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Matéria Prima: "O papel do rap é bem amplo, sendo que vem do povo e povo não é só luta, também é festa, é abstração, é construção de identidade".

Foto:  Vini Cerchiari
Foto: Vini Cerchiari

Com mais de uma década de atuação, o MC, compositor e fotógrafo belo-horizontino Matéria Prima construiu uma trajetória marcada pela constância, pela observação sensível do cotidiano e por uma escrita que transforma imagens, memórias e reflexões em música. Ao longo da carreira, consolidou uma discografia que acompanha diferentes momentos de sua caminhada artística, sempre buscando expandir os limites da linguagem do rap sem abrir mão da identidade construída nas ruas de Belo Horizonte.


Entre seus principais trabalhos estão 2 Atos (2017), produzido por Gui Amabis; Bem BoomBap (2018), ao lado de Dario Beats; No Intervalo do Fim (2023), em parceria com Goribeatzz; novidadedasantiga (2024), com produção de Jonas Pheer; Depois que a Onda Passa (2025); e, agora, Fazendo o Melhor que eu Posso (2026), novamente ao lado de Goribeatzz. Ao longo desse percurso, o artista também desenvolveu projetos colaborativos importantes, como Tetriz, reafirmando uma trajetória construída tanto em trabalhos solo quanto em parcerias criativas.


Seu lançamento mais recente, Fazendo o Melhor que eu Posso, sintetiza um momento de maturidade artística e pessoal. Produzido por Goribeatzz, o álbum reúne participações de Cizco, DJ Novset, Cravinhos e Ogoin em um trabalho que discute sobrevivência, criação, humanidade e os desafios de produzir arte em um mercado cada vez mais acelerado e desigual.


Na conversa a seguir, Matéria Prima fala sobre o processo de criação do disco, a relação com o streaming, a importância da experiência de ouvir um álbum por inteiro, sua ligação com Belo Horizonte, o papel da fotografia em sua vida e o lugar que o rap ocupa no Brasil contemporâneo. Confira!


O título Fazendo o Melhor que eu Posso parece sintetizar um momento muito particular da sua trajetória. O que essa frase representa para você e por que ela acabou dando nome ao disco?


O disco tem esse nome por causa das circunstâncias que envolvem produzir com pouco ou zero recurso financeiro ou midiático, e de viver sem muito recurso no meio desse turbilhão que exige a melhor performance, em que tudo é pra ontem e pra amanhã.


Você disse recentemente que o público deveria pensar mais no "pós-save", na experiência de realmente ouvir um álbum. Em tempos de consumo acelerado, o que você espera que as pessoas encontrem ao mergulhar nesse trabalho?


Eu lancei sem campanha pra engajar, mesmo tendo lançado dois clipes. Não fiz pré-save ou nada do que pedem pra fazer o disco chegar em mais pessoas ou te fazer ter a ilusão de que vai mais longe. Aí depois comecei a pensar se depois do pré-save, as pessoas realmente ouviam o trabalho. Aí me veio esse pensamento de fazer o caminho oposto e trazer uma reflexão: as pessoas realmente guardam o disco depois de lançado? Não teriam que ouvir antes pra saber se iam fazer download e tal? Aí sustentei esse argumento. Na real, eu espero que as pessoas reflitam, dancem, riam, apreciem todas as nuances desse trabalho que fiz com tanta satisfação.


Como foi o processo de construção do disco ao lado do Goribeatzz? Em que momento vocês perceberam que estavam criando um álbum e não apenas algumas músicas?


Começou na tentativa de fazer um outro disco do Tetriz, mas o Ramiro Mart tinha outras prioridades e eu fiquei com os beats. Como já tinha feito um disco com o Gori e nele tinha algumas coisas que queria mudar, eu fiz esse pensando em fazer de um jeito que queria ter feito o outro: com mais punch e com mais brilho.


O disco reúne nomes como Cizco, DJ Novset, Cravinhos e Ogoin. Como essas parcerias foram pensadas e de que forma cada artista ajudou a construir a identidade sonora do álbum?


As parcerias foram surgindo nas conversas com Gori e enquanto eu ia desenhando o disco. Cisco e Novset já eram parceiros de outros trabalhos, e o Mateus Coringa do selo Sujoground me apresentou o Cravinhos e o nosso santo bateu legal, aí foi uma questão de ter uma chance de trampar com ele. Já o Ogoin é um cara que sempre admirei o trampo e esperava uma chance de fazer alguma coisa com ele, e veio a oportunidade.


Existe alguma faixa que represente melhor o espírito de Fazendo o Melhor que eu Posso ou que

tenha uma história especial durante o processo de gravação?


A faixa-título tem muito da humanidade que o disco carrega, do esforço pra existir em meio aos erros e à condição de viver nesse mundo. Mas acho que Perceba e O Dia Segue também têm muito do que é essa luta constante de olhar pro mundo e entender que a maioria esmagadora tá fazendo o melhor que pode.


Salvo o período da pandemia, você tem lançado trabalhos praticamente todos os anos, mantendo uma produção artística impressionante. De onde vem esse impulso criativo? A composição faz parte da sua rotina ou você sente que está sempre acumulando histórias que, em algum momento, precisam se transformar em música?


Eu sou viciado mesmo (risos). Eu não sei se vem de um transbordamento, se vou mapeando histórias e percepções, os discos vão acontecendo. A gente tenta controlar os trabalhos, mas o trabalho controla a gente também. Parece que às vezes sou só uma marionete na mão das músicas.


Sua escrita sempre foi marcada por um olhar muito atento ao cotidiano e por letras carregadas de imagens. Como você percebe a evolução da sua caneta ao longo dos anos?


Eu nunca fico satisfeito. Já faço um pensando no que queria ter feito no outro e aí vem a vontade de fazer mais coisa. Acho que sempre vai ser assim. E a questão da imagética vem de tudo que é canto: música, filmes, fotografia… Mas tem uma influência de ouvir um rap dos anos 90, onde criar imagens era muito importante.


Belo Horizonte tem uma história muito importante dentro do rap brasileiro. De que maneira a cidade continua influenciando a sua forma de escrever, produzir e enxergar a música?


Vendo grandes talentos que seguem criando também, que não desistem apesar da perversidade da indústria cultural, e pelo fato de não estar no eixo Rio–SP. Acho que isso faz com que a gente desenvolva uma identidade própria e enxergar isso nos trabalhos é muito divertido.


Você também desenvolve um trabalho consistente com a fotografia. O que o ato de fotografar te ensina que depois aparece nas suas composições?


Eu coloco a fotografia num lugar de descanso. Às vezes eu consigo um trabalho ou outro, uma publicação, participar de uma exposição, e isso me deixa surpreso. Eu acho que a fotografia é uma extensão do que escrevo, e não sei se tiro escrita das fotos. Vou passar a observar mais isso.


Muitas das suas letras parecem funcionar como fotografias em forma de música, registrando cenas, pessoas e sentimentos. Existe um diálogo consciente entre essas duas linguagens no seu processo criativo?


Conscientemente não.


O rap brasileiro vive um momento de enorme visibilidade e alcance. Como você avalia o lugar que o gênero ocupa hoje dentro da música brasileira?


Hora de aproveitar a visibilidade e fincar a bandeira do rap de uma vez por todas, com tanto trabalho sendo feito com inteligência e musicalidade, e conquistar o respeito que a gente merece, porque tem qualidade dentro e ao redor do rap em várias áreas.


Ao mesmo tempo em que o streaming ampliou o acesso à música, ele também mudou profundamente a forma como os artistas produzem e lançam seus trabalhos. Como você enxerga esse novo mercado?


Eu podia dizer uma porrada de coisas, mas acho que já tão sendo faladas, acho que não preciso repetir. Mas, de qualquer jeito, é um mercado injusto e desumanizador. Favorece uns, apaga outros, e agora cria artistas artificiais pra inflar a receita. Tem algumas plataformas surgindo que prometem um novo horizonte pra nós, mas vamos aguardar cenas dos próximos capítulos.


Você acredita que ainda existe espaço para a construção de discos conceituais em uma época marcada por playlists, algoritmos e consumo fragmentado?


Eu acredito que sim. Muitos artistas têm feito trabalhos costurados por uma ideia central e, entre um trabalho e outro, trazem algo mais solto. Porém, eu acho que a questão de só fazer quando se tem um conceito é um desperdício de ideias que são feitas de outro jeito.


Em um cenário em que números, visualizações e reproduções parecem definir o sucesso, quais critérios realmente importam para você quando termina um trabalho?


Que eu fique satisfeito e que as pessoas reconheçam minimamente a entrega de um trabalho que soma às outras formas de se fazer rap e música como um todo.


O rap nasceu como uma ferramenta de expressão, denúncia e construção de identidade. Qual você acredita que seja o papel do rap no Brasil contemporâneo, especialmente diante das transformações sociais e culturais dos últimos anos? E, olhando para a sua própria trajetória, o que ainda te move a continuar escrevendo, rimando e registrando o seu tempo por meio da música?


A inquietação, a vontade de dividir umas ideias, os encontros que o trabalho proporciona, o abrigo que a arte dá pra algumas reflexões. O papel do rap é bem amplo, sendo que vem do povo e povo não é só luta, também é festa, é abstração, é construção de identidade. No momento eu acho necessário que todas as frentes trabalhem juntas, uma apoiando a outra, e nisso vai sendo mostrado a força do rap e de tudo que acontece ao redor do rap.



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