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Marina Liori lança seu EP de estreia Vontade Pura

Atualizado: 16 de jun.

Fotos: Elisa Maciel
Fotos: Elisa Maciel

Com Vontade Pura, a cantora e compositora Marina Liori apresenta uma estreia que transforma o desejo em fio condutor de sua obra. Ao longo de quatro faixas, a artista de Patos de Minas (MG) percorre diferentes sonoridades e referências da música brasileira, construindo um trabalho que revela múltiplas facetas de sua identidade artística sem abrir mão da unidade.


Nascido entre composições criadas no quarto, ao violão, e desenvolvido em parceria com os produtores Bernardo Bauer e Felipe D’Angelo, o EP ganhou forma a partir de um processo coletivo de descoberta. “Eles me fizeram sair da caixinha”, resume Marina sobre a colaboração com a dupla. O resultado é um trabalho que passeia por atmosferas solares, românticas e contemplativas, além de contar com a participação especial da cantora Tori em "Água na Boca".


Mais do que um conjunto de canções sobre o amor, Vontade Pura revela uma artista interessada em investigar aquilo que nos move. Para Marina, a música é tanto ferramenta de compreensão quanto combustível para seguir criando. “A música me ajuda a compreender esses desejos, mas também a mantê-los vivos”, diz. E é justamente dessa inquietação que surgem os próximos passos de sua trajetória: “Tenho a sensação de que tudo o que virá depois desse EP nasce exatamente dessa vontade pura.”


Nesta entrevista, Marina fala sobre o processo de composição e gravação do EP, as parcerias que ajudaram a construir sua sonoridade e os caminhos que pretende explorar nos próximos capítulos de sua carreira. Confira!


Vontade Pura apresenta uma unidade temática muito clara, mas cada faixa possui uma identidade sonora bastante própria. Como foi o processo de composição e seleção das músicas para construir essa narrativa do desejo ao longo do EP?


O processo de composição das músicas, foi feito todo na minha casa, no meu quarto, sozinha, ouvindo muita música e com muitas ideias borbulhando com as referências que eu estava escutando. Apesar de ser uma pessoa muito ligada à MPB, eu tenho referências de vários estilos diferentes que acabam conversando entre si, mesmo vindo de universos distintos. Sem perceber, eu vou juntando tudo isso nas minhas composições.

Já o processo de escolha das músicas aconteceu dentro do estúdio, com os meninos do Cais, Felipe D’Angelo e Bernardo Bauer, durante a pré-produção. Eu já sabia que queria começar minha trajetória com um EP de quatro faixas, então precisávamos escolher quais delas, entre várias composições minhas, fariam parte do projeto.

Passei uma tarde inteira com eles no estúdio, tocando minhas músicas, e no final fomos escolhendo juntos aquelas que acreditávamos funcionar melhor dentro do disco. Acabamos chegando a essas quatro porque sinto que elas mostram diferentes facetas minhas como compositora e cantora e, ao mesmo tempo, traduzem exatamente quem eu sou. 

Foi uma decisão construída pelos três, e eu realmente acredito que encontramos o melhor quarteto de músicas possível para dar vida a Vontade Pura.


Você assina as composições do projeto. Quando essas canções chegaram ao estúdio, de que forma a produção de Bernardo Bauer e Felipe D’Angelo ajudou a expandir ou transformar as ideias que existiam nas versões iniciais?


Sempre que componho uma música (que costumar ser junto com o violão) eu já imagino uma direção de produção para ela. Mas o mais interessante no trabalho com Bernardo e Felipe foi que eles me fizeram sair um pouco daquilo que eu já tinha na cabeça. Eles me fizeram sair da caixinha mesmo.

Foi muito bonito ver a criatividade acontecer de forma tão natural entre três pessoas diferentes e tão sensíveis. Eu costumo brincar que o Felipe nem queria ouvir minhas referências quando eu tentava mostrar alguma coisa. Ele queria que a gente chegasse a algo realmente puro, muito baseado na criatividade do momento. Acho que isso conversa bastante com o próprio nome do EP.

Sinto que os dois conseguiram entender exatamente o que eu queria transmitir e, mais do que isso, me ajudaram a descobrir coisas sobre mim mesma. Como era meu primeiro trabalho, eu ainda não tinha percebido que também possuo uma visão de produção muito alinhada ao que desejo comunicar através da minha arte. E foi isso que deixou tudo muito a minha cara.

Eles também foram responsáveis por indicar todos os músicos que participaram das gravações. Foi um processo extremamente bem pensado e muito bem executado. Tenho certeza de que o resultado chegou onde chegou porque Bernardo e Felipe conduziram esse barco com muito talento e sensibilidade.


O EP passeia por diferentes referências da música brasileira, dos ecos do Clube da Esquina ao clima oitentista de Suco de Fruta. Como foram as conversas criativas com os produtores para encontrar a sonoridade de cada faixa sem perder a identidade do projeto?


O mais interessante da nossa parceria foi que nós três compartilhamos muitas referências em comum, mas cada um as leva para lugares diferentes enquanto artistas.

Eu venho de referências muito ligadas à bossa nova, à música brasileira dos anos oitenta e também a sons internacionais com essa energia mais solar e vibrante. O Bernardo traz uma bagagem muito forte do rock, da música indie e da psicodelia. Mas ele tem uma delicadeza brasileira, que só ele. Já o Felipe também tem essa pegada, mas acrescenta algo muito especial vindo do universo do Clube da Esquina. Como ele trabalhou com o Lô Borges, existe esse DNA nele, que é algo que eu admiro profundamente.

Foi uma junção muito rica de três criadores diferentes. O resultado acabou sendo algo que eu nunca teria imaginado sozinha. O mais curioso é que praticamente todas as sugestões que eles faziam me encantavam, porque nossos gostos e referências dialogam muito.

Por isso, apesar de cada faixa ter sua personalidade própria, existe uma identidade que atravessa o projeto inteiro. 



Água na Boca conta com a participação de Tori. Como surgiu essa parceria e o que a presença dela acrescentou à narrativa e à atmosfera da música?


Conheci o trabalho da Tori através das conversas com os meninos no estúdio. A gente passa tantas horas juntos durante um processo como esse, que acaba criando uma amizade e conversando sobre muitas coisas além da música.

Em algum momento surgiu o assunto dela, até porque o Bernardo tinha trabalhado recentemente em uma música com a Tori. Então fui ouvir o álbum Areia e Voz e fiquei completamente encantada. Acho que ela tem um talento impressionante, uma brasilidade muito sofisticada, tanto nas escolhas musicais quanto visuais. O violão e a voz dela são maravilhosos, e fui me tornando cada vez mais fã do trabalho.

Quando surgiu a ideia de ter uma participação especial no EP, ela me veio à cabeça. Além de admirar muito a artista que ela é, eu sentia que nossas vozes combinariam muito bem. Água na Boca tem essa característica mais radiofônica, mas também é uma música elegante, com elementos de bossa nova, jazz e influências latinas. Eu imaginava que ela se conectaria com esse universo.

Os meninos enviaram o EP para ela e comentaram que eu adoraria tê-la em Água na Boca. Felizmente ela aceitou. Foi uma querida durante todo o processo, e trabalhar com ela só aumentou minha admiração. Acho que a presença dela acrescentou ainda mais delicadeza, sofisticação e personalidade à música.


Ao final do EP, fica a sensação de que o desejo não é algo que se satisfaz, mas algo que move. Hoje, você enxerga a música como uma forma de compreender seus desejos ou de continuar alimentando-os? E, olhando para o futuro, quais são os caminhos artísticos e sonoros que você tem vontade de explorar a partir de Vontade Pura?


Acho que essa pergunta traduz muito bem o que Vontade Pura representa. Para mim, a música é uma forma de colocar os desejos para fora, de compreendê-los e transformá-los em algo compartilhável.

Mas existe uma diferença muito grande entre um desejo que você realiza e um desejo que você escolhe manter no campo da imaginação. Muitas vezes, é justamente essa fantasia que alimenta a arte. Nem sempre é necessário viver uma experiência para transformá-la em criação. Às vezes, a sensação que ela desperta já é suficiente para produzir algo profundamente humano e com o qual outras pessoas também se identificam.

Então eu diria que a música me ajuda a compreender esses desejos, mas também a mantê-los vivos.

Pensando no futuro, sinto que Vontade Pura é uma porta de entrada para muitas outras coisas que tenho vontade de criar. Ele representa um começo, uma necessidade muito genuína que eu tinha de me expressar e de me conhecer melhor através da arte.

Acredito que os próximos trabalhos continuarão partindo desse lugar. Tenho muito interesse em explorar a sensualidade, mas não no sentido mais superficial da palavra. Para mim, sensualidade tem a ver com presença, autoconhecimento, intimidade consigo mesma. É sobre se sentir, se perceber e habitar a própria existência de forma verdadeira.

Também gosto de abordar reflexões sobre a vida, sobre o amor, sobre aquilo que realmente importa para nós. São temas amplos, mas que atravessam a experiência humana de maneira muito profunda.

Por isso, sinto que vou continuar seguindo esse caminho, porque ele é verdadeiro para mim. Quero trazer cada vez mais das minhas referências musicais, das minhas experiências e da minha visão de mundo para dentro da minha arte. E tenho a sensação de que tudo o que virá depois desse ep nasce exatamente dessa vontade pura.




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