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Com o EP Mortalha, o trio mineiro Alerta Vermelho transforma inconformismo em resistência sonora

Fotos: Régis Bezerra
Fotos: Régis Bezerra

A banda mineira Alerta Vermelho vem consolidando seu nome na cena punk e hardcore underground brasileira por meio de uma sonoridade marcada pela urgência, pela crítica social e pela valorização do faça-você-mesmo. Formada por Cauê Xopô (voz e guitarra), LF (baixo) e Chavo (bateria), a banda transforma inquietações coletivas em músicas que dialogam com questões políticas, sociais e existenciais, sem abrir mão da energia crua característica do gênero. Surgido em Belo Horizonte, o trio construiu sua trajetória a partir da intensa circulação pela cena independente e do compromisso com a produção autônoma.


Seu lançamento mais recente, o EP Mortalha, representa um novo passo nesse percurso, reunindo composições que refletem o inconformismo diante da realidade contemporânea. Gravado no Estúdio Central, em Belo Horizonte, e lançado em vinil com o apoio de diversos selos independentes, o trabalho busca capturar a intensidade das apresentações ao vivo e reafirma o compromisso da banda com a construção e fortalecimento da cena underground. Como define Cauê Xopô, a música surge da necessidade de “gritar” e de “tirar um pouco dessa pressão e impotência que a gente carrega”, transformando frustrações em expressão artística e resistência.


Ao longo da entrevista, Xopô discute temas centrais que atravessam sua identidade artística e política. A banda reflete sobre o papel do punk em tempos de excesso de informação, polarização e discursos prontos, defendendo a música como ferramenta de transformação e ampliação do debate público. Também aborda o processo de composição, que parte da observação crítica do mundo e da tentativa de sintetizar questões sociais em letras abertas à interpretação, além de revelar influências que vão do hardcore ao imaginário bucólico de Minas Gerais.


O grupo ainda comenta os desafios de produzir e lançar música de forma independente no Brasil, destacando a importância das redes colaborativas formadas por selos, coletivos e bandas para a manutenção da cena. Entre dificuldades financeiras, limitações do mercado digital e a busca constante por autonomia, a Alerta Vermelho reafirma sua motivação principal: manter viva a potência criativa, fortalecer a cultura independente e continuar ocupando espaços de resistência pelo país através da música.


As letras da Alerta Vermelho carregam um forte sentimento de inconformismo diante da realidade. De onde nasce essa necessidade de transformar inquietações e frustrações em música?


Parece leviano, mas nasce de uma necessidade de gritar, mesmo. Colocar esses sentimentos pra fora, de algum modo. Tirar um pouco dessa pressão e impotência que a gente carrega. Sentir que algo está sendo feito e viver um pouco da própria utopia. A música vem pra anteceder a fala e ajudar a gente a navegar nisso.


As composições da banda parecem partir mais da observação crítica do mundo do que de experiências estritamente pessoais. Como funciona esse processo de transformar questões sociais e coletivas em letras?


Envolve sintetizar pensamentos e permitir com que as pessoas interpretem a mensagem. Simplificar, dar abertura. Talvez isso já seja essa tentativa de falar com o todo. Tem questões sociais, frustrações, também tem uma coisa bucólica de Minas Gerais, embora não pareça. Todo o Clube da Esquina, por exemplo, fala sobre andar pra frente e que na melancolia, na felicidade ou na dor, não tem outro caminho. É como se a gente pegasse esse mesmo princípio e adicionasse distorção.


Em uma época marcada por excesso de informação, polarização e discursos prontos, qual vocês acreditam ser o papel de uma banda punk dentro do debate público?


O punk, junto com a música, cria esses índices e dá grandeza aos debates. Toda construção do Alerta, enquanto pessoas que curtem punk, vem de discursos e letras que ouvimos de bandas de punk / hardcore que abriram nossa mente e direcionaram nossos olhares para essa forma mais politizada de ver o mundo, do nosso trato com o próximo enquanto coletivo, do fazer por nós mesmos. Pensando nisso, enquanto a gente toca, inspiramos outras pessoas também? Eu acredito que a música carrega esse poder de transformação e pode abrir caminhos para debates e combates presentes na nossa realidade.


Como acontece o processo de composição da Alerta Vermelho? As músicas surgem de forma espontânea nos ensaios ou existe um trabalho mais planejado de construção das ideias?


Geralmente, eu penso nas bases, junto com o LF (baixo), e tento levar pro ensaio uma ideia já pronta, especialmente de voz, que é um instrumento muito particular e acaba me demandando mais tempo de estudo. À partir disso, passamos essa base junto com o Chavo (bateria) já nos ensaios e com o tempo naturalmente as músicas vão se afinando.


Como foi o processo de gravação de Mortalha? O que vocês buscavam capturar em estúdio para que o disco representasse fielmente a identidade da banda?


A gente gravou no Estúdio Central, em BH, com o Gabriel Elias. Como ele já conhecia nosso processo, foi super tranquilo: gravamos naquele esquema 'semi ao-vivo' — com bateria, guitarra e baixo tocando juntos — pra garantir a dinâmica e a energia real da sala.

Depois, a mix e a master ficaram com o Felipe Sad (Laje Estúdio / Vida Ruim / Evil Idols). A gente passou Hex Dispensers e The Boojums como referências e curtiu demais o resultado final: a guitarra ficou limpa e comprimida, o baixo veio com aquela pegada 'Motorhead' e a bateria ficou estalando com bastante som de sala, bem do jeito que a gente queria.


Muitas bandas independentes enfrentam o desafio de equilibrar urgência artística e limitações de orçamento. Como foi a experiência de produzir e lançar esse trabalho dentro da realidade do underground brasileiro?


Foi muito satisfatória. E respondo isso já colocando essas dificuldades de produção e lançamento aqui no Brasil na conta, também. É realmente um desafio, afinal a gente tem trabalhos, agendas e outros compromissos e são, justamente, eles que geram a grana que a gente precisa pra manter a parada funcionando, afinal não se começa banda alguma sem investimento; ensaios, shows, gravações, material de divulgação…tudo isso bate no fundo da carteira. Com isso em mente, poder lançar 50 cópias da nossa demo Zero em Fita K7 e agora 300 cópias do Mortalha em Vinil 7” é realmente prazeroso. Afinal significa que essa rede underground está vendo nosso esforço e topando produzir conosco algo especial.



O lançamento contou com o apoio de diversos selos independentes. Em um mercado cada vez mais dominado por algoritmos e grandes plataformas, qual a importância dessas redes de colaboração para a sobrevivência da cena?


Não consigo nem mensurar essa importância. São pessoas que também estão fazendo investimentos e acreditando nesse apoio mútuo. Isso movimenta fisicamente, cenas locais, mas também é o que transforma a distância em possibilidades. Conecta pessoas através da música de forma genuína. A gente agradece demais esses selos por terem acreditado na energia que a gente bota no Alerta, esperamos que essa rede seja perpetuada.


Como vocês enxergam o mercado da música hoje para bandas autorais e independentes? É mais fácil produzir e lançar material ou mais difícil alcançar e manter a atenção do público?


Certamente é mais difícil. Tem menos retorno financeiro no digital (no nosso caso, enquanto banda independente) e os custos de produção dos materiais físicos estão cada vez mais altos, ou até mesmo escassos, o que dificulta muito os selos independentes de investirem em bandas novas. Falar de alcance digital é ainda mais difícil, porque tudo foi planejado para que você também invista dinheiro, independente do retorno. Em outras palavras, seja produzindo shows, tocando, lançando, quem tá afim de entrar nessa, tem amor envolvido.


O punk sempre teve uma relação muito próxima com resistência e contestação. Em 2026, o que ainda provoca a Alerta Vermelho a continuar fazendo música e ocupando espaços na cena underground?


Vontade de potência. Manter a cena independente ativa. Continuar botando pra fora questões que nos afetam e com isso fazer parte do tempo presente.


Todo lançamento carrega expectativas e abre novas possibilidades. Que caminhos Mortalha pretende pavimentar para a Alerta Vermelho e quais são os próximos passos da banda a partir daqui? 


Vamos gravar um clipe pra "Mundo Vermelho", segunda música do Mortalha. A ideia é conseguir lançá-lo ainda no começo do segundo semestre. O projeto já está em andamento. Estamos com uma boa agenda de divulgação também, com shows em Belo Horizonte, Curitiba, Blumenau, e São Paulo, tentando viabilizar mais cidades. Por enquanto é isso, vamos continuar produzindo e quem sabe em breve não temos mais novidades.



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