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Macro-Jê revisita o passado entre o City Pop, o vaporwave e o brega em novo álbum

24 de ago.
8 min de leitura
Fotos: Tamiris Fonseca
Fotos: Tamiris Fonseca

Três anos após Brises (2023), seu primeiro álbum solo, o guitarrista, compositor e produtor mineiro Allysson Miranda volta as atenções para o projeto Macro-Jê e lança Memória Ferida, um trabalho instrumental que transforma lembranças, cenas cotidianas e referências culturais em matéria sonora.


O segundo disco parte da atmosfera do City Pop japonês — gênero associado à vida urbana, à noite, à cultura pop e à melancolia sofisticada das décadas de 1980 e 1990 — para estabelecer um diálogo particular com a produção brasileira do período, especialmente com a sonoridade de nomes como Marcos Valle, Sandra de Sá, Robson Jorge e Lincoln Olivetti. “É a mesma melancolia urbana contada em dois idiomas diferentes”, define o artista.


Entre guitarras, sintetizadores, texturas e sons cotidianos, Memória Ferida também incorpora o brega clássico e gravações reais de seu avô, Sebastião Dionísio Moreira, em uma tentativa de transformar a memória pessoal em experiência compartilhada.


Na conversa a seguir, Allysson fala sobre o processo de construir músicas como cenas, a influência do vaporwave e das trilhas sonoras, o encontro entre o City Pop japonês e brasileiro, a importância das texturas e do silêncio nas músicas instrumentais, a homenagem ao avô em “Bastiano” e a construção de uma identidade visual que aproxima Japão, Minas Gerais, novela dos anos 1980 e a obra de Aleijadinho. “Uma música instrumental traz mais perguntas do que respostas”, afirma. Para ele, mais do que conduzir o ouvinte a uma única interpretação, a música deve abrir espaço para que cada pessoa complete a história com as próprias lembranças.


Memória Ferida é um disco instrumental, mas você fala das faixas como cenas, personagens e situações. Quando compõe, você também “enxerga” a música? De onde surgem essas imagens que acabam orientando a construção de uma faixa?.

Vou compondo e o próprio processo de repetição da música para compor e mixar vai me levando para certos lugares, referências, sonhos recorrentes, memórias… tudo isso se mistura e as imagens vão surgindo. A partir daí eu vou interpretando a música e a guio para contar aquilo que ela quer dizer. Colocar uma história dentro da música traz mais profundidade e ajuda a ambientar o som.

Sou bem cinéfilo, vejo muitos filmes e curto bastante trilha sonora, principalmente de video-game. Prestar atenção em como a música funciona nessas mídias me deu um repertório de como contar uma história só com som. Também sonho muito com música, às vezes acontece algo no sonho e a trilha sonora muda junto, então boa parte dessas imagens vem desse lugar também.

Sempre crio ou defino músicas para serem trilhas para alguns momentos e memórias minhas. Tem certas músicas que me puxam direto pra um lugar ou um momento específico da minha vida, e é meio isso que eu tento fazer quando componho, criar uma trilha que carregue uma cena ou uma lembrança dentro dela.


Existe uma espécie de narrativa visual em Memória Ferida: a madrugada, a ressaca, programas de televisão, lembranças familiares, paisagens e atmosferas urbanas. Como você transforma uma imagem ou uma situação em elementos musicais como timbres, ritmos, melodias e texturas?

Eu começo dissecando como eu me sinto em cada situação, procuro entender o que mexe no meu corpo e por que mexe. Para aumentar o meu repertório sobre um tema, também busco referências e converso com amigos sobre. Com isso mais maduro, eu toco os instrumentos tentando passar esse sentimento, literalmente me movo conforme a música vai tocando. Penso muito em como fazer a guitarra ser o veículo dessa mensagem, e é a partir dela que os outros instrumentos vão sendo criados ao redor. Sempre me pergunto se cada nota e cada batida está contribuindo para a vibe que aquela música pede ou para a história que ela quer contar.

Normalmente os acordes nascem primeiro. Quando a harmonia fecha, eu me debruço na bateria e nos outros elementos, até sentir que a música está madura o suficiente para receber uma melodia. A busca por ritmos e timbres vem de um processo de pesquisa e de um mapa de referências que vou construindo ao longo do processo. Esse é o fundamento mais racional, mas o instinto acaba me levando a caminhos e timbres novos durante a criação.

Para mim, as texturas são o que dá mais profundidade para a ambiência da música. A gente é cercado de som o tempo todo, e trazer esses sons ordinários como elementos ajudam a definir o espaço onde a história acontece. Não tinha muita experiência com isso antes desse disco, e foi um processo sensacional entender como casar as texturas com a música e a história de uma forma que aquilo não seja algo muito na cara ou fique desconectado com o restante. Existe uma linha bem tênue pra dosar o quanto essas texturas ficam "visíveis" ou não pra quem está ouvindo. E eu espero muito ter acertado a medida.


Muitas vezes associamos a ideia de contar histórias à presença de uma letra. No seu trabalho, entretanto, parece haver uma tentativa de fazer com que o ouvinte construa suas próprias imagens a partir do som. Como você vê essa relação?

É muito isso mesmo, Bruno. Acho que a palavra é superestimada. Nesse mundo de hiper comodidade, onde tudo precisa ter uma mensagem, um slogan, tudo quer conversar com a gente. A gente esquece que existem outras formas de comunicação além da oral.

Uma música instrumental traz mais perguntas do que respostas, e isso exige que, a gente ao escutar, use o nosso imaginário para completar o que sentimos falta. 

O que eu busco nos meus discos é justamente criar esse espaço, ser um convite para a pessoa iniciar uma conversa com ela mesma. Escutar a música, o próprio corpo e ver aonde ele o leva com aquele estímulo.

Acredito que isso vem muito da minha influência do vaporwave. São músicas excelentes em evocar esse tipo de sentimento em mim, artistas como SlowerPace, Haircuts For Men, Oblique Occasions e Macroblank são mestres nisso.


O City Pop japonês é conhecido não apenas pela sonoridade, mas também por todo um imaginário visual ligado às cidades, à noite, aos carros, à publicidade e à cultura pop dos anos 1980. Quanto desse universo visual está presente na sua maneira de compor Memória Ferida?

Esse disco teve uma forte influência do City Pop, ele nasceu porque eu estava escutando muito o gênero e queria fazer um trabalho com essa energia. Mesmo sendo um movimento de quase 40 anos atrás, ele segue muito atual. O urbano, a melancolia, esse sentimento de felicidade falsa ou que vai acabar logo ali, continua sendo algo muito presente hoje.

Durante minhas pesquisas sobre City Pop, descobri, por indicação de um amigo, um movimento com sonoridade muito parecida aqui no Brasil, discos como Estelar do Marcos Valle, Vale Tudo da Sandra de Sá e Copacabana Sadia do Junior Mendes. Os instrumentos usados e a temática das músicas são muito similares, mas bate mais forte porque tudo com a pegada Brasil fica sensacional.

Pesquisando essas músicas que lembravam o City Pop japonês aqui do Brasil, duas figuras sempre apareciam envolvidas: Lincoln Olivetti e Robson Jorge. A partir daí, o disco ficou muito influenciado por eles. Memória Ferida está imbuído dessas referências e sentimentos do City Pop brasileiro e japonês, é a mesma melancolia urbana contada em dois idiomas diferentes.


Em Bastiano, a voz real do seu avô acrescenta uma dimensão documental à música. É como se uma memória sonora passasse a funcionar também como imagem, permitindo ao ouvinte imaginar uma pessoa e uma história que não conheceu. Você considera que os sons também podem funcionar como fotografias?

Totalmente, eu sou adepto daquela frase da Maria Bethânia que “Música é perfume”. Você sente a música e ela te traz lembranças, mexe com os seus sentidos, cheiro, gosto, sensações. A música consegue te transportar para lugares, tanto bons quanto ruins. 

Essa música eu fiz com muito carinho. Quando escuto, sou transportado para a presença do meu avô, para as histórias dele, o seu deboche, o cheiro de serragem misturado com Leite de Colônia. Tudo fica mais vivo, consigo ver ele cantarolando uma música enquanto penteia o cabelo e limpa os fios brancos do pente…

Apesar de ser algo muito pessoal, percebo que muita gente teve lembranças parecidas com os próprios avós. Pra mim super funciona como uma fotografia, mas como uma num álbum ou em um porta retrato que você segura, sente o cheiro e aquilo te leva para outro lugar.



A capa de Memória Ferida, criada por você, também parece fazer parte da narrativa do álbum. Ao colocar uma referência a Aleijadinho dentro do imaginário vaporwave, você cria uma espécie de encontro entre Minas Gerais, memória e cultura pop. Como você pensa a relação entre a identidade visual e a identidade sonora do disco?

Acredito muito que a capa é um elemento bem importante da música. Escolho discos pela capa e escuto olhando pra elas também. É uma prática do vaporwave subir no YouTube o álbum inteiro com a capa estática no vídeo, se alguém procurar minhas músicas, elas também estão assim. Por isso tenho muito carinho com elas, costumo ser bem maximalista, gosto de criar com várias referências e elementos pra tornar a experiência mais interessante pra quem for escutar.

Tento transpor as referências, citações e o clima do disco pela capa. Esse álbum tem bastante influência do Lincoln Olivetti e do Robson Jorge, que trabalharam em vários temas de novela dos anos 80, e eu acabei tentando fazer algo que remetesse a esse ponto.

Além das referências às novelas, coloquei uma espécie de adesivo de uma loja de discos na capa. Lembro do costume que algumas lojas da minha cidade tinham: colar um adesivo no CD pra mostrar onde a pessoa tinha comprado. Na versão inicial, tinha até um código de barras pra reforçar essa ideia, mas as plataformas digitais não aceitam. Então resolvi colocar a Serra do Curral no lugar, pra trazer esse senso de identidade daqui de BH.

Do Japão, coloquei um pouco da bandeira no disco, as cores, um círculo mesmo que disforme. E pra adicionar mais um toque de Minas, adicionei um dos Profetas do Aleijadinho no meio, gerando essa colagem de referências.

Muitos artistas do vaporwave são europeus, e trazem nas capas referências de estátuas gregas e romanas. A gente tem um viés de interpretar essas referências locais como se fossem globais. Trazer o Aleijadinho misturado com essa carinha de novela é, pra mim, misturar as nossas próprias referências.

Acho até meio triste que as capas estejam limitadas a poucos pixels nas plataformas de áudio. Quando vejo um CD ou um vinil, dá pra perceber o quanto ter mais espaço permitia as capas serem mais ricas.


Pensando na sua trajetória, da arquitetura de Belo Horizonte e das memórias do isolamento em Brises até as histórias pessoais e referências culturais de Memória Ferida, parece existir uma busca constante por transformar lugares e lembranças em música. Se você tivesse que definir o “universo visual” de Macro-Jê, que paisagens, cores, lugares ou cenas fariam parte dele?

Sou muito bairrista. Vejo minhas músicas como o Centro de BH e o Centro de Coronel Fabriciano, minha cidade natal. Já rodei muito esses 2 bairros, conheço as ruas e seus prédios, quem anda mais em cada rua, principalmente em Fabriciano. Conhecer esses dois lugares é entender mais a minha música.

Ambos os lugares têm essa energia da estética do abandono, do saudosismo da vida noturna dos tempos passados, as montanhas olhando para esses bairros. As pessoas com pressa, os bares com a velha guarda bebendo uma cachacinha, conseguindo ver o passar do tempo de um jeito diferente do nosso. E a gente sobrevivendo no modo hard, tentando fazer um futuro possível.




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