Henrique Matheus: "O produtor tem que fazer o artista acreditar que vai dar tudo certo"
- Bruno Lisboa
- há 2 dias
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Ao longo das últimas duas décadas, poucos profissionais transitaram com tanta naturalidade entre os bastidores e o palco da música mineira quanto Henrique Matheus. Guitarrista, produtor musical, engenheiro de gravação e mixador, ele ajudou a construir uma parte importante da discografia produzida em Belo Horizonte a partir do estúdio Frango No Bafo, espaço que se tornou referência pela combinação entre excelência técnica e um ambiente acolhedor para a criação artística.
Sua trajetória está profundamente ligada ao Transmissor, grupo formado em 2006 por Henrique Matheus, Thiago Corrêa, Leonardo Marques, Jennifer Souza e Pedro Hamdan. A banda surgiu quando Thiago e Leonardo retornaram de uma longa temporada em Los Angeles, onde integraram a Udora (antiga Diesel), trazendo na bagagem novas composições e uma sólida experiência adquirida em grandes estúdios norte-americanos. De volta a Belo Horizonte, encontraram em Henrique, Jennifer e Pedro os parceiros ideais para dar forma a um projeto que aproximava folk, rock, MPB e a tradição melódica do Clube da Esquina. Ao longo de sua trajetória, o Transmissor lançou três álbuns de estúdio — Sociedade do Crivo Mútuo (2008), Nacional (2011) e De Lá Não Ando Só (2014) —, consolidando-se como um dos principais representantes da música independente mineira.
Paralelamente à trajetória do Transmissor, Henrique e Thiago Corrêa transformaram uma antiga sala comercial no bairro Alto dos Pinheiros em um estúdio que se tornaria um dos mais importantes polos da produção fonográfica independente de Belo Horizonte. O imóvel, que antes abrigava um bar-restaurante, ainda conservava na fachada o letreiro "Frango No Bafo". O nome permaneceu e acabou se transformando em uma marca reconhecida por artistas de diferentes gerações, atraídos não apenas pela qualidade técnica das gravações, mas também por uma filosofia de trabalho baseada na colaboração, na escuta e na liberdade criativa. Ao longo de vinte anos de atividade, o estúdio participou da produção de centenas de gravações, tornando-se um espaço de encontro para músicos e produtores da cena mineira.
Foi justamente essa maneira de pensar a produção musical que aproximou Henrique de Lô Borges. Durante cerca de quinze anos, ele integrou a banda que acompanhava o compositor nos palcos e participou da gravação e produção de diversos álbuns do artista no Frango No Bafo. A convivência cotidiana permitiu acompanhar de perto o método de trabalho de um dos maiores compositores da música brasileira, experiência que resultou em uma indicação ao Grammy Latino e consolidou uma parceria artística marcada pela confiança, pela liberdade criativa e pelo rigor musical.
Nesta entrevista, Henrique Matheus revisita a criação do Frango No Bafo, reflete sobre o papel do produtor musical na construção de um disco, comenta a parceria de longa data com Thiago Corrêa e compartilha os aprendizados acumulados ao lado de Lô Borges. Entre memórias, bastidores e reflexões sobre o fazer musical, revela como essas experiências moldaram sua visão sobre a criação artística e ajudaram a transformar o Frango No Bafo em um dos mais importantes espaços de produção musical de Minas Gerais.
O Frango No Bafo se consolidou como um dos espaços mais importantes da produção musical em Belo Horizonte. Como nasceu o estúdio e qual era a proposta inicial do projeto?
Conheci o Thiago Corrêa na década de 1990. Montamos uma banda juntos e, depois, ele entrou para a Diesel. Em seguida, foi para Los Angeles, onde trabalhou em grandes estúdios ao lado de importantes produtores. Como ele já tinha interesse por produção musical, voltou ao Brasil com uma bagagem enorme.
Enquanto isso, eu comecei a gravar por hobby e, pouco tempo depois, já estava trabalhando em estúdios de trilhas comerciais e jingles. Quando surgiu a possibilidade de ele retornar ao Brasil, praticamente combinamos que montaríamos um estúdio.
Assim que ele chegou, retomamos um projeto que havia começado ainda em Los Angeles com Leonardo Marques, o Transmissor. Gravamos o primeiro disco da banda no apartamento dele, no bairro Alto dos Pinheiros, utilizando os equipamentos que trouxe dos Estados Unidos.
Meus pais tinham uma sala comercial no mesmo bairro que estava desocupada. Antes funcionava ali um bar-restaurante e, na fachada, ainda permanecia escrito "Frango No Bafo". Fizemos apenas as adaptações acústicas necessárias e resolvemos manter o letreiro exatamente como estava.
O disco do Transmissor chamou atenção e, aos poucos, amigos e admiradores da banda começaram a procurar o estúdio para gravar conosco. Foi assim que tudo começou.
O que diferencia a dinâmica de trabalho do Frango No Bafo de um estúdio comercial mais tradicional?
Acho que a principal diferença está na produção musical. Com a popularização dos computadores e das interfaces de áudio, gravar ficou muito mais acessível. Os grandes estúdios comerciais perderam espaço para os chamados estúdios de produtores.
No estúdio tradicional, normalmente você aluga o espaço e contrata separadamente um produtor, um engenheiro de áudio e outros profissionais. Já no Frango No Bafo, o produtor faz parte do processo desde o início, acompanhando o artista em todas as etapas e ajudando a construir a identidade do trabalho.

Você atua simultaneamente como músico, produtor, técnico de gravação e mixador. Como essas diferentes funções dialogam no seu dia a dia?
Hoje acho que todo músico deveria aprender a gravar, até para compreender melhor o próprio instrumento. Quando comecei, tudo era muito mais caro e complicado.
Sempre fui fascinado pelos bastidores da música gravada, pelos equipamentos de áudio e por entender como tudo funcionava. E tocar um instrumento ajuda muito quem produz ou trabalha como engenheiro de áudio, porque você consegue compreender com mais facilidade o que o artista procura expressar.
Sua parceria com Thiago Corrêa atravessa diversos projetos. Como vocês dividem as responsabilidades dentro do estúdio?
Nossa amizade de muitos anos e o gosto musical em comum fazem tudo fluir de maneira muito natural. Eu cuido mais da parte técnica, enquanto o Thiago se dedica principalmente à produção musical.
Claro que os dois sempre opinam no trabalho um do outro, mas existe muito respeito pelas funções de cada um. Acho que esse equilíbrio ajudou a construir a identidade sonora dos trabalhos que realizamos.
Que tipo de ambiente vocês buscaram construir para que os artistas se sentissem confortáveis para criar?
Essa é uma questão muito importante para nós. Desde o início queríamos fugir daquela atmosfera fria dos estúdios tradicionais, em que o artista sente a pressão do relógio e do dinheiro correndo.
Sempre procuramos transmitir a sensação de que não existe um taxímetro ligado. Queríamos que a pessoa sentisse: "calma, vai dar tudo certo".
Também pensamos o espaço físico para parecer mais uma casa do que um estúdio, mesmo com todos os tratamentos acústicos necessários. Além disso, mantemos uma grande quantidade de instrumentos, pedais e equipamentos disponíveis para estimular novas ideias e ampliar as possibilidades sonoras.
Na sua visão, qual é o papel do produtor em um projeto autoral?
É uma pergunta difícil. Acho que, no fim das contas, o papel do produtor é fazer o artista terminar o processo feliz com o resultado, mesmo quando, durante o caminho, ele próprio duvida daquilo que está fazendo.
Tudo é construído em conjunto, mas o produtor precisa assumir responsabilidades, utilizar sua experiência para extrair o máximo da expressão artística e garantir que tudo funcione também do ponto de vista técnico.
Quais são os aspectos menos visíveis da produção musical que mais consomem tempo e energia?
Na parte artística, diria que é construir uma relação de confiança entre produtor e artista. Isso é fundamental.
Já na parte técnica, as edições exigem muito tempo. Mesmo depois de várias tentativas, nem sempre os músicos conseguem atingir exatamente a afinação ou o sincronismo desejado, e esse trabalho acaba sendo bastante detalhado.

Vocês acompanharam Lô Borges durante muitos anos. Havia um método consolidado ou cada disco exigia uma abordagem diferente?
O Lô tinha uma maneira muito direta de trabalhar. Primeiro gravávamos apenas violão e voz, ainda sem letra, somente com a melodia. Esse violão já era a gravação definitiva do disco.
Depois ele enviava a música para um letrista escrever a letra. Quando ela ficava pronta, voltava ao estúdio e gravava novamente a voz, que também já valia para o álbum, antes mesmo de toda a banda e dos arranjos.
Nos primeiros discos ele participou mais das gravações da base, acompanhando bateria e baixo. Com o tempo passou a confiar totalmente na equipe e delegou boa parte desse processo, concentrando-se na criação e na interpretação.
Depois de tantos anos trabalhando ao lado de Lô Borges, o que mais chamava sua atenção na forma como ele compunha?
Era impressionante como surgia um ponto de partida que desencadeava praticamente um disco inteiro.
No primeiro álbum dessa fase no Frango No Bafo, tudo começou com um e-mail que ele recebeu de Nelson Angelo. Ele musicou aquele texto e pediu outros para continuar compondo.
No álbum Chama Viva, encontrou um timbre interessante no teclado Yamaha DX-7 e praticamente escreveu todas as músicas em um fim de semana.
Já em A Estrada, começou a tocar o violão em uma afinação aberta em Ré, semelhante à da viola, gostou do resultado e acabou compondo praticamente todo o disco dessa forma.
Chamava muita atenção essa obsessão saudável em concluir as músicas e finalizar o álbum.
Hoje, ouvindo A Estrada (álbum póstumo de Lô Borges) pronto, qual considera ser o principal legado desse trabalho?
Além da genialidade musical, trabalhar com o Lô me fez conhecer uma pessoa extremamente organizada, comprometida com a própria obra e muito generosa com aqueles que escolhia para trabalhar ao seu lado.
Depois de tantos anos de convivência artística, qual legado dessa parceria permanece na sua maneira de pensar a música e a produção fonográfica?
Fiz parte da banda de estrada do Lô durante cerca de quinze anos. Acho que fomos escolhidos pelo nosso jeito de trabalhar, pela nossa musicalidade e também pelas pessoas que somos.
Neste ano completamos vinte anos de Frango No Bafo. Nesse período fomos indicados ao Grammy Latino ao lado dele, participamos de inúmeros discos e contribuímos para muitas de suas canções.
Tudo isso reforça a sensação de que construímos uma trajetória consistente e que seguimos no caminho certo.
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