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Marc Hellway fala sobre o debut da banda Hellway Train

Foto: Iana Domingos


Fundada em 2010 a Hellway Train é um dos melhores expoentes da música pesada produzida em solo brasileiro. Natural de Belo Horizonte, o grupo segue mantendo viva a tradição da cenal metal mineira iniciada nos anos 80.


Após um hiato de cinco anos a banda voltou as atividades em 2020, com uma nova formacao e vem, desde então, promovendo de forma enérgica uma série de shows pelo país. Atualmente, o grupo é formado por Marc Hellway (vocais), Vinicius Thram (guitarras), Chris Maia (baixo) e Filipe Stress (bateria).


O lançamento de singles como "Metal Window", "Out of the Cellar", o EP Lockdown Reborn somado ao split com a banda Hell Gun, entitulado Haunted Trip, fizeram com o grupo mineiro conquistasse o público e a crítica especializada.


Agora, em 2024, o grupo lançou seu primeiro álbum: Borderline. Composto por nove faixas, no disco a banda segue estabelecendo diálogo com o metal extremo (indo do speed ao trash), mas com personalidade e ousadia que vão desde o bem vindo diálogo com elementos da música eletrônica a adoção de letras que abordam temas ligados a psique humana.


Em entrevista ao Phono o vocalista Marc Hellway fala sobre a nova fase do grupo, o processo de composição e gravação de Borderline, suas origens, o discurso reacionário no meio musical, a cena metal brasileira, planos futuros e muito mais. Confira!


Phono: Geralmente inicio as entrevistas abordando sobre a caminhada de cada artista. Nesse sentido, como se deu o processo de iniciação com o universo musical? Em que momento você viu que a mesma seria duradoura em termos profissionais?


Marc: Primeiramente obrigado pelo espaço e pelo convite para falar um pouco sobre o meu trabalho!


Na minha casa sempre teve muitos discos, então sempre tive contato com música.

Eu comecei a tocar em bandas muito cedo, ainda adolescente. Desde o início, sempre tive objetivo de criar minhas próprias músicas. Todas as bandas que tive, mesmo as mais incipientes, sempre tiveram sons próprios. Desde que entrei num estúdio pela primeira vez para fazer um ensaio eu tive a impressão de que era nesse tipo de ambiente que eu iria permanecer ao longo de toda a vida. Acho que ali eu vi que seria duradouro, mas isso também é algo difícil de afirmar. Ao mesmo tempo que de fato é duradouro, existem muitos desafios pra conseguir sobreviver profissionalmente só disso. Apesar de ser algo que eu queira (e estou trabalhando para), infelizmente não podemos afirmar que isso seja uma carreira certa. O Brasil ainda tem muitas limitações para qualquer carreira artística - econômica e culturalmente.


Phono: Creio que antes de te ver no palco, como vocalista da Hellway Train, eu o vi em diversos shows em BH. Ora como parte do público, ora produzindo o evento. De que forma esse caráter multifacetado contribui para o seu fazer artístico?


Marc: Ultimamente eu tenho ido muito pouco à shows para assistir. Claro que eu observo e assisto muita coisa legal, mas quase sempre estou trabalhando em algo nos shows, que seja apenas panfletando algum evento próximo. Eu gosto de estar totalmente vinculado a isso. Acho que isso contribui de forma positiva em termos de vivências profissionais, compreender e vivenciar todos os processos, etc. Não sei até que ponto interfere no fazer artístico.... mas certamente encarar os problemas estruturais super frequentes dos eventos de rock e metal ajudam a ter mais raiva e mais ódio - que por sua vez contribuem para o processo artístico (risos).


Phono: Indo para área da política, não é de hoje que o discurso reacionário e misógino está inserido em diversas cenas e no metal, infelizmente, não é diferente. Avançamos em alguns aspectos comportamentais, tanto por parte do público quanto dos artistas, mas, ainda sim, o mesmo segue presente. Como você esse vê essa questão e o que devemos fazer para com que isso mude?


Marc: Como você mesmo disse - e eu concordo - esse tipo de discurso está inserido em diversos espaços sociais, e no metal não é diferente. Não sou adepto da narrativa de que "o metal é machista" ou "o metal é homofóbico" etc. Acho que são mazelas sociais generalizadas, e a cena da música extrema também faz parte da sociedade como um todo. Não estamos isolados e nem vivemos numa realidade paralela. Em relação às ações para mudar essa realidade, acho que deve ser um compromisso de todos... A cena da música extrema (metal, punk e etc) já carrega algumas características históricas que são bem críticas ao status quo. Isso pode ser uma ferramenta para uma mudança social coletiva. Acho que precisamos pensar nessa mudanças a nivel de sociedade, não a nível de nichos... somente mudanças sociais profundas é que podem dar conta de superar essas mazelas.


Phono: Não é de hoje que a cena metal mineira é expoente. E mais interessante é perceber que a mesma segue mais viva do que nunca, graças a dezenas de novas bandas que tem surgido nos últimos anos. Para você que tem esse trânsito, dentro e fora dos palcos, como você esse momento atual?


Marc: Eu acho que tivemos um movimento de vanguarda muito expressivo e volumoso em Minas Gerais nos anos 80 e 90, e graças à essa "tradição" o estado de MG ganhou uma grande visibilidade no underground brasileiro. Eu reconheço e me sinto parte desse movimento contínuo, acho que realmente é um estado com forte histórico e lastro nas cenas da música pesada. Mas também tenho evitado essa "sacralização" de um metal mineiro etéreo e ideal. Temos sim, em MG, muitas bandas fodas de ontem e de hoje, mas a cena do Brasil é imensa e muito complexa. Então eu vejo essa efervescência se aflorando em diversos lugares do país, muitos dos quais não possuem tanta visibilidade.


Phono: Você acompanha de perto o mercado de shows independentes e é perceptível que o mesmo está aquecido, mesmo com as diversas dificuldades inerentes a produção de eventos. Quais são as agruras e alegrias de trabalhar nos bastidores?


Marc: Quando se fala em shows e eventos do underground, logo pensamos nas dificuldades, na falta de rentabilização, nas fragilidades estruturais. Essas questões são constantes, mas é legal ver que mesmo assim estamos vivendo um período muito rico, no que diz respeito ao volume e qualidade dos shows underground. As bandas tem rodado mais, lançado mais material. Essa é a parte gratificante... poder servir como um instrumento para auxiliar esse desenvolvimento. Vejo o underground como uma rede colaborativa, desde as bandas, produtores, mídias alternativas, casas de shows... todos os envolvidos trabalham muito, a troco de quase nada e com o mesmo obejtivo: fortalecer o cenário. Se não for pelo apoio mútuo, ninguém sai do lugar.


Phono: A Hellway Train foi formada em 2010 e esteve ativa até 2015. Após o período de hiato até 2020 o grupo retomou as atividades. Quais as motivações fizeram que vocês retornassem?


Marc: Voltamos porque ainda tínhamos algo a dizer, algo à contribuir pra cena. Quando interrompemos os trabalhos em 2015, havia muito desacerto de ideias internamente, desde direcionamento musical até ideias políticas mesmo. Tanto que reformulamos totalmente a banda, ficamos só eu e o Vinícius. Na realidade eu acredito que essa versão do Hellway Train que surgiu em 2020 é uma outra banda. A história que estamos escrevendo agora eu vejo de uma forma muito independente do que vivemos até 2015.


Phono: Em Borderline você seguem promovendo justas homenagens ao heavy metal anos 80, mas com bastante personalidade. Como se deu o processo de composição e gravação do primeiro álbum do grupo?


Marc: A medida que lançamos material e experimentamos coisas novas no processo criativo, menos nos identificamos com a alcunha "tradicional". Esse termo "tradição" me traz uma sentimento de estagnação, anacronismo. Cabe muita coisa dentro do heavy metal... e estamos explorando esses limites. Não temos pretensão de inventar nada, nem de entrar em nenhuma onda moderna (e nem nas ondas saudosistas de revival). Nesse disco a gente trouxe alguns elementos de metal extremo, algumas referências de speed e thrash metal também... e algumas coisas meio fora da órbita "óbvia" do metal, como synth wave. A proposta lírica do Borderline aborda pautas mais psicológicas, e usamos algumas alegorias do cinema, literatura e quadrinhos pra materializar essa temática. Começamos a gravar no começo do ano passado, após um período de pré-produção intensa. Fizemos uma longa pós produção durante o resto do ano.


Phono: Liricamente, além de abordar elementos da cultura pop as letras falam sobre distúrbios psicológicos. Em tempos nos quais buscamos por alternativas de manter nossa sanidade mental qual a importância se levar ao público essa temática?


Matc: Acho que falei um pouco dessas referências na última pergunta. Na realidade não foi um processo deliberado, as músicas emergiram com esse tema de forma natural. Mas também não acho que é atoa... são temas muito candentes na sociedade hoje. Essa pauta da saúde mental é uma discussão importante, e o debate é tão ou mais importante do que necessariamente apontar soluções. Não somos especialistas ou profissionais da saúde. Mas é importante debater isso em todos os lugares. A própria definição de "sanidade" é bem ambígua... esse paradigma maniqueísta da "loucura" e "sanidade" é um pouco do debate que a gente quis trazer no Borderline.


Phono: Com disco novo na praça quais são os planos futuros?


Marc: Agora queremos colocar o disco na estrada. Temos alguns shows marcados pro próximo período e no começo do ano que vem devemos sair numa tour mais longa. É possível que saia alguma coisa nova ainda esse ano também... Mas a prioridade, no momento, é a promoção do Borderline!






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