Em Álbum Vermelho, Julia Guedes transforma sua estreia em um mergulho entre herança artística, liberdade e experimentação
- Bruno Lisboa
- há 3 dias
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Em Álbum Vermelho, Julia Guedes transforma a estreia em um mergulho simultaneamente íntimo e coletivo. Neta de Beto Guedes, um dos nomes fundamentais da música brasileira e do Clube da Esquina, a artista parte de uma herança que reconhece como ancestralidade, mas que não pretende reproduzir de maneira literal.
O disco é, sobretudo, o registro da construção de uma identidade própria: no trabalho Julia canta, compõe, toca, produz e também assume a direção criativa, a direção de arte e o design de seu trabalho. “Eu não penso a Júlia musicista sem a Júlia pensadora visual”, explica, ao falar sobre a maneira como diferentes linguagens se encontram em sua criação.
O caráter coletivo também é fundamental no disco. A artista divide a produção com Antonio Neves e a coprodução Paul Emmery. Como colaboradores ela contou parcerias com artistas como Luiza Brina, Wagner Tiso, Tori e Dora Morelenbaum. Para ela, a presença de diferentes gerações ampliou o universo sonoro do trabalho.
Nesta entrevista, Julia Guedes fala sobre o desafio de estrear carregando um sobrenome tão importante para a música brasileira, a busca por uma identidade que não se confunda com a história do Clube da Esquina, as parcerias que ajudaram a ampliar o universo sonoro do disco, o desejo de ser reconhecida como multiartista e a liberdade necessária para construir uma carreira sem se enquadrar em um único ofício. No centro de tudo está a descoberta de uma voz própria — e a certeza de que Álbum Vermelho é apenas o primeiro capítulo de uma pesquisa artística que, para ela, ainda está longe de terminar.
Álbum Vermelho marca sua estreia em formato de disco, mas também apresenta ao público uma artista que canta, compõe, produz, toca e pensa toda a identidade visual do projeto. Qual era a principal imagem que você queria deixar depois da primeira audição?
A principal imagem que eu quis deixar depois da primeira audição era a imagem de autora, porque realmente eu sinto que o meu envolvimento e também toda a energia e toda a disposição eterna que eu tenho tido nos últimos anos para trazer para este álbum, parte de um lugar que vai além, que transcende o lugar de defender as minhas composições, o lugar da compositora, da cantora, da intérprete, que já são individualmente lugares muito profundos e muito intensos e muito incríveis, mas eu sinto que é algo da minha natureza mesmo, a necessidade de transitar e de estar presente em todas as etapas. Realmente eu não penso a Júlia musicista sem a Júlia pensadora visual, sem a Júlia também pensadora da estrutura mesmo do projeto, essa estrutura de produção.
Então, coexistem essas várias facetas da artista, que se permite para um lugar da inspiração e que foge do racional, mas também existe o outro lado, que é a Júlia com o pé aterrado no chão, também querendo fazer com que essa carreira seja viável, com que consiga estrutura, inclusive, para fazer novos álbuns. Então, eu acho que a imagem que para mim mais está sendo interessante descobrir cada vez mais é essa personagem que transita com propriedade em todos esses meios.
Você costuma dizer que gostaria de ser reconhecida como uma multiartista. Em um mercado que ainda costuma compartimentar os criadores, foi importante que o álbum refletisse todas essas linguagens desde o primeiro trabalho?
Sem dúvidas, é importante o álbum refletir todas essas linguagens desde o primeiro trabalho, até porque eu sinto que não é uma escolha. Eu acho que é a forma com a qual eu estou condicionada a trabalhar e uma forma artística de existir desde criança mesmo. Eu sempre pintei, sempre desenhei, sempre toquei, sempre me permiti meter a mão em tudo que o meu desejo apontava para.
Realmente existem esses desafios do mercado contemporâneo, compartimentando os criadores, compartimentando os gêneros de música. Existe essa demanda de escolher um único ofício e aprofundar e focar eternamente, e eu sinto que eu não me enquadro nisso. Eu sinto que, para mim, faz sentido bater nessa tecla, dar vazão à experimentação e à minha intuição também.
E, em muitos lados, isso inclusive facilita o trabalho, porque eu também acabo exercendo muitas tarefas que geralmente são tarefas de toda uma equipe que apoia artista. Então, neste começo de carreira, por um lado, também faz muito sentido logístico. Mas eu imagino — imagino não, tenho certeza — que, em todos os meus álbuns, eu vou estar metendo a mão em tudo que eu puder, tudo que eu puder meter a mão, no sentido de artes visuais, direção de arte.
O ideal é que, à medida que minha carreira for se estruturando e a equipe passe a ser mais cheia, eu realmente consiga focar mais nas partes mais artísticas e abrir mão das demandas mais de produção, produção executiva. Enfim, né? Eu ainda sou muito por dentro de tudo. E este é o objetivo.
O disco reúne uma série de colaboradores importantes, mas sem perder a sua identidade. Como você encontrou o equilíbrio entre conduzir artisticamente o projeto e, ao mesmo tempo, permitir que outras sensibilidades transformassem o resultado final?
Eu sempre falo que, das coisas mais incríveis do mundo da arte, é a possibilidade de trocar com outros artistas, ser atravessada, atravessar. E eu sou muito feliz por todas as pessoas que cruzaram este álbum. Realmente, foram participações que vieram de forma diluída e natural mesmo, porque é um álbum que tomou tempo para ser feito, e muitas coisas aconteceram justamente na efervescência do momento, que o acaso proporcionou.
A primeira faixa que eu gravei, Contra o Medo, teve a participação do Paulo Emery, que tocou o baixo e que veio a produzir o álbum mais de um ano depois. Eu havia conhecido ele poucos dias antes, no Rio de Janeiro, antes de gravar a faixa de Contra o Medo. Quando a gente se conheceu, ele já falou: “Se você for gravar, me chama”. Eu falei: “Não, então vamos gravar amanhã”. E aí ele já gravou o baixo.
Depois, eu fiquei um ano e meio morando no Rio e, até eu conseguir viabilizar a campanha de financiamento para de fato gravar o álbum, eu já tinha solidificado minha relação com Paulo. Mas, assim como a primeira aparição dele foi um pouco por acaso, várias outras vieram dessa forma também, e isso é muito incrível.
Há também as participações que vieram de forma um pouco mais pensada, num sentido mais cravado, intencional, tipo o Wagner Tiso e a Luiza Brina. Essa era uma dupla de arranjadores que eu já fazia muita questão que tivesse, que se amarrava muito bem. A Tóri é uma grande parceira que também já estava comigo sempre. Mas, para além da parte musical, o universo desse álbum — que eu penso muito mais numa visão macro do que na parte limitada da parte musical — teve muitas pessoas que foram entrando e aparecendo. A banda Tangolo Mangos, da Bahia, de Salvador, participou do clipe de Contra o Medo. A Caril, da outra banda da Lua, a antiga banda da Marina Sena, também dirigiu esse clipe. E aí agora vai sair o clipe de Nota de Avião, com Leonardo Martinelli, que é outro diretor que eu admiro muito.
Enfim, são incontáveis as pessoas que foram chegando para somar nesse álbum ao longo desses anos.
As participações de Antonio Neves, Luiza Brina, Wagner Tiso, Tori e Dora Morelenbaum revelam um encontro de diferentes gerações e linguagens musicais. Como essas colaborações contribuíram para ampliar o universo sonoro do álbum?
Contribuíram de forma muito significativa e realmente ampliaram muito o que eu já havia imaginado para o álbum. A partir deles, o álbum chegou em lugares musicais que eu sozinha jamais devanearia conseguir chegar.
O Antônio Neves, com toda a sua expertise de transitar entre vários papéis na música: compositor, arranjador, instrumentista. A Luiza Brina sendo esse grande farol na composição e, principalmente, referência de mulher, compositora, protagonista da própria carreira, intérprete, arranjadora, assumindo vários papéis na própria carreira.
O Wagner Tiso sendo esse cinturão do Clube da Esquina, que já trouxe essa referência às minhas raízes e fechou esse ciclo também, da extensão desse legado que eu carrego, de realmente estar dando uma continuidade e trazendo um membro original do Clube.
E a Tori e a Dora Morelenbaum, para mim, elas têm... são das compositoras e cantoras de uma geração mais próxima à minha e que eu mais admiro, cujas composições, formas de interpretar, de cantar, de pensar a produção são grandes referências para mim.
Então, foi muito interessante trazer várias pessoas de várias gerações diferentes, porque realmente o álbum ganhou camadas muito especiais.
Há uma escolha por um processo de gravação mais orgânico, baseado em primeiros takes e pouca edição. Em tempos de produções cada vez mais polidas, por que esse caminho fazia sentido para este álbum?
Eu acho que existem vários sentidos que se somam nessa escolha estética. O Clube da Esquina e a música brasileira como um todo são minhas grandes referências. O que mais me emociona são as canções em que os músicos têm mais liberdade, então sempre foi muito importante dar brecha para o inesperado, chamar músicos em quem eu confio e dar para eles também essa mesma liberdade.
E também existe uma questão logística, de horas de estúdio. É um álbum com muitas camadas, muito robusto, então, para conseguir encaixar tudo que a gente tinha que gravar naqueles dez dias, realmente foi importante reduzir a quantidade de takes. Na maior parte das vezes, os três primeiros takes são os melhores takes. Tem um lado de querer valorizar o músico.
E, por último, e não menos importante, tem esse movimento, essa crítica que eu faço a um mundo hiperacelerado, a um mercado cada vez mais acelerado e excludente. Nosso tempo de atenção, nós, seres humanos consumidores de redes sociais, nossa atenção está exponencialmente se reduzindo. Então, é um álbum longo, que vai contra a maré.
Você carrega um legado familiar importante na música brasileira, mas o disco parece muito mais interessado em afirmar uma identidade própria do que em dialogar diretamente com essa herança. Esse sempre foi o objetivo da estreia?
Eu estou achando muito legal, porque muitas pessoas têm me falado justamente de como o meu álbum não se parece com o que as pessoas achavam que se pareceria. Essa tem sido uma crítica comum e que tem me deixado muito feliz, porque não é necessariamente essa vontade de afirmar uma... E esse álbum realmente foi um grande processo em que eu emergi, inclusive para conseguir compreender melhor e elaborar melhor minha relação com minhas raízes, com a minha hereditariedade, com o meu avô Beto.
E eu acho que realmente o Clube da Esquina e todas essas referências estão entranhadas em quem eu sou e, para mim, é uma grande honra partir desse lugar. Carrego, assumo e tento levar com responsabilidade este legado e trazer essa impressão para as minhas músicas, mas, na verdade, isso nem é algo que eu preciso tentar fazer, porque isso vem naturalmente.
Então, eu acho muito bom que esse álbum esteja conseguindo me posicionar num lugar próprio, num lugar de uma jornada que é uma extensão de outra jornada, mas não se limita a isso.

A parceria com a dobra discos acontece justamente no lançamento do seu primeiro álbum. O que motivou essa aproximação e como o selo contribuiu para transformar esse projeto em realidade?
É muito interessante a forma com a qual a Dobra e a Julianna Sá, né, que é a criadora da dobra, chegou na minha vida. A Julianna fazia curadoria do Tranquilo e, em 2022, quando eu estava começando a mobilizar para realizar o álbum, ela me chamou para tocar no aniversário de cinco anos do Tranquilo. E eu fui com a maior honra, fiquei superfeliz. E, assim que eu terminei a apresentação, a Julianna me puxou e já falou: “Júlia, se você for lançar um álbum, eu quero que a dobra esteja presente”.
Enfim, já me trouxe essa admiração, essa vontade de trabalhar junto. E, durante esses anos que eu estive buscando um meio de viabilizar e trabalhando ativamente no álbum, eu mantinha um contato espaçado com a Ju. E aí, depois que o álbum já estava gravado, a gente se reaproximou novamente e decidimos que, de fato, trabalharíamos juntas.
E o selo ampliou muito. Absolutamente todos os universos, todos os caminhos que eu poderia estar traçando estão duplicando, triplicando, quadruplicando. A Julianna Sá é uma profissional incrível, que tem uma visão incrível de mercado, da cultura, tem uma visão estética muito preciosa, que alinha muito com a minha própria visão e também chegou com uma energia e uma força de trabalho gigante e vontade de somar.
E é muito precioso estar tendo a oportunidade de trabalhar com um selo que quer trabalhar comigo e está disposto a colocar energia e investir nesse trabalho. Cada vez mais, a nossa equipe vai se alinhando e a gente vai centralizando, e imagino que esse é apenas um primeiro lançamento.
Além da música, há um cuidado evidente com a direção criativa, a fotografia, a arte e o design do projeto. Como você enxerga a relação entre imagem e som na construção da experiência de Álbum Vermelho?
É uma relação de simbiose. Realmente, as imagens modificaram o som, o som modificou a imagem, os clipes modificaram o som, e cada camada que chega apenas agrega mais. Realmente, a minha proposta não era fazer um álbum apenas musical, porque ele nunca foi isso na minha cabeça.
As músicas já se enxergaram com as paisagens desenhadas e, à medida que eu ia fazendo shows e atestando os cenários, acumulando referências e buscando consumir de diversas fontes, tanto fontes visuais, em museus, descobrindo sites de acervos na internet, vendo filmes, como também fontes da vida, vivendo. A arte precisa que a gente viva e crie esse repertório de lugares, pessoas, coisas.
E eu acho que, quando a gente mantém essa antena bem aberta e presta atenção no mundo, as coisas se revelam naturalmente. Então, realmente, o álbum Vermelho parte de um lugar aberto ao mundo, parte de um lugar de curiosidade, de vontade de expandir, e a materialização dele em tantos caminhos musicais, visuais, audiovisuais, para mim, é um resultado inevitável.
O álbum transita por diferentes referências musicais sem se prender a um único gênero. Essa diversidade reflete uma busca consciente por liberdade artística?
Eu acho que essa diversidade reflete mais um estado de liberdade artística do que uma busca. Porque realmente, como eu já falei antes, existe essa pressão para que eu dê uma continuidade a priori mais literal para esse legado do Clube da Esquina. E havia essa expectativa de que as minhas músicas iriam nesse rumo. Mas, eu elaborei para mim, já há algum tempo, que eu não tenho este dever neste lugar tão literal. Eu me permito referenciar de formas simbólicas, às vezes até de formas mais óbvias, mas partindo de um lugar de liberdade, não de obrigação.
E realmente é um álbum com muitos gêneros musicais diferentes, uma paleta muito diversa e que reflete justamente este constante, um grande estado de transição entre vários artistas, vários lugares, essa busca por querer conhecer mais de Brasil e de mundo. Nunca me prendi a ter que compor de certa forma.
Existe uma pressão mercadológica para que a música se enquadre em tais e tais parâmetros, e com certeza todas essas pressões vão se manifestar no meu consciente. Mas, no meu consciente, o meu discurso para mim mesma é que o que eu posso fazer de mais honesto é compor da forma que eu componho e deixar que o tempo eleja quais músicas vão se enquadrar no mercado, na expectativa ou não.
Depois de um processo tão intenso de criação, gravação e produção, quais foram os maiores aprendizados que você leva dessa estreia?
O maior aprendizado, sem dúvida, é o de confiar na minha intuição e defender a minha forma de existência artística, com toda a minha alma, e ter paciência, porque realmente nem sempre as portas se abrem logo de cara. Aliás, geralmente não se abrem. Para mim, foi um trabalho de muita insistência, de entender os espaços que eu poderia ocupar e tentar me inserir nesses espaços, conhecer pessoas.
Sempre tive claro para mim que eu gostaria de fazer este álbum de forma respeitosa, com as minhas composições e também com o público que eventualmente me ouviria. Realmente, foi um universo muito grande que eu fui construindo sozinha durante muito tempo e fui achando formas de viabilizar e materializar essa construção em várias pontas diferentes.
Eu acho que, dessa persistência e dessa curiosidade também, dessa vontade de fazer acontecer, eu tiro a lição mais preciosa de todas, que é estar aberta às pessoas, buscar e também ser buscada, e também poder comparecer nessa troca enorme. Mas eu sinto que esse álbum me fez as trocas.
Quais são as suas expectativas para a recepção de Álbum Vermelho? Há um público que você espera alcançar ou uma conversa que gostaria de iniciar por meio desse trabalho?
No momento, a minha maior expectativa é conseguir fazer muitos shows com esse álbum, porque existe ainda essa outra camada, que é o show ao vivo e que vem do lugar deste universo visual, audiovisual, musical que o álbum Vermelho já construiu, mas que extrapola e cria uma quarta dimensão que só é possível ser vivida no momento presente, com o público.
Então, o que eu mais quero agora é continuar construindo esse show, afinando todos esses detalhes técnicos e explorando este outro universo, que é o universo da direção musical, dos arranjos adaptados, do canto ao vivo, da interação com o público, da direção de movimento, da performance, da iluminação, da cenografia. Toda a pesquisa do palco e do ao vivo me interessa muito, muito, e eu quero muito ter muita oportunidade de fazer esse show com a minha banda.
É apenas um começo mesmo. Eu acho que, naturalmente, esse álbum vai se desenrolar para vários caminhos que eu não espero, mas que estou aberta. E, se existe um público que eu espero alcançar, eu gostaria muito de alcançar um público mais jovem. Eu sinto que, até então, grande parte do meu público é um público com maior carinho e amor do mundo — eu estou herdando do meu avô, isso é muito valioso —, mas eu gostaria muito que minha música fosse tocada em lugares com pessoas mais novas também, a universidade, que é um ambiente de onde eu venho.
E gostaria muito que esse álbum também furasse muitas bolhas e conseguisse chegar a territórios diversos, tocando vários tipos de pessoas. E espero também que me abra muitas portas para trocar com mais artistas.
Olhando para o futuro, de que forma você espera que Álbum Vermelho influencie os próximos passos da sua trajetória artística?
É um pouco abstrato pensar o futuro agora, visto que eu estou tão imersa nesse universo do álbum Vermelho. Ele está sendo muito totalizante neste momento da minha vida. E eu imagino que ele seja só um começo para outros trabalhos, apesar de já haver músicas suficientes para pelo menos mais três álbuns.
Eu espero que esse álbum, de fato, consiga marcar esse início de trajetória de uma forma responsável, de uma forma profissional, madura, articulada, e que, a partir dele, novas portas se abram para que eu continue desenvolvendo essa pesquisa infinita.

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