Papangu: entre a resistência à I.A. e a liberdade criativa de Celestial
Neste domingo, 27 de setembro, a capital mineira recebe uma das bandas mais inventivas da música pesada brasileira na atualidade: a Papangu. O quinteto paraibano volta a Belo Horizonte após dois anos, desta vez com o novo e elogiado álbum “Celestial” na bagagem.
Gravado em Berlim, na Alemanha, em um processo analógico e praticamente ao vivo, o disco amplia ainda mais o universo sonoro da Papangu, marcado pelo encontro entre o peso do metal e do rock progressivo, experimentações e elementos da música brasileira e nordestina.
A Phono conversou com a banda sobre a expectativa para o show em BH, a relação dos integrantes com a música mineira, a repercussão de “Celestial” dentro e fora do país, a turnê do disco na Europa e outros assuntos.
As respostas são de Rodolfo Salgueiro (voz e teclado), Marco Mayer (voz e baixo), Pedro Francisco (guitarra, teclado, voz, flauta e percussão) e Hector Ruslan (voz e guitarra).
O show da Papangu acontece às 18h, n’A Autêntica. Os ingressos podem ser adquiridos neste link.
Confira a entrevista!

Apesar de uma trajetória que já levou a Papangu a diferentes palcos do Brasil e da Europa, demorou para a banda retornar à Belo Horizonte. Por que tanto tempo e qual é a expectativa para finalmente tocar na cidade?
Rodolfo: Amamos BH e estamos ansiosos para este retorno! Faz muito tempo desde nosso último show, que lotou a Casa Matriz, e ainda não tínhamos o “Celestial” em mãos. Desta vez traremos um repertório muito diferente, mais maduro e com muito mais improviso e experimentação. A nossa demora se deu por logística – tem sido difícil circular no Brasil fora do circuito de editais ou grandes festivais, costuma ser muito caro sair do Nordeste para shows pontuais. Ficamos muito felizes com a possibilidade de fazer este show na Autêntica, que é um local tão bem quisto e tradicional de shows na capital mineira, sabemos que será um sucesso!
Belo Horizonte tem uma relação histórica muito forte com o rock e o metal, mas também uma tradição de música experimental e de misturas pouco óbvias, algo que conversa bastante com a Papangu. Vocês sentem alguma afinidade especial com a cena musical mineira?
Pedro: Com certeza a música mineira, principalmente Clube da Esquina, Lô Borges, Milton Nascimento, Toninho Horta, Tavito, e toda a galera que transitou por esse movimento, influenciou demais a Papangu e o “Celestial”.
Marco: Também nos influenciaram as bandas pioneiras do metal mineiro, como Sepultura e Sarcófago – especialmente no nosso disco de estreia, “Holoceno”. Tem algo mágico em Minas que sempre transparece na música.
A Papangu acaba de voltar à Europa levando “Celestial” na bagagem. Como foi essa nova experiência no continente e o que mudou em relação à primeira turnê internacional da banda?
Rodolfo: Foi muito gratificante rever pessoas que conheceram a gente em 2025, e viajaram apenas para ver o show. Também percebemos o público dobrar ou triplicar nos países onde tocamos pela segunda vez. Desta vez tivemos mais shows, em locais maiores e acessamos públicos e países que não conhecíamos ainda: Espanha, Áustria e França. Esperamos retornar em breve, em 2027, para poder talvez nos aprofundar mais na Península Ibérica, onde tivemos shows sold-out em Lisboa e Porto.
Como tem sido perceber a recepção de “Celestial” fora do Brasil? Há diferenças interessantes entre a maneira como o público estrangeiro e o brasileiro entendem essa mistura de metal, progressivo, jazz, forró, ciranda e outras referências nordestinas?
Rodolfo: Há diferenças, sim. Às vezes somos colocados numa caixinha de “latin jazz” ou “world music” por resenhistas gringos. É engraçado. Não é por maldade ou desinteresse, mas por falta de referências. Porém, há sempre muita abertura para aprender e ouvir, e notamos que eles percebem que há mais do que só isso, mas não têm nosso vocabulário para expressar. Ficamos felizes de poder ser didáticos também, não só nas entrevistas, mas nos shows, e compartilhar com o público nossa região, estado e país. Tentamos sempre informar sobre o que fazemos e elucidar dúvidas sobre a mistura, dentro e fora do palco.
E dentro do Brasil, como vocês avaliam a chegada de “Celestial”? O disco encontrou o público que vocês imaginavam ou algumas reações e interpretações surpreenderam a banda?
Marco: A recepção tem sido surpreendente. O rock que fazemos é meio cabeçudo e teimoso para os parâmetros comerciais, mas mesmo assim o disco alcançou diversas listas de críticos musicais (profissionais e leigos), repercutiu em veículos de peso, como Pitchfork e Rolling Stone Brasil, e está sendo ouvido por um público bem maior no Brasil e exterior! Estamos super felizes. Foi particularmente espantoso ver a resenha do disco parar na Pitchfork.
Hector: O público da Papangu é bem diverso. Tem o pessoal do jazz, do rock, do metal, entre outros. Entretanto, o “Celestial” vem aparecendo em listas e veículos que ampliam até mesmo essas etiquetas já marcadas anteriormente pelo “Lampião Rei” e pelo “Holoceno”. O “Celestial” está sendo interpretado como um disco de música brasileira que efetivamente transcende as barreiras de gênero musical, então é bem interessante verificar que o material tem recebido boas resenhas de portais mais voltados para MPB ou indie rock, por exemplo. Acho que isso é natural, tendo em vista que o som da banda carrega consigo a perspectiva de questionar a própria rotulação de música em gêneros e caixinhas hermeticamente fechadas.

O álbum foi gravado em apenas nove dias no Big Snuff Studio, em Berlim, logo depois de uma turnê, com a banda muito entrosada de palco. Quanto daquela energia (inclusive das imperfeições de uma performance ao vivo) acabou registrada definitivamente no disco?
Pedro: Foi um processo interessante, porém um verdadeiro desafio. A decisão influenciou bastante a gravação, pois escolhemos um processo em que não há maquiagem, então esse senso de urgência faz parte do disco. Estou bastante satisfeito com o resultado, acho que está entre os melhores, senão o melhor trabalho em que já participei. Nos entregamos de corpo e alma para entrega desse som, que é composto por múltiplas camadas de referências nossas.
Rodolfo: Urgência foi a palavra chave: com músicas por vezes complexas e arranjos arriscados, além da limitação da fita, “Celestial" é considerado pela banda um feito heróico onde cada faixa carrega cicatrizes de batalha da gravação. É um disco marcado por limitações transformadas em qualidades e características únicas. As vantagens são inúmeras. O entrosamento e o espírito do palco ficam evidentes, e as decisões sobre alguns arranjos são facilitadas pelo que já está funcionando na estrada. Ter pouco tempo de gravação pelas limitações financeiras e estadia fora do país também deram propulsão ao alto nível de motivação em cada dia de gravação.
Vocês fizeram uma escolha bastante radical para 2026: gravar e mixar “Celestial” em fita magnética, sem computadores e praticamente sem possibilidade de editar ou corrigir posteriormente. O que essa limitação trouxe artisticamente que talvez não existisse em uma gravação digital?
Marco: É um desafio por vários motivos. Além da necessidade de estarmos totalmente afiados e capazes de dar boas performances a músicas muito difíceis do começo ao fim, sem a possibilidade técnica de cortar e colar pedaços como no computador, é muito difícil achar estúdios com equipamentos analógicos em bom estado de funcionamento – e três vezes mais desafiador achar pessoal vivo capaz de operar esses equipamentos, já que a técnica por trás de maquinário valvulado e fitas magnéticas virou coisa de grimório. Foi inspirador poder fazer um disco à moda antiga, sem atalhos.
Rodolfo: O som da fita é muito pronto, é difícil de explicar. Você pode ver 100 vídeos no YouTube dos caras falando: “Ah, isso é nostalgia, plugin tal faz isso”. Eu também achava que era nostalgia, mas gravei em fita e vi que não é. É diferente. A compressão analógica e as próprias limitações do processo colocam tudo no lugar. A filosofia da gravação muda: você não está olhando para o espectrograma, está ouvindo mais. E escolher algo e viver com aquela decisão faz você relevar certas imperfeições. Hoje tudo se corrige, mas gravações clássicas têm barulhos, vacilos, coisas humanas.
Pedro: A gente já gosta muito de estar em estúdio, então essa não foi a parte difícil. Na verdade, gravar em fita foi uma das partes mais prazerosas. Se fosse possível, eu só gravaria assim. A fita obriga você a tomar decisões antes e seguir com elas até o fim. As dificuldades vieram mais de questões práticas e logísticas. Fazia muito calor, o estúdio não tinha ar condicionado, nem podíamos ligar o ventilador durante as gravações, e os próprios equipamentos esquentavam bastante.
Essa opção pelo processo totalmente analógico também foi apresentada pela banda como uma tomada de posição diante do avanço da inteligência artificial na produção artística. Para vocês, existe hoje uma dimensão política na escolha de preservar o erro, a performance e a intervenção humana na música?
Marco: O momento é muito oportuno para resgatar e reafirmar nossa posição no mundo enquanto artista que cria. Tudo que gostamos de fazer na vida, do cafezinho ao beijo, do ouvir música à voltinha de bicicleta é marcado por pequenos rituais, jeitos específicos de fazer e sentir. Nenhuma dessas experiências ou atos podem ser substituídos por uma tecnologia que reduz tudo ao mínimo denominador comum, pasteuriza e excreta uma média sem nuances. Nas letras desse disco, tentamos escancarar as coisas que fazemos para nos assegurar de que tudo vai bem. Daí vem fechar o corpo, virar mandacaru que dá flor de noite, e espantar inveja e mau-olhado.
Rodolfo: Miguel Nicolelis, o neurocientista brasileiro, discorre brilhantemente sobre como a dita IA não é inteligente, nem muito menos artificial: a verdadeira inteligência é uma propriedade emergente da matéria orgânica e da evolução biológica. Além disso, a IA depende fundamentalmente da exploração constante do trabalho humano. “Celestial” retrata poeticamente diversos episódios e fenômenos correlatos ao que vivemos nesta era: a iminência da perda da humanidade, a urgência de buscar proteção contra aquilo – ou aquele – que já está sobre nossos ombros, e a trágica entrega voluntária da própria humanidade à maquinização.
Do peso de “Holoceno” à brasilidade de “Lampião Rei” e agora ao universo mais amplo de “Celestial”, a Papangu parece evitar deliberadamente repetir uma fórmula. O que o terceiro disco encerra na história da banda e que caminhos ele aponta para o que vem depois?
Rodolfo: Ele facilita e dificulta ao mesmo tempo. Agora podemos deixar claro que sempre tentaremos mudar, que a previsibilidade não é uma característica com a qual queremos contar. Por outro lado, é desafiador evitar a busca por novidades por mero capricho. Queremos que tudo que façamos seja autêntico, verdadeiro para nós. Uma coisa que certamente vislumbramos após a fase do “Celestial” é gravar um disco que nos dê mais tempo em estúdio, pois tanto o “Lampião Rei” quanto o “Celestial” foram gravados em pouquíssimo tempo. Gostaríamos de produzir algo no futuro com arranjos mais elaborados, tempo de experimentação em estúdio e a participação de mais músicos e instrumentos.
Para quem vai assistir à Papangu pela primeira vez em Belo Horizonte, o que o show de “Celestial” apresenta além da experiência de ouvir o disco? Até que ponto essas músicas continuam se transformando no palco?
Rodolfo: O palco é onde nossas músicas verdadeiramente evoluem. Talvez as alcunhas de “Rock Troncho” e "Hermeto Core" que nos foram dadas façam muito mais sentido ao vivo do que nos discos, e é como queremos que a Papangu seja lembrada: como uma banda que entrega nos palcos a energia dos sons que a influenciam. As músicas são transformadas, improvisos surgem e junções inesperadas ocorrem. É catarse. Gostamos de shows longos e público engajado, participativo. E sabemos que BH vai entregar isso.
Hector: BH é aquilo que na banda chamamos de “jogo ganho”: sempre temos um público que lota a casa e vai cantando, pulando e participando de todas as canções quase que quebrando a barreira entre público e artista. Tudo isso realmente transforma o show em um momento mágico e singular. Gostamos muito de tocar na cidade e a banda inteira está ansiosa para o reencontro com nossos velhos e novos amigos mineiros.

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