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Haroldo Bontempo revisita sua carreira em registro ao vivo

Foto: Bárbara Moreira
Foto: Bárbara Moreira

Haroldo Bontempo vem consolidando sua trajetória como um dos nomes da nova música mineira ao transitar entre samba, bossa nova, Clube da Esquina, psicodelia e indie brasileiro. Desde a banda Mineiros da Lua até a carreira solo, o cantor, compositor e violonista construiu um percurso marcado pela experimentação, pelas parcerias — como a realizada com João Donato —, pela circulação internacional e por uma atuação consistente na cena independente.


Seu novo trabalho, Ao Vivo em Quarteto, é o primeiro registro ao vivo após três discos de estúdio e busca reproduzir, com fidelidade, a experiência dos shows. "Esse formato revela a experiência ao vivo mesmo, sem aquele polimento de gravações de estúdio", afirma. Gravado na Galeria Resistor, em Belo Horizonte, o álbum reúne Bê Moura, Carol Ramalho e Vinícius Mendes em um repertório que revisita diferentes momentos de sua carreira, privilegiando a interação, o improviso e novos arranjos.


Na entrevista, Bontempo também fala sobre seu processo criativo, guiado pela liberdade e pela transformação. "Eu gosto muito de levantar a bandeira da psicodelia (...) a livre expressão da mente", diz, ressaltando que prefere não buscar uma linguagem definitiva, mas permanecer aberto às mudanças.


O artista ainda reflete sobre os desafios da música independente, a importância das políticas públicas e a decisão de lançar um álbum ao vivo, também em vinil e formato audiovisual, em um mercado dominado por singles. Para ele, o projeto representa uma afirmação artística e um novo capítulo em sua trajetória. "Eu não realizei meu sonho de criança, mas sigo fiel a ele, com confiança, com entusiasmo", resume. Leia a entrevista na íntegra!


Ao Vivo em Quarteto marca sua primeira gravação ao vivo depois de três trabalhos de estúdio. Por que este era o momento certo para registrar sua música no palco? O que esse formato revela sobre você que os discos anteriores ainda não mostravam?


Esse formato revela a experiência ao vivo mesmo, sem aquele polimento de gravações de estúdio. Desde que eu comecei a fazer shows em carreira solo eu me deparei com esse desafio de reinventar as músicas para o ao vivo e daí veio a vontade de fazer uma gravação fidedigna ao que consigo levar pro palco. No estúdio a gente dá asas à imaginação, grava naipes, cordas, tudo o que o coração manda, mas aí na hora de fazer ao vivo isso acaba virando um problema logístico (risos).


O quarteto é formado por músicos que já dividem sua trajetória há alguns anos. Como nasceu essa formação e o que Bê Moura, Carol Ramalho e Vinícius Mendes acrescentam à sua música, tanto técnica quanto artisticamente?


Eu conheci cada um dessa formação em um momento e contexto diferente e a decisão de unir esses três nomes veio de dois propósitos. O primeiro, e principal, realmente é de complementação estética, cada um ali ocupa um lugar chave, pensado com base nas qualidades de cada e em seu lugar no quarteto, o segundo propósito é de unir cenários diferentes, junções não óbvias que quebram um pouco a lógica que a gente tá acostumado e acaba acrescentando pra todo mundo envolvido. Agora o que cada um desses acrescenta a minha música é até difícil dizer… Justamente por ser coisa demais, cada um ali tem seu background riquíssimo e singular, Bê traz a força e a vontade do punk, Carol com seu groove ornamental e Vinícius com toda sua expertise e improviso.


O repertório revisita diferentes momentos da sua carreira. Como foi o processo de selecionar as canções e de reinventá-las para esse formato mais enxuto, aberto ao improviso e à interação entre os músicos?


O repertório foi escolhido com base nas músicas que eu mais gosto de tocar ao vivo nas apresentações que faço, e foi especialmente divertido reimaginar as músicas, especialmente as do meu primeiro disco, cuja gravação em estúdio foi mais minimalista e pude expandi-las.


Sua obra dialoga com o samba, a bossa nova, o Clube da Esquina, a psicodelia e o indie brasileiro. Como essas referências convivem hoje no seu processo de composição? Você sente que encontrou uma identidade própria ou continua em permanente transformação?


Essas referências se intercalam livremente no meu processo de composição… Eu gosto muito de levantar a bandeira da psicodelia porque resume bem, mas a psicodelia enquanto conceito… A livre expressão da mente. Eu estudei e estudo várias linguagens musicais, mas na hora de compor pra mim mesmo eu me esqueço de tudo, é como se estivesse meditando mesmo, sem pensar muito e me deixando ser guiado pelos sons e pelas sensações… Acho que não tenho uma identidade própria, ou melhor, uma linguagem própria, mas também não tenho muito pressa para isso, gosto da transformação, de mudar, acho que mais vale a jornada mesmo, o estudo.


Vivemos um momento em que a música é consumida principalmente por singles e playlists. O que significa apostar em um álbum ao vivo — e ainda lançá-lo também em vinil e em formato audiovisual — em 2026?


Acho que significa que eu sou realmente um artista independente… Eu sinto que a gente tá chegando num esgotamento desses modelos que abrem margem pra gente fazer o que quiser, voltar a ser artista, a seguir o coração, ter uma proposta e bancar ela. A pira do momento foi essa, um álbum ao vivo, insistindo nas composições que já lancei, com registro para que quem quiser possa me ver tocando e até segurar a música na mão.



Sua carreira mostra um equilíbrio entre circulação internacional, milhões de streams e uma atuação consistente na cena independente. Como você enxerga o mercado da música hoje? Quais são os maiores desafios e as oportunidades para artistas independentes?


O mercado musical deu uma inflada no pós pandemia, mais gente interessada em ver, ouvir e fazer música, e aí como era de se esperar gera interesse e entram grupos que especulam e monopolizam as coisas. Sinto que hoje um artista iniciante tem uma recepção melhor dos amigos e das pessoas próximas, que estão mais interessadas, mas existe uma barreira muito grande pra pular disso pra um circuito. Em 2016 a gente via bandas de vários contextos diferentes tocando nos festivais, circulando… Hoje em dia nem tanto, são vários artistas de um mesmo contexto, de uma mesma origem que detêm algum poder nos meios de comunicação e na indústria.  


O projeto foi realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e chega em parceria com o selo Cantores del Mundo. Qual é o papel das políticas públicas e das parcerias estratégicas para viabilizar projetos autorais de maior fôlego?


Como artista independente, as parcerias são o que possibilitam a gente chegar em algum lugar. É preciso ter uma estratégia, saber onde se quer chegar e quais meios estão disponíveis… Eu acredito que as políticas públicas têm o papel de dar estrutura para artistas com potencial num mercado desfavorável, um empurrão para que a gente consiga mostrar nosso valor e então caminhar com as próprias pernas.


Desde a Mineiros da Lua até a carreira solo, passando por encontros como a parceria com João Donato, sua trajetória parece ser marcada por colaborações. O quanto essas trocas moldaram o artista que você é hoje?


Moldaram completamente, eu não sou nada além de um fruto das minhas vivências.


Embora seja um disco ao vivo, Ao Vivo em Quarteto foi registrado na Galeria Resistor, em Belo Horizonte, um espaço que vem se consolidando como referência para gravações de música ao vivo. Como surgiu a escolha do estúdio e de trabalhar com Rafael Carneiro, João Myrha e Gabriel Elias Sadala na captação? O ambiente e a equipe técnica influenciaram a sonoridade e a atmosfera que você queria imprimir ao álbum?


A escolha do ambiente foi tanto pela qualidade técnica quanto pelo apelo estético, e a equipe foi composta de amigos técnicos os quais tenho confiança no trabalho.


No release, você fala sobre permanecer fiel ao sonho do menino que queria viver de música. Quando olha para Ao Vivo em Quarteto, esse trabalho representa um ponto de chegada, um novo começo ou as duas coisas ao mesmo tempo? O que esse disco simboliza para você dentro da sua trajetória?


As duas coisas ao mesmo tempo. Ainda não vivo de música, ganho pouco e se eu parar de me movimentar, eu sumo do mapa… Mas ainda sim, mesmo com tudo isso em mente, eu posso bater no peito e dizer que a Prefeitura da capital do estado em que nasci confiou em mim, que vários amigos confiaram em mim e me deram holofote, me deram palco… Eu não realizei meu sonho de criança, mas sigo fiel a ele, com confiança, com entusiasmo.



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