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João da Cogumelo Records conta tudo sobre novo catálogo de 40 anos

Foi das Minas Gerais, mais especificamente de Belo Horizonte, que nasceu um dos maiores patrimônios do heavy metal mundial: a Cogumelo Records. Fundada por João Eduardo e Pat Pereira, a trajetória da Cogumelo se inicia com a abertura da loja de discos em 1980, que se tornou ponto de encontro para os aficionados do gênero. Cinco anos mais tarde nasceria o selo que lançou boa parte da cena metal local como Sepultura, Overdose, Sarcófago, entre tantas outras que acabariam por se tornar referências mundiais da música pesada.


Para celebrar os 40 anos de existência, a Cogumelo acaba de lançar um livro que cataloga, em ordem cronológica, todos os lançamentos do selo até o ano de 2022. Diferentemente da edição impressa de 30 anos, a nova versão do catálogo tem diagramação arrojada, é bilíngue e traz diversos artigos publicados na imprensa no decorrer dos anos. Como extra, o livro é acompanhado pelo DVD inédito do show realizado em 1986, no Esporte Clube Ginástico em BH, que reuniu Mutilator, Sepultura e Overdose para lançamento do icônico álbum split Sepultura/Overdose.


Em entrevista ao Phono, João Eduardo fala sobre o novo catálogo, suas lembranças do dia da apresentação que daria origem ao DVD, seus discos prediletos lançados pela Cogumelo, longevidade, a cena metal na atualidade, o legado do selo, planos futuros e muito mais. Confira!


Fotos: Alexandre Biciati

Phono: Como foi o processo de criação desta edição do catálogo? Qual a diferença para edição de trinta anos do selo?


A diferença de uma para o outra é que a gente fez com tradução para o inglês. A gente vai disponibilizar PDF, dentro de uns trinta dias mais ou menos, para o pessoal lá de fora conseguir pegar também, porque é uma das coisas que a gente foi muito cobrado no catálogo anterior. E a gente ampliou o número de páginas, incluindo lançamentos. Conseguimos dar também um volume maior de recortes de artigos que documentam cada lançamento. Demos muita exposição para bandas que não tinham muita visibilidade.


Agora o objetivo dele é, principalmente, registrar essa trajetória. Esse é um material analógico, mas com esse negócio de internet a gente quer postar o material do DVD também para que as pessoas vejam, dentro de um determinado prazo.


A gente entende que temos que registrar essa história porque, muitas vezes, o pessoal não entende muito o que que está acontecendo ou o que aconteceu aqui em Belo Horizonte. Aqui a gente tem, realmente, uma representação muito forte, porque daqui [da Cogumelo] que saíram muitas das bandas mais conhecidas no mundo inteiro dentro do movimento de heavy metal como o Sepultura e Sarcófago.  



Phono: Falando do DVD, esse material é inédito?  


Esse registro a gente tem lá da década de oitenta, que são fitas em VHS. Esse material tinha todo cortado na internet ou foi disponibilizado de alguma forma quando o Overdose também lançou o Século XX. Agora ele está completo com a parte do Sepultura, a do Overdose e a do Mutilator. 


Eu considero que a sonoridade que a gente conseguiu chegar a partir do Squizofrenia (Sepultura), no The Laws of Scourge (Sarcófago) e no The Mist são coisas de primeiro mundo.

Phono: Quais são as memórias desse dia que você leva na lembrança?


Primeiro, a gente nunca tinha feito um show. A gente imaginava que o grau de dificuldade era alto, né? O que a gente estava projetando era que fosse uma coisa menor, que não fosse tão grande. A gente ficou espantado com o número de pessoas que compareceram nesse dia e com o nível de produção que a gente conseguiu chegar nesse evento. Ele mostra bem como que o pessoal interagia, como o pessoal procedia e tudo mais. A gente teve que montar a estrutura total.


Depois a gente acabou percebendo que teve um resultado muito positivo, porque [o DVD] documentou de uma forma muito boa o que que estava passando na cabeça daquela geração. A gente sentiu como a música era primitiva. É preciso ver que as bandas estavam começando, mas eram muito boas. Tanto o Sepultura quanto o Overdose. O Overdose um pouco melhor. Mas você vê ali aquela garra do Sepultura no palco.  


Tarde de autógrafos com Overdose e Mutilator no lançamento do catálogo

Phono: Eu sei que para o pai não existe filho feio, mas você tem algum disco que mais gosta ou um que tem um carinho maior? 


Os primeiros são sempre os melhores, né? São os filhos mais velhos a gente fala (risos). Dentro do catálogo a gente tem uma linha que começa com o Sarcófago e com o Sepultura, a partir do I.N.R.I. (Sarcófago) e o Morbid Visions (Sepultura), que eram muito diferentes. Mas eu considero que a sonoridade que a gente conseguiu chegar a partir do Squizofrenia (Sepultura), no The Laws of Scourge (Sarcófago) e no The Mist são coisas de primeiro mundo. A nível de produção, a nível de música, né? O Sepultura já estava com Andreas e o Sarcófago estava indo muito bem. O The Laws of Scourge era um disco de death metal quase melódico. Ele tem um pouco de black metal. Ali é o auge do Sarcófago. O I.N.R.I. é uma coisa meio precursora disso. É onde a banda soa de forma mais extrema.


Agora, de produção, que eu gosto e acompanho desde sempre é o trabalho do Kamikaze. O trabalho do Chemako, que eu acho muito injustiçado. Era a banda do Magoo naquela época. E o trabalho do Witchhammer. A gente sempre admirou muito o Mirror, My Mirror. Esses são os três discos que eu acho que a gente mais ouvia e curtia também. 


O segredo da longevidade da gente é resistência, resiliência, esforço e também a transparência com que a gente sempre tratou todo mundo.

Phono: Nesse período de quarenta anos de muitas realizações, teve alguma coisa que ficou pelo caminho e que não deu pra fazer ou algo que vocês tinham a intenção, mas não rolou?


A gente sempre esteve dentro do foco, de já selecionar a banda, já fazer contato direto por escrito. A gente sempre ajuda dessa forma, porque dentro desse universo a gente entrou muito verde e, desde então, com o tempo a gente aprendeu a trabalhar. E com erros e com acertos, a gente conseguiu fazer com que as bandas também tivessem uma visão de futuro. A parte de uma assinatura de contrato você já tinha uma programação pra fazer dentro do esquema.


Eu acho que a gente fez o que tinha para fazer, com a limitação que a gente tinha no Brasil. E a gente também deu voz a muitos projetos que praticamente não teriam visibilidade nenhuma. Com o sucesso do Sarcófago, do Sepultura e das bandas da primeira geração isso deu muita oportunidade pra bandas que nunca teriam o trabalho delas gravados. 



Phono: Este é, certamente, um dos maiores legados da Cogumelo. E falando em legado qual seria o segredo da longevidade que fez com que o selo permanecesse quarenta anos no mercado? 


A gente sempre teve muita garra e a sempre teve muita transparência. A gente sempre conversou muito com as bandas, sempre procurou trocar ideias. Nunca agimos de forma unilateral. A gente sempre procurava sentar com o pessoal, ver o que fazer, como quer soar para que tivesse um nível máximo de produção. Dentro daquele esquema da limitação da época, né?


Nós começamos com oito canais lá no JG (estúdio), mas em poucos anos o JG já estava com dezesseis canais e com fita de duas polegadas. Nós já estávamos praticamente no primeiro mundo. A gente já tinha condições de ter um produto aqui no Brasil pau a pau com o pessoal gringo também. Então, o segredo da longevidade da gente é resistência, resiliência, esforço e também a transparência com que a gente sempre tratou todo mundo.



Phono: Contar a história da Cogumelo, inevitavelmente, é falar de você e da Pat. Eu sei que vocês trabalham de forma alinhada em tudo que vocês fazem, mas qual é o papel da Pat dentro dessa história? 


O lance da Pat é a parte motivadora. Eu sou o cara mais técnico, tanto no nível musical quanto no nível de formação acadêmica. Eu tenho a música, que eu sempre acompanhei desde novo, desde menino. E a parte técnica também, já que eu sou formado em contábeis. A Pat sempre teve essa coisa da moderação. Dela chegar, conversar, chamar as pessoas, olhar... sempre com visão tanto nossa quanto do artista. E respeitar essa coisa também.


Então, é isso que eu acho, que processa essa mistura. Porque a gente procurou sempre fazer a coisa de forma muito profissional, mas tem que haver também uma empatia. A Pat sempre foi uma pessoa muito forte e muito empática também. Ela sempre tratou as bandas muito bem ao longo do tempo. Foi ela quem mais trabalhou com as bandas da primeira geração.



Eu gosto do balcão. Eu gosto de estar falando de música. Eu gosto de ver a evolução da música. É a melhor coisa do mundo!

Phono: Falando da nova geração, como vocês estão vendo a cena nacional, em especial de Belo Horizonte? 


A cena de Belo Horizonte sempre foi a mais rica do país. A gente teve um movimento pós-punk aqui que foi muito importante. Tinha o Sexo Explícito, o Último Número, tinha o Chemako e mais um tanto de banda que a gente sempre procurou ver também. A gente teve sempre bandas em atividade, sempre usou estúdio de primeira qualidade. Nós temos o Engenho, com André Cabelo, que é um dos melhores estúdios do país. Ele é um dos técnicos mais respeitado em gravação. Olha, nós temos Chakal em atividade, nós temos o Drowned, nós temos o Sagrado Inferno...


O Overdose até hoje também, como forma de resistência. O pessoal gosta muito também. Eu acho que a cena de Belo Horizonte foi uma das mais importantes e continua a ser. Olha pra você ver qual é a melhor banda de stoner (rock) que a gente tem aqui no país. É o Pesta, cara! Não tem que tirar, nem pôr. Eles lançaram dois discos sensacionais. Estão aí tocando, né? Ativando muito essa cena. E nós temos casas aqui também, que é o caso do Mister Rock. Sempre tivemos locais onde acontecem eventos autorais. Então a música autoral é muito forte aqui em BH.



Phono: João, para encerrar, gostaria que você falasse sobre planos futuros. A gente pode contar com vocês por mais 40 anos (risos)?


Não, não vai não (risos). A gente já está numa idade que a gente já sente a limitação, né? Do trabalho, do esforço, daquela coisa toda. O que a gente faz é o controle do que a gente sempre trabalhou e trabalha com moldura em cima, administrando os direitos destes contratos. A gente procura sempre ter a maior transparência, com edição, com o trabalho e tudo mais.


Enquanto a gente tiver saúde pra trabalhar, a gente vai trabalhar, porque a gente gosta do balcão, a gente gosta de encontrar com o povo aqui. Quase todo sábado o pessoal está sempre circulando na feira do vinil. A gente gosta de estar sempre com as bandas por aqui, porque isso é muito importante. Essa troca, esse encontro. No lançamento do catálogo, ver o carinho do pessoal que estava aqui, das bandas... eu acho que não tem preço.


Então, enquanto a gente tiver saúde, nós estaremos aí firme, tá? Agora, a partir do momento que a gente não der conta, a gente vai administrar direitos e catálogos e montar uma estrutura mais jurídica. Mas eu gosto do balcão. Eu gosto de estar falando de música. Eu gosto de ver a evolução da música. É a melhor coisa do mundo! Porque nós crescemos com essa evolução e com essa coisa toda, certo?






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