Thiago Corrêa desenha os caminhos de seu novo disco “Claridade”
- Bruno Lisboa
- 20 de jan.
- 8 min de leitura

Thiago Corrêa é um daqueles músicos cuja trajetória ajuda a contar parte significativa da música mineira das últimas décadas. Baixista, compositor e produtor, ele construiu um percurso marcado pela versatilidade, transitando com naturalidade entre o rock, a canção popular, a música experimental e a produção em estúdio. Ao longo dos anos, esteve à frente — ou nos bastidores — de projetos fundamentais como Diesel, Transmissor, Graveola, Eminence e Berimbrown, além de ter assinado produções para nomes centrais da cena nacional, como Lô Borges, com quem colaborou de forma intensa nos últimos anos.
Esse trânsito constante entre linguagens e funções parece ter desembocado, agora, em um momento diferente de sua carreira: o de se afirmar com mais nitidez como artista solo. Após o disco A Solidão é o Fio (2018), Thiago vive um novo ciclo criativo, no qual amplia seu campo de atuação autoral e revisita suas próprias inquietações musicais a partir de outras ferramentas estéticas.
Os singles recentes ajudam a desenhar esse novo capítulo. Em “Nós Dois”, lançada no fim de 2025 com participação de Bruno Berle, Thiago aposta em uma canção de clima íntimo e sensível, enquanto “Fácil Descansar”, dividida com Teago Oliveira, revela uma faceta mais direta, marcada por sínteses sonoras, repetições e um olhar maduro sobre o fim de relações. Ambas as faixas antecipam Claridade, álbum previsto para o primeiro semestre deste ano, que promete aprofundar essa virada estética e conceitual.
Construído a partir de encontros criativos com Thales Silva, Claridade surge como um trabalho que se afasta da composição tradicional ao violão e se aproxima de uma sonoridade mais eletrônica, fragmentada e contemporânea, dialogando com referências do rap, do pop e do hip-hop.
Em entrevista concedida por e-mail, Thiago Corrêa fala sobre o momento de virada que atravessa em sua carreira solo, refletido nos singles recentes “Nós Dois” e “Fácil Descansar”, discute o método pouco convencional de composição de Claridade — dez encontros, dez músicas — como uma forma de romper hábitos cristalizados, a transformação do sentido das canções ao longo do tempo, pela influência profunda da convivência recente com Lô Borges, a compreensão da multiplicidade de sua trajetória — do rock ao cancioneiro brasileiro, da produção à composição — como parte indissociável de sua identidade artística. o mercado fonográfico na atualidade e muito mais. Leia a entrevista na íntegra!
“Fácil Descansar” é o segundo single de Claridade. O que essa faixa antecipa sobre o disco que talvez “Nós Dois” ainda não revelasse?
Acho que com “fácil descansar” dá pra ver que esse é um disco com muitas colaborações, diferente do meu disco anterior, “A solidão é o fio” onde a maioria das músicas eu fiz quase sozinho, tanto na composição quanto na produção. No meu primeiro disco, eu tive as participações pontuais de André Campagnani em algumas baterias, Henrique Matheus em algumas guitarras e Ivan Corrêa, meu pai como participação especial em uma faixa. Já no "Claridade”, eu decidi celebrar os encontros e chamei amigos que admiro pra participar de várias faixas. Tem participação na maioria das faixas e eu sinto que esse é o momento de celebrar esses encontros que a gente faz na vida. Esse ano eu comemoro 30 anos de carreira e nada melhor do que lançar um disco com gente especial que faz parte dessa trajetória.
Embora composta em 2020, você diz que "Fácil Descansar" conversa muito com o seu momento atual. Como é revisitar uma canção antiga e perceber novos sentidos nela hoje?
Acho que uma grande beleza da música é que ela se transforma com o tempo. Não somos os mesmos quando ouvimos uma música que nos marcou dez anos atrás. A música nos transporta pra aquele momento mas também nos faz refletir sobre como estamos hoje em relação a esse sentimento. Foi o que aconteceu comigo. 2025 foi um ano de muitas transformações pessoais e revisitando essas músicas eu descobri que ela falava muito com meu eu de hoje. Talvez quando eu estava compondo, estava tentando dizer pra mim mesmo coisas que deveria ouvir desde aquela época, mas só consegui escutar cinco anos depois.
Claridade, seu próximo disco, nasce de um processo pouco usual: dez encontros, dez músicas, uma por dia. O quanto esse método ajudou a romper com hábitos criativos já cristalizados?
Thales Silva, meu parceiro de muitos projetos, me instigou a fazer um estudo de composição que nos tirasse do nosso lugar comum, que no nosso caso, era compor música classicamente no estilo MPB, com violão e voz. Cronicas, canções com grande história e letras extensas. O propósito era deixar de lado o violão, estudar os "BEATS", apostar em letras curtas e repetitivas, apostar em colagens sonoras, novas estéticas pra gente. Por colocar algumas barreiras no processo a gente se limita e a limitação é a mãe da criatividade, né? Aí a gente foi fazendo esses encontros, descobrindo novos caminhos e no final, adorei o resultado, dei uma polida na produção e resolvi lançar. Aprendi muito com esse processo.
O disco terá um deslocamento para uma estética mais eletrônica, com repetições e colagens. O que te motivou a sair da zona de conforto da canção mais tradicional?
Acho que a coisa mais legal pra mim hoje em dia ao observar a obra de um artista, é ver o caminho. Nem piro tantas vezes na obra pronta mas adoro ver a trajetória, de onde ele saiu e onde ele chegou. Acho muito doido artistas como Caetano que nunca ficaram num espaço confortável artisticamente. Sempre se reinventando sem medo de errar, porque pra mim, errar é ficar parado.
As participações serão numerosas e bastante diversas. Como você pensou a curadoria dessas vozes e o que cada uma acrescenta ao álbum?
Eu quis fazer desse álbum uma celebração de encontros. Fiz a pré do disco e mandei pra vários artistas amigos e pedi que escolhessem qual música queriam participar. Alguns eu indiquei a música, como no caso do Zeca Baleiro, que eu conseguia ouvir a voz dele numa música específica. Mas pra maioria das participações, eu deixei livre pra escolher a música em que mais se identificasse. Acho que com o tempo, percebi o quanto cada voz, cada participação acrescenta na riqueza do trabalho. Feliz de ter tantas pessoas especiais abraçando. No fim das contas, hoje em dia é cada vez mais difícil esperar que as pessoas ouçam um disco como uma obra completa, é sempre cinco segundos de atenção e pula pra próxima. Não quero me render a isso. Acho que o álbum consolidado é um retrato de um momento da vida e eu quero fazer a melhor foto desse momento com as pessoas que gosto.

A convivência recente com o Lô Borges, como músico e produtor, deixou marcas no seu modo de pensar música hoje? Você sente esse legado reverberando em Claridade?
A recente partida do querido amigo Lô me deixou bem desnorteado. A dor da falta dessa convivência vai além da experiência de trabalho que tive com ele. Lô me ensinou muitas coisas e encontrei ali um amigo que trocava idéias de composição e de vida. Ele tinha muita coisa pra fazer ainda, mente inquieta e inventiva. É uma pena que tenhamos perdido sua voz. Mas depois de um tempo eu consegui entender que o tempo que a gente conviveu foi ouro puro pra mim. Me ensinou demais e eu fui altamente influenciado pela sua arte ao longo dos anos. Como estou revisitando o Claridade pra lançar agora, depois dessa convivência, acho que tudo que eu fizer daqui pra frente tem um dedo do Lô. É um grande mestre que eu tive a sorte de estar por perto pra aprender. Ainda mais especial foi ter conquistado sua cumplicidade e respeito. um cara daquela magnitude que me tratava como igual e discutia música olhos nos olhos. Sempre me ouvia com carinho. Nunca vou me esquecer disso.
Sua carreira passa por contextos muito distintos: do rock internacional com o Diesel ao cancioneiro brasileiro, do metal ao indie, da produção à composição. Em que momento você percebeu que essa multiplicidade era uma força, e não uma dispersão?
Não tenho certeza se percebi ainda. Eu deixei que a vida artística me fizesse mover pelos anos. Olhando em retrospecto tenho orgulho de tudo que fiz e ao mesmo tempo vem a incerteza de não saber se fiz as melhores escolhas, já que foquei em mil facetas. Mas acho de verdade que não tinha como fazer de outro jeito. Sou isso aí: metal, brega, pop, folk, jazz, indie e dança. Agora nem dá pra voltar, então melhor abraçar essa diversidade e ser feliz. Poderia ter me especializado em alguma coisa mas preferi viver tudo que se apresentava sem receio. Me joguei no mundo em turnês improváveis, situações insalubres, mas isso sempre foi muito legal no fim das contas. Conhecer dezenas de países, aceitar na cara de pau ser tecladista, vocalista, percussionista, baterista, guitarrista e conhecer o mundo sempre foi uma grande diversão pra mim.
Hoje, como você organiza essas diferentes camadas da sua identidade artística dentro de um mesmo projeto solo?
Eu consigo separar as coisas, mesmo levando em conta que sou o mesmo Thiago no brega e no Eminence por exemplo. Acho que tem uma coisa que o Ney Matogrosso fala, de ser ator, de performar. Eu sou um ator e artista sem nunca ter feito aula de atuação. Acho que posso dizer isso sem problemas. O negócio da atuação, me passa diferente, porque sempre que estou atuando no palco ou em discos, eu tô acreditando demais que sou aquilo alí. Eu incorporo o personagem. Então quando tô no rock, eu quebro o instrumento, grito, me dou inteiro. Quando canto brega eu sinto cada palavra de sofrência da letra… enfim, eu levo à sério cada um desses papéis. Nos meus projetos autorais, eu tento performar menos, tento achar a essência de quem eu sou quando escrevo. Acho que fora meus discos solo, onde mais me identifico é nos discos do Transmissor, onde tem muito de mim.
Existe algo que você ainda sente que não explorou plenamente como compositor ou produtor?
Eu sempre tô começando. Já fiz muita coisa como produtor e artista, mas eu sempre quero coisas novas. Nas minhas produções, costumo cruzar referências, ouvir sons diversos com o artista pra poder pescar coisas legais e sempre me empolgo com as infinitas possibilidades de se conduzir uma produção. parte do meu trabalho é filtrar isso, mas eu acho maravilhoso poder pensar que você pode a cada momento mudar completamente de direção e fazer algo totalmente inusitado. Um dos meus lemas é emprestado do Leminski: "distraídos venceremos", mantra que trago comigo a vida toda. A gente é o resultado do que a gente viveu e experienciou, né? Então eu acho legal deixar a coisa fluir e viver o que você já tem de bagagem. Isso vai falar por você. Estou aberto à novas experiências e dinâmicas o tempo todo.
Em um mercado cada vez mais guiado por singles e plataformas, como você enxerga o lugar do álbum enquanto obra em 2026?
Eu nasci num tempo em que a obra enquanto conceito passava por uma imersão no universo do artista. A capa e o encarte do vinil, a espera pelo lançamento e tal. Eu continuo achando isso o máximo. A epifania de descobrir os nós e laços que fazem a obra de alguém ser interessante. Não vou me importar com os modismos ou "trends". Quero fazer música, claro, para reverberar com as pessoas, mas ,sobretudo, pra atender meu desejo de falar comigo mesmo e consequentemente com o mundo. Então posso ou não ser um imenso fracasso comercial, mas gosto de colocar as coisas no mundo mesmo assim.

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