Em “Assaltos e Batidas”, FBC reafirma o rap como ato político
- Bruno Lisboa
- há 6 dias
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Depois de ampliar exponencialmente seu público com o flerte bem-sucedido com o funk em Baile (2021) e de tensionar os limites do gênero ao incorporar um R&B futurista em O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão nos Levar para Outro Planeta (2023), o rapper mineiro FBC retorna com aquele que talvez seja seu trabalho mais direto, incisivo e politicamente maduro até aqui: Assaltos e Batidas.
O álbum opera como um resgate crítico da estética do rap dos anos 1990, não como exercício nostálgico, mas como ferramenta de atualização. As referências a grupos como De La Soul e A Tribe Called Quest aparecem filtradas por uma escuta contemporânea, em que o boom bap clássico dialoga com jazz, samplers sofisticados e texturas eletrônicas. Faixas como “Roubo a Banco” evidenciam esse equilíbrio, soando ao mesmo tempo dançantes e carregadas de tensão, como trilhas sonoras para um cotidiano marcado por conflito e urgência.
A produção de Coyote Beats, DJ Cost e Pepito é fundamental nesse processo. Os beats funcionam como motores narrativos, sustentando o discurso político do disco sem engessá-lo, criando atmosferas que evocam tanto o rap de resistência quanto a ideia de movimento — quase como músicas pensadas para acompanhar um levante popular em marcha.
Liricamente, FBC reafirma sua posição como cronista atento das contradições brasileiras. Em “Cabana Terminal”, a crítica ao modelo de trabalho 6x1 expõe o esgotamento físico e emocional da classe trabalhadora, enquanto “Me Diga Quem Ganha” escancara a desigualdade estrutural entre bilionários e quem sustenta a engrenagem econômica. “A Voz da Revolução” assume contornos de manifesto, convocando à mobilização coletiva, e “Qual o Som da Sua Arma?” reflete sobre a violência urbana não como fenômeno isolado, mas como consequência direta de um sistema excludente e desigual.
O disco também se constrói como um diálogo com a tradição da música de resistência no Brasil. A faixa-título presta homenagem explícita aos Racionais MC’s, enquanto “Você Pra Mim é Lucro” cita o BaianaSystem, evidenciando uma rede de influências que atravessa gerações, estilos e territórios, unidas por uma mesma pulsão crítica.
No campo visual, Assaltos e Batidas amplia ainda mais seu discurso. A capa assinada por Keko funciona como um verdadeiro manifesto gráfico, reunindo referências a Carlos Marighella, ao clássico As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, ao filme Rede de Intrigas, de Sidney Lumet, ao grupo Facção Central e ao jazz insurgente de Miles Davis. Cada elemento reforça a ideia de arte como instrumento político e de enfrentamento.
Não por acaso, Assaltos e Batidas tem figurado em diversas listas de melhores discos do ano, sendo celebrado pela crítica justamente por sua capacidade de unir forma e conteúdo, groove e discurso, contundência e sofisticação. Mais do que um novo capítulo na carreira de FBC, o álbum se impõe como um retrato sonoro do Brasil contemporâneo — um trabalho que transforma crítica em ritmo, revolta em movimento e música em ato político.
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