Montese transforma rupturas em recomeços no novo single “Nada, Para Ser Tudo”

Com raízes fincadas na cena independente mineira desde os anos 2000, o Montese construiu sua história entre palcos, mudanças de formação, conflitos criativos e a vontade de fazer música à própria maneira. Formada atualmente por Victor da Mata nos vocais, Guga Neves e Rodrigo
Porto nas guitarras e Diogo Melchior na bateria, ao longo de mais de uma década, a banda atravessou diferentes momentos, viu a vida de seus integrantes se transformar e precisou encontrar novas formas de manter vivo um projeto que nunca deixou de fazer parte de quem são.
Agora, o Montese inaugura um novo capítulo com “Nada, Para Ser Tudo”, single que veio acompanhado de videoclipe e traduz, tanto na sonoridade quanto na temática, o espírito dessa nova fase. Entre o post-hardcore, o indie rock e o punk, a faixa mergulha em questões como ruptura, perda, memória e reconstrução, tendo como ponto de partida a ideia da “noite escura da alma” — aquele momento em que antigas certezas desmoronam e é preciso descobrir o que ainda permanece.
Mais do que anunciar um retorno, o lançamento sintetiza uma transformação que aconteceu dentro e fora da música. Sem a urgência de provar algo ou simplesmente reproduzir o passado, a banda se permite experimentar, amadurecer e reencontrar sua própria identidade. Como revela Victor, vocalista do Montese, hoje não existe mais “aquela pressa de provar que o Montese precisa acontecer”. O que existe é a vontade de fazer música que tenha a ver com quem eles são agora.
Em entrevista ao Phono, Victor revisita os principais capítulos dessa trajetória, fala sobre os períodos em que a banda desacelerou, as mudanças pessoais que atravessaram os integrantes e as relações que ajudaram a construir a cena independente de Belo Horizonte. A conversa também passa pelas influências, pela parceria com a Algohits e pelos desafios de seguir fazendo música independente em um cenário que mudou radicalmente desde o início do grupo.
Entre memórias, reflexões sobre o presente e expectativas para o futuro, Victor deixa claro que essa nova fase não busca apagar o passado, mas encontrar outras possibilidades a partir dele. Afinal, como resume ao falar sobre o que deseja preservar e reinventar no Montese, a ideia é “continuar ouvindo uma música do Montese e reconhecendo que aquilo veio da gente, mas sem precisar repetir o que já fizemos.”
A Montese tem mais de uma década de trajetória e passou por diferentes momentos até chegar a essa nova fase. Olhando para trás, quais foram os principais capítulos dessa história e o que mudou na banda — e nas pessoas que a formam — ao longo desse caminho?
O Montese começou em uma época em que a gente tinha muito mais vontade do que noção do que estava fazendo. [risos] A gente queria tocar, fazer música e ver até onde aquilo podia chegar. Era tudo muito mais impulsivo.
Depois vieram as mudanças de formação, os conflitos de ideias entre os integrantes, períodos em que a banda estava muito ativa e outros em que as coisas simplesmente não funcionavam. Cada um também foi tomando seu rumo, com trabalho, relacionamentos, filhos e outras responsabilidades.
A pandemia acabou sendo outro ponto importante. Não foi só a banda que parou. A rotina de todo mundo mudou, e acho que ela acabou colocando algumas coisas em perspectiva. Quando conseguimos voltar a conversar sobre o Montese, já éramos pessoas bem diferentes de quando tínhamos começado.
Hoje temos uma relação diferente com a banda. Não existe mais aquela pressa de provar que o Montese precisa acontecer. A gente quer fazer música que tenha a ver com quem somos agora. E isso também permite que cada um coloque suas ideias na mesa com mais tranquilidade, mesmo quando elas são diferentes.
No fim, acho que o principal capítulo dessa história é justamente esse: a banda mudou porque a nossa vida mudou. E seria estranho tentar fazer o Montese hoje da mesma maneira que fazíamos dez ou quinze anos atrás.
Vocês passaram por um período de hiato e agora entram em um novo ciclo. O que foi necessário deixar para trás nesse intervalo e o que vocês sentiram que precisava ser resgatado para o Montese voltar a fazer sentido?
Eu nem sei se chamaria exatamente de hiato. A gente nunca deixou de se falar, de compor ou de ensaiar. O que aconteceu foi que o ritmo diminuiu bastante. Cada um estava vivendo questões pessoais, trabalho, filhos e outras responsabilidades que foram ocupando mais espaço. A banda acabou ficando em segundo plano em alguns momentos.
Eu, particularmente, nunca deixei de escrever minhas letras. Continuei escrevendo mesmo quando o Montese estava num ritmo mais lento. Tenho bastante coisa guardada que ainda quero ouvir musicada e, principalmente, tenho vontade de ouvir essas músicas sendo cantadas por outras pessoas junto com a gente. Isso sempre foi um combustível para mim.
Também tivemos nossas diferenças e alguns conflitos de ideias. Isso faz parte de uma banda que existe há tantos anos e, em alguns períodos, acabou dificultando as coisas. Mas nunca houve uma ruptura de verdade.
Então, quando começamos a retomar o ritmo, não parecia que estávamos começando tudo de novo. Algumas ideias já estavam ali, algumas músicas foram sendo construídas aos poucos e outras ainda estão esperando a hora certa.
O que precisou ficar para trás foi a expectativa de que a banda tinha que funcionar como funcionava antes. Hoje a vida de cada um é outra e a maneira de fazer o Montese também precisa acompanhar isso. O que voltou foi a vontade de tirar essas coisas do papel. Voltar a ensaiar com mais frequência, terminar as músicas, gravar e começar a pensar em shows de novo.
O novo single, “Nada, Para Ser Tudo” fala diretamente sobre vazio, busca de sentido e reconstrução. Em que medida a música é um retrato do momento pessoal e coletivo que vocês estavam vivendo quando ela foi composta?
A música nasceu de um momento de ruptura, quando algumas coisas em que eu acreditava já não faziam mais sentido e eu precisei lidar com o que ficou depois disso. A letra fala de dor, perda e memória, mas também dessa tentativa de seguir em frente sem fingir que aquilo não aconteceu.
A ideia da “noite escura da alma” apareceu justamente daí. É aquele período em que você perde algumas referências e precisa se reorganizar sem saber muito bem o que vem depois. Quando a música foi tomando forma com a banda, ela acabou conversando também com o momento que estávamos vivendo. Cada um estava passando por mudanças pessoais e o próprio Montese estava tentando encontrar seu lugar novamente.
Apesar de ter começado como algo muito pessoal, hoje gosto que ela possa ser interpretada de maneiras diferentes. Cada pessoa pode encontrar na música alguma coisa que tenha a ver com a própria história.
Musicalmente, vocês falam em uma sonoridade mais crua e direta, mas também mais atenta às nuances melódicas. Como foi encontrar esse equilíbrio entre a energia do hardcore e essa maturidade que aparece agora no som?
Acho que o principal é não tentar separar essas coisas. Para mim, a música precisa ser visceral. As ambiências vão se construindo de acordo com o sentimento que está nas letras, e a música precisa acompanhar isso.
O vocal também tem um papel importante. Sempre tentei manter uma forma de cantar mais crua e natural, sem buscar uma interpretação muito técnica ou tentar colocar uma voz que não é a minha. Quando a letra pede mais tensão, isso aparece na forma de cantar. Quando pede mais espaço, a música acompanha.
E tem uma coisa muito particular na banda, que é a forma como a vibe e o talento de cada um acabam se cruzando. Acho que existe uma interseção entre o sentimento que está sendo colocado na música e uma certa dissonância que cada instrumento traz. É desse encontro que muita coisa do nosso som aparece.
As melodias entram também nesse jogo. Não necessariamente para deixar a música mais leve, mas para criar contraste. Podemos ter uma parte pesada, outra mais aberta, uma melodia que fica na cabeça e, logo depois, voltar para algo mais agressivo. No fim, o que guia a construção é muito mais o que a música precisa transmitir do que uma preocupação em encaixá-la em uma sonoridade específica.
O Montese nasceu e se desenvolveu dentro da cena de Belo Horizonte. Como vocês enxergam a transformação da cena independente da cidade desde o início da banda até hoje? O que permanece vivo e o que vocês sentem que se perdeu pelo caminho?
Eu tenho uma relação muito afetiva com a cena de BH porque foi onde o Montese nasceu. E ela nunca ficou só em BH. A gente tocou em Nova Lima, Contagem, Betim e também em cidades como Itabira, Governador Valadares, Uberaba e Mariana. Foram muitos lugares, bandas e pessoas que fizeram parte da nossa história.
O que mudou bastante foi a forma de consumir música. Antes, você descobria uma banda indo a um show, comprando um CD, trocando ideia com alguém. Hoje você tem acesso a praticamente tudo pelo celular. É muito mais fácil chegar na música, mas acho que a relação presencial ficou um pouco mais difícil de construir.
E eu mesmo sinto falta de viver mais a cena. Hoje tem trabalho, filhos, responsabilidades... os compromissos da vida adulta chegaram. [risos] Às vezes eu queria conseguir simplesmente pegar um show numa sexta, encontrar a galera, conhecer uma banda nova e ficar ali até o fim.
Mas ainda existe gente fazendo isso, e acho que é justamente isso que mantém a cena viva.
BH sempre teve uma relação muito forte com a música independente, mas também é uma cidade marcada por cenas que se renovam constantemente. Quais artistas, bandas, espaços ou movimentos da cena mineira foram importantes para a formação do Montese — e quem vocês acham que está movimentando essa cena hoje?
Foram muitos lugares e muita gente. Casas como o Matriz, A Obra, A Autêntica e o Studio Bar foram importantes para a gente, além de estúdios que também abriam as portas para shows, como o Monkey e o Minueto. O Matriz tem um lugar especial na nossa história, principalmente pelo Edmundo e pela Andrea, que sempre deram muita força para o Montese.
Também teve muita banda que esteve com a gente desde o começo e fortaleceu muito a cena local: Arc Over, Distúrbio Subhumano, Rally, Crash Playground, Ktrina, Coyotes S/A, Corkscrew, Andaluzia, Retoma, Dual, Córdoba... e certamente estou esquecendo alguém. [risos] A gente sempre esteve muito próximo, tocando juntos, trocando ideia e se apoiando.
Hoje, das pessoas que estão mais próximas da cena que o Montese transita, eu destacaria o Punk no Park, com o Bolinho, e o Coletivo Chama, com a Ju e o Luiz. Mas a gente acaba conhecendo mais de perto o circuito onde o Montese está inserido. Eu gosto de acompanhar o que acontece além dele também. BH tem rap, metal, indie, eletrônico, experimental, um monte de coisa acontecendo. Nem tudo passa pelo nosso caminho, mas acho importante reconhecer que a cidade tem muito mais música do que aquilo que a gente frequenta.
Vocês citam influências que vão de Fugazi e Devotos a O Terno e Pineapple Thief. Como referências tão diferentes convivem dentro da identidade do Montese? Existe uma preocupação consciente em fugir de rótulos ou essa mistura acontece naturalmente?
Acho que acontece naturalmente. Cada um de nós chegou à banda carregando referências diferentes, e elas acabam aparecendo na hora de compor, mesmo quando a gente não está pensando diretamente nelas.
Eu sempre gostei de música que tem alguma tensão, seja pelo peso, pela melodia, pela letra ou pela própria atmosfera. Então é normal uma referência mais punk ou hardcore conversar com alguma coisa mais melódica, experimental ou até completamente fora desse universo.
Fugazi, Devotos, O Terno, Pineapple Thief e tantas outras bandas podem parecer distantes entre si, mas não acho que exista uma preocupação em escolher onde o Montese deve se encaixar. A música vai encontrando seu caminho a partir do que cada um coloca ali.
Também não penso muito em fugir de rótulos. Se a música tem elementos que alguém identifica como hardcore, Punk, post-hardcore ou qualquer outra coisa, tudo bem. Para mim, o mais importante é que ainda dê para reconhecer que aquilo é uma música do Montese.
Depois de tantos anos de estrada, como mudou a relação de vocês com a ideia de fazer música independente? Hoje vocês enxergam o Montese mais como uma banda que precisa conquistar espaço ou como um projeto artístico que já encontrou sua própria voz e quer aprofundá-la?
Para mim, uma coisa não exclui a outra. Quero que o Montese volte a fazer shows fora de BH, como já fizemos intensamente em outros momentos, e tenha novas oportunidades de circular e conhecer pessoas através da música. Isso faz parte da vontade de continuar fazendo a banda acontecer.
Ao mesmo tempo, não quero que essa busca por espaço faça a gente mudar a forma como escreve, toca ou pensa a banda. Acho mais interessante poder experimentar, amadurecer e incorporar novas referências sem perder aquilo que faz uma música soar como Montese.
Hoje também temos pessoas que ajudam muito nesse caminho. A Algohits tem nos ajudado na divulgação, o Filipe Monteiro sempre nos dá um norte na produção, e o Sandro tem um empenho enorme com toda a nossa parte técnica.
Acho que o equilíbrio está justamente aí: seguir crescendo e ocupando novos espaços, mas sem abrir mão do que construímos até aqui.
Falando nisso, a parceria com a Algohits marca também uma nova etapa para o grupo. O que vocês esperam dessa relação e, em um mercado em que artistas independentes precisam assumir cada vez mais funções, qual é o papel que vocês acreditam que uma musictech ou uma estrutura de lançamento deve desempenhar?
Quando lançamos nosso primeiro álbum, Quando Me Encaro de Frente, pelo selo paulista Hearts Bleed Blue, a gente teve a oportunidade de sentir o peso que um suporte profissional pode ter para uma banda independente. Ter pessoas com experiência ajudando na divulgação, na organização e nos caminhos que o lançamento poderia seguir fez muita diferença para nós.
Hoje, anos depois, estamos muito animados com a parceria com a Algohits justamente por enxergar essa possibilidade novamente, mas dentro de uma realidade completamente diferente. A tecnologia mudou muito a forma como a música circula e existem ferramentas que permitem que uma banda independente consiga organizar melhor sua divulgação e ampliar seu alcance.
A ideia não é deixar a tecnologia definir o que o Montese faz, mas usar essas ferramentas para apresentar melhor o nosso trabalho e fazer com que ele chegue a lugares e pessoas que talvez não chegasse sozinho.
Para mim, é muito bom poder contar novamente com pessoas que entendem desse lado do trabalho e que ajudam a banda a transformar uma música pronta em algo que consiga circular.
Esse retorno chega acompanhado da promessa de um EP e de uma banda que vocês mesmos descrevem como mais verdadeira, mais vocês mesmos, sem máscaras. Quando pensam no futuro do Montese, o que querem preservar dessa história e o que ainda sentem vontade de desconstruir e reinventar?
Acho que quero preservar a vontade de fazer música juntos. A energia dos ensaios, a liberdade de cada um trazer suas ideias e essa mistura de referências que sempre fez parte do Montese.
O que eu não quero mais é aquela expectativa de que a banda precisa funcionar do mesmo jeito que funcionava no começo. A vida de todo mundo mudou, temos trabalho, filhos, outras responsabilidades, e hoje a gente entende melhor como encaixar o Montese nesse contexto.
Também quero que a gente se permita experimentar mais. Não ficar pensando se uma música está muito diferente do que já fizemos ou se alguém vai esperar determinada coisa da banda. Se a ideia for boa, acho que vale seguir por ela.
No fim, quero continuar ouvindo uma música do Montese e reconhecendo que aquilo veio da gente, mas sem precisar repetir o que já fizemos. Acho que é justamente isso que deixa essa volta interessante.

Comentários