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Entrevistamos Lulis sobre single produzido por Kassin

Luísa Gontijo ou, simplesmente, Lulis, é conhecida por estar ativamente conectada com a cena musical de Belo Horizonte, inclusive atuando nos bastidores. Porém, desde 2017 Luísa vem investindo, de forma gradativa, em sua carreira musical em formato solo. Seu EP de estreia, Deserto, foi lançado no mesmo ano e conquistou elogios de público e crítica.


Fotos: Rafael Sandim

Em 2023, a cantautora volta à cena com "Poesia", single produzido por Kassin (Los Hermanos, Vanessa da Mata, Mallu Magalhães) no qual Lulis mostra sua verve indie pop dançante. A canção é uma prévia de seu primeiro álbum a ser lançado em agosto deste ano via BlackSun, selo capitaneado por Barral Lima e Márcio Buzelin.


Gravado em julho de 2021 no Ultra Estúdio, em Belo Horizonte, o disco de mesmo nome é composto por 10 faixas. Além de Kassin (que assina a produção e direção musical), Poesia conta com Barral Lima (baixos e pianos elétricos), Gabriel Bruce (bateria), Fred Selva (percussões e sintetizadores) e Nobat (violões e guitarras).


Em entrevista ao Phono, Lulis fala sobre suas origens musicais, sua nova fase artística, a cena belo-horizontina na atualidade, a influência e o legado de Rita Lee, a parceria com Kassin, planos futuros e muito mais. Confira!

PHONO: Primeiramente, gostaria de ouvir como se deu a sua relação com a música. Em que momento você percebeu que ser musicista entraria na pauta?


Meus avós vierem morar conosco nos últimos anos de vida deles e minha avó tinha um violão. Eu sempre mexia nele e nos vinis dos meus pais e comecei a aprender algumas músicas básicas. Eu tinha uns 8 anos nessa época. Minha mãe, percebendo meu interesse, me deu um violão de natal. Lembro até hoje de acordar com um embrulho enorme no canto da cama.


A partir daí, mergulhei no universo das revistinhas de banca de cifras, depois nos sites, passava as cifras pro word e imprimia. Tinha uma pasta enorme de folhas com muitas músicas. Estamos falando dos anos 2000 e é interessante folhear hoje esta pasta e perceber meu gosto musical da pré adolescência: Los Hermanos, The Strokes, Pato Fu, Rita Lee, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, João Gilberto, etc. Já me revelava uma "Bossa Indier" e muitos anos depois faço um disco bem neste estilo.


As minhas primeiras composições foram antes do violão, na boca mesmo, cantaroladas. Uma música que compus bem criancinha é um grande hit na minha família, todos cantam até hoje, se chama "Um Dia Eu Fui Na Feira" (risos) um barato! Na escola conheci o Nobat, fazíamos parte do seleto grupo que gostava de músicas alternativas, mas não éramos amigos. Um belo dia ele foi no show do Marcelo Camelo (lançamento do Sou) e meu pai não me deixou ir porque nenhum adulto estava disponível pra me levar e eu tinha 17, 18 anos. Ele foi e, sabendo que eu era muito fã, me adicionou no MSN no dia seguinte pra me contar como tinha sido. Desde então não deixamos de conversar um dia sequer das nossas vidas. A música nos aproximou e hoje temos 14 anos de história, graças ao Camelo. Nobat foi o grande incentivador pra que eu gravasse minhas músicas e cá estou.


PHONO: Em seu primeiro EP, Deserto (2017), você apostou numa sonoridade mais melancólica. Já em seu mais novo single, "Poesia", você mostra uma outra faceta musical ao apostar numa sonoridade mais ligada ao indie pop. Como se deu o processo de transição sonora e composição da faixa?


Foi natural. Em ambos os casos eu, junto dos produtores, persegui a vocação das composições. Sempre tem as referências, mas gosto de sentir o que a música pede. Ouvi dizer que "Deserto" é dream pop, soube disso só depois que publiquei. Realmente, a melancolia está bem presente ali, muito pela fase de vida em que eu estava. Lancei este EP no dia do meu aniversário de 27 anos, são composições da minha fase de 22 a 26 anos, um período de grandes batalhas internas, crises existenciais etc. Contudo, sou uma pessoa alegre, solar, e este meu primeiro disco tem mais a minha cara nesse sentido. Foi composto por uma Lulis mais segura de si, um pouco mais próxima do seu lugar no mundo. No álbum tem ainda outras paisagens sonoras além do indie pop.


PHONO: O visualizer de "Poesia" foi gravado na Autêntica, casa de show icônica para nós belo-horizontinos. Por qual motivo você escolheu esse espaço como locação?


A Autêntica é a segunda casa de todos os músicos de Belo Horizonte. Pelo menos os do nosso nicho. É onde a gente se encontra e onde a gente assiste o que de melhor tem sido feito neste país. Eu sou amiga de longa data dos sócios, considero o Leo Moraes um irmãozão que a música me deu. Eu e Nobat tínhamos 20 aninhos quando o conhecemos e ele nos acolheu imediatamente. Tinha que ser lá.


PHONO: Belo Horizonte tem vivido momentos de efervescência musical. A ala pop, por sua vez, segue muito bem representada com artistas como Clara x Sofia e Marina Sena. Como você vê esse momento?


É um grande orgulho ver minha cidade e estado em evidência na música. Tem o Djonga, o Lagum, o Moons que encerrou os trabalhos, mas nos deixou uma obra linda. A Marina Sena que chegou num patamar gigantesco. O Nobat, meu companheiro, que fez um disco esplêndido chamado Mestiço. E tantos outros. A cena pop tá muito bem representada! Mas eu não me vejo ali. Poesia é um indie pop e tem mais três faixas nessa pegada. E aí tem duas bossinhas, um reggae, por incrível que pareça, um rock psicodélico e duas músicas mais melancólicas que flertam com "Deserto". Então não acho que estou exatamente na cena pop. É muito complexo classificar o próprio som, né? É uma missão de vocês, jornalistas (risos).


PHONO: O lançamento de seu mais novo single foi dedicado a Rita Lee. Qual o papel que ela exerceu na sua vida pessoal e profissional?


A partida dela mexeu demais comigo. Me deu uma vontade louca de viver. Ela é muito inspiradora, né? A luz dela é única! Uma energia, uma potência imensa. Pra completar, uma excelente compositora! Das melhores que este país conheceu. Meus pais e tias são ultra fãs, sempre ouvi muito em casa com eles. Mais à frente li a autobiografia dela e me identifiquei de certa forma. Me trouxe coragem e sangue nos olhos. Quando li o livro estava numa fase super difícil em que tinha desistido da carreira, pós "Deserto". Fechei o livro e fui em direção a este disco. Demorei a concretizar, mas de novo, cá estou.


PHONO: Voltando a falar da nova fase, o single e o disco (a ser lançado em agosto) foi produzido por Kassin, produtor responsável por diversos discos importantes do pop rock nacional. Como se deu a aproximação de vocês e qual a contribuição que ele trouxe para o resultado final?


Conheci o Kassin em Itabirito/MG, no festival Todos Os Sons, em 2019. O Nobat fez seu show e na época eu tocava percussão e fazia segunda voz na banda que o acompanhava. Descemos do palco e o Kassin observou a minha precisão no chocalho, na faixa "Agosto", que era rapidíssima ao vivo. Eu fiquei no céu, claro. Kassin sempre foi um grande ídolo, responsável pela produção das principais referências do meu trabalho: Los Hermanos, Vanessa da Mata, Mallu Magalhães e tantos outros. Todo mundo que me conhecia e conhecia minhas músicas concordava que, no cenários dos sonhos, ele era o produtor ideal pro meu trabalho. Então pra mim é a realização de um sonho. Gravei as músicas no violão, mandei pra ele e ele imediatamente topou, pra minha surpresa. Veio do RJ dirigindo, com o carro abarrotado de instrumentos e amplificadores, no maior envolvimento. Fiquei muito admirada pela forma que ele trabalha, a entrega, o cuidado. Ficamos uma semana juntos totalmente concentrados na gravação do álbum. Momentos que vou guardar pra sempre na memória.


PHONO: O selo BlackSun, capitaneado por Barral Lima e Márcio Buzelin, tem sido responsável pela distribuição e divulgação do seu trabalho na atualidade. Como é ter o seu nome vinculado a eles?


Um grande privilégio. São duas pessoas queridíssimas. Barral é um dos meus melhores amigos, uma pessoa que tive a sorte de encontrar no mundo. Um entusiasta generoso, talentoso, que enxerga além. São muitos anos de amizade e muitos trabalhos juntos pra além do meu disco. Ele faz parte de tudo, me apresentou o Kassin, disponibilizou o estúdio dele pro meu trabalho. Sou eternamente grata. Márcio é um querido que conheci mais à frente, via Barral. Jota Quest embalou minha adolescência, tenho um carinho grande pela banda. Aquele Multishow Ao Vivo da Praça do Papa sei de cor. É outra pessoa muito generosa e talentosa. O BlackSun tem feito um trabalho muito legal, gravado muita coisa incrível. Vale a pena acompanhar!


PHONO: Por fim, quais são os planos futuros? O que podemos esperar do álbum vindouro?


Vem aí um álbum leve e vibrante. Modéstia à parte, o disco tá lindo e forte! Pretendo trabalhar bastante esse disco. Eu adoro fazer clipes, fiz produção, direção e direção de arte de vários clipes do Nobat nos últimos anos. Participei em alguma posição de todos eles. Então quero muito trabalhar minhas músicas neste formato audiovisual. E fazer shows, claro! Sou super tímida pra show, mas eu adoro o desafio de subir no palco. Em paralelo já estou compondo o segundo disco, tenho já as tais 10 músicas, mas estou deixando fluir. Se eu compor algo muito diferente do nada, por exemplo, posso virar o disco pra outra direção e começar do zero. Ainda está bem aberta essa parte e esse é o grande charme!



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