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Irônika fala sobre o show de reunião ao lado do Street Bulldogs

Entre becos, festivais DIY, demos gravadas na raça em uma trajetória marcada por resistência, o Irônika construiu seu nome como uma das bandas mais autênticas do punk rock de Belo Horizonte. Surgida no calor do underground mineiro dos anos 2000, a banda contrariou qualquer expectativa de efemeridade: o que poderia ter sido apenas mais um projeto passageiro de garagem se transformou em uma década intensa de atividade, mais de 70 shows pelo Brasil e uma discografia que atravessou fases, formações e polêmicas.


Do single “Garoto Rude” (2002) à demo “Foda-se A Família Brasileira Tradicional” (2003), que colocou o grupo no circuito nacional, o Irônika consolidou uma identidade própria ao misturar punk rock melódico, ska, oi!, hardcore e letras voltadas à realidade da juventude trabalhadora. Na base da tática de guerrilha e da ética “faça você mesmo”, dividiram palco com nomes como U.S. Bombs, Dead Fish, Matanza e Angra, além de marcar presença em festivais independentes pelo país.


Após o encerramento das atividades em 2012, o Irônika retorna agora em caráter comemorativo, tal como em 2015 período em que celebraram 15 anos de existência. A formação atual reúne Bruno Moreno (guitarra e voz), Enio Skiter (guitarra e voz), Tiago Borges (bateria) e Felipe Otacílio (contra-baixo), celebrando 25 anos de história com um show especial que promete revisitar diferentes momentos da trajetória do grupo. O reencontro ganha ainda mais peso por acontecer como atração de abertura da turnê nacional do Street Bulldogs — um encontro simbólico entre gerações do punk/hardcore rock brasileiro.


Em entrevista ao Phono a banda rememora sua trajetória dentro da cena underground de Belo Horizonte, fala sobre influências sonoras, mudanças de formação, o mercado independente de ontem e de hoje, o clima dos ensaios, como se deu o convite para se apresentar junto ao Street Bulldogs, a atemporalidade das letras e muito mais. Leia na íntegra!


A Irônika surgiu na safra 2000, num momento forte do underground mineiro. Como vocês lembram do início da banda e da cena de BH naquela época?


Bruno Moreno: O punk rock em Belo Horizonte sempre correu na sombra do legado do metal da cidade, o que é uma coisa medíocre, enfim, uma bosta. Porém, na virada dos anos 2000 havia uma cena com predominância do hardcore melódico que era o som que estava em ascensão, com lastro de festivais mais bem estruturados. E o Irônika se aproximava destas bandas por fazer um punk rock melódico com influência do punk do Clash, Oxymoron, bandas oi! como o Sham 69, uma linha de punk rock que era vista como um tabu em BH. Também haviam novas bandas crossover, do pessoal straight edge e hardcore NY surgindo. Naquela época, essas bandas todas tocavam na Trash, no Butecário, no Calabouço, Lapa Multishow, Verdurada, Obra, nos campeonatos de skate, feiras alternativas e outros pequenos espaços que existiam. Também lembro de algumas bandas que faziam som extremo, grind, misturavam punk com metal, que eu nem considero ser punk rock já que era um pessoal que se rotulava como “anti-música”. Naquela época, grande parte das bandas iniciais do punk de BH dos anos 1980 estavam mortas, como a Divergência Socialista e a Militofobia. E também havia um outro segmento de bandas suburbanas como o Razão Social, Consciência Suburbana, bandas da U.P.I (União Punk Independente) que não chupavam o som do metal e têm aquela pegada crua de punk 80 Brasil que, felizmente, faziam frente à todas essas bandas de som extremo.


O som sempre misturou punk rock com ska, reggae, oi! e hardcore. Essa identidade foi algo natural entre as influências de vocês ou uma busca consciente por um som próprio?


Bruno Moreno: Essa identidade veio naturalmente. O ska e reggae era o som que eu e Juarez (membros fundadores) ouvíamos a partir das bandas do selo antirracista 2 Tone e outras coisas que a gente já gostava como Manu Chao e Skank. Então essa coisa ska está no release, pois vêm do conceito inicial da banda (com algumas demos ska bem mal gravadas no início) no ano 2000. A influência hardcore começa forte a partir da entrada do Tiago e Cau em 2002, já que eles sempre tiveram essa base musical. A influência do oi!/street punk das bandas punk e skinhead inglesas, do punk americano e de bandas nacionais antifascistas como o Flicts e Garotos Podres, referências que caíram como uma luva para nós: são bandas de protesto com som melódico, com temas sobre a vida do trabalhador e pobreza. E lá no início dos anos 2000, nós éramos esses jovens suburbanos, da classe trabalhadora de BH e do chão de fábrica. Daí vem o desejo por fazer um punk melódico sem o clichê do metal. Nossas músicas são protesto de esquerda, são poesia, mas nos preocupamos mais em cantar sobre a juventude pobre (Cantando e Dançando no Vale da Angústia), prostituição infantil (Garoto Rude), feminicídio (Rosas da 262), ladrões de carro (Piloto de Fuga), do que explicar teoria anarquista (já existem mil bandas punk que fazem isso) - afinal nós não somos elite intelectual, somos classe trabalhadora.


Irônika nos primórdios
Irônika nos primórdios

O nome Irônika carrega esse espírito sarcástico e irreverente do punk dos anos 90. O que ele significava no começo e o que representa hoje?


Bruno Moreno: Acho que a coisa sarcástica é o retrato de uma época marcada pelo espírito jovem de todas aquelas bandas punk rock dos anos 1990 e 2000, Green Day, Offspring, Porcos Cegos - nós gostamos e ouvimos essas bandas e acredito que somos muito influenciados por elas. A ironia e o sarcasmo também vem da forma como fizemos algumas letras e também sobre como batemos de frente com os clichês do punk de BH da época . Acho que de alguma forma esses significados estão vivos e se mantiveram ao longo do tempo.


A banda passou por diversas formações. Como essas mudanças impactaram o som e a própria visão de vocês sobre a banda?


Bruno Moreno: A discografia do Irônika tem cerca de 12 anos e com uma boa variedade musical dentro do punk rock. Essas mudanças realmente impactaram o som da banda. Quando começamos, em 2000 , nós tentamos algo ska como o Operation Ivy, mas pelas dificuldades imensas, simplesmente não rolou. A partir de 2002 com as músicas em uma pegada hardcore e a demo F.F.B.T em 2004, a banda prosperou por muitos anos. Daí veio 2005, que foi um ano intenso, as músicas viralizaram na internet daquela época, Myspace bombando, vieram os festivais grandes, os bootlegs, as viagens pra tocar em São Paulo e Nordeste e etc - acho que isso gerou algum sentimento de recompensa para nós que queríamos percorrer os palcos punk rock que estavam rolando. Talvez foi ali que a banda se tornou uma referência para muita gente em BH. Em 2009 tivemos uma boa renovação com a ajuda de amigos, entrou Ênio, Vasseur, Maurim, que além de amigos são pessoas que gostavam da banda - e isso renovou a energia do Irônika. Mas como todo auge tem seu fim, acho que a partir de 2009, a banda começou a ficar um pouco cansativa, os shows deram uma caída, o apoio diminuiu. E então naturalmente, mudamos o som, os assuntos, mudamos a energia e assim seguimos até o fim em 2012.


Foto: André Araujo
Foto: André Araujo

Depois de tantos shows, discos e coletâneas, o que motivou o retorno da Irônika agora?


Enio: Em 2015 fizemos o show de 15 anos de banda, em 2020 tivemos a ideia de fazer novamente, mas como sabem, veio a pandemia ferrando o mundo. Entre vai e vem de conversas, resolvemos lançar o merch de comemoração de 25 anos e à medida que foi amadurecendo a ideia resolvemos tentar fazer um show para celebrar a história da banda. Bom que deu certo desta vez. Falando por mim sempre gostei das músicas e sempre aparecia um ou outro perguntando se faríamos algo novamente.


Como estão sendo os ensaios para a volta aos palcos? O foco está mais na energia das antigas ou já tem material novo pintando?


Enio: O intuito maior é celebrar os 25 anos da banda, reviver memórias, reencontrar os amigos. Os ensaios desde o primeiro tem sido divertidos pois amamos essas músicas. Filipe (O Leopardo, Carniça di Garage) é um amigo próximo e chegou pra somar com uma energia boa abraçando o projeto e muita gente gostaria de nos ver novamente nos palcos. Sobre material novo, não temos e não pretendemos trabalhar em algo no momento. Este show é uma reunião, não um retorno. Temos outras prioridades, bandas, trabalhos, Tiago mora na Alemanha. Felizmente conseguimos subir nas plataformas um disco que não chegou a ser lançado de forma oficial.


Que diferenças vocês enxergam entre a cena independente dos anos 2000 e a de hoje, especialmente dentro do punk rock?


Bruno Moreno: Sem muito o que dizer, acredito que o cenário independente sempre foi de resistência, porém já esteve mais forte a 20 anos atrás, embora tenha havido vários erros. Se nos anos 2000 o punk rock estava em alta, com várias bandas, público receptivo e chamadas na MTV Brasil, acredito que hoje o punk rock voltou para o gueto (que também é o seu lugar) assim como o rock autoral em geral. Pelas várias iniciativas de coletivos que vemos por aí hoje, em vários lugares, o rock autoral (e o punk rock) se tornou um ecossistema pequeno, mas consistente.


Enio: No final dos anos 90 e início de 2000 acho que as pessoas se interessavam mais em aprender um instrumento, escrever, interagir mais com os “seus iguais”. BH mesmo surgiram muitas bandas como Reffer, Dreadful, Prole.Idem entre outras que trazia pra BH bandas de fora fazendo um “intercâmbio”. Se não fosse o pontapé do Do It Yourself não existiria uma cena. Com o tempo isso foi se perdendo e poucos ficaram pois “contas começaram a chegar” (risos). Muita gente estava na cena pelo “Hype” e com a mudança de cenário como a época do EMO e posteriormente os “Coloridos” a indústria também mudou, a cena não se renovou, MTV teve que se moldar e só ficaram mesmo as bandas que ainda acreditavam e muitos foram tocar em outras bandas. As pessoas foram abrindo os ouvidos pra outros estilos e outras vivências também, o que não é uma coisa ruim, mas felizmente vem aparecendo coletivos e pessoas que ainda vê potencial e felizmente ainda vejo jovens tocando instrumento e com interesse em participar mais da cena. Não com a mesma rotatividade de 2000, mas enquanto houver alguém fazendo sempre a cena vai está por ai. 


Como surgiu o convite para abrir a turnê do Street Bulldogs e qual o peso desse show nesse momento de retorno?


Enio: Eu tenho uma empresa de estandes pra exposição de merchandising, sou representante de várias bandas e empresas. Também estou ligado ao Punk No Park desde antes do início e sempre o Bolinho me perguntava sobre o Irônika e o desejo de fazer um evento com a banda já que tinha também uma proposta de trazer alguma banda das antigas pra reuniões. Desde o ano passado já havíamos definido a possível data que faríamos o nosso show de reunião, daí um belo dia o Sonrisal me mandou uma mensagem falando que queria "conversar", me falou da tour e pediu pra assumirmos o estande deles em BH. Perguntei quando seria o show e ele deu a data, e me pediu indicações de bandas. Falei que data iria coincidir com os planos do show de reunião do Irônika e falei "Já que me perguntou...", ele falou que iria ver com os produtores a possibilidade. Como Bolinho estava na curadoria também fez a ponte e felizmente conseguiram nos encaixar.


Bruno Moreno: E acho importante agradecer o Felipe Bolinho do Punk no Park por essa oportunidade. Bolinho é um velho conhecido, fã de Irônika, esteve com a gente por anos e já apoiou várias bandas na cidade - foi dele a negociação decisiva desta reunião junto a tour do Street Bulldogs.


A volta da Irônika é algo pontual ou existem planos mais amplos, como gravações e novos lançamentos?


Enio: Como dito anteriormente, é uma reunião, uma celebração. Não há planos de lançar material novo e/ou pegar estrada com a banda. Mas nada descarta que possamos fazer algum outro show no futuro caso seja possível. Realmente não há planos ou um futuro concreto.


Que mensagem a banda quer passar hoje — tanto para quem acompanhou lá atrás quanto para uma nova geração que está descobrindo o som de vocês agora?


Tiago: O tempo passou, mas pouco mudou do início da banda para cá. Músicas como “Foda-se a Família Brasileira Tradicional”, “Libertas Quae Será Tamen” e “Verão Cáustico”, por exemplo, abordam problemas que talvez sejam até mais atuais do que eram há vinte e poucos anos. A nossa mensagem está nas nossas letras, atravessando décadas, e o sentimento continua o mesmo.


Bruno: Acho que por todos esses anos que passaram, toda a batalha com a música punk, por todos os amigos e fãs que ficaram pelo caminho, a nossa mensagem será sempre a mesma “dê uma chance à juventude, acredite em você e nunca desista dos seus sonhos” - é sobre isso! Nós fizemos o que deu pra fazer dentro das nossas condições. Então, sem muito o que dizer, acho que é tudo.


Enio: Agradecemos a oportunidade de poder falar um pouco sobre essa reunião e o quanto estamos empolgados. Os ensaios estão bem divertidos e podem conferir nas nossas redes sociais. Compareçam e aproveitem ao máximo o dia. Quem já nos viu, mate a saudade e quem for ver pela primeira vez curta e troque a energia e empolgação que sempre entregamos. Paz e PMA! 



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