íntimo, visceral e transcendente com a música. Quando a gente tá juntos, no palco, é assim. A gente sente uma força, uma potência, o público sente também. E aí que digo que a faixa tem uma inter-relação porque ela foi composta no dia 21/03 de 2023. Marina nem tinha lançado o Vício Inerente. Eu só consegui começar a produzir o disco e consequentemente, In Natura, em janeiro de 2025 que ainda antecede o Coisa Naturais de Marinecs, lançado em março de 2025.Eu compus in natura e pensei em duas amizades que fazem música pop. Sebá e Marina. E aí tem um lugar que pra mim é muito importante, estar presente no processo e sentir pertencimento. Sebá ama a música. Já tinha cantando ao vivo comigo mas no processo do disco ele tava distante e quando Marina ouviu a demo a primeira vez, lá na Casa da Música Brasileira, curtiu muito. Eu vi brilho no olho dela. Percebi que ela sacou que eu estava aprimorando minha forma de compor também. A gente tem uma relação que se deu pela música então existe uma troca ali, sabe como é que é? Ela já foi testando possibilidades de vocalizes e animou gravar.Dentro do disco essa faixa traz muita sofisticação e bom gosto. Misturando elementos de trip hop, com blues e pitadas de música pop. Os vocalizes de Marinecs ali na introdução flertam com elementos da música minimalista, a simplicidade na harmonia, as repetições. Isso sustenta a narrativa do Observatório das Micro Belezas II.E em breve, talvez mais pro final do ano, tem mais uma parceria nossa com um dos incríveis grupos musicais do Brasil, na atualidade. Mas isso a gente fala em outro momento.


Sua trajetória com A Outra Banda da Lua é muito importante para a cena musical mineira. O que dessa experiência coletiva ainda reverbera na sua carreira solo?


Sim. Temos consciência da importância da A outra banda da Lua. Principalmente para artistas e bandas do interior do estado de Minas Gerais, como nós. Tudo reverbera!  Eu ainda faço parte d’A Outra Banda da Lua. imprimo muito da minha essência ali junto da galera. Lançamos um disco Entre a Terra e o Sol, no final de 2025. Assino 5 das 7 músicas no disco além das parcerias. Tá lindeza demais. Depois cê escuta ai, quando tiver um tempinho. E dia 8 de Agosto a gente faz um show no palco do Festival Sensacional em BH.


A capa do disco, assim como faixas como “Garupa” e o encerramento com “Rua do Umbigo”, parecem reforçar uma ideia de pertencimento e reverência ao território. Qual foi a intenção de amarrar essa narrativa estética e conceitual?


A capa do disco é uma obra muito peculiar. Ela eleva o disco como um todo assim, sabe? Potencializa toda estética visual e provoca uma curiosidade pra narrativa que tá em pauta. Tem direção criativa minha com Caril Caril e Maria Luiza Ferreira. A fotografia é de Maria Clara Miranda. O design gráfico de Caril Caril e o Styling de Tainá de Castro. Muito se fala da música mineira. Seja ela pautada dentro da geografia do nosso próprio estado e também ela é dita, mencionada e é vista assim por outros estados do Brasil. dizem: música mineira, num é? Nós fazemos música Geraizeira. Digo isso, não para segregar a parte de Minas que tem um tipo de cultura muito bonita e mais ligada ao sudeste do país. Mas, sim, existe uma intenção muito consciente de deixar claro que nossa maneira de fazer é diferente. Nossa cultura e fazimentos são outros. Nós dialogamos muito mais com o nordeste do Brasil. Então é preciso ser dito que existe a música mineira e existe a música geraizeira. Somos e estamos ligadas às nossas relações com esse mosaico cerrado, caatinga, mata atlântica e com o Vale do Rio São Francisco e o Baixo Vale do Jequitinhonha, com os povos e cultuar dessa geografia do norte de nordeste do nosso estado.


Em tempos tão atravessados por incertezas, qual é o papel da música para você hoje — como artista e como alguém que escolheu fazer da canção uma forma de existência?


A música me salva de mim mesmo, de muita coisa nessa vida. Até o presente momento posso dizer em alto e bom som que vivo com a música. Ela é uma ferramenta social e penso que estamos caminhando pra que ela seja cada vez mais acessível e comum a todas as pessoas. Saber lidar com os sons, saber organizá-los e também fragmentá- los com pausas e silêncios é como saber respirar direito, se alimentar bem. Observando, vários bichos, fauna e flora já tem um avanço de bem viver com relação ao som. Nós humanos, a nível massivo, usufruímos dela, a música, de uma maneira muito inconsciente, ainda! Ela tem poderes de cura. Acredito que estamos caminhando bem com isso e sigo me permitindo a aprender e partilhar conhecimento sobre. Que bom que temos incertezas, pois elas sugerem movimento.


Capa de Observatório das Micro Belezas II
Capa de Observatório das Micro Belezas II




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