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Lirismo, afeto e distorção: a receita imbatível do Pato Fu para conquistar gerações

A espera foi longa, mas Belo Horizonte finalmente pôde curtir o show em homenagem ao disco mais icônico do Pato Fu. Gol de Quem? foi celebrado em grande estilo na Autêntica, numa noite sold out marcada por uma chuva de clássicos e — acredite — pães de queijo. O clima estava perfeito, com a presença de fãs de todas as idades e tribos. A abertura ficou a cargo da DJ Dani-se, que preparou um set tão pertinente que arrancou elogios da própria banda.



Por falar em DJ, e parafraseando Maurício Valladares, o setlist da noite foi “de tirar pica-pau do oco”. Como se não bastasse tanta pepita musical, o palco contou com uma cenografia que é a cara do Pato Fu: dois amplificadores gigantes (da marca Rotomusic!) compuseram o rider técnico, proporcionando uma verdadeira experiência visual estereofônica.


O trio original — Fernanda Takai, John Ulhoa e Ricardo Koctus —, acompanhado das baquetas de Xande Tamietti e das teclas de Richard Neves, entrou no palco ambientado pela sintética “And Now”. O telão exibia um clipping histórico daquela que se tornaria a banda pop mais cultuada de Minas Gerais. Uma viagem no tempo que arrancou da plateia, devidamente uniformizada, a euforia de quem se reconhece na trajetória e na sonoridade do grupo.



Com “Mamãe Ama Meu Revolver”, o Pato Fu botou a Autêntica para pular, dando início a uma sequência visceral. “Vida Imbecil” trouxe o tempero mineiro e o hit maior, “Sobre o Tempo”, subverteu a ordem litúrgica do álbum para aquecer a noite e afagar os humores logo de cara. O terreno estava pronto para a distorção da guitarra de John Ulhoa, que anunciou a faixa-título “Gol de Quem?” como “aquela que vale o ingresso”. A plateia estava afinada e, àquela altura, era nítida a qualidade de som da casa e da luz de palco, onde o staff da banda brilhou.



Os comentários eram entusiasmados, elogiando a performance e o bom humor que encurtavam a distância entre a pista e o palco a cada pausa. “Qualquer Bobagem” provocou coro e “Ring My Bell” arrancou balanço até dos mais tímidos. Enquanto Tamietti esbanjava vigor atrás do acrílico fazendo rock, Richard sustentava as camadas melódicas e recheava o palco de sorrisos. Nem mesmo um engasgo técnico no violão esfriou o clima da casa, que cantou “Vida de Operário” a plenos pulmões, como um verdadeiro hino progressista.



O ponto final do homenageado da noite veio com “Spoc”, contando com imagens do vulcano pra lá de nostálgicas. Koctus não poupou a voz no backing vocal e, mais uma vez, o coral de fãs fez a diferença no refrão. Daí para frente, o setlist passeou por todas as fases da banda, presenteando a plateia com uma dinâmica condizente com a amplitude do repertório.



Canções emblemáticas na voz singular de Fernanda, como “Perdendo os Dentes”, “Depois”, “Antes Que Seja Tarde” e a versão clássica de “Ando Meio Desligado”, dividiram preferências com a surpreendente “Deus” e as dançantes “Uh Uh Uh, Lá Lá Lá, Ié Ié!” e “Made in Japan”. Esta última evoluiu para o momento mais lúdico da noite, com Takai encarnando o “Capetão”, que precisou de ajuda para ser exorcizado.



Sem dúvida, o ponto alto e mais espontâneo aconteceu durante a singela “Simplicidade”. Fernanda teve a genial ideia de distribuir pães de queijo à turma do gargarejo. Além de inusitado, o gesto funcionou para brindar o show com muita originalidade, criando uma história memorável para a plateia mineira. Takai não esqueceu de agradecer o engajamento da produção, que viabilizou o improviso.



A emocionante e obrigatória “Canção Pra Você Viver Mais” ganhou uma irmã vinda do último e elogiado disco que celebra os 30 anos de carreira. A sensível e melódica “Fique Onde Eu Possa Te Ver” prova que o texto é uma camada sempre relevante na discografia da banda.


E para não dizer que não falaram em Liquidificapum, o Pato Fu resgatou o "Padman" — parafernália que transforma John Ulhoa numa bateria humana — durante “Hoji”, número apresentado nos primeiros anos de carreira. Mais um dos méritos criativos que colocam o Pato Fu numa prateleira muito exclusiva da música pop brasileira.



Numa noite em que a chuva deu trégua na cidade, o show terminou em grande estilo com “Água”, do álbum Tem Mas Acabou, e “Eu”, a versão definitiva do rock gaúcho e outra canção indispensável ao vivo.


Divertido e emocionante, o Pato Fu fez uma apresentação que faz jus a longevidade da banda. Destaque para uma produção audiovisual impecável, que encanta pela sincronia e afinidade estética. Extrapolando as quatro linhas, é justo estender os méritos a uma equipe de bastidores dedicada, que fez a diferença em noite tão grandiosa.



Quem foi à Autêntica ver o Pato Fu saiu com um carimbo dourado na carteirinha de fã. Os mais engajados ainda enfrentaram uma fila nada discreta para fotos, autógrafos e, quem sabe, mais um pão de queijo.





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