Nunca viajo sem a pequena Big Star

“I never travel far, without a little Big Star”, enfatiza Paul Westerberg em sua homenagem obscura ao seu tão obscuro ídolo Alex Chilton na música homônima. Este deveria ser o mantra perene de todo amante da boa música pop. Da música pop bem trabalhada, com sentimento, alma e verdade que ressoa através de três grandes obras-primas irretocáveis do gênero que, infelizmente, ainda sucumbem à obscuridade tal qual Westerberg, os Replacements ou Alex Chilton.



Alex ganhou certa notoriedade com a música “Letters” de sua primeira banda, os Boxtops, gravou um disco solo em Nova Iorque (que ninguém tomou conhecimento à época) e retornou à cidade natal Memphis onde reencontrou seu colega de escola Chris Bell, além de Andy Hummel and Jody Stephens. Estava formada a mítica Big Star, cujo nome veio de um mercadinho de frente ao estúdio em que gravariam os três discos.


O que podemos encontrar em comum nos três álbuns, e que seria uma marca indelével da banda, é o amor pelas bandas do British Invasion repaginados para uma nova década, realizando um encontro até então improvável do pop engenhoso dos Beatles, o ataque furioso de guitarras do the Who, o R’n’B viajado dos Small Faces e as letras introspectivas, mas diretas dos Kinks. Harmonias vocais belíssimas se chocam em guitarras cheias de fuzz.


Em #1 Record estas características encontram seu maior equilíbrio, muito por ser o único disco a contar com toda a formação inicial por todas as faixas. Ao ouvir o álbum pela primeira vez pode se ter a impressão de ser uma coletânea, tamanha a habilidade de composição de hits da dupla Chilton / Bell. Desde a efervescência juvenil de “Feel” e “In the Street” às baladas sinceras e abertas de “The Ballad of El Goodo” e “Thirteen”, passando pela angústia disfarçada em apelo pop (habilidade para poucos) de “Don’t Lie to Me” e por mensagens de esperança e felicidade em “Watch the Sunrise”. Tudo seria perfeito não fosse por alguns problemas: apesar da boa recepção da crítica especializada, os problemas de distribuição do disco por parte da gravadora estagnaram suas vendas iniciais a 10.000 cópias. Além disso, poucas bandas naquela época (como o Badfinger e os Raspberries) queriam soar como o Big Star, os afugentando de grande parte do público de rock por fazerem um som “muito pop” e “pouco pesado” e de letras “pouco politizadas e inocentes”.


Podemos ouvir ecos deste problema ressoar em Radio City, o álbum subsequente: a absência de Chris Bell - que deixou a banda após desentendimentos com os demais integrantes e por se desacreditar com o insucesso do primeiro disco - reflete numa perda da inocência juvenil e o joie de vivre tão presentes em #1 Record. Neste álbum fica clara a dominação por parte de Alex Chilton, trazendo um som mais cru, direto e um cinismo disfarçado em melodia que não só reflete o sentimento da banda naquele momento, mas de toda a década de 70. Isto de forma alguma desmerece Radio City, mas o torna um animal diferente do álbum anterior. Raiva e desespero destilados em power pop em “You Get What You Deserve” e “Back of the Car”, as baladas mais lentas e esparsas, com as feridas expostas como em “Whats Goin’ Ahn” e “I’m in Love With a Girl” e a alegria inocente se transforma na excitação anfetaminada das ruas em “Oh My Soul” e “She’s a Mover”. Apesar dos esforços em realizar um trabalho mais contundente e “contemporâneo”, a Big Star se viu refém novamente da inabilidade de empresários e do sistema de distribuição da gravadora e as vendas de Radio City também ficaram relegadas a meras 20.000 cópias.


Esta situação obviamente não agradou a ninguém da banda, o que levou Andy Hummel a sair do Big Star deixando apenas Jody Stephens e Alex Chilton na formação. O baque para Chilton, no entanto, foi maior do que todos esperavam e teve grande repercussão na concepção e execução de Third/Sister Lovers. Acompanhados por diversos músicos de estúdio de Memphis, é um registro de uma banda se desfazendo em pedaços, da mente atormentada de um gênio da música pop desacreditado sem qualquer esperança de que o trabalho chegasse a ser produzido em larga escala sob o comando de um selo indiferente e que está à beira da falência. As gravações foram, como era de se esperar, complicadas com diversos problemas pessoais à mostra.


O que se houve em Third/Sister Lovers é o desamparo e desespero de um artista, em arranjos esparsos e econômicos, numa produção crua, seca e direta com ecos assustadores e a voz frágil de Alex que amplificam mais ainda estes sentimentos. As assombrosas “Holocaust”, com seu perturbador piano lento e pesado, e “Kangaroo”, com suas dissonâncias fantasmagóricas e ritmos quebrados, talvez sejam as peças centrais deste clima decadente. Encontra-se, no entanto, poucas pontas de esperança em momentos de beleza na sinceridade de “Thank You Friends”, na versão de “Femme Fatale” ou na leveza de “Take Care”. Mesmo em momentos que o power pop surge em músicas como “Kizza Me”, “You Can’t Have Me” ou na inspirada cover de “Till The End of the Day” há uma melancolia de pano de fundo que sinaliza que os dias de ouro não fazem parte desta realidade. É uma obra de rara e estranha beleza e que não pega o ouvinte de início, mas cresce a cada audição e, enquanto obra que revela a raiva existencial de seu interlocutor, se iguala em importância à discos como Tonight the Night, de Neil Young, e Bryter Layter, de Nick Drake. Recusado desde o ínicio pela gravadora como não comercial, só foi lançado numa primeira versão em 1978, três anos após sua finalização, e relançado na versão considerada como definitiva em 1992.


O reconhecimento do Big Star só veio posteriormente, quando bandas do então rock alternativo, como REM, Replacements e Teenage Fanclub, os adotaram como uma das grandes influências em seu som. Infelizmente, após o falecimento de Chris Bell em 1978 e Andy Hummel e Alex Chilton em 2010, perdemos a chance de ainda ter uma amostra desta grande banda ao vivo, em nossa frente.


Mas não custa nada sonhar que o refrão de “Alex Chilton”, dos Replacements, se torne verdade para futuras gerações que puderem ter a chance de entrar em contato com estas três obras-primas:

“Children by the million sing for Alex Chilton when he comes 'round

They sing "I'm in love. What's that song?

I'm in love with that song.“