João Carvalho transforma travessias, memória e paisagem em canções no álbum Uma Festa no Centro do Vazio
- Bruno Lisboa
- 23 de jun.
- 14 min de leitura

Após anos dedicados a projetos coletivos, produções audiovisuais e um intenso trabalho junto a comunidades atingidas pela mineração em diferentes regiões do país, o músico mineiro João Carvalho apresenta Uma Festa no Centro do Vazio, seu primeiro álbum solo. O disco marca não apenas uma nova etapa artística, mas também um processo profundo de transformação pessoal, construído a partir de deslocamentos geográficos, rupturas afetivas, perdas e reencontros.
Natural de Belo Horizonte, cidade onde nasceu e iniciou sua trajetória musical em projetos como a banda El Toro Fuerte, Sentidor e Rio Sem Nome, João passou os últimos anos entre viagens pelo interior de Minas Gerais e Espírito Santo, trabalhando ao lado de movimentos sociais, organizações da sociedade civil e comunidades impactadas pelos rompimentos de barragens. Embora essas experiências tenham alterado profundamente sua visão de mundo, o artista ressalta que o álbum não busca narrar diretamente essas histórias. “Eu não tenho a menor intenção de falar sobre a experiência dessas pessoas, de falar por elas. Mas eu fui completamente transformado por essas amizades, pelas histórias que eu ouvi na beira do rio”, afirma.
Essa transformação atravessa todo o trabalho. De forma geral, as canções se voltam para temas como memória, paisagem, espiritualidade, natureza e pertencimento. Boa parte das composições nasceu em Itaúnas, vila localizada na divisa entre Espírito Santo e Bahia, cuja história de soterramento pelas dunas tornou-se uma poderosa metáfora para o disco. “A terra te adota”, resume o compositor ao refletir sobre a relação entre comunidades tradicionais e os territórios que habitam.
O título do álbum foi inspirado em um poema do escritor argentino Roberto Juarroz e sintetiza uma das ideias centrais da obra: a coexistência entre vazio e criação, ruína e renovação. Para João, Uma Festa no Centro do Vazio dialoga com “essa espiral de transições entre vida e morte, consciência e inconsciência”, entendendo o vazio como potência criadora e espaço de transformação.
Sonoramente, o disco expande os limites da canção brasileira ao reunir elementos do folk, da psicodelia, do jazz e da música popular brasileira. As composições em voz e violão, escritas durante anos de estrada, absorvem influências que vão de Dorival Caymmi e Milton Nascimento ao universo do Clube da Esquina, dialogando também com referências contemporâneas como Fleet Foxes, Grizzly Bear e Radiohead. O resultado é uma obra construída em camadas, como o próprio artista define: “As próprias músicas reproduzem essa lógica das ruínas. Tem camadas e mais camadas de história escondidas ali embaixo.”
A dimensão coletiva do álbum se fortalece na produção assinada por Bernardo Bauer e Felipe D'Angelo, do Estúdio Cais, que colaboraram diretamente na construção dos arranjos e da sonoridade do trabalho. O disco conta ainda com participações de Clara Bicho, Fernando Motta, Jovana Trifunovic, Ciro Trevisan e Fábio de Carvalho, artistas que ajudaram a ampliar as paisagens sonoras das canções. Segundo João, essas colaborações foram fundamentais para transformar e amadurecer o material desenvolvido ao longo dos anos de viagem e composição.
Ao longo da entrevista, João também aponta um dos sentimentos que atravessam o álbum: o desejo de reconexão com a terra e com formas de vida que escapem à lógica das grandes cidades. “Esse sonho da fuga das grandes cidades aparece muito nas letras do álbum e eu acredito nisso como um caminho possível de resistência”, afirma. Mais do que registrar experiências vividas nos últimos anos, Uma Festa no Centro do Vazio se apresenta como um convite à travessia — física, emocional e espiritual. Como resume o próprio compositor, ele espera que o público se sinta “motivado a sair do lugar, a conhecer mundos novos, dentro e fora de si”.
Depois de tantos trabalhos coletivos e projetos paralelos, o que esse primeiro álbum solo pós-pandemia representa para você, tanto artisticamente quanto pessoalmente?
Acho que é o processamento de um luto, em vários sentidos… a El Toro Fuerte entrou em hiato em 2019, 2020, e eu fiquei uns 4 anos sem escrever canção, música nessa estrutura com voz, letra e tal. Nesse meio tempo eu me mudei de Belo Horizonte, que foi a cidade em que eu nasci e cresci, terminei um relacionamento longo e outro um pouco mais curto, perdi gente querida na pandemia… então eu sinto que chegou o ponto em que eu precisava escrever sobre tudo isso, e eu já não sabia mais quem eu era em termos musicais (e em outros termos também) (risos). Acho que esse álbum é um processo de redescoberta por conta disso. Ele vem desse tempo em que eu estava longe de tudo que eu já tinha vivido, culturalmente, geograficamente… e por conta disso acho que eu me senti menos preso à minha historia, aos meus projetos anteriores, na hora de canalizar essas músicas pro mundo. Ao mesmo tempo, eu acho que tem tudo que eu já fiz meio misturado, também. Por essa liberdade e por essa falta de aterramento misturadas com a tentativa de se reencontrar, eu devo ter escolhido usar meu nome pela primeira vez. O nome é esse ponto meio transparente fincado em quem a gente é, né. Não diz quase nada sobre você e ao mesmo tempo é uma das marcações primeiras, mais agudas, quase um reflexo.
O disco nasceu a partir de viagens pelo interior de Minas Gerais e Espírito Santo e do contato com comunidades afetadas pela mineração. Como essas experiências transformaram seu olhar sobre o mundo e acabaram entrando nas canções?
Eu tenho falado muito sobre isso, porque foi basicamente o que eu vivi nesses últimos 6 anos; resumindo bastante a história, eu trabalhei junto com organizações da sociedade civil nesse embate interminável contra mineradoras responsáveis pelos crimes de rompimento de barragem. Nesse processo eu conheci e me envolvi com gente do país inteiro, produzindo documentários, junto de movimentos sociais como o MAB e o MST, e com as comunidades que foram atingidas por esses crimes. Pescadores e pescadoras, agricultores e agricultoras familiares, povos ribeirinhos, ciganos, quilombolas. Mas acho que é importante dizer que as canções não tratam diretamente de nada disso, porque eu acredito que as temáticas são muito delicadas e complexas pra se resolver numa música de 4 minutos. E eu acho que quando o disco começou a se desenhar, eu tinha muito medo da música soar panfletária, num sentido de prepotente e esvaziada, quase aproveitadora. Eu não tenho a menor intenção de falar sobre a experiência dessas pessoas, de falar por elas. Mas eu fui completamente transformado por essas amizades, pelas histórias que eu ouvi na beira do rio, por acordar e dormir e viver na geografia desses lugares, pelas festas, as músicas e a espiritualidade dessas pessoas, e pela causa em si. A mineração é tipo o coração do capitalismo e do modelo de sociedade e de colonialismo que a gente vive hoje, e eu acho que o sonho de libertação desses modelos, esse sim aparece de forma mais direta no álbum, um pouco como um chamado.
Existe uma preocupação recorrente no álbum com memória, paisagem, espiritualidade e natureza. Em que momento você percebeu que esses temas formavam o eixo central do trabalho?
Boa parte das músicas desse álbum foram escritas na Vila de Itaúnas, que fica na divisa do Espírito Santo com a Bahia. É um vilarejo bem pequeno, que também chegou a ser considerado atingido pelo rompimento da barragem da Samarco em Mariana, no Rio Doce. Durante os anos 70 e 80 a galera cortou a vegetação original da região, de restinga, e as areias começaram a invadir a cidade. No final dos anos 80 a vila inteira tinha sido soterrada. A vila foi reconstruída, as Dunas de Itaúnas viraram um ponto turístico bem famoso e a região virou um Parque Estadual. Quando você anda por essas dunas, dependendo da época do ano e da sorte, você ainda pode ver algumas ruínas do que era essa vila primeira, pedaços de azulejo, madeira das construções. Esse causo tem todas as temáticas do disco condensadas. Outro ponto é que essa relação entre espiritualidade, memória, natureza e paisagem é uma chave de interpretação importantíssima pra entender a relação dessas comunidades tradicionais com os lugares em que elas vivem. E na verdade, são questões pra todo povo colonizado em luta por libertação. Em vários lugares da América Latina os rios, formações geológicas, árvores, são entendidos como entidades vivas, com direito jurídico. Fiz amizade com um grupo de pescadores que vivia numa ocupação à beira de um corpo d’água, e é absurdo como isso produz uma pessoa completamente diferente de alguém que vive o tempo inteiro dentro de uma cidade. Tudo isso bateu pra mim de uma forma bem pessoal ao longo desses anos, porque é muito óbvio quando você tá ali, no lugar. A terra te adota. E acho que tem uma camada emocional mais universal, também, nessa relação entre memória, ruína, paisagem e passar do tempo. A minha avó tem convivido com a doença de Alzheimer há alguns anos já, o que me faz pensar nisso tudo de uma forma mais visceral também. As paisagens internas da gente são transformadas o tempo inteiro, e eu acho que espiritualidade é justamente a contemplação desse processo, as construções e dissoluções dessa memória. Relações que morrem e sobrevivem ao mesmo tempo, ruínas que viram outras coisas. A gente é a terra mudando o tempo inteiro, sem muito controle.
O título vem de um poema de Roberto Juarroz. O que a ideia de uma "festa no centro do vazio" significa para você e por que ela sintetiza tão bem o disco?
Acho que esse nome fala do lado mais emocional disso tudo. O poema vai assim:
Às vezes parece
que estamos no centro da festa.
No entanto,no centro da festa não há ninguém.
No centro da festa está o vazio.
Mas no centro do vazio há outra festa.
Pra mim tem um sentido espiritual-existencial-psicodélico bem forte, dessa espiral de transições entre vida e morte, consciência e inconsciência. Meditação tem essa questão, do vazio ser esse ponto sem dimensão em que você se concentra e que abre o campo cognitivo pra uma experiência diferente. Vazio enquanto potência criadora, morrer e germinar. Tem um outro que vem muito na minha cabeça e que é mais relacionado às dinâmicas de poder e a forma como elas mudam o tempo inteiro. Ninguém fica no centro da festa por muito tempo. O hype acaba, o interesse das pessoas muda o tempo todo. E acho que isso dialoga de novo com aquela questão das ruínas e da forma como tá tudo se transformando o tempo todo.

Sonoramente, o álbum transita entre folk, psicodelia, música brasileira, jazz e até momentos mais experimentais. Como você chegou a essa identidade musical?
O violão foi o primeiro instrumento do álbum, talvez pela primeira vez nos meus trabalhos.. Principalmente por conta desse contexto de viagem, levar guitarra e outros equipamentos comigo não era sempre uma possibilidade, então a maioria das músicas foram compostas em voz e violão. É um reflexo também de eu estar num ambiente em que o que eu ouvia incidentalmente era muito voltado pra música acústica e pra percussão. Daí e da música afrobrasileira vieram os padrões percussivos mais complexos, a circularidade móvel e meio hipnótica de músicas como Serra do Caraça / Itaúnas e Tartaruga, por exemplo. Folia de Reis, que é uma festa popular muito comum em Minas e que tem simbologias e estética bem diferentes do que a gente costuma entender por cristianismo, com harmonias vocais inacreditáveis, além das rodas de viola, que são, eu acho, uma experiência que eu vejo ser considerada meio tosca nas grandes cidades hoje. Dando exemplos mais concretos do que eu ouvi nesse tempo: tocava muito o Canções Praieiras do Dorival Caymmi nesse tempo, que talvez seja uma das obras mais importantes sobre pescadores na música brasileira, junto com "Canoa, Canoa", do Milton, e as músicas com letras-crônicas do pessoal do Clube da Esquina, como Ponta de Areia, também do Milton Nascimento, que é um retrato-paisagem do ponto final da extinta Estrada de Ferro Bahia-Minas, "Nuvem Cigana", dele e do Lô, que também traz muito esse cenário das estradas de terra e de um nomadismo cigano que eu também conheci nesses anos…Ouvi muito Elomar, Sérgio Sampaio, e indo pro lado mais do rock psicodélico, Ave Sangria…Acho que acontece também que o cancioneiro popular brasileiro da década de 70 e 80 tem retratos muito bonitos de modos de vida que eram encontrados nos interiores do Brasil - ao contrário de uma música popular que eu acho que tem uma temática mais urbana (ou do agro) e pasteurizada hoje.. Mas tudo isso só entrou no caldo das minhas influências que sempre estiveram ali nos outros trabalhos e que voltam a aparecer. Como eu comentei numa outra pergunta, essas influências todas me tocam, mas às vezes é muito contextual e nem é tão visível (audível) assim. Mesmo assim, acho importante falar, porque é essa paisagem de fundo que faz o som aparecer. O Clube da Esquina por exemplo é algo que sempre esteve, mas meio inconsciente. Os cantos em falsete do Sentidor, por exemplo, eu demorei pra ver que tinha muito de ouvir Milton em casa e em outros lugares. E acho que essas influências também estiveram já em diálogos que eu não tinha percebido antes. Fleet Foxes, Grizzly Bear, Radiohead até em algum ponto, eu acho que têm uma influência muito forte do jazz e do progressivo internacional que foram estilos que também conversaram com o Clube da Esquina na época e com a música brasileira de forma mais geral. Nunca esqueço de uma amiga que ouviu Bloom, do King of Limbs pela primeira vez e me disse algo tipo “Ué, mas isso aí é roubado do candomblé, não é não?” (risos). E é isso, o pessoal vinha pra cá conhecer e filar a música brasileira na alta mesmo. No fim das contas acho que as próprias músicas reproduzem essa lógica das ruínas. Tem camadas e mais camadas de história escondidas ali em baixo, e dependendo do ângulo pelo qual você olha, dependendo de como o vento bate, aparece um resto disso ou daquilo. Vira um processo meio arqueológico e que pode seguir se contradizendo. Tem horas que não dá pra saber se foi Radiohead, se foi Tom Jobim, se foi Metá Metá, ou se sou eu mesmo (risos). É tudo isso junto, né.
O processo de criação e gravação durou cerca de três anos. O que mudou no disco durante esse percurso e o que ele ganhou por ter amadurecido durante tanto tempo?
As músicas foram compostas fora de Belo Horizonte, durante esses anos de viagem na sua maioria, e os arranjos foram aparecendo com o tempo. Algumas foram escritas em Felixlândia, outras na Serra do Caraça, a maioria delas em Itaúnas, e Astronauta é Belo Horizontina, da época do primeiro disco da El Toro Fuerte. O que acontece é que depois desses 6 anos eu comecei a me cansar e a sentir muita saudade de casa. Minha familia precisava de ajuda também, e entre outras coisas eu acabei retornando. Esse retorno pra BH ajudou a condensar um pouco as minhas influências mais antigas, eu acho. No ano passado, em 2025, foi quando o processo de gravação começou oficialmente. Mas quando cheguei pra gravar, todas as músicas já tinham uma proposta de arranjo, feitos durante essas próprias viagens. As prés finais foram todas gravadas durante 15 dias numa casinha em Itaúnas. O Bernardo e o Felipe são os responsáveis pelo Estudio Cais, e a gente acabou acertando uma coprodução entre nós. Os dois tocaram no álbum e a gente acabou rearranjando várias linhas juntos; alguns arranjos de baixo, guitarra, bateria e cordas são completamente diferentes do que acontecia nas prés - ainda que várias faixas dessas prés tenham sido preservadas e acabaram compondo as versões finais - o que eu acho que reforça esse sentido arqueológico das músicas, porque as várias fases do processo tão sonoramente presentes no resultado final. O tempo e a colaboração criativa do Cais ajudou demais a assentar a cara do álbum - algumas faixas ficaram de fora pra talvez compor materiais futuros - e foi muito bom ter mais tempo pra amadurecer os arranjos, apesar de que, se tivéssemos mais tempo, provavelmente teriamos gravado mais coisa. Mas resumindo, o tempo longo permite essa criação de camadas espalhadas no tempo e no espaço, que eu acho que enriquece a textura da obra toda no final.
Você reuniu músicos e colaboradores de diferentes trajetórias, como Clara Bicho, Fernando Motta, Bernardo Bauer, Felipe D'Angelo e Jovana Trifunovic. Como essas parcerias ajudaram a moldar o álbum?
Acho que o processo de composição e dos primeiros arranjos foi limitado pelas questões da distância e da estrada, então esse momento final em BH foi uma boa oportunidade de transformar o processo de gravação em algo mais coletivo. Sempre fui muito acostumado a produzir sozinho, dentro do meu quarto, e um pouco mais coletivamente no caso da El Toro, porque somos 4 pessoas. Mas esse é meu trabalho até o momento que envolveu mais artistas; além dessas pessoas que você comentou, o Fábio de Carvalho e o Ciro Trevisan dividiram as baterias e percussões do álbum. Bernardo, Felipe, Jovana, Ciro e Fábio, que foram os musicistas envolvidos num número maior de músicas, transformaram consideravelmente os arranjos. Bernardo e Felipe porque atuaram como produtores e instrumentistas ao mesmo tempo, e os outros porque acho que imprimiram as suas levadas nas músicas. Com a Jovana, que eu conheci através do pessoal do Cais, foi uma experiência incrível. Gravamos os violinos em um dia, depois de uma conversa bem parecida com essa que tivemos aqui, muito mais conceitual e abstrata. Eu tinha feito alguns arranjos-rascunhos, mas não tinha partitura nem nada. Ela me ouviu falando sobre os lugares em que as músicas foram compostas e desembolou essas linhas lindas que estão aí no disco e que me fazem marejar o olho até hoje. O Fernando Motta é um dos meus primeiros parceiros musicais. A gente gravou os primeiros álbuns dele juntos, fizemos turnês pelo sudeste e pelo nordeste juntos… E eu já imaginava as linhas de voz dele em Serra do Caraça, a gente brincava muito com as vozes dobradas e as harmonias e ele é a melhor pessoa que eu conheço pra fazer isso. Foi também uma forma de me reconectar com essa nossa história em Belo Horizonte, depois de tanto tempo fora. A Clara eu acho que é uma das grandes vozes dessas novas movimentações de música independente de Belo Horizonte. A gente se conheceu - se eu não me engano (risos) - , ela e o Gabriel, irmão dela que também canta e compõe na Memórias de Ontem e no trabalho solo dele - num ensaio no Estúdio Central, e eu fiquei muito muito interessado no trabalho deles. Quando voltei em BH eu tive de fazer esse movimento de reconhecer a cidade, os lugares eram diferentes, as cenas eram outras, o público mais jovem. E Clara foi essa descoberta incrivel que tá aí ganhando o mundo. Sou apaixonado pelo timbre dela, e quando a gente tava gravando no Cais eu comecei a imaginar a voz dela nos refrões e falei com ela rapidinho (risos)..
Muitas faixas parecem dialogar com a ideia de um retorno a algo ancestral, quase uma tentativa de reconexão com a terra. Você acredita que esse desejo é também uma resposta ao tempo em que vivemos?
Completamente! Me lembro de como no começo da pandemia esse papo do êxodo urbano começou a aparecer, muito na classe média, mas também nas classes mais baixas, movimentos de ocupação de terra fizeram chamadas pra que as pessoas saíssem das cidades e fossem pro campo, lutar por território, construir uma vida autônoma. Eu sei que tudo isso soa muito idealista, um pouco inocente até, mas é meio onde mora meu coração hoje em dia. Esse tempo fora de Belo Horizonte foi um dos tempos mais incríveis que eu vivi, e a única coisa que me faltou com certeza foram as pessoas, é a dificuldade que temos de realizar essa reconexão enquanto movimento coletivo, organizado. Esse sonho da fuga das grandes cidades aparece muito nas letras do álbum e eu acredito nisso como um caminho possível de resistência, de construir um mundo novo, uma forma diferente de se relacionar com a terra. Voltar pra Belo Horizonte tem sido desafiador, e acho que esse álbum é uma forma também de levar esses lugares, essas pessoas e essas experiências que eu conheci junto comigo, de deixar esse registro de que é possível tentar viver de outras formas, e de que o mundo é CHEIO de gente lutando por isso.
O que você espera que o público encontre ou sinta ao ouvir Uma Festa no Centro do Vazio pela primeira vez?
Vixe… não sei mesmo! (risos). Acho que o álbum todo gira em torno de uma ideia de viagem, de encontro de novos lugares, internos e externos. Tem algumas vertentes de filosofia que falam de montanhas, rios, florestas e cidades como símbolos que mediam o acesso a outras formas de consciência. Acho que eu gostaria que as pessoas gostem das músicas (risos), mas também que se sintam motivadas a sair do lugar, a conhecer mundos novos, dentro e fora delas.
Depois de concluir um álbum tão conceitual e pessoal, quais caminhos você imagina seguir daqui para frente?
Quero tocar! Pelo país todo, se conseguir. Tô começando a montar uma banda pra fazer um show de lançamento nos próximos meses, e a ideia é circular o máximo possível. Os arranjos são os mais complexos que eu já tive num álbum, tem alguns arranjos de orquestração, que são um pouco mais difíceis de executar ao vivo, então tá sendo um processo intenso de transcrever todos os instrumentos de novo antes de começar a ensaiar. Também voltei a fazer alguns trabalhos como produtor musical, e estamos produzindo um disco novo da El Toro Fuerte, que se tudo der certo, deve sair ainda esse ano. E além disso tudo, eu não aguentei ficar muito tempo longe, e tô novamente trabalhando junto às comunidades atingidas. Escrevi parte dessas respostas na estrada, domingo de noite, antes de chegar em BH. Às vezes parece loucura e eu tenho a sensação constante de tar fazendo muita coisa ao mesmo tempo. Mas também não me vejo fazendo de outro jeito.
Comentários