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Gol de Quem?: análise faixa a faixa do disco que deu asas ao Pato Fu

Se 1994 foi o ano em que o rock brasileiro redescobriu suas raízes regionais com o estouro do Manguebeat de Chico Science e a consolidação do Skank, 1995 foi o momento em que a cena provou que havia espaço para o laboratório, para o humor agridoce e, acima de tudo, para a "estranheza pop". Foi nesse cenário efervescente, sob a onipresença da MTV Brasil ditando as regras estéticas e o consumo jovem, que o Pato Fu lançou seu segundo álbum e a verdadeira pedra fundamental de sua carreira: Gol de Quem?.



Lançado pelo selo Plug (da BMG), o disco aconteceu num momento crucial. A indústria fonográfica brasileira, finalmente recuperada da ressaca do início dos anos 90, apostava alto em novas bandas. Enquanto Raimundos trazia o peso e a malícia, e o Skank de Samuel Rosa já dominava as rádios com Calango, o Pato Fu, vindo do cenário independente, oferecia algo que desafiava classificações fáceis. Não era regionalismo, não era punk, não era reggae. Era uma fusão de Mutantes, New Wave e trilhas sonoras de desenho animado (!).


O disco chegou às prateleiras impactando visualmente antes mesmo de ser ouvido. A capa de Gol de Quem? é uma peça curiosa que reflete a dualidade da banda. Uma imagem em preto e branco traz dois querubins pensativos, debruçados, olhando para o alto como se questionassem algo. A pitada de melancolia e o grafismo divertido do logo da banda já adiantava o conteúdo: uma fusão de referências antigas com uma roupagem nova e ligeiramente deslocada, como se a banda estivesse, assim como os anjos, observando o mundo (e a música pop) de uma perspectiva diferente.



A sonoridade de Gol de Quem? é um salto em relação à estreia independente Rotomusic de Liquidificapum. A produção, mais limpa e assertiva, conseguiu domar a criatividade caótica do Pato Fu sem castrá-la. A banda, na época da gravação, ainda operava como um trio essencialmente eletrônico em sua base rítmica: Fernanda Takai (voz e guitarra), John Ulhoa (guitarra, voz e programação) e Ricardo Koctus (baixo e voz). É importante notar que, embora a bateria eletrônica e os sequenciadores fossem a espinha dorsal do som em estúdio, foi exatamente na turnê deste disco que a banda ganhou o reforço de Xande Tamietti nas baquetas. A entrada de Xande foi decisiva para traduzir a complexidade dos arranjos de estúdio para a energia visceral necessária nos palcos de festivais como o Hollywood Rock.


Gol de Quem? é, acima de tudo, um disco de guitar-pop inteligente. Ele provou que era possível fazer música radiofônica sem subestimar a inteligência do ouvinte, utilizando ironia fina e referências à cultura pop que iam de Jornada nas Estrelas a clássicos da disco music.


Revisitamos Gol de Quem? por ocasião do show do disco na capital mineira. Aumente o volume e confira a análise de cada faixa do álbum.


01. And Now

O disco começa com um manifesto de humor. "And Now" é uma vinheta rápida, uma colagem sonora ao estilo do seriado Monty Python's Flying Circus ("And now for something completely different"). Ao iniciar o álbum assim, o Pato Fu avisa ao ouvinte: esqueça a lógica convencional, você está entrando em um universo onde o nonsense é a regra.



02. Mamãe Ama é o Meu Revólver

A primeira música propriamente dita é um petardo melódico. Composta pelo lendário Rubinho Troll — figura central do underground mineiro e líder do Sexo Explícito —, a canção traz um título que é uma "pegadinha" semântica deliciosa com o disco dos Beatles de 66. A letra carrega o surrealismo dadaísta típico das composições de Troll, enquanto o instrumental entrega um pop rock no capricho com refrão pra lá de funcional.



03. Vida Imbecil

Aqui o Pato Fu reforça predicados antropofágicos e recorre ao regionalismo em um rock carregado de sotaque e temperado com música italiana ("Io che amo solo te" / "Amore, scusami"). Cantada pela dupla caipira Fernanda e John, "Vida Imbecil" é uma crítica à perspectiva de uma vida regrada. O som diverte, mas a letra destila um veneno ácido. A viola somada à programação da bateria (ainda tocada por 128 japoneses) conectam dois universos dando um tom caipira-cosmopolita que reforça a ironia do texto.


04. Gol de Quem?

Um verdadeiro cartão de visitas da guitarra distorcida de John Ulhoa. A faixa-título acelera o ritmo e abre com um manifesto bem-humorado à simplicidade: "o mundo é um grande pão com manteiga, café e com leite". Indispensável em show do Pato Fu, "Gol de Quem?" referencia uma super influência: a banda norte-americana Devo. Temos aqui ainda a letra mais desafiadora de cantar junto. Boa sorte aos aventureiros!



05. Sertões

Talvez a faixa mais poética do disco em termos temáticos. A música de Ricardo Koctus evoca a aridez e a tragédia sertaneja. O arranjo é arrastado, quase marcial, com transições que lembram o Raulzito do velho testamento ("Let me sing, Let me sing"). Mostra que o Pato Fu não era apenas uma "banda engraçadinha", mas um grupo capaz de digerir temas espinhentos e transformá-los em música pop.


06. Onofle

Voltamos à galeria de personagens estranhos da banda. "Onofle" é uma narrativa sobre um sujeito peculiar, construída sobre uma base rítmica quebrada e cheia de recortes. A música destaca o trabalho de baixo de Ricardo Koctus, que conduz a melodia torta enquanto Fernanda e John narram a história angustiante. É o exemplo perfeito do storytelling do Pato Fu: contar histórias absurdas com melodias que desafiam o padrão radiofônico.


QUEM TEM O LP VIRA O DISCO AQUI.


07. Sobre o Tempo

O grande clássico. Indiscutivelmente a música que furou a bolha e colocou o Pato Fu no mapa nacional. "Sobre o Tempo" sintetiza a fórmula perfeita da banda: melodia assobiável, letra existencialista (mas acessível) e a voz doce de Fernanda Takai harmonizando com uma guitarra rítmica pulsante. O clipe, exaustivamente rodado na MTV, consolidou a imagem do grupo. A reflexão sobre a passagem do tempo e a inevitabilidade das mudanças tocou uma geração inteira e permanece atual.



08. A Volta do Boêmio

Em 1995, regravar a canção de Adelino Moreira (consagrada na voz de Nelson Gonçalves) em um disco de rock era um ato de ousadia e ironia. O Pato Fu pegou o maior clássico da "dor de cotovelo" e o revestiu com uma roupagem eletrônica, lo-fi e minimalista. A interpretação de John, despida do dramatismo operístico do original, deu à canção uma melancolia moderna e cool. Foi a prova definitiva de que a banda não tinha preconceitos musicais e sabia transitar entre o experimentalismo e o rádio AM com maestria.


09. Qualquer Bobagem

Se havia dúvida sobre a influência dos Mutantes no DNA do Pato Fu, esta faixa sanou a questão. "Qualquer Bobagem" é uma ode ao nonsense tropicalista. O Pato Fu transformou uma das músicas mais derretidas da banda de Rita e Arnaldo em um pop saltitante que ressignificou a obra. Esta é outra faixa que ganhou um videoclipe divertido e despretensioso. Traz um trompete no refrão que é mais uma camada de sofisticação ao arranjo. Recentemente, o Pato Fu interpretou a música no palco ao lado do próprio Tom Zé. Épico!



10. Ring My Bell

A desconstrução de um clássico da Disco Music. A banda pega o hit de Anita Ward e o transforma em um rock alternativo recheada por guitarra swingada. O vocal dobrado de Fernanda é um deleite à parte. É a prova da capacidade do Pato Fu de recontextualizar o pop massivo. A versão ficou tão boa e tão "Pato Fu" que muita gente daquela geração conheceu a música através da banda mineira antes de ouvir a original das pistas de dança dos anos 70.



11. Ok! All Right!

Uma explosão de energia caótica. "Ok! All Right!" é uma faixa curta, acelerada, quase um hardcore tocado por personagens de desenho animado. A letra é fragmentada, misturando idiomas e frases de efeito, funcionando como uma descarga de adrenalina antes do encerramento do álbum. É a banda exercitando seu lado Devo e B-52's, bandas que sempre foram norte para a estética sonora do grupo.


12. Vida de Operário

O disco encerra com uma nota política e social. A regravação de "Vida de Operário", da banda punk Excomungados, traz a crítica à exploração do trabalho para o universo do Pato Fu. A música é cantada com uma frieza mecânica que torna a letra ainda mais cortante. O disco fecha com a mensagem de que, por trás da diversão, havia uma banda consciente de seu entorno. Quem disse que pop não pode ser afiado?



O LP ACABA AQUI. O CD TEM MAIS...


Tanto "Spoc" quanto "Ob-La-Di-Ob-La-Da", já constavam da Pato Fu Demo (ops!) e entraram na versão digital como faixas adicionais.


13. Spoc

Aqui temos uma das preferidas dos fãs que funciona muito bem ao vivo. Levada no violão, "Spoc" é uma balada vibrante que se apropria do universo de Star Trek como metáfora para a disciplina. Musicalmente, destaca-se novamente a voz doce de Fernanda Takai cantando também em francês. John Ulhoa aparece na segunda parte subindo o tom da letra que questiona as expectativas e a valorização do labor. "Spoc" é pra cantar junto!


14. Ob-La-Di-Ob-La-Da

O CD termina com uma versão instrumental cartoonizada do clássico dos Beatles. Mais uma vez o Pato Fu toca o sagrado e entrega uma interpretação que transpira a identidade da banda. O fechamento em compasso galopante se amarra perfeitamente com a primeira faixa do disco seguinte.



Gol de Quem? envelheceu com dignidade ímpar, capturando o espírito de uma época em que o rock brasileiro se permitiu ser experimental. Não obstante, figura em várias listas de melhores da música brasileira como nos livros 300 Discos Importantes da Música Brasileira de Charles Gavin e no Os 500 Maiores Álbuns Brasileiros de Todos os Tempos do Podcast Discoteca Básica apresentado por Ricardo Alexandre.


Para amarrar essa obra, a ficha técnica revela o peso dos bastidores, fundamental para o resultado final. A produção limpa e vigorosa ficou a cargo de Carlos Savalla (conhecido por seu trabalho refinado com os Paralamas do Sucesso), enquanto a direção artística foi assinada por Sérgio de Carvalho. Para completar o time, a coordenação artística teve o dedo de Maurício Valladares, o "MauVal", lenda viva do rádio rock brasileiro e curador de bom gosto inquestionável.


Com esse suporte técnico e criativo, o Pato Fu não apenas fez um gol; ganhou o campeonato e garantiu seu lugar na história.


O Pato Fu apresenta o show do disco na íntegra na Autêntica no dia 31 de janeiro. Os ingressos estão disponíveis aqui.

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