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Jeff Santos busca fotos, vídeos e histórias para documentário sobre a Motor Music

há 2 horas
11 min de leitura

A Motor Music deixou sua marca em quem acompanhou a música independente entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000. Fundada em Belo Horizonte, seu alcance ia dos catálogos de 15 selos internacionais à realização de mais de 50 turnês pelo Brasil com artistas estrangeiros. No espírito do “faça você mesmo”, conectou bandas e público e ajudou a formar uma geração enquanto a internet engatinhava.


A Motor aproximou o público brasileiro de bandas como Fugazi, Superchunk, Mudhoney, Tortoise, Shelter, Jon Spencer Blues Explosion e Yo La Tengo, além de abrir espaço para a música eletrônica, o samba e outras vertentes.



Jeff Santos, fundador da empresa ao lado de Marcos Boffa, conversou com o Phono sobre os primeiros passos de um projeto que anuncia fazendo muito barulho: o documentário idealizado há décadas que, finalmente, promete sair do papel. Para isso, Jeff lança uma verdadeira campanha para arrecadar todo tipo de material e memorabilia que ajudem a tecer o filme. A intenção é lançar o filme em 2028, quando a abertura da tão bem frequentada loja da Savassi completará 30 anos.


Recebido na casa de Jeff, conversamos sobre a origem da Motor, suas diferentes frentes de atuação e os parceiros que marcaram o caminho. A entrevista também passa pela formação da cena independente, pelas mudanças na distribuição e no consumo de música e pela possibilidade de um festival comemorativo. Confira.




Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre a Motor Music? O que você imagina registrar?


É uma ideia antiga, de quando a Fernanda ainda era viva. A gente falava muito dessa história. Ela queria escrever um livro e vinha conversando com o Alexandre Matias sobre escrever e coletar material. Eu tinha a ideia de fazer um documentário, recuperar os vídeos, entrevistar as bandas hoje e conversar com o público que frequentava a loja.


Sei da importância da loja para a formação de uma cena musical na cidade. Tem gente que diz: “Eu sou o que sou hoje porque ia para a loja, matava aula para ficar ouvindo disco”.


Quero também ir atrás dos integrantes do Fugazi, do NOFX e do Superchunk e perguntar como foi receber, há trinta anos, um fax de alguém chamando para tocar no Brasil. Quero entender qual foi a importância disso na trajetória dessas bandas.



Por que decidiu retomar o projeto do documentário agora?


Falávamos: “Quando a Motor fizer dez anos, vamos fazer um documentário”. Depois: “Quando fizer vinte”. Agora, pelo menos nos trinta. [Risos]


É agora porque já está atrasado. Se a loja abriu em 1998, em 2028 serão trinta anos. É um bom marco para lançar um documentário e mostrar como eram as coisas naquela época: “Era assim que as coisas aconteciam”, sem streaming, sem post.



Como é assumir essa iniciativa sendo protagonista da história?


Eu sempre achava que deveria ser outra pessoa. [Risos] Não queria assumir isso. Pensava: “Eu sou personagem dessa história, tem que haver outro olhar”. Mas enfim.



Você começou a publicar registros da Motor no Instagram. A resposta dos seguidores tem indicado interesse nessa história?


É impressionante. Comecei a colocar online as coisas que tenho digitalizadas e, em três ou quatro dias, apareceram mil seguidores e cem mil visualizações do material. São números muito bacanas.

Existe interesse. As pessoas estão perguntando quando o documentário vai sair, quando vão poder ver.



Voltando ao início: como tudo começou? Onde você conheceu o [sócio] Marcos Boffa?


Eu fazia um fanzine chamado Motor. Antes dele, fazia outro chamado Kaspar. Era uma época em que as pessoas diziam que não havia nada novo e legal na música brasileira. Como não? A gente recebia cinquenta fitas demo de bandas por mês.


Fiz uma edição só sobre o novo rock brasileiro e uma coletânea em cassete, distribuída junto com o fanzine. Isso foi em 1989, 1990… Não, deve ter sido depois, em 1992 ou 1993. Precisaria conferir.

Quando me mudei para Belo Horizonte, deixei o outro fanzine de lado e comecei o Motor. Passei também a colaborar com jornais como Estado de Minas e Hoje em Dia. Fazia o fanzine em papel-jornal e rodava na gráfica do jornal.


O Marcos Boffa trabalhava na prefeitura e estava por trás do BHRIF, festival de rock independente de Belo Horizonte que aconteceu em 1994. Havia muita atenção às bandas estrangeiras e ninguém pensando nas brasileiras.


Ele viu minha edição. Lembro exatamente do dia em que o conheci, no Squat. Perguntou se eu queria entrar para a comissão que escolheria as bandas brasileiras. A comissão era formada por Marcos Boffa, Arthur Duarte, Marcelo Dolabella e Alex Antunes, meus ídolos da época. E eu era um moleque de vinte, vinte e um anos.


Fui trabalhar na comissão, e o Fugazi veio tocar no festival. Depois, o Boffa foi fazer um curso na França e eu fui trabalhar na Urban Cave [loja de discos].


Fugazi (Belo Horizonte, 1994) - Foto: Nino Andres
Fugazi (Belo Horizonte, 1994) - Foto: Nino Andres

Como essa relação levou à criação da Motor Music?


Passou um ano, talvez dois. O BHRIF foi em 1994, então deve ter sido em 1995 ou 1996. O Boffa me ligou da França: “O Fugazi quer voltar ao Brasil. Você não topa fazer esse show comigo?”. Falei que topava. Ele ia conversar com o Ian, e começamos a organizar.


Eu ainda trabalhava na Urban Cave. Perguntei à Sabrina, que era a dona, se queria entrar. Ela não quis, mas apoiou.


No meio da negociação com o Fugazi, o Boffa voltou ao Brasil e disse: “O Ian conversou com o Mike, do NOFX. Eles também estão a fim de vir. Você não topa fazer NOFX?”.


Eu tinha vinte e poucos anos, o Boffa tinha trinta e poucos. Não tinha um puto de dinheiro, era vendedor de loja de discos. Perguntei quais eram as condições. Eles viriam por um percentual da bilheteria.


Mas estavam reclamando que não havia discos deles à venda no Brasil e queriam saber se poderíamos distribuí-los. Então pensamos: por que não alugar uma loja de dois andares, fazer um escritório em cima para cuidar dos shows e colocar uma banca embaixo para vender discos e ingressos?


Saí da Urban Cave. Alugamos o espaço na Rua Pernambuco, 1.000. O Boffa chamou o Israel para ser sócio, e eu chamei o Ivo. Eles entraram com dinheiro para a gente se capitalizar.


Fomos aos Estados Unidos comprar uma pancada de discos numa distribuidora. O dono era o Maurício, baixista do Ultraje a Rigor. Trouxemos os discos dentro da mala, na cara dura, e montamos a loja.


Uma banda foi falando para a outra, e os shows começaram a se multiplicar. Acho que, quando o Fugazi e o NOFX vieram, a Motor ainda não existia formalmente como empresa. Toda a parte jurídica era feita por uma empresa chamada Fato, da Pat Tavares e da Zilka Caribé. Elas nos ajudaram e ensinaram como fazer.



Você consegue situar o período de funcionamento da loja?


Estava vendo um flyer de abertura e outro do aniversário de um ano. O aniversário foi em março de 1999, então a loja abriu em março de 1998.


[Nota da edição: a loja foi incorporada à multiloja Cubo em 2001, passando a se chamar Cubo, e fechou definitivamente em julho de 2002. O encerramento da produtora foi anunciado para 9 de março de 2004, no aniversário de abertura da loja.]



A Motor reunia diversas atuações num verdadeiro ecossistema. Como essas atividades funcionavam e até onde vocês chegaram?


Distribuíamos grandes selos independentes dos Estados Unidos: a Dischord do Fugazi, a Fat Wreck Chords do NOFX, a gravadora do Superchunk, a Touch and Go e a Victory.


Também éramos uma empresa de turnês. Pego os calendários de shows e fico doido: fizemos uma turnê do Mudhoney e outra do Yo La Tengo ao mesmo tempo, rodando o Brasil no mesmo mês. Fizemos Sepultura num dia na Serraria Souza Pinto e Seaweed no outro, na Trash.


Era uma loucura. Demos passos maiores do que conseguíamos sustentar. Não tínhamos capital. Meu despertador era a gerente do banco ligando para pedir que eu cobrisse o cheque especial estourado.


Como selo, lançamos discos e coletâneas. Fizemos uma coletânea com a revista Showbizz e outra com A Tribo, revista de skate. Lançamos um disco do Anvil FX. Lançamos um disco de estúdio do Man or Astro-man? com faixa exclusiva para o Brasil. Os discos vinham com faixa extra. Também lançamos Seaweed, Superchunk…


Eram essas quatro frentes: loja, distribuidora, selo e produtora de shows.



Quem participou da Motor, tanto na sociedade quanto na operação da loja e dos shows?


O núcleo central era formado por mim e pelo Boffa. Depois entraram Israel, que ficou menos de um ano, e Ivo, que saiu mais tarde. Encerramos a empresa Motor Music e montamos a Motor Music Eventos, com outra razão social e apenas eu e Boffa como sócios.


Começamos a nos aproximar do Aluizer Malab [empresário do Pato Fu], que passou a fazer conosco o Festival Eletronika. Também fizemos projetos de pop com ele, como Marcelo D2 e Los Hermanos.

Os projetos de samba eram com Rafa Mendonça. Trouxemos Velha Guarda da Mangueira, Nelson Sargento, João Nogueira, Walter Alfaiate e Dona Ivone Lara.


A parte de festas era com Marcelo Marent. Ele fazia as Hypes, e nós fazíamos algumas com artistas estrangeiros que ele não trazia. Teve a Hype Connection, com Jon Carter, e outra com Marky, Anderson Noise e Otto. Eram esses núcleos.


Por trás, carregando o piano, estava a Fernanda. Ela fazia um pouco de tudo, mas cuidava principalmente da comunicação, da assessoria de imprensa e do contato com jornalistas.

A Jeane Moreira cuidava da produção dos shows em Belo Horizonte. O Boffa fazia a produção nas outras cidades, como tour manager, viajando com as bandas.


Na loja, Gustavo Lavalle [Gutz] e Rodriguinho, irmão dele, começaram como vendedores. O Rodriguinho saiu, e o Gustavo ficou quase o tempo inteiro. Virou a cara da loja. Os meninos que matavam aula para ir lá eram os “filhos do Gustavo”. [Risos] A gente dizia: “Seus filhos chegaram”.

Outros vendedores passaram por lá: Felipe Tintin, Cláudio…


E o Cláudio Santos e a Alessandra Soares da Voltz eram os responsáveis pelo design tanto da loja quanto dos cartazes. Começamos juntos.



A Motor ajudou a formar artistas, produtores, empresários e público. Ao mesmo tempo, trouxe bandas estrangeiras que passaram a integrar essa história. Que importância essa relação teve para os dois lados?


Essas bandas vinham para o Brasil numa época em que não havia esse circuito. Ou vinham as megabandas e os grandes artistas, ou não vinha ninguém. A gente abriu a porta para trazer bandas de pequeno e médio porte.


E não era só loja nem só produtora de shows: tinha a distribuição. A gente vendia os discos dessas bandas aqui e aumentava a base de fãs.




O termo “indie” surgiu como uma referência à produção independente e acabou se tornando também um gênero. Como vocês lidavam com essa ideia de independência?


Tem uma história engraçada do BHRIF de 1994. Era um festival de rock independente, e a banda precisava ser independente para tocar.


Os Raimundos estavam lançando o disco pela Banguela, que era distribuída pela Warner. Não deixamos os Raimundos tocar por causa dessa ligação.


Toda vez que encontrávamos o Miranda, ele vinha: “Vocês são fodas! Raimundos está estourado!”. Eles estavam estouradaços naquela época. [Risos]



A programação também incluía samba, música eletrônica e outros estilos. Como você avalia essa formação diversa de público?


Acho que foi uma formação musical na cidade, além do indie. Teve relação com a cena de DJs, com o samba e com os outros estilos com que trabalhávamos.


Teve gente que viu Marcelo D2 pela primeira vez, Dona Ivone Lara ou Nelson Sargento tocando e comemorando aniversário no Lapa. Foi uma formação que extrapolou o indie.


E não fazíamos shows só em Belo Horizonte. Fazíamos turnês. As bandas tocavam em Piracicaba, Joinville. Goiânia virou o que é como cena de rock por causa da Motor.



Os festivais independentes também estavam se consolidando naquele período. Quais eram as referências e por que vocês não mantiveram um festival próprio de rock em BH?


Naquela época, tinha acontecido o Junta Tribo, em Campinas, tinha o Abril Pro Rock e o BHRIF aqui. Eram os festivais que existiam por volta de 1994.


Poderíamos ter continuado com isso. O Eletronika era uma ideia de resgatar o festival anterior, mas a música eletrônica estava crescendo muito. Pensamos em algo na linha do Sónar, de Barcelona, voltado às novas tendências e à música de vanguarda.


Sempre tivemos esse pé fora do comercial. Havia coisas muito legais acontecendo que não chegavam aqui. Queríamos abrir a porta para essa turma.


Poderia existir um festival até hoje, se as coisas não tivessem acontecido da forma como aconteceram.


Em Goiânia, por exemplo, eles nunca tinham feito um show. O Fabrício conheceu o Boffa primeiro, e nós o convencemos a levar o Man or Astro-man? para tocar lá. Foi o primeiro show que fizeram na vida.


Foram fazendo outros, e isso virou o Bananada, esse festival gigante de Goiânia.




A internet facilitou à época o contato entre produtores e artistas. Você considera que ela foi decisiva para o funcionamento da Motor?


A internet facilitou e atrapalhou. Quando começou para valer, veio o Napster e acabou com a loja. LimeWire, Napster… Paramos de vender discos. Ninguém mais comprava, as pessoas baixavam.

Mas a história da Motor começou antes da internet. A gente usava flyer, lambe-lambe, mandava postal para a casa das pessoas. A comunicação era por fax.


Vivemos as duas fases, essa transição.



Você é saudosista da maneira como a música era distribuída e consumida?


Acho que existe um grande problema hoje, que é a facilidade de acesso acompanhada de um excesso de informação.


Quando fazíamos pedidos para a loja, recebíamos um fax semanal com os lançamentos. Vinham umas cinco folhas. Líamos os nomes das bandas: algumas já conhecíamos, outras não. Em alguns casos, comprávamos para experimentar. Era assim que se formava o repertório da loja.


Não sou saudosista do formato. Tanto que me desfiz da coleção de discos. Não tenho mais vinil nem CD. Escuto tudo no digital, nos aplicativos.


Sinto falta é da troca de informação, de conversar com outra pessoa, de ir à loja para isso. De ter essa curadoria pessoal e não algorítmica.



A mídia especializada também era uma referência, né?


Você tinha alguém em quem confiava. Se fulano falasse que era bom, pensava: “Isso deve ser legal”. O Lúcio Ribeiro escrevia na Folha, e você pensava: “Tenho que ouvir essa banda”.


Lembro de descobrir Jesus and Mary Chain por alguém comentando na Folha de S.Paulo. Li aquela descrição e pensei que precisava ouvir. Isso nos anos 1980.


Tinha o que o Massari mostrava no Lado B. Você ficava louco: “Preciso achar essa banda, comprar esse disco”. E tem o Terence no Alto Falante até hoje, apresentando muita coisa para muita gente.


Também havia as conversas de boteco, quando você falava de uma banda de que gostava. Hoje comenta: “Ouviu o disco novo de fulano?”. A pessoa responde: “Vou salvar aqui, depois escuto”. Fica meio chato.


As pessoas pararam de ouvir um disco inteiro, a obra como um todo. Escutam playlists, as novidades da semana no Spotify. Pouca gente pega um álbum para ouvir do começo ao fim.



Voltando ao documentário: que tipo de material interessa? Como registros pessoais podem ajudar a contar essa história?


Qualquer material: recorte de jornal, flyer, vídeo. O que tiver é importante, porque pode servir de cobertura para as falas.


Se eu entrevistar o Mac, do Superchunk, e ele estiver falando de um show em Curitiba, uma foto de alguém de Curitiba com ele pode entrar naquele momento. Qualquer material pode ajudar.



Além dos registros, há histórias que ainda não chegaram até você. Que caminhos esses depoimentos podem abrir?


Tem gente que diz: “Sou o que sou por causa dessa cena, por causa da Motor”.


Dá para desdobrar isso em vários caminhos. Posso entrevistar só ex-clientes da loja e fazer um documentário em Belo Horizonte com quem frequentava aquele espaço na adolescência. Já seria um caminho muito interessante: pessoas que iam para lá e ficavam ouvindo discos.



Que legado você espera que o documentário deixe para quem vive a música hoje?


O principal é contar a história do que foi a Motor e mostrar sua importância para quem ainda não conhece, para quem nunca ouviu falar.


Quem nasceu de 2000 para cá já está com vinte e tantos anos e não viveu isso. Não sabe o que foi, como era a cena em Belo Horizonte e no Brasil entre 1994, 1995 e os anos 2000.


É uma turma que está montando bandas, tocando, fazendo coisas, mas não tem essa referência.



Recuperar essa história também pode despertar a vontade de reencontrar pessoas e reviver experiências. Já apareceram pedidos para a Motor Music voltar? Isso mexe com você?


Já tem gente perguntando quando vamos reabrir a loja ou fazer outros shows.


Às vezes dá vontade de fazer um festival pelos trinta anos. Um Motor Music Festival, trazer aquelas bandas para tocar. Acho que pode ser bacana.



Quais serão os canais para as pessoas enviarem material?


Podem fazer contato direto no Instagram @motormusic.doc ou pelo meu e-mail jeff.santos@gmail.com.



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