Luiz Ramos e Ju Semedo falam sobre a Chama Independente, produtora cultural de BH
- Bruno Lisboa
- 30 de abr.
- 10 min de leitura

Em meio à efervescente cena musical de Belo Horizonte — marcada historicamente pela força do underground, mas também por desafios estruturais recorrentes — o Chama Independente nasceu como uma resposta prática, orgânica e profundamente conectada à vivência de seus criadores. Idealizado por Luiz em maio de 2023, o projeto foi resultado de um percurso que começou ainda nos anos 1990, quando ele iniciou sua trajetória como baterista, passando posteriormente a assumir, muitas vezes de forma autodidata, a produção dos shows de suas próprias bandas. Essa experiência se desdobrou em iniciativas como o “No Cover”, evento que já apontava para uma inquietação central: criar espaços onde a música autoral tivesse protagonismo.
O Chama Independente surgiu, inicialmente, como uma forma de dar identidade própria a esses movimentos e separar os projetos pessoais de Luiz de sua atuação em casas da cidade. Mas rapidamente deixou de ser um projeto individual. Ainda em 2023, Ju Semedo — jornalista e publicitária — entrou para somar na comunicação, estruturando estratégia, linguagem e presença digital. Ao longo do processo, sua participação se expandiu de forma natural: em 2024, passou a atuar também na produção, consolidando uma parceria que se baseou na complementaridade. Enquanto Luiz se manteve à frente da parte técnica — da pré-produção ao som ao vivo, muitas vezes no espírito “faça você mesmo” —, Ju assumiu frentes como comunicação, hospitalidade e a curadoria das feiras, além de dividir com ele a produção executiva, a logística e a curadoria artística dos eventos.
Desde o início, o projeto foi além da música. A presença das feiras alternativas não surgiu como um adendo, mas como parte essencial da proposta: integrar diferentes linguagens e fortalecer quem produz de forma independente. Como aponta Ju, o consumo de pequenos produtores e a valorização do trabalho artesanal também carregam um caráter político — “uma forma muito mais eficaz de fazer revolução”, criando um ecossistema onde arte, autonomia e circulação de renda caminham juntas. Nesse sentido, o Chama se estruturou não como resposta a uma “lacuna” específica, mas como criação ativa de “espaço, possibilidade e novas pontes”, fomentando artistas, bandas e iniciativas diversas.
Ao longo de sua trajetória recente, o Chama Independente se consolidou como um agente articulador dentro da cena, propondo diferentes formatos — do “Chama que é Quinta”, gratuito e acessível, ao “No Cover”, “Chama Apresenta” e “Heavy Chama”, cada um com curadorias específicas — e reforçando valores como diversidade, troca e colaboração.
Em entrevista Luiz e Ju refletem sobre o que significa ser independente hoje. Para além da liberdade de curadoria e da autonomia nas decisões, a dupla enxerga o trabalho como um movimento coletivo, sustentado pela colaboração e pela criação de redes — fundamentais para manter a cena ativa e em crescimento.
Entre desafios como a falta de espaços, a sustentabilidade financeira e a necessidade de ampliar o público, o Chama Independente se posiciona como um agente que cria possibilidades, fomenta trocas e aposta na força de uma produção autoral diversa e pulsante. Ao mesmo tempo, o projeto carrega um sentido que ultrapassa o entretenimento, entendendo a cultura como ferramenta de transformação e construção de novos caminhos. Leia a entrevista na íntegra!
Como nasceu o Chama Independente e qual foi a principal motivação para criar uma produtora voltada à música independente e às feiras alternativas em Belo Horizonte?
Luiz: Bom, aqui vale a pena começar do começo. Sou baterista desde 1997 e, ao longo dos anos, em muitos casos, tive que assumir alguma coisa de produção dos shows das minhas bandas. Tomei muito gosto pela coisa mas nunca tinha me dedicado exclusivamente. Aí chegou 2010, quando larguei meu trampo formal. Porém, antes disso, eu já tinha um evento na cidade, o No Cover. Não tinha ali minha assinatura, nem nada. Só o nome do evento e a marca do Matriz antigo, no JK. Era um rolê que eu fazia em parceria com Edmundo e Andrea inicialmente. O No Cover ficou dormente por um tempo, principalmente quando fui trabalhar na Obra (2015 a 2023). Aí com a mudança de gestão do Matriz, me chamaram pra ser o produtor de lá. Daí veio o nome Chama Independente. Para separar meus eventos pessoais dos do Matriz. Já que não tinha mais aquela parceria com a casa, igual tinha com Ed e Andrea, e também porque virei funcionário.
Sobre as pessoas feirantes que convidamos: bom, como agora sou responsável 100% pelo que rola no evento, sem limitação de um espaço/empregador, incluir essa galera é uma decisão orgânica. São também artistas independentes e que batalham por espaço pra mostrar o trabalho. Não tem porque não agregar. Fora que evento com feira fica muito mais interessante e charmoso, né não?
Ju Semedo: Sobre as feiras alternativas eu gostaria de pontuar também. Primeiro, porque eu sou entusiasta e consumo de “pequenos”, consumo cada vez menos de grandes redes, só que não tem jeito mesmo. Isso tanto para impulsionar quem produz em pequena escala, porque os produtos são melhores, e ainda tem a questão da exclusividade também. E também é uma forma, muito mais eficaz de fazer revolução, de tentar mudar as coisas. Daí, juntando com a questão da produção de eventos musicais e da minha paixão pela música independente, ter feira dialoga bastante. É um caminho natural e conceitualmente harmônico [usando aqui um termo da música] associar música a outras linguagens artísticas e também a quem produz na tora.
Em relação à Chama, eu entro em 2023 para ajudar o Luiz na parte de divulgação. Sou jornalista/publicitária. Dei cara às redes sociais, passei a fazer assessoria e, aos poucos, fui me inserindo na produção para ajudá-lo. Produzi meu evento de aniversário em 2024, tomei gosto pela coisa, depois fiz um No Cover só com bandas de mulheres e, daí, não parei mais. Também vejo como uma forma de contribuir com a cena e de fazer uma coisa minha, sabe? Que não é trabalhar para terceiros. É meu, junto com meu companheiro, e fazendo algo que gosto muito.
O que significa, para vocês, ser uma iniciativa verdadeiramente independente hoje, especialmente dentro do cenário cultural e musical mineiro?
Luiz: Significa sermos coerentes com o que falamos e pelo que trabalhamos. Não termos rabo preso com ninguém nos dá liberdade de curadoria, inclusive para recusar propostas. Queremos ser uma vitrine pro independente da cidade, desde que as bandas entendam nosso papel no processo. Não somos uma produtora com verba. Dividimos os ônus e os bônus com quem tá com a gente, entendendo que aqui na cidade se a gente não trabalhar junto e colaborar uns com os outros, não vai dar muito certo pra ninguém.
Ju Semedo: Tô trabalhando com algo que gosto, que me representa e contribuindo, tanto para fomentar artistas/bandas, como pra levar entretenimento, um momento feliz, sabe?, em meio ao caos. É um trampo político, é um trampo revolucionário também. É tentar fazer a diferença no nosso micro, mudar o mundo na bolha, criar um ecossistema, fazer o dinheiro circular. E vamos continuar pra fazer circular ainda mais, porque os artistas merecem…
Qual lacuna vocês perceberam no mercado cultural de Minas Gerais que o Chama Independente busca preencher?
Ju Semedo e Luiz: Não nos preocupamos com lacunas… a gente cria espaço, possibilidade, novas pontes, estamos fomentando quem tá fazendo…
Como funciona a curadoria dos artistas, bandas e expositores que participam dos eventos? Quais critérios são mais importantes nesse processo?
Ju Semedo: Conteúdo autoral, ter material gravado e material de apresentação. Abrimos para todos os gêneros da música alternativa e buscamos fazer uma curadoria diferenciada, interessante, que pode ser no diálogo entre as bandas ou na surpresa em colocar duas atrações diferentes para impactar. Queremos fomentar o diálogo entre as bandas também, porque isso também é importante, né? Essa troca entre as bandas de um line-up de um mesmo evento. Também, claro, buscamos convidar bandas que despertem o interesse do público, porque, assim, conseguimos remunerar todo mundo e a gente mesmo.

O projeto busca priorizar artistas em início de carreira ou existe uma proposta de equilíbrio entre nomes emergentes e artistas mais consolidados?
Ju Semedo e Luiz: Nosso compromisso - e o que priorizamos - são artistas e bandas criativas [que o nome que usamos pra substituir a palavra autoral] independentes - sejam emergentes ou já consolidadas. Temos eventos com conceito/curadoria voltada para cada um desses casos. O No Cover é com bandas novas, emergentes ou consolidadas, com show priorizando músicas próprias, que nem sempre são priorizadas em detrimento de ter que tocar cover. O Chama Apresenta são bandas consolidadas de fora [e que nunca tocaram em BH ou evento nosso] ou quem tá lançando um trabalho novo [seja de BH ou de fora]. O Heavy Chama já é um evento com uma proposta diferenciada: bandas pesadas, extremas e/ou experimentais. Temos também o formato Chama que é Quinta, gratuito, que é um happy hour, para democratizar o acesso para o público em geral e também para bandas mais novas apresentarem o trabalho.
Como acontecem as parcerias com outros produtores independentes, coletivos culturais e artistas da cena local? Vocês acham que essa colaboração é essencial para fortalecer o circuito independente?
Ju Semedo e Luiz: É essencial, fundamental, e o que mantém a cena viva e a consolida. Traz mais robustez. Nos últimos meses, temos sentido que a troca de ideias, colaborações, compartilhamento de eventos têm ficado mais forte e tem atraído mais público pra cena, fazendo o rolê ficar mais conhecido e também mais desejado. Da nossa parte, fazemos eventos em vários lugares, fazemos collab em discotecagem, frequentamos outros eventos que é essencial também tanto pra ajudar a consolidar, como pra conhecer novidades e criar novas parcerias. Toda grande cena se consolidou assim. Seattle, Madchester… Exemplos existem no mundo todo e comprovam que todo mundo se apoiando, se frequentando e fazendo o dinheiro circular entre todo mundo, é muito mais interessante e coerente.
Ju Semedo: Gostaria de salientar também que o Antes do Palco, o documentário, tá tendo um valor gigantesco pra cena como um todo. Não só pra mulheres, mas chamar as minas pra falar e o conteúdo abordado trouxe a cena como um todo para os holofotes, gerou um interesse demais pelo que tem sido produzido, além de ter fortalecido as trocas entre pessoas das várias vertentes dentro da cena independente. Vejo isso pelas abordagens de diversas pessoas que foram impactadas de alguma forma pelo documentário. Foi notícia até na Itatiaia, tá sabendo?
Sim! Inclusive fizemos uma entrevista muito legal com a Julie Vasconcelos aqui no Phono. Falando em mercado, como vocês avaliam atualmente a ala independente da música em Minas Gerais? Quais são hoje os principais desafios para artistas e produtores culturais?
Ju Semedo: Em termos de qualidade e diversidade de bandas/artistas, pra mim, é um dos melhores momentos nos 21 anos que acompanho a cena. É um momento de efervescência. Entretanto, temos desafios: ainda tem poucos espaços, a conta, às vezes, não fecha só com bilheteria, mas tem patrocínios chegando aí. Ah! Também temos um problema em relação aos veículos, que não abrem espaço, não divulgam os nossos eventos. Daí, a divulgação vem das redes sociais, de influenciadores do nosso nicho. Meu desejo era furar a bolha, porque como disse a qualidade das bandas/artistas é absurda e não chega nas pessoas, por desconhecimento ou por preconceito com o alternativo.
Luiz: Além disso que a Ju falou, é importante frisar que sem espaço, não tem cena. BH está passando por um momento muito específico que é o de ter perdido os shows n'A Obra, e Matriz estar sem atividades no momento (estou escrevendo isso em 29 de abril/26). Eram os espaços mais tradicionais e seguros pro rolê independente, com venda de ingresso e remuneração. Agora estamos nesse momento com muitos estúdios, como o Central, virando espaços de apresentação, o que é ótimo! Enquanto isso, outras iniciativas novas como o Bar da Bia e O Segredo têm aberto para shows. Mas nesses, como são eventos gratuitos, é importante que o público entenda e compre a ideia contribuindo com a remuneração das bandas e artistas no QR Code que for disponibilizado. O público tem que entender que quem tá ali no palco tá trabalhando.
Ju Semedo: Ah! E tem mais um estúdio abrindo também. Vai ter um evento lá. Em breve, vocês vão saber!
Na visão de vocês, o público mineiro valoriza e consome a produção musical independente local da forma que poderia? O que ainda precisa mudar?
Ju Semedo: Não, poderia consumir mais e frequentar mais os eventos.
Luiz: O público mineiro valoriza de forma seletiva. Sempre vai existir aquela galera que cola nos shows dos amigos e das bandas que os amigos tocam juntos, mas nunca saem pra conhecer coisa nova por conta própria. Acho que vale a pena dizer aqui que a cena, pra mim, é formada por esses grupos. Tem a cena da Geração Perdida. Tem a cena do Metalpunk Overkill. Tem a cena da Garotas do Front. Tem a cena da Fúria Coletiva. E tem muito mais gente, óbvio. E essa galera toda é a cena de BH. Acho que falta o pessoal entender isso e frequentar mais rolês fora da zona de conforto, antes de falar que em BH não tem nada.
Ju Semedo: Complementando isso que o Luiz falou, eu sentia a galera na zona de conforto. Mas sabe que isso tem melhorado? Tenho vendo isso ultimamente, sobretudo, com os novos espaços surgindo, e os espaços que fazem show gratuito.
Quais são os maiores desafios de manter uma produtora cultural independente funcionando hoje, conciliando sustentabilidade financeira e compromisso com a cena autoral?
Ju Semedo: O maior desafio é justamente a sustentabilidade financeira. Gostaríamos de remunerar melhor as bandas e oferecer outras condições, além de porcentagem de bilheteria ou cachê. Mas isso esbarra em algumas questões: falta de patrocínio/investimento e nem todos os eventos têm um público capaz de gerar uma bilheteria que remunere as bandas como gostaríamos, levando em conta a qualidade das mesmas. E dividindo por partes iguais também sobra pouco para alimentar o caixa da Chama. Independente disso, seguimos, porque o contexto tem se mostrado favorável. Nos últimos meses, tem gerado uma troca com outros coletivos e as pessoas têm manifestado mais interesse pelo autoral independente criativo também.
Pensando no futuro, quais são os próximos passos e o maior sonho de vocês para o Chama Independente dentro da cena cultural mineira?
Luiz Ramos: Nosso nome na boca da cena como produtora de um rolê massa, inclusivo, bem produzido, em locais onde o público se sente bem recebido, é a principal meta. Sermos reconhecidos por respeitarmos artistas, espaços, feirantes e parceiros. Esse é o trabalho diário. Porém, sempre tem aquele sonho de fazer um festival grandão, com algumas das bandas que estão em evidência na cena nacional, porém sem esquecer das nossas bandas daqui. Sentimos que alguns festivais esquecem dos nomes locais. Queremos fazer isso o quanto antes. Enquanto isso, corremos atrás de apoiadores e patrocinadores para que possamos ir ampliando as nossas ações e produções.
Ju Semedo: Concordo totalmente com o Luiz. Queremos nos consolidar cada vez mais e sermos referência como produtora do independente: música e feira. E também: conquistar cada vez mais público, sabe? Trazer mais gente de fora, furar a bolha, porque, como eu disse em alguma pergunta acima, a qualidade tá absurda. E a diversidade também. Certamente, tem uma banda ou artista que alguém vai se conectar, despertar o interesse…








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