Fernanda Takai comenta lançamento de registro ao vivo de Gol de Quem? 30 anos

Lançado em 1995, Gol de Quem? consolidou o Pato Fu como uma das bandas mais inventivas da música brasileira. Em faixas como “Qualquer Bobagem”, “Mamãe Ama é o Meu Revólver” e “Vida Imbecil”, "Sobre o Tempo", "Vida de Operário" o grupo costurou rock alternativo, pop, ruído, humor e experimentação em uma linguagem própria — irreverente, imprevisível e aberta à mistura. Produzido por Carlos Savalla, o álbum expandiu as fronteiras do rock nacional e deixou um legado de liberdade criativa que segue presente na trajetória da banda. Três décadas depois, permanece como um trabalho que ajudou a ampliar o que uma banda de rock podia ser no Brasil.
Para celebrar os 30 anos de lançamento do disco, em 7 de agosto de 2025, o Pato Fu voltou ao álbum na íntegra, em um show na Audio Club, em São Paulo, ao lado de Tom Zé, Zélia Duncan, BNegão e Coral. A apresentação também recuperou canções de outras fases do grupo e foi registrada em áudio e vídeo, com direção e concepção de Batman Zavareze, direção musical de John Ulhoa e produção de Aluizer Malab.
Em entrevista, Fernanda Takai fala sobre a permanência da liberdade criativa do disco, as diferenças entre a sonoridade de 1995 e a formação atual, o reencontro com o repertório ao vivo e a escolha das músicas e da ordem do show. Ela também comentou a participação dos convidados, o trabalho do produtor Carlos Savalla, a importância do registro audiovisual e o valor dos formatos físicos — CD e vinil — na era do streaming.
O registro ao vivo de Gol de Quem? Ao Vivo chega às plataformas digitais em 9 de outubro; no dia seguinte, às 21h, o audiovisual será exibido pelo canal Music Box Brazil e pelo YouTube do Pato Fu. As edições duplas em CD e vinil serão lançadas em data ainda a ser confirmada. Leia a entrevista na íntegra!
Em 1995, Gol de Quem? parecia nascer de uma vontade de experimentar sem pedir licença. Quando vocês voltam a tocar o álbum inteiro, o que reconhecem como essencial naquela inquietação — e o que hoje soa diferente para vocês?
Certamente a sonoridade ao vivo de hoje é muito diferente do que conseguimos em estúdio naquele tempo. Temos dois músicos excepcionais tocando com a gente: Xande e Richard. A vontade de fazer discos com conteúdo que tenha um certo grau de experimentação continua. Essa diversidade nos temas e sons está na gênese da banda.
O disco mistura rock alternativo, pop, ruído, humor e referências que pareciam vir de lugares, inicialmente, incompatíveis. Essa mistura era intuitiva ou havia uma ideia consciente de desafiar as fronteiras do que uma banda de rock poderia fazer?
Não tínhamos a menor ideia do que pudesse ser o futuro do Pato Fu. Eu mesma estava na banda porque minha banda de colégio acabou e eu gostava de tocar, embora estivesse me formando e já fazendo estágio na minha área que era Comunicação. Aos poucos a música foi ocupando mais e mais o meu tempo.
O álbum atravessa temas, sonoridades e escolhas que escapam a uma única época. O que nele conversa com o presente de forma mais surpreendente? Há algo que, ao reencontrarem agora, parece ter antecipado debates ou sensibilidades atuais?
De certa forma nossos sentimentos e questões parecem ser os mesmos. A humanidade realmente vai se desdobrando em ciclos que teimam em se repetir. E sonoramente vemos ali um pouco de música caipira, disco, guitarras pesadas, cultura pop, correria… quando lançamos nosso álbum 30 com canções inéditas, acho que tem um tanto disso ainda.
A passagem do tempo costuma transformar um disco em memória para quem o ouviu na juventude. Como apresentar Gol de Quem? a um novo público?
O show sempre foi moeda forte pra trazer mais gente pro nosso lado. Quem conheceu o álbum no passado se emociona e quem assiste a essas canções presencialmente hoje pela primeira vez, acaba se surpreendendo por ver uma banda em forma, tocando e cantando melhor do que antes, eu acho.
O álbum foi produzido por Carlos Savalla. O que a presença dele tornou possível naquele momento? Ao revisitar o repertório ao vivo, houve algum aspecto da produção original que vocês passaram a ouvir com outros ouvidos?
O Savalla possibilitou que essa primeira experiência num estúdio grande, com mais tempo pra registrar as músicas e não menos liberdade, viesse com qualidade e endosso dele. Ele já tinha uma história incrível e contar com toda a sabedoria dele em lidar com gravadora, cronograma e orçamento foi ótimo! Acho que todos nos orgulhamos ainda do que pudemos fazer naquela época e comprovamos como o disco foi importante pra nossa carreira.
Ao preparar a apresentação na íntegra, quais músicas revelaram novas possibilidades quando saíram do estúdio e voltaram para o palco? Alguma delas contrariou a lembrança que vocês tinham de como deveria soar?
Fica claro que deixamos Qualquer Bobagem bem mais próxima da versão original do próprio Tom Zé para que ele ficasse mais à vontade pra cantar. Ter Coral e Bnegão protagonizando as faixas também trouxe um grande bônus. Zélia dividindo comigo a música mais emblemática ali foi um grande presente e celebrou nossa grande amizade. Nessa gravação correu tudo bem macio.
O show também recuperou músicas de outras fases da banda que estavam há muito tempo fora do repertório. Como decidem quando uma canção antiga está pedindo para voltar — e o que ela precisa encontrar na formação atual para funcionar de novo?
Depois desses anos todos, acho que não tem nenhuma música que não possa ser transportada de volta aos palcos. Em outras épocas tínhamos bem mais limitação de equipamento, de conhecimento e desenvoltura mesmo. Uma música entra de novo no setlist quando é bem votada entre a própria banda.
Tocar um álbum inteiro cria uma narrativa diferente da de um show de repertório variado. Como se deu critério de seleção e a ordem do setlist?
Queríamos ser fiel à ordem integral, mas decidimos blocar os convidados na sequência pra que nenhum deles tivesse que esperar demais pra entrar. Então tivemos uma primeira parte e outra com músicas dos outros álbuns. Acabaram entrando as mais conhecidas pro pessoal sair bem feliz e pleno.
Tom Zé, Zélia Duncan, Coral e BNegão trazem trajetórias e vocabulários musicais muito distintos. O que cada encontro revelou sobre as canções do disco que talvez não estivesse evidente na versão original?
A escolha desses artistas tem a ver com nossa admiração por todos eles, nossos caminhos pela diversidade estética e sonora, por fazer total sentido nossa conexão pela arte em seu aspecto mais amplo possível. Cada um deles registrou uma nova versão que será amada para sempre por quem gosta de Pato Fu. E escreveram com a gente um capítulo muito bonito da nossa história.
As novas versões preservam a identidade das gravações originais ou vocês procuraram justamente criar algum atrito entre a memória do disco e a personalidade dos convidados?
Com exceção da música do Tom Zé, que contei antes, as outras mantiveram a identidade das gravações originais. Ajustando apenas tonalidade numa ou outra.
Por que registrar este show em áudio e vídeo agora? O que esse projeto pode guardar que a lembrança de quem esteve na Audio não consegue, e o que nenhuma gravação será capaz de reproduzir por completo?
Nada vai substituir uma experiência ao vivo, mas podemos dar uma ideia boa do que foi aquela noite através desse registro. Não é sempre que um álbum importante na carreira de uma banda completa 30 anos com os artistas ainda produzindo, excursionando e principalmente sendo amigos. De alguma forma também é divertido ver que um álbum tão diferente, desse prosseguimento a uma carreira bem sucedida num mercado musical tão sazonal.
A direção e concepção audiovisual são de Batman Zavareze, com direção musical de John Ulhoa e produção de Aluizer Malab. Como essas diferentes frentes dialogaram para construir um registro que seja também uma obra, e não apenas a documentação de uma apresentação?
A nossa grande chefe ou deusa será sempre a Música. Se não houvesse a permanência da consistência musical, a gravação não seria necessária. Era uma história estanque. Quando fizemos o disco, não tínhamos baterista, nem tecladista. Era um modelo 1.0, digamos. O Pato Fu de hoje, juntos com os convidados, equipe técnica, a linguagem visual do espetáculo, traduz de certa forma como somos no palco. Ter documentos sonoros e visuais de um momento ímpar como foi esse show da Audio é importante pra qualquer artista. Qualidade de som e imagem. Qualidade de pessoas que somaram com a gente! E nossos fãs tem muita parte na sustentação de nosso voo. Eles são maravilhosos!
Na era dos vídeos curtos e da circulação fragmentada de músicas, que valor vocês atribuem a um audiovisual pensado para ser assistido como espetáculo, do começo ao fim?
Como somos patossauros, enxergamos muito valor… tem gente que ainda gosta de assistir a shows sem pressa. Ver mais de uma vez, recomendar a outras pessoas. Não fazemos isso sempre, então acredito que o público terá curiosidade em conhecer esse lançamento. É uma chance boa de mais gente querer ver o Pato Fu ao vivo no futuro.
O projeto também terá edições duplas em CD e vinil. O que motiva essa escolha hoje, quando a maior parte da escuta acontece por streaming? Que tipo de relação com a obra vocês imaginam que o formato físico ainda proporciona?
As tiragens em vinil tem se esgotado rapidamente e continua a ser aquele objeto amado por quem tem uma escuta atenta de um álbum ou coleciona tudo de determinado artista. CDs ainda tem um pequeno mercado então gostamos de proporcionar esse tipo de escolha às pessoas. Quem quer ouvir on line tem, quem quer o disco físico também. Sem falar na possibilidade de ter artistas gráficos trabalhando mais uma vez com a gente.
Três décadas depois, o que vocês ainda gostariam de descobrir sobre esse disco — em vocês mesmos, nas canções ou na maneira como o público o escuta?
Quando o show e álbum estiverem no ar gostaríamos de saber que as pessoas estão felizes em ter essa opção e que um disco como o que lançamos em 1995 faça todo mundo querer ouvir outros álbuns do Pato Fu. Eu sou do tipo de artista que escuta sim o material que já gravou. Sei que tem gente que não gosta de fazer isso. Gosto de pensar que fomos muito produtivos ao longo desses 34 anos de carreira. E quero muito que nossa história continue por mais tempo.
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