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FBC fala sobre volta às origens, rock, ativismo político e novo disco

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

FBC é um dos nomes mais singulares da música brasileira contemporânea ao construir uma trajetória marcada por deslocamentos estéticos sem abandonar uma linha temática ligada à experiência popular, ao trabalho e à crítica social. Nascido em Minas Gerais, o artista surgiu no rap e consolidou reconhecimento nacional ao combinar lirismo cotidiano, comentário político e experimentação sonora.


Em sua discografia, trabalhos como S.C.A (2018)., Baile (2021) — que reposicionou referências do Miami bass e da música de pista dentro de uma linguagem brasileira — e O Amor, o Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta (2023) mostram um artista em constante reinvenção. Em seu disco mais recente, Tambores, Cafezais, Fuzis, Guaranás e Outras Brasilidades, porém, FBC desloca o eixo novamente e aproxima sua linguagem do rock e do hardcore, retomando referências anteriores ao rap e propondo uma obra mais frontal, coletiva e marcada por guitarras e tensão política.


Politicamente, FBC se apresenta como um artista que entende sua produção como instrumento de intervenção social. Ao longo da conversa, ele afirma repetidamente que entrou no rap “para fazer política” e relaciona sua formação artística à militância estudantil e ao trabalho de base em movimentos sociais ainda na adolescência. Seu discurso articula defesa da organização popular, crítica às desigualdades produzidas pelo capitalismo, preocupação com o avanço de discursos conservadores e valorização da cultura brasileira como campo de disputa simbólica.


Durante a entrevista FBC debate temas que atravessam música, memória e conjuntura política: a passagem do rap para o rock como mudança estética e gesto simbólico; a influência do hardcore e da MTV na formação musical do artista; o lançamento do álbum no Dia do Trabalho; o papel das plataformas de streaming na precarização do trabalho artístico; a experiência pessoal com escola, criminalidade e transformação de vida; além da ideia de que a arte precisa responder ao seu tempo histórico. Leia a entrevista na íntegra!


Quando ouvi o disco novo, fui pego de surpresa. Pensei: “agora O FBC ficou hardcore mesmo”. É um gênero pelo qual eu tenho muito apreço. E aí queria começar justamente por aí: ao longo da sua trajetória, você transitou por vários estilos — Rap, Miami bass, disco music — e agora aparece uma conexão muito forte com o rock e com o hardcore. O que essa mudança sonora revela sobre o momento político e emocional que você vive hoje?


O sentimento de revolta e de insatisfação do trabalhador é algo constante no capitalismo. Não existe capitalismo sem classe explorada. O que eu sinto hoje é que muito pouco o papel do rap dentro do tecido social hoje em dia.


O rap não faz parte da conjuntura política do país. Voltar ao começo faz mais sentido pra mim nesse momento. Por isso eu fiz o álbum mais pro rock porque foi do rock que vim. Eu entrei no rap para fazer política Eu via no rap uma possibilidade maior de dialogar com as pessoas do meu território, com mais sintonia, para fazer trabalho de base mesmo, dentro do movimento estudantil, alguns dos movimentos sociais que já fazia parte com 11, 12 13 anos, o pessoal do grêmio da escola e do pessoal que eu conheci naquele momento ali em Santa Luzia. .


Então, quando os caminhos se confundem, a gente tem que voltar ao começo, igual diz o Emicida. E o rock fazia sentido porque foi ali que eu comecei a fazer música.


Pensando justamente nesse período de formação musical: como o rock entrou na sua vida? Quais bandas, discos e cenas ajudaram a construir essa relação com o gênero?


Eu sempre tive contato com música. Tenho dois primos que tinham uma banda punk/hardcore chamada Rockslide. Lá tinha uma bateria, e eu me apaixonei pelo instrumento. Acabei começando a tocar bateria numa banda cover de Nirvana da escola, chamada The Fly. Toquei durante uns três anos.


Também toquei na igreja. Eu lembro que eu namorei com uma menina chamada Alice e ela era da igreja também. Eu tocava na segunda-feira, na renovação carismática da igreja lá em Plano Cristal do Santo Antônio. Então a música sempre esteve muito presente.


E teve a MTV também, né? Quando abriu sinal, ali entre 1999 e 2001, aquilo marcou demais a nossa geração. Top 10 MTV, Disk MTV, os 100 melhores clipes… Tudo o que o imperialismo americano forneceu de melhor da melhor cultura da prateleira americana pra nós. E tanto que o contato com a música brasileira vem depois, já com mais maturidade, mas quando eu era mais criança, eu gostava dessas coisas. 

Naquela época eu ouvia Soundgarden, Nirvana, depois fui descobrindo Black Sabbath, Deep Purple, Beatles… Mas eu não fiquei muito tempo no rock. Dos 14 anos em diante foi praticamente só rap.


O mais curioso é que o contato mais profundo com a música brasileira veio depois, já mais velho. Tem discos clássicos que fui ouvir pela primeira vez recentemente. Sexta-feira mesmo (15/05) eu estava ouvindo Gal Costa. O “Transa”, do Caetano, por exemplo, eu nunca ouvi.


Acho interessante isso porque a música também é muito fruto do momento histórico. Quem cresceu nos anos 90 acabou criando uma relação forte com aquele universo. E é engraçado porque minha primeira — e única — tentativa de ter banda também foi um cover de Nirvana.

Mas falando do disco: apesar de essa sonoridade mais pesada surpreender algumas pessoas, ela não surge exatamente do nada. Colaborações anteriores, como aquela participação no disco do Mukeka Di Rato, já davam sinais dessa aproximação com o rock.

Como você entende essa relação entre rap e hardcore como uma forma de expressar inconformismo social e enfrentamento político?


Eu entrei no rap pra fazer política. Então tudo o que eu faço passa pela política.

Eu acredito muito naquela ideia de que quem não gosta de política acaba sendo influenciado por quem gosta. Então é necessário que o trabalhador se organize e faça política. E o meu instrumento pra isso é fazer rap.


Eu acho que isso vai ser uma marca muito clara no meu trabalho. Muita gente não entende a crítica social que existe até dentro do Baile, mas não tem nada que eu faça que não seja uma crítica social. Meu trabalho artístico tem um viés ativista.


E o rock, pra mim, soa muito orgânico e visceral. Talvez, dentro desse diagrama, ele consiga convergir todo o meu estudo, toda a minha caminhada. Acho que a gente vive um momento em que precisa de clareza, de gritar, de marcha, de grito de ordem. É disso que o povo precisa. O povo precisa ter mais sentimentos, tipo esse Neymar na Copa, tá ligado?  Uma piada. Uma loucura.


A gente precisa voltar a sentir as coisas coletivamente. O futebol e o carnaval têm muito isso. O canto de torcida, por exemplo, consegue unir as pessoas de um jeito muito forte. O Brasil é um país muito difícil de entender porque ele vive de atrito, de antagonismo de classe, ressentimento de gênero, contradições sociais o tempo inteiro. Parece um tecido muito fino que a gente não entende por que ainda não pegou fogo. E talvez o que ainda mantenha isso unido sejam justamente esses momentos coletivos. No carnaval, todo mundo canta junto. No estádio, todo mundo canta junto. Por alguns instantes, todo mundo parece igual. 


O álbum foi lançado no Dia do Trabalho, uma data historicamente ligada às lutas da classe trabalhadora. Em um momento em que o capitalismo transforma até o descanso em produtividade e performance, qual o peso simbólico de lançar um disco tão político justamente nesse dia? 


Revisitar o passado também é uma forma de evolução musical. Eu queria deixar marcado na minha trajetória, na minha discografia, esse acerto de lançar um disco político, quase como um hinário, uma ode aos nossos mártires, justamente nessa data.


Existe toda uma lógica das plataformas e distribuidoras que coloca a sexta-feira como o melhor dia de lançamento. É o dia em que o sistema funciona melhor para a música circular, performar, alcançar mais gente. E eu entendo isso, faz parte da ferramenta. Mas aí eu percebi que o Primeiro de Maio cairia numa sexta-feira — e isso só vai acontecer de novo em 2037. Então eu dei muita sorte.


Na verdade, eu queria lançar o disco no dia 17 de abril, que é o Dia Internacional da Luta Camponesa e também a data do massacre de Eldorado dos Carajás. Mas não consegui finalizar a pós-produção a tempo. Quando vi o calendário e percebi o Primeiro de Maio numa sexta, entendi aquilo como um sinal. Fez todo sentido lançar o disco naquele momento.



Em tambores, cafezais, funis, guaranás e outras brasilidades, o Brasil aparece menos como paisagem e mais como tensão permanente. O disco parece interessado em discutir estruturas de violência, exploração e apagamento histórico. Que Brasil você sentiu necessidade de confrontar nesse trabalho?


Eu acho que o Brasil que a gente precisa confrontar hoje é o Brasil que recusa a própria identidade. A gente tem que lutar contra o ‘bostileiro’, contra essa galera que usa termos como ‘bostil’, que ocupa a internet para disseminar ódio, desinformação e ressentimento. Porque existe o Brasil desinformado, mas existe também o Brasil que desinforma. E, pra mim, o Brasil que desinforma é ainda pior. O Brasil que não informa é o Estado que não transforma, que não atua, que não ocupa os espaços que deveria ocupar. Eu acredito num Estado grande, forte, principalmente para o povo.

Mas o Brasil que desinforma é o Brasil entreguista, o pensamento vira-lata. Esse é o Brasil que a gente precisa enfrentar. E também o Brasil do fanatismo religioso. Criou-se durante muito tempo um fantasma da ‘doutrinação marxista’, mas a doutrinação neopentecostal está acontecendo de forma muito concreta.


Em Belo Horizonte, por exemplo, muitas creches são geridas por instituições evangélicas. Então qual é a verdadeira doutrinação? Mais gente frequenta creche do que universidade. Quem está formando essas crianças desde cedo? Certamente não são os “comunistas da PUC, da USP ou  da UFMG”, como gostam de dizer.


A teoria da prosperidade já está sendo ensinada para crianças muito pequenas. Nossos moleques de quatro anos já crescem ouvindo que felicidade está ligada ao poder de compra, ao consumo, à lógica do dinheiro. Então essa formação ideológica já está acontecendo, e ela molda a forma como as pessoas enxergam o mundo.


Já vi você dando entrevista falando de um professor de história que mudou a sua vida. Como é a história mesmo? Conta aí de novo, por favor.


Eu não sei se ele fazia aquilo de propósito ou se era só o acaso funcionando. Hoje eu penso muito nisso: talvez as coisas simplesmente aconteçam. E as leis da vida, do universo, obedecem muito ao acaso também.


Naquela época eu vendia droga e estudava ao mesmo tempo. Ele era meu professor de história no primeiro ano do ensino médio. A gente morava relativamente perto: ele dava aula em um bairro próximo do meu e, para voltar para casa, passava justamente pela rua onde eu ficava traficando.

Muitas vezes eu estava ali vendendo droga e ele passava. E o mais louco é que parecia que ele não enxergava a situação em si, mas enxergava a minha pessoa. Ele sempre olhava no meu olho e perguntava: “Como é que você tá? Vai na aula hoje?”.


Aquilo mexia comigo. Eu ficava pensando naquilo durante muito tempo. Me dava vergonha. Parecia errado continuar ali depois de encontrar com ele. Às vezes eu até mudava o horário que ficava na rua. Não lembro exatamente se parei por causa disso, mas sei que ele foi muito importante para mim. Durante um tempo eu até quis ser professor de história.


Você chegou a prestar Vestibular?


Não cheguei a prestar vestibular. Parei de estudar no segundo ano do ensino médio. Fui expulso da escola por vender droga lá dentro. Era muito irresponsável.


Mas você  amadureceu. Está vivendo um outro momento, você é pai, é músico, é responsável, entre outras coisas, né? 


A vida vai levando a gente para caminhos diferentes. Na época, o lance era muito sobre dinheiro. O tráfico parecia a forma mais rápida de conseguir isso. E eu também vejo uma diferença muito grande entre o crime daquela época e o de hoje. Nos anos 90 e começo dos anos 2000 existiam figuras muito violentas, caras que enxergavam no crime uma oportunidade de exercer crueldade. Eram pessoas conhecidas na cidade inteira, gente com dezenas de homicídios nas costas. O banditismo fazia parte do imaginário popular.


Hoje me parece diferente. Vejo muita gente entrando nisso mais pela necessidade financeira do que por uma lógica psicopata. Ao mesmo tempo, a violência mudou de forma. Parece que os homens não se matam mais como antes, mas o feminicídio cresceu de uma maneira assustadora. Em Belo Horizonte, o que mais vejo são casos de mulheres assassinadas. É uma loucura.


No fim, o crime sempre ocupou um espaço simbólico muito forte no Brasil. Tem uma frase do Chico Buarque que fala disso de um jeito muito preciso: !um crime para comentar, uma samba para distrair” (de “Deus Lhe Pague”). E é meio doido perceber como isso continua atual.


Existe uma sensação de urgência muito forte no álbum, tanto na sonoridade explosiva quanto nas letras. Você acredita que o avanço de discursos reacionários, autoritários e ultraliberais no país exige hoje uma arte menos contemplativa e mais incisiva? 


Em todos os âmbitos da nossa vida, a gente equilibra desejo e circunstância. A música acompanha isso o tempo inteiro. Se você está transando, talvez queira ouvir Sade. Se está lavando uma calçada, coloca uma música mais energética. Num churrasco, entra um Jorge Ben Jor, uma coisa mais cítrica, mais tropical. Na academia, você procura algo que te mova, que te impulsione.


Eu penso muito nisso quando faço música. Se eu me considero uma pessoa que tenta usar pensamento crítico para criar arte e produzir algum conteúdo intelectual dentro do Brasil, então eu preciso estar afetado pelas coisas que acontecem ao meu redor. E, sinceramente, hoje eu não consigo olhar para o país de forma contemplativa.

Se for para contemplar alguma coisa, é contemplar o Brasil em chamas. Porque a realidade é essa.


Em pleno 2026, a gente ainda vê territórios quilombolas lutando pela titulação das suas terras, ameaçados por mineradoras, pelo interesse estrangeiro, por disputas econômicas e religiosas. São questões que deveriam ter sido resolvidas há décadas, mas continuam abertas desde a gênese do país.


A gente ainda está preso a conflitos históricos muito profundos, e isso inevitavelmente atravessa a criação artística. Por isso eu acredito que, se existem reformas urgentes a serem feitas no Brasil, nós, da classe artística, também precisamos reformar nossa maneira de pensar e criar. Precisamos construir uma revolução cultural.


Isso significa questionar símbolos, métodos e lógicas coloniais e imperialistas o tempo inteiro. Significa estreitar os laços com a diáspora africana, com as heranças originárias, com outras formas de imaginar o país. E quando você realmente se aproxima dessas histórias e dessas experiências, o sentimento que aparece é revolta, indignação, insatisfação.


Claro que existe orgulho da ancestralidade, orgulho da resistência, orgulho dos exemplos que vieram antes. Mas existe também raiva. E eu acho que é impossível não estar revoltado olhando para o Brasil de hoje. Você vê figuras públicas defendendo discursos absurdos, normalizando violências e extremismos, e percebe que não dá mais para reagir com passividade. Tem que estar incomodado. Tem que estar bolado. Não tem outra forma, né? Você vê Flávio Bolsonaro chamando o Daniel Vorcaro de meu irmão? Tem que estar bolado, pô!


Pela primeira vez, você revisita canções de outro compositor ao incorporar músicas de João Bosco ao repertório. O que existe nessas obras — especialmente em “Gênesis”, “O Ronco da Cuíca” e “Tiro de Misericórdia” — que conversa diretamente com o Brasil de hoje? 


É um Brasil muito atual. Um Brasil que talvez não sinta mais a mesma fome de outros períodos históricos, mas que hoje sente outro tipo de fome: fome de identidade, de linguagem, de pertencimento. E isso é difícil de resumir porque envolve muitas camadas. Ao mesmo tempo em que o Brasil ainda ocupa uma posição periférica economicamente, ele virou um soft power gigantesco. Você abre o TikTok, o Instagram, e vê o mundo inteiro consumindo o lifestyle brasileiro — a forma como a gente veste, dança, canta, produz, fala.


Existe uma potência cultural brasileira muito forte circulando globalmente hoje. Só que, ao mesmo tempo, a gente ainda vive preso a arquétipos e referências que não são nossas. É como se o Brasil exportasse identidade o tempo inteiro, mas internamente ainda tivesse dificuldade de reconhecer valor na própria cultura. E acho que esse conflito aparece muito no disco também: um país que influencia o mundo, mas que ainda luta para se enxergar de forma menos colonizada.


O disco tem a produção de Baka e é impressionante como ele consegue equilibrar agressividade, densidade política e apelo popular. Como foi construir esse diálogo criativo? 


Eu já conhecia o Baka de outros trabalhos, acompanhava o que ele fazia no Rosa Neon e também os projetos autorais dele, e sempre ficava muito impressionado. Ele fazia umas coisas muito particulares, umas sonoridades que às vezes me remetiam a uma estética oriental, japonesa, uma parada bem diferente do que normalmente estava acontecendo ao redor.


O Baka é um cara muito experimental, mas o mais impressionante é que ele tem identidade. Você escuta e reconhece. Tem produtor que faz muita coisa boa, mas o Baka tem assinatura. Você ouve e fala: isso aqui passou pela mão dele. Eu até brinco com ele que, musicalmente, é uma das pessoas mais loucas que já conheci — tirando eu. Ele vive música de um jeito muito espontâneo. Me lembra um pouco o Hermeto Pascoal nesse sentido: parece que a música simplesmente acontece ao redor dele. Ele respira e vira música. E teve um momento que começou a virar a chave. Eu estava conversando com o Pepito e vendo alguns arranjos que estavam puxando muito para o rock, especialmente coisas que surgiram em apresentações. Ao mesmo tempo, estava rolando um contexto político que estava me atravessando muito, discussão em rede social, um monte de coisa acontecendo. E eu fiquei com a sensação de que precisava lançar esse disco porque o Brasil precisava de artista falando o óbvio. E hoje parece que dizer o óbvio virou uma necessidade.


Na hora eu pensei: é o Baka. Já existia vontade de fazer alguma coisa junto e ele sempre teve uma relação muito forte com guitarra, então fez sentido. A gente começou sem muita pretensão. Ele mandou alguns beats, não foram muitos — seis, sete, oito, nem lembro. Usei alguns, descartei outros. Gravei parte aqui porque ele tinha ido para São Paulo.


Em algum momento ele ouviu o que estava tomando forma e falou: ‘vamos fazer mais, vamos transformar isso num álbum’. Depois o processo teve pausas, ele estava vindo de outros trabalhos e eu trouxe o Dandan (Daniel Souza) para ajudar o disco a continuar andando porque eu não podia esperar — aquelas ideias já estavam terminando dentro da minha cabeça. Mas olhando para o resultado final, quem deu unidade para o disco, quem criou essa textura, esse ambiente e amarrou tudo do começo ao fim foi o Baka. Acho que esse álbum tem muito da identidade dele também. Ele é foda.


Aproveitando que você citou o Pepito e o Dandan eu achei interessante também que pra esse álbum você já trouxe o Djonga, que é um parceiro de longa data, e também a MC Taya. E aí eu queria ver que você falasse a respeito dessas participações. O que cada um trouxe pra essa construção desse universo e de que forma eles contribuíram para o resultado final?


É muito difícil trabalhar com feats em um álbum em que o conceito está muito amarrado na cabeça do artista — ainda que, no fim das contas, nenhuma obra tenha obrigação de responder totalmente à intenção do autor.


Eu sinto que fico num lugar de conflito com isso porque o rap carrega uma dimensão muito egóica na forma como é construído. E quando eu falo de MC, vale para qualquer pessoa que ocupa esse lugar. Existe uma linearidade muito forte entre o momento em que eu penso uma ideia e o momento em que eu executo e concluo a obra. Na minha cabeça, normalmente isso já vem muito definido. Por isso, durante muito tempo, feat sempre pareceu uma variável. E variável, às vezes, pode ser danosa ao resultado quando você está tentando construir uma coisa muito específica.

Mas nesse disco foi super tranquilo. A MC Taya e o Djonga entenderam muito bem a proposta do álbum e conseguiram entrar dentro desse universo sem distorcer o conceito, sem virar aquela lógica de música de sessão, em que cada um entra para afirmar a própria presença. E isso é muito bonito quando acontece: quando os artistas convidados conseguem se inserir dentro da tessitura da ideia, contribuir para o tema sem romper o tecido conceitual do disco.


Acho que o rap tem muito esse exercício do eu. Não exclusivamente, mas majoritariamente. O eu lírico do MC costuma ocupar o centro da narrativa — “eu sou rico”, “eu sou bonito”, e o mundo reage ao que eu sou ou ao que eu tenho. Existe uma lógica muito centrada na própria figura.

Nesse disco, o desafio era outro. Era conseguir trazer outras vozes sem perder o eixo. E acho que o mais interessante foi justamente ver como cada participação conseguiu permanecer dentro do tema, mas ao mesmo tempo elaborar esse tema a partir da própria experiência, da própria visão de mundo e daquilo que cada artista acredita e pratica dentro da arte.


Vamos falar agora do seu trabalho junto ao selo Xeque Mate, o qual você é sócio. Nos últimos anos, as plataformas de streaming consolidaram uma lógica em que a música se tornou praticamente infinita, imediata e, para o público, muitas vezes percebida como gratuita. Ao mesmo tempo, cresce a sensação de saturação, desgaste dos algoritmos e precarização do trabalho artístico. 

Você sente que o modelo das plataformas, como conhecemos hoje, está entrando em crise? Como imagina o futuro da circulação da música em um cenário em que tudo parece cada vez mais acelerado, descartável e orientado por métricas? Como fazer com que o mercado se torne mais sustentável para o artista?


Eu acho que a profissionalização é um caminho inevitável de qualquer profissão, de qualquer categoria de trabalhador. E a música não escapa disso.


As crises vêm, os modos de produção mudam, e quem está na base vai se adaptando. Não existe cenário que permaneça igual. O que eu acredito é que nós, trabalhadores da música, podemos disputar para que esse cenário fique menos desigual, menos abusivo, menos exploratório. Isso passa por discutir remuneração das plataformas, repensar a legislação da música no Brasil e fortalecer mecanismos que garantam mais retorno para quem produz. Mas também passa pela postura do próprio artista. Para quem decide se profissionalizar e tratar a música como um trabalho que precisa ser valorizado, existe um compromisso constante de refinar o próprio processo: melhorar a entrega, entender como apresentar a obra, desenvolver linguagem, cuidar da forma como a música chega nas pessoas.


Sobre o futuro, eu me pergunto muito se a gente vai conseguir descentralizar a produção e a circulação da música. Mas também existe o risco de essa descentralização acontecer sem mudar tanto as estruturas. É como se antes existisse um grande centro de poder e depois ele se fragmentasse em vários menores — muda a configuração, mas não necessariamente muda a lógica.

Então eu vejo um cenário complexo. E, nesse contexto, a única resposta que eu encontro é continuar estudando, refinando, aperfeiçoando a arte, aprofundando a própria linguagem e construindo uma subjetividade artística verdadeira.


Porque, no fim, fazer com verdade ainda é o diferencial para sobreviver na música. Quem aposta só em fórmula instantânea ou tendência normalmente envelhece junto com aquele momento. Funciona por um tempo, mas se esgota rápido. Já quando a obra nasce de uma pesquisa sincera, de linguagem, de identidade e de visão de mundo, ela tem mais chance de atravessar o tempo e se tornar atemporal. Essa questão da temporalidade é assim, nem todas as músicas de Jorge Ben Jor são atemporais, mas o Jorge Ben Jor é atemporal.  O Sarcófago é atemporal, mas o vocalista do Sarcófago não é atemporal. Todas as músicas de Caetano, de Gal, são atemporais? Não. Não existe um músico, uma banda que todas as músicas são atemporais. Pode ter um álbum atemporal.


É o que a gente está falando, às vezes tem discos que os anos passam, mas eles continuam aí, rodando, circulando. Estão no imaginário das pessoas. Mas não é sempre que o artista vai ver que a sua obra vai reverberar por tanto tempo. 


Sim.


Você acha que a sua obra vai reverberar por muito tempo? Você tem essa preocupação? 


Eu tento fugir daquilo que eu não controlo. Se ela vai viver muito tempo depois que eu morrer não vai ser mais um problema meu. Você precisa fazer aquilo que acredita e vai seguir nessa toada até o final. Esse que é o ponto.


Para fechar, pensando nesse Brasil atravessado por tantas tensões políticas, históricas e sociais — um país em que parece que todo dia a gente recebe uma pancada diferente — eu queria voltar numa ideia que apareceu várias vezes ao longo da conversa. A gente falou sobre contemplação, sobre urgência, sobre organização do sentimento e sobre o papel da arte diante desse cenário. Mas olhando para frente: qual você enxerga que é o seu papel como artista dentro desse Brasil contemporâneo? Mais do que reagir ao presente, o que você sente que precisa construir daqui para frente através da sua música?


Cara, essa é uma pergunta interessantíssima porque eu penso muito sobre como vou ser julgado no horizonte da história. Eu penso muito nos artistas que eu amo e me pergunto: o que eles estavam fazendo durante a ditadura militar? O que eles estavam cantando enquanto pessoas estavam sendo torturadas e mortas nos porões da ditadura? E diante dessa dissonância que o Brasil vive hoje, eu imagino que daqui a 30, 40, 50 anos alguém também possa olhar para trás e perguntar: o que esse artista que eu escuto estava fazendo naquele momento? O que ele escolheu dizer? O que escolheu não dizer? Pensando de forma otimista, talvez minha música seja redescoberta um dia. 


Talvez apareça numa aula de história!? 


Talvez, sim, talvez não. Talvez fique só entre pessoas curiosas sobre música, como eu sou — gente que quer entender o que estava acontecendo no país, na cidade, no estado, naquele momento histórico, dentro do gênero que gosta de ouvir. E eu já passei por alguns gêneros, então talvez alguém pergunte: onde esse cara estava nesse Brasil? E acho que minha resposta para isso é tentar estar dentro do espírito do meu tempo. Estar atento ao que está acontecendo e produzir a partir disso. Sempre com um pensamento progressista, com uma ideia de equidade e de fraternidade entre os povos.


Eu acredito na livre associação das pessoas. Acredito que fronteiras são construções e que, no fundo, o mundo funciona como uma unidade. E dentro dessa unidade existe uma coisa que conecta todo mundo: o trabalho.


O ser humano é um ser que trabalha. Você depende do meu trabalho, eu dependo do seu e todos nós dependemos do trabalho de outras pessoas. Essa é a nossa materialidade. É isso que nos organiza enquanto sociedade. 



1 comentário


Pedro Vieira
Pedro Vieira
23 de mai.

Entrevista muito foda! Acompanho o trampo do FBC a vários anos e sempre achei curioso essa parada de transitar pelos generos e, como eu gosto muito de ouvir albuns, os dele acaba sendo os que sempre visito dependendo da vibe que eu esteja. Além de ser inspirador ter um artista como ele sendo referencia e à parte disso tudo tem o ativismo popular e crítica social que são extremamente importantes pra musicalidade brasileira, já que temos tão poucos críticos ao sistema, cheguei ate comentar com alguns amigos sobre como esse album poderia facilmente ser chamado de "Hinos da Revolução brasileira" kkkk Muito sucesso e prosperidade pra esse monstro da música BR !!

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