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Fred Rubim apresenta no FIQ a HQ Sobreviventes da Fronteira, que mistura punk rock, cultura gaúcha e histórias da juventude

há 7 horas
6 min de leitura
Acervo Pessoal
Acervo Pessoal

Pela primeira vez, o quadrinista, ilustrador e músico Fred Rubim participa do FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, que acontece de 4 a 8 de novembro de 2026, no Minascentro. Um dos principais encontros da produção de HQs no país, o festival é uma oportunidade para o autor apresentar ao público mineiro seu trabalho e, especialmente, Sobreviventes da Fronteira, série que chega ao segundo volume com Os Loco ao Vivo, lançado pela Editora Hipotética.


Natural de Porto Alegre, com uma trajetória marcada também pelos anos vividos em Uruguaiana e atualmente radicado em Santa Maria, Rubim construiu uma carreira que transita entre os quadrinhos, o design, a animação e a ilustração. Sua relação com as HQs começou ainda na infância, quando vendia seus primeiros trabalhos na escola, e ganhou um novo capítulo em 2016, com a publicação de O Coração do Cão Negro, em parceria com o roteirista Cesar Alcázar. Desde então, participou de projetos de diferentes gêneros, até assumir também o roteiro de suas próprias histórias.


É nesse contexto que nasce Sobreviventes da Fronteira, seu primeiro trabalho como autor e ilustrador. Inspirada em experiências pessoais e na cultura da região de fronteira entre Brasil e Argentina, a série acompanha quatro jovens unidos pela amizade, pelo punk rock e pela paixão pelos Ramones. No segundo volume, Os Loco ao Vivo, os protagonistas tentam realizar o primeiro show da banda em meio à expectativa pela passagem de Shakira por Uruguaiana, em 1997. Entre referências musicais, humor, portunhol e costumes regionais, Fred constrói uma narrativa que foge dos estereótipos e apresenta uma identidade gaúcha pouco explorada nos quadrinhos.


O projeto também ultrapassou as páginas da HQ e ganhou desdobramentos musicais. A canção Adiós Amigos, que mistura milonga e punk rock, acompanhada de um videoclipe animado produzido pelo próprio autor, alcançou grande repercussão nas redes sociais e ajudou a aproximar a obra de novos públicos. O resultado foi tão positivo que Rubim já planeja ampliar esse universo com novas composições e a gravação de um álbum.


Nesta entrevista, Fred fala sobre sua trajetória artística, as memórias e referências que alimentam Sobreviventes da Fronteira, a parceria com a Editora Hipotética, os desafios do mercado brasileiro de quadrinhos e a importância das editoras independentes. Também compartilha suas expectativas para a estreia no FIQ BH 2026, o encontro com o público mineiro, os próximos passos da série — concebida como uma quadrilogia — e os planos de transformar o universo musical dos Sobreviventes em uma banda de verdade.


Você começou sua trajetória nos quadrinhos em 2016 e já trabalhou com diferentes gêneros e editoras. Como foi esse caminho até consolidar sua identidade como quadrinista e autor?


Eu comecei a vender meus primeiros quadrinhos na escola, aos 10 anos. Em 1996, aos 15 anos, passei a desenhar tiras semanais para um jornal de Uruguaiana. Depois disso, passei alguns anos trabalhando com design, animação e ilustração, até fazer o caminho de volta aos quadrinhos, em 2016, quando saiu minha primeira publicação por uma editora: O Coração do Cão Negro, uma fantasia histórica com roteiro de Cesar Alcázar.


Depois disso, foram muitos outros projetos nos quais pude experimentar meu traço em diferentes gêneros, como terror, steampunk e fantasia. Assim, fui me conhecendo melhor e começando também a ter vontade de escrever minhas próprias histórias.


Sobreviventes da Fronteira é a primeira HQ que assino tanto na arte quanto no roteiro e acho que marca uma nova fase da minha trajetória.


Você nasceu em Porto Alegre, viveu muitos anos em Uruguaiana e hoje mora em Santa Maria. Quanto dessas experiências pessoais e da juventude na região de fronteira está presente em Sobreviventes da Fronteira?


Sobreviventes da Fronteira toma algumas vivências pessoais como ponto de partida, mas não é uma obra autobiográfica. É bem evidente o uso da cultura e dos costumes locais, bem como do portunhol e de expressões características da fronteira. Quem é da região também vai identificar locais como a ponte internacional e a praça central de Uruguaiana.


Como surgiu a ideia da série e dos personagens João Ramiro, Tina, Magrão e Matias? A paixão pelos Ramones foi o ponto de partida ou veio junto com a vontade de retratar a juventude no interior gaúcho?


A ideia surgiu quando o Fabiano (Oggh), editor da Hipotética, sugeriu que eu escrevesse uma história situada na região da fronteira entre Brasil e Argentina. Juntei essa proposta a uma ideia de road comic que estava engavetada havia anos. Só então surgiu a conexão com o show de despedida dos Ramones.



Em Os Loco ao Vivo, a primeira passagem de Shakira por Uruguaiana, em 1997, serve de pano de fundo para a tentativa dos protagonistas de realizar seu primeiro show. Como surgiu essa combinação inusitada?


Depois da primeira HQ, eu não queria simplesmente repetir a fórmula e fazer outra história de viagem, mas ainda não tinha certeza do que escrever. Então, um dia, enquanto comia um xis em Porto Alegre, lembrei dessa lenda de que Shakira teria prestigiado o famoso xis uruguaianense durante sua passagem pela cidade. Achei que seria um bom cenário para emoldurar a saga da banda em busca de seu primeiro show, pois a cronologia se encaixa e o acontecimento é absurdo o suficiente para gerar curiosidade.


A HQ mistura referências internacionais do punk rock com elementos da cultura gaúcha e da região de fronteira. Como você trabalha essa mistura para construir a identidade da história?


Essa mistura aflorou de maneira muito natural enquanto eu escrevia, pois a identidade da história tem muito a ver com minha experiência pessoal. É claro que existe uma liberdade criativa muito grande e, apesar de algumas referências bastante pessoais estarem presentes, não existe nenhuma intenção de se apegar rigorosamente a pessoas ou fatos, a não ser ao pano de fundo de cada história (Ramones e Shakira).


Talvez essa mescla de elementos ainda tenha sido pouco explorada, principalmente na linguagem das HQs. Na música, temos grandes artistas como Kleiton & Kledir, Vitor Ramil, Bebeto Alves e Graforréia Xilarmônica, que refletem uma identidade gaúcha desvinculada dos estereótipos tradicionalistas. Acho que Sobreviventes da Fronteira vai na mesma direção, ainda que pertença a outra geração.


Além dos quadrinhos, você também levou esse universo para a música, com canções como Adiós Amigos e Na Beira do Uruguai. Como surgiu essa integração entre as duas linguagens e que retorno ela trouxe para a obra?


Tive a ideia de compor e gravar uma música sobre o quadrinho enquanto pensávamos na divulgação do segundo volume. Desde a adolescência, sempre tive bandas autorais e, paralelamente aos meus trabalhos relacionados ao desenho, fui aprendendo a encontrar meu próprio jeito de compor também.


Adiós Amigos, a primeira música, faz uma retrospectiva da primeira história, mesclando a milonga, um estilo musical tradicional da região Sul, com o punk rock. Para completar, usei minha experiência com animação para fazer um videoclipe utilizando a arte da HQ, o que acabou combinando perfeitamente com a identidade proposta no quadrinho.



Curiosamente, houve uma convergência de todas as minhas atividades em uma coisa só. A música teve uma repercussão enorme e ajudou a furar a bolha, atingindo um público diferente dos leitores de HQs. A consequência foi que acabei compondo outras músicas sobre o mesmo universo, e a ideia agora é gravar um álbum.


Pela sua experiência com diferentes editoras e projetos, como você avalia o atual mercado brasileiro de quadrinhos? Quais são os principais desafios para quem deseja viver dessa produção, especialmente fora dos grandes centros?


Eu acho que é sempre um desafio viver de arte, em qualquer lugar que seja, e não existe nenhum caminho seguro para isso.


Dá para notar hoje um interesse maior dos leitores pelos autores nacionais que exploram temáticas regionais, por exemplo. Mas, apesar disso, o mercado de quadrinhos no Brasil ainda é muito pequeno e deveria receber mais incentivo público para que a produção alcançasse um número maior de pessoas.


Como nasceu sua parceria com a Editora Hipotética? Qual a importância das editoras independentes para viabilizar projetos autorais e garantir espaço para histórias como Sobreviventes da Fronteira?


Eu já conhecia a Iriz e o Fabiano, de Santa Maria, muito antes de a editora existir. Desde que lancei meu primeiro quadrinho, já conversávamos sobre essa ideia de uma história que se passasse na fronteira, mas levou um tempo até que eu me sentisse mais seguro para assumir a tarefa. Ou seja, Sobreviventes da Fronteira literalmente não existiria se não fosse a Hipotética. E, se não fossem as editoras independentes, não haveria espaço para novos autores, mesmo porque muitas vezes eles são os donos da própria editora.


Você participa pela primeira vez do FIQ – Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte. Qual é a importância de eventos como esse para aproximar artistas, leitores e profissionais e fortalecer a produção nacional de quadrinhos? O que espera desse encontro com o público mineiro?


É a primeira vez que vou ao FIQ, e estou com a expectativa lá no alto. Nós, quadrinistas, somos uma espécie meio solitária, então é sempre bom rever os amigos autores, leitores e pessoas que compartilham dos mesmos interesses.


Com dois volumes publicados, quais são os planos para Sobreviventes da Fronteira? Podemos esperar novas aventuras da turma? E quais outros projetos você gostaria de desenvolver daqui para frente?


Sobreviventes da Fronteira foi concebido como uma quadrilogia, então podemos esperar, no mínimo, mais dois volumes. Além disso, também pretendo expandir o universo musical com um álbum e, se tudo der certo, transformar esse projeto em uma banda de verdade!

Mas não pretendo ficar só nesse universo. Também tenho outras histórias em fase de roteirização, que espero conseguir concretizar assim que possível.



Serviço: 


Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte  

Data: 4 a 8 de novembro 

Local: Minascentro – Rua Guajajaras, 1022

Entrada Gratuita



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