Jazz is Dead ensina que o tempo de valorizar nossos cânones é agora
- Alexandre Biciati
- 28 de abr.
- 4 min de leitura
Batizado com uma provocação que nunca perde a força, o Jazz is Dead voltou a Belo Horizonte, desta feita, convidando ao palco Carlos Dafé e Hyldon, nomes fundamentais da soul music brasileira. O fundador do selo e movimento Adrian Younge - arquiteto sonoro obcecado por processos analógicos, memória e permanência - conduziu um show que soou como um mashup do soul norte-americano e brasileiro setentista. O concerto marcou o início da Semana Jazz is Dead que ainda contou com uma mostra cinematográfica com filmes que flertam com a cultura soul, jazz e a instrumental afro-americana.

Adrian Younge, Ali Shaheed Muhammad e sua constelação - que agora conta com o experiente Leo Moraes - vêm há anos fazendo algo que aqui ainda soa como exceção: recolocar mestres em circulação criativa, como agentes em atividade. Pelo selo já passaram artista brasileiros do quilate de João Donato, Marcos Valle, Joyce Moreno, Azymuth, Dom Salvador e a dupla Antônio Carlos e Jocafi. Todos tratados para além de meros homenageados. O Jazz is Dead entendeu algo que o Brasil, por vezes, esquece: o potencial artístico de expoentes da nossa música que são desconhecidos pelas novas gerações.

Mesmo com o teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas ocupado pela metade (ou talvez por isso mesmo), a noite de abertura ganhou uma dimensão íntima. Um desses casos em que a baixa adesão não diminui a experiência, mas acentua sua preciosidade. O pesar estava em outro lugar: quanta gente deixou de testemunhar um dos shows do ano?

Adrian entrou no palco pedindo, em português, para ouvir o entusiasmo do público. Foi atendido. Trajando elegante figurino como de praxe e cercado por um time de músicos ilustres, fez do palco uma usina de groove bem arquitetada e temperada com o talento local. Garantindo a densidade sonora o baterista Marcelo Dai, o tecladista Richard Neves e uma seção de sopros e cordas que elevou o espetáculo a uma experiência orquestral: João Paulo Bochecha (trombone), Juventino Dias (trompete), Xande Moreira (sax tenor), acompanhados pelos violinos de Sara Barros e Clayton Silva, pelas violas de Ana Calina e Hudson Alves, e pelos violoncelos de Lauriza Anastácio e Vanilce Peixoto.

Antes de receber Dafé e Hyldon, Adrian apresentou uma suíte de dez músicas que parecia condensar a ambição estética do projeto. Com a banda em estado de combustão, surgiram do disco Something About April III: “Ainda Preciso do Sol”, “Esperando por Você”, “Música na Minha Fantasia” e “Nós Somos as Estrelas”. As faixas foram recebidas com curiosidade por uma plateia que testemunhava artistas estrangeiros cantando em português, não como exotismo, mas, como extensão natural da linguagem. Ao lado de Adrian, o cantor Loren Oden revezou os vocais com um alcance que arrancou gritos eufóricos da plateia. O guitarrista Jack Waterson completou o time de L.A. com uma presença performática que divertiu a todos.

Quando Carlos Dafé (78 anos) entrou em cena, o concerto mudou de temperatura e o teatro foi preenchido por uma dignidade que só o tempo concede. O “Príncipe do Soul” apareceu em estado de graça, com bom humor, carisma intacto e histórias no bolso. Entre uma música e outra, contou do exclusivo encontro com Michael Jackson nos tempos áureos. Do repertório, cantou entusiasmado a romântica “Amor Enfeitiçado” e o samba-rock “Bloco de Harmonia” que soaram como patrimônio vivo.

Hyldon (75 anos) veio na sequência ampliando a sensação de acontecimento histórico. Havia algo bonito em vê-lo ali, tão entregue. Na véspera do aniversário, foi celebrado no palco, arrancando um momento de ternura coletiva daqueles que não se ensaiam. Entre as clássicas “Olhos Castanhos” e “As Dores do Mundo", contou sobre ser um sobrevivente dada a relação próxima que teve com Raulzito e Tim Maia. E não saiu do palco sem agradecer ao Jota Quest pela regravação da última canção.

No bis, Hyldon e Dafé voltaram para o sucesso “Na Rua, na Chuva, na Fazenda”, que soou como uma celebração a ambas as carreiras. Uma espécie de comunhão soul-psicodélica-brasileira-transatlântica, com o público entendendo que assistia a algo maior que uma soma de repertórios ou mera reverência. Estavam diante sim da reativação de um modo de fazer música ao vivo que é necessário e muito bem-vindo a todos os envolvidos.

E é justamente aí que este show acende um alerta. Porque o Jazz is Dead não oferece apenas um belo concerto, ele escancara uma pergunta desconfortável para produtores, curadores e instituições culturais brasileiras: estamos cuidando dos nossos grandes artistas em vida? Ou seguimos presos à pedagogia triste das homenagens póstumas, quase sempre tardias e insuficientes?
A mencionada provocação do nome talvez nunca tenha sido sobre a morte do jazz, mas sobre o risco de matar a memória por negligência.

Esse alerta soa ainda mais forte em um momento onde o mapa afetivo da música em Minas Gerais sofre baixas sensíveis e redesenha seus contornos. Recentemente, a capital mineira despediu-se de figuras fundamentais como Lô Borges na MPB, Adriana Araújo no samba e Gato Jair no post punk, além de testemunhar o recolhimento dos palcos de uma entidade como Milton Nascimento. Isso para citar apenas os mais conhecidos do grande público.

Enquanto nos habituamos a olhar para nossos cânones como estátuas em praças públicas, o olhar estrangeiro, despido dos preconceitos e vícios estéticos, enxerga o que deixamos passar. O lado bom é que, quando um projeto vindo de Los Angeles nos lembra do valor de artistas que ajudaram a moldar a música brasileira como a conhecemos, talvez o aviso soe alto demais para ser ignorado. Resta saber quem está ouvindo.




















































Comentários