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Metá Metá entrega show de escuta radical e reafirma a Autêntica como palco vital

Texto: Francesco Napoli | Fotos: Bárbara Moreira


A casa de shows Autêntica, icônica em Belo Horizonte, recebeu o trio paulista Metá Metá, formado por Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França, um dos projetos mais inventivos surgidos na música brasileira nas últimas duas décadas.



Criado em 2008, o grupo desenvolveu uma linguagem própria a partir de uma formação que, à primeira vista, parece pouco convencional para um palco grande: voz, sax tenor e violão de nylon. Três linhas sonoras que caminham juntas e se reorganizam constantemente dentro da música. Essa estrutura simples revela uma lógica muito precisa de interação. O próprio nome do grupo ilumina esse princípio. Metá Metá, expressão de origem iorubá, significa três ao mesmo tempo, ideia que atravessa a música do trio não apenas como número de integrantes, mas como forma de pensamento musical. Três forças atuando simultaneamente, três caminhos que se cruzam, três energias que se equilibram no mesmo campo sonoro.



Essa simultaneidade também aparece na maneira como o grupo se relaciona com diferentes matrizes culturais. A música do Metá Metá dialoga com tradições afro-brasileiras, com a espiritualidade do candomblé, com a história da música paulista experimental e com um impulso improvisador que conduz frequentemente a apresentação para um estado coletivo de transe.


Do meu lado na plateia estava meu colega de Phono, o jornalista Rodrigo James, igualmente impressionado com o que acontecia no palco. Em algum momento da apresentação, ele tentou organizar em palavras aquela experiência. Disse que Metá Metá poderia ser uma mistura de Tom Zé, Baden Powell, Itamar Assumpção, Morphine e Exu, ou talvez simplesmente nada disso. A frase ficou pairando no ar enquanto a banda seguia criando aquela paisagem sonora difícil de reduzir a rótulos.



A Autêntica estava tomada por um público que parecia entender muito bem o que estava acontecendo ali. Entre uma música e outra, comentávamos o impacto da apresentação, James repetindo que aquele já figurava entre os grandes shows do ano. Naquela casa lotada, havia uma nítida sensação de encontro entre pessoas que compartilhavam referências, escutas e expectativas parecidas — um tipo de afinidade eletiva que se reconhece imediatamente no ambiente.


Parte da força do Metá Metá está na maneira como cada músico ocupa o espaço sonoro. A voz de Juçara Marçal surge como eixo de intensidade, potente e carregada de ancestralidade. O sax de Thiago França se move com precisão, ora conduzindo as linhas melódicas, ora abrindo caminhos para zonas de improvisação. No centro dessa engrenagem está o violão de nylon de Kiko Dinucci, um músico de invenção constante.



Em muitos momentos, o violão se transforma em instrumento de percussão. Em outros, retorna à tradição do violão brasileiro com clareza quase clássica. Há trechos de precisão rítmica impressionante, nos quais as notas aparecem fincadas junto ao sax. Em outros momentos, o instrumento parece abandonar completamente sua função tradicional e passa a operar como objeto sonoro, explorando ruídos, ataques e texturas.


Esse tipo de formação exige um trabalho de som extremamente cuidadoso. O técnico Lucas Mortimer teve papel fundamental na apresentação. Foi ele quem conseguiu equilibrar as frequências de três instrumentos que frequentemente disputam regiões semelhantes do espectro sonoro. O resultado foi um desenho claro de cada camada da música, permitindo que o público percebesse com nitidez o diálogo entre voz, sax e violão.



Durante o show, Thiago França fez um comentário que ampliou ainda mais o sentido daquele encontro. Ele lembrou que já havia tocado naquele mesmo espaço anos atrás com o projeto Copo Lagoinha, quando a casa ainda se chamava Lapa Multishow. Falou da importância de lugares como a Autêntica para a circulação da música independente e do significado de ver um espaço lotado para artistas que seguem caminhos próprios.


A observação trouxe uma dimensão política evidente para o que estava acontecendo ali. Em tempos de empobrecimento da experiência cultural e de crescente hostilidade às artes, encontros como aquele funcionam como um dos últimos redutos de resistência contra o fascismo. A apresentação seguiu nesse clima de intensidade até o final: um público atento, músicos em estado de escuta radical e uma música que se expandia continuamente no espaço.


Quando terminou, ficou a sensação clara de ter participado de algo difícil de repetir. Um daqueles momentos em que a música produz uma experiência coletiva rara.

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