top of page

FBC canaliza energia na Autêntica em véspera de eleição

há 9 horas
3 min de leitura

Na noite de 2 de outubro, a Autêntica, em Belo Horizonte, recebeu uma apresentação que ultrapassou os limites de um show convencional. Às vésperas do primeiro turno das eleições, FBC fez do palco um espaço de manifestação política, articulando posicionamento ideológico, experimentação sonora e interação com o público. A dimensão política, nesse caso, não se restringiu aos discursos entre as músicas: estava presente na própria concepção artística do espetáculo.



Ao longo da carreira, o rapper belo-horizontino construiu uma identidade na qual a política ocupa lugar central, orientando suas escolhas estéticas, suas composições e seus posicionamentos públicos. Sua ligação com a Unidade Popular (UP), partido de orientação socialista, integra essa trajetória e ajuda a compreender a apresentação como uma extensão de suas convicções.


O principal eixo da noite foi Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades, álbum que representa mais uma incursão de Fabrício Soares Teixeira por novos territórios musicais. O trabalho investiga referências do rock, do punk e do hardcore, preservando a contundência política característica de sua produção.



Falar em abandono de uma zona de conforto, entretanto, seria reduzir a amplitude de sua trajetória. FBC já transitou pelo rap, pelo Miami bass, pelo funk e por diferentes experiências sonoras, demonstrando uma disposição constante para a reinvenção. No novo disco, essa inquietação se manifesta em guitarras, arranjos de maior peso e uma abordagem que aproxima o espetáculo da energia dos concertos de rock.


Na Autêntica, boa parte do repertório foi dedicada ao álbum. Faixas como “Gênesis (Parto)”, “Não Vote em Ninguém”, “Lesa Pátria”, “Guilhotina”, “Ódio Social”, “Bandido Bom”, “Os Porcos Vêm Aí” e “Homo Sacer” foram acompanhadas em coro, enquanto rodas de mosh se formavam entre os presentes. A resposta calorosa da plateia demonstrou a capacidade do artista de incorporar uma nova linguagem musical sem romper o vínculo com seu público.



A intensidade da apresentação ganhou um capítulo especial com a participação de Djonga. Convidado a subir ao palco para reproduzir sua colaboração em “Homo Sacer”, o rapper belo-horizontino provocou uma reação imediata da casa. A aparição tornou-se um dos momentos mais marcantes da noite, reunindo dois nomes importantes da música urbana mineira.



A dimensão política também se manifestou de maneira explícita. Durante o espetáculo, Indira, candidata ao governo de Minas Gerais pela Unidade Popular, subiu ao palco, agradeceu o espaço e dirigiu uma mensagem ao público sobre a importância da mobilização antifascista. A intervenção dialogou diretamente com o repertório e com o contexto eleitoral, reforçando a compreensão do palco como espaço de expressão e participação pública.



Na segunda metade, o show ampliou o recorte da discografia de FBC, contemplando também faixas de Assaltos e Batidas e dedicando atenção especial a O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão nos Levar para Outro Planeta ("Químico" e "Estante de Livros"), e o álbum O Baile. Lançado em 2021, o álbum projetou nacionalmente o artista e consolidou sua pesquisa sobre o Miami bass e as sonoridades da música de baile dos anos 1980 e 1990.


“Se Tá Solteira”, um de seus maiores sucessos, foi recebido com entusiasmo, assim como “De Kenner”,"Delírios" e outras faixas de trabalhos anteriores. A passagem entre os diferentes momentos da carreira evidenciou a amplitude de sua pesquisa: do peso das guitarras de Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades às batidas dançantes de O Baile, passando pela identidade sonora de Assaltos e Batidas, FBC percorre linguagens distintas sem perder a própria personalidade artística.



Parte fundamental dessa construção é a banda Quinta Categoria, que acompanha o rapper e desempenha papel decisivo na materialização de suas propostas. Longe de funcionar apenas como suporte instrumental, o grupo imprime personalidade aos arranjos e sustenta a transição entre universos musicais tão diferentes. A execução ao vivo valoriza a dimensão coletiva do espetáculo e merece reconhecimento próprio.


Em uma das pausas, FBC também prestou homenagem à filha, que completava 12 anos. O gesto introduziu uma dimensão íntima em uma apresentação atravessada por questões coletivas, revelando outra camada de sua expressão artística.



Outro destaque foi a interpretação de “Samba Makossa”, composição de Chico Science. Em vez de reproduzir a canção como uma homenagem protocolar, FBC a incorporou à própria linguagem, construindo uma versão particular que funcionou muito bem no contexto do show. A escolha reafirmou sua liberdade interpretativa e a disposição para estabelecer diálogos com diferentes tradições da música brasileira.


A apresentação na Autêntica reuniu, assim, elementos que atravessam a trajetória de FBC: inquietação estética, versatilidade e posicionamento político. Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades forneceu a espinha dorsal de uma noite em que a experimentação sonora também assumiu caráter de manifestação.



Na véspera do primeiro turno, a música se tornou instrumento de encontro e expressão política. Nas guitarras, nas rimas, nos coros e nas rodas de mosh, FBC encontrou uma maneira de transformar suas convicções em experiência coletiva, reafirmando que, em sua obra, arte e política não ocupam espaços separados.



Comentários


  • Instagram
  • mail

©2026 por Phono Brasil. Marca registrada. É proibida a reprodução total ou parcial de textos, fotos e ilustrações, por qualquer meio, sem prévia autorização.

bottom of page