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Mantena® mistura samba rock, no-wave e cultura pop em primeiro álbum

há 4 horas
5 min de leitura
Foto: Divulgação
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Mantena® mistura samba rock, no-wave e humor em universo musical próprio

Entre o samba rock, a no-wave e o absurdo cotidiano brasileiro, a banda belo-horizontina Mantena® constrói um universo musical marcado pelo humor, pela sátira e por uma mitologia própria. O projeto, criado pelo músico e produtor Fernando Bones, apresenta-se como uma espécie de “entidade extradimensional” que teria atravessado o mundo astral para se dedicar à música.


Essa narrativa também orienta a sonoridade do grupo, definida pelos próprios integrantes como “esquisita, porém simpática”. No primeiro álbum, Samba Esquema Noia, previsto para 2 de outubro de 2026, referências como Jorge Ben Jor e James Chance se encontram com elementos do cotidiano urbano — farmácias, aplicativos, cerveja, memes, ciúme, redes sociais e desilusões amorosas.


Formado por Fernando Bones (violão e voz), Miguel Javaral (baixo), Vinícius Mendes (sax tenor), Fábio de Carvalho (guitarra) e Pablo Campos (bateria), o Mantena® também reflete a experiência de seus integrantes na cena independente de Belo Horizonte. O projeto, porém, mantém uma postura deliberadamente irreverente diante dessa cena: quando perguntado sobre sua influência, Bones resume a relação com humor — “A gente olha pra ela e faz exatamente o contrário.”


A entrevista foi respondida pelo próprio Fernando Bones e pelo personagem Mantena®, alternando as duas vozes que compõem a identidade do projeto. Ambos discutem a origem da entidade, o conceito de Samba Esquema Noia, as referências musicais e culturais do projeto, o cotidiano brasileiro como matéria-prima, o papel do humor e da ironia, os desafios impostos pelas redes sociais e pelos algoritmos, a inteligência artificial e os caminhos para a música independente.


Com show de lançamento marcado para 10 de outubro de 2026, no Estúdio Central, em Belo Horizonte, Mantena® chega ao público com uma proposta que combina música brasileira, experimentação, performance e cultura pop — ou, nas palavras da própria entidade, com o objetivo de promover o “desbaratinamento musical da música brasileira-global”.


Fernando, em que momento Mantena® deixou de ser apenas uma banda e passou a ser esse universo, ou entidade, com uma mitologia própria?

Bones: Na verdade foi o contrário. Mantena® é uma entidade que existe muito antes da banda. Explico: Eu tava completamente fudido na pandemia, sem trabalho e sem grana, e fui fazer aquilo que todo ser humano minimamente inteligente faria: pesquisar no Google como ganhar dinheiro fácil. Entre ofertas de day trade e OnlyFans, achei uma que me pareceu bem convincente: fazer um ritual com Demônios da Goétia. Preparei tudo e comecei o ritual, mas cometi um erro na hora de desenhar o símbolo que evocaria o demônio e quem acabou aparecendo foi o Mantena®. Como “quem não tem cão, caça com gato”, começamos a conversar e ele me contou que era uma espécie de entregador de delivery de oferendas para as entidades no mundo astral, mas que tava de saco cheio, querendo fazer uma transição de carreira para a área que sempre sonhou: música. Então passei a ser seu “cavalo”, canalizando e produzindo as músicas que ele tinha na gaveta.


Afinal, o que é Mantena®: uma banda, um personagem, uma empresa, uma entidade extradimensional ou tudo isso ao mesmo tempo?

Mantena®: Eu sou apenas uma entidade extradimensional do terceiro mundo astral, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, vindo do interior (do pleroma).


O que significa definir a música do grupo como “esquisita, porém simpática”? Como equilibrar estranhamento, humor e acessibilidade?

Bones: Eu estudei a vida toda em escola pública e toda minha referência de cultura dentro de casa era baseada em Gugu e Faustão. Ou seja, não fui alfabetizado em inglês, nem comprei um disco do Bob Dylan com 10 anos de idade, como a maioria da cena independente brasileira (leia-se: paulista). Ao mesmo tempo, sempre fui uma criança esquisitinha, que gostava de coisa esquisitinha e odiava coisa padrãozinha. Daí que meu modus operandi cerebral sempre funcionou nessa fronteira entre o estranho e o acessível. Nem é algo que eu precise pensar em equilibrar. Já vem assim de fábrica.


Quais elementos da música brasileira e da cultura pop alimentam o universo de Samba Esquema Noia?

Mantena®: Jorge Ben, ET Bilú, Hermes Trismegisto, filme de bonequinho, psicanálise e jogo do tigrinho.


Farmácias, memes, aplicativos, ciúme, cerveja e caos urbano aparecem como matéria-prima. O que o cotidiano brasileiro tem de tão musical — e tão absurdo?

Bones: Não acho que seja exclusividade do cotidiano brasileiro, mas, de fato, o Brasil consegue se superar no quesito “realidade > ficção”. É a clássica frase “o brasileiro precisa ser estudado pela NASA”. Mas a humanidade ainda vai precisar de pelo menos 2000 anos para inventar os aparelhos necessários para tal. Enquanto isso a gente continua tocando essa Carreta Furacão chamada vida.


Foto: André “Pepo” Persechini
Foto: André “Pepo” Persechini

Qual é o papel do humor, do deboche e da ironia na construção das músicas e da identidade do Mantena®?

Mantena®: Nenhum. Eu só relato o que eu vejo cês fazendo por aí. O que de tão engraçado tem nisso? Pra mim cês levavam a sério a humanidade…


Como a cena independente de Belo Horizonte atravessa o som e a maneira de existir da banda?Bones: A gente olha pra ela e faz exatamente o contrário.


Por que lançar um álbum em 2026, em uma época dominada por singles, playlists, vídeos curtos e consumo fragmentado?

Mantena®: Porque a gente passou num edital da Lei de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. ¯\_(ツ)_/¯


Até que ponto o algoritmo influencia a maneira como vocês compõem, produzem e apresentam uma música? É possível fazer algo estranho e ainda assim disputar atenção no streaming?

Bones: Acho que, nessa exaustão que as pessoas tem experimentado com as redes, cheio de conteúdo genérico em quantidades colossais, o que é estranho acaba sobressaindo. Essa seria a resposta num mundo não governado por um monte de branquelo, flácido e calvo do vale do silício. Mas como não é assim que a banda toca, o único meio é pagar pra esses arrombados deixarem a gente TENTAR disputar a atenção de um monte de zumbi com uma tela na mão. Ou seja, não rola.


Hoje o músico precisa ser artista, produtor, empresário, criador de conteúdo e estrategista de redes. A tecnologia ampliou a liberdade ou apenas aumentou a quantidade de trabalho?

Bones: Acho que só mudou o tipo de trabalho. Antes das redes, os artistas também tinham que ralar pra caralho pra chegar até os olhos e ouvidos de alguém que os pusessem num nível de exposição que transformasse a banda num negócio viável financeiramente. Só que, como a gente só conhecia esses artistas depois que eles já tinham, de certa forma, “estourado”, ficava parecendo que naquela época era tudo mais fácil e o artista só fazia “trabalho de artista”. Hoje não tem mais esse “intermediador” que vai “colocar você lá”, então fudeu, tem que fazer tudo por si mesmo. Mas eu tenho achado que o “elo perdido” tá justamente aí: a gente parar de querer fazer tudo-ao-mesmo-tempo-agora só porque os gurus de algoritmo dizem que sim e encontrar parceiros próximos que queiram fazer esse trampo executivo e ganhar junto com a banda os resultados disso.


Como vocês enxergam a inteligência artificial dentro desse novo mercado musical? Ferramenta, ameaça, instrumento criativo ou mais uma entidade paranormal?

Mantena®: Se fosse entidade paranormal tava bom, porque não aguentava 5 minutinho de porrada sem perder a amizade comigo. Mas cês viram Matrix, né?


Depois de Samba Esquema Noia, qual é a mensagem que Mantena® gostaria de deixar para quem está chegando agora — e qual será o próximo fenômeno paranormal?

Mantena®: Apenas que: Busquem conhecimento! O próximo fenômeno é o show de lançamento do Samba Esquema Noia, no dia 10/10/26 (uma data LITERALMENTE 10/10), no Estúdio Central em BH. Depois disso, só o Demiurgo sabe!


Foto: Divulgação
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