Planet Hemp denuncia necropolítica no Rio em show histórico de despedida
- Phono Brasil

- 5 de nov.
- 3 min de leitura
Atualizado: 8 de nov.
Texto: Bruno Lisboa
Fotos: Alexandre Biciati
O Planet Hemp enfim trouxe para BH a turnê “A Última Ponta”, cidade que tem longa história com a banda. O grupo carioca tem feito nos últimos meses uma série de apresentações pelo país para se despedir do público após mais de 30 anos de carreira, quatro álbuns e a conquista do posto de uma das bandas mais importantes da história da música brasileira.

Liderado por Marcelo D2 e BNegão, o grupo enfrentou uma verdadeira via-crúcis antes de subir ao palco na capital mineira. Dois espaços recusaram sediar o evento assim que souberam que os “maconheiros mais famosos do Brasil” eram os protagonistas da noite — um eco direto dos antigos estigmas que acompanharam o Planet Hemp desde os anos 1990. O impasse reacendeu memórias da época em que a banda era proibida de se apresentar em diversas cidades, especialmente por causa das letras que abordavam o uso da maconha e a hipocrisia das políticas antidrogas.

A atual formação do Planet Hemp conta com Marcelo D2 (vocal), BNegão (vocal), Formigão (baixo), Nobru (guitarra), Pedro Garcia (bateria) e Daniel Ganjaman (guitarra, baixo e teclado). Juntos, conseguem acentuar o peso necessário das canções ao vivo, traduzindo em som a fúria, a ironia e a energia que definem o grupo desde os anos 1990.

O show aconteceu no Mercado Distrital do Santa Tereza, tradicional bairro boêmio da capital mineira e berço do metal brasileiro. O espaço, porém, se mostrou pequeno para o tamanho do Planet Hemp e enfrentou problemas técnicos de som, que por vezes tornaram inaudíveis as falas entre as músicas, comprometendo parte da comunicação direta com o público.

Ainda assim, Marcelo D2 e BNegão não se deixaram abater. Entre uma faixa e outra, os vocalistas encontraram brechas para relembrar a trajetória do grupo, revisitando episódios de censura, repressão e superação que moldaram a história da banda desde os anos 1990. O grupo prestou homenagem ao finado Skunk, membro da formação original e cofundador do grupo, cuja memória segue presente na identidade da banda, e também ao músico e skatista Fábio Kalunga, que morreu em 2023 vítima de complicações decorrentes de uma cirurgia. Kalunga, figura querida do underground carioca, foi amigo e colaborador próximo da banda, símbolo de uma geração que uniu skate, rap e contracultura.

A apresentação também teve um forte apelo visual, com projeções e imagens que funcionaram como um exercício de memorabilia — não apenas da história do Planet Hemp, mas também do próprio Brasil, ao rememorar fatos políticos e sociais que moldaram as últimas décadas do país. O telão misturava imagens de manifestações, charges, recortes de jornais e ícones da cultura popular, em uma narrativa que ampliava o discurso contestador da banda e reforçava a ligação entre arte, política e memória coletiva.

Em meio à celebração e à emoção, também sobraram críticas afiadas ao governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e à sua política genocida de guerra ao tráfico, que autorizou uma ofensiva policial errática e resultou na morte de centenas de pessoas nas favelas cariocas do complexo do Alemão e da Penha.

O setlist, semelhante ao apresentado em outras capitais, percorreu os quatro álbuns de estúdio do Planet Hemp — de Usuário (1995) a Jardineiros (2023) — e reuniu clássicos como “Dig Dig Dig (Hempa)”, “Ex-Quadrilha da Fumaça”, “Queimando Tudo”, “Zerovinteum”, “Distopia” e “Taca Fogo” que contou com a participação surpresa da produtora e esposa de Marcelo D2, Luiza Machado. Além das próprias faixas, o Planet Hemp incluiu ainda a já tradicional cover de “Samba Makossa”, em homenagem a Chico Science, ressaltando a influência e importância da Nação Zumbi como um dos pilares da música brasileira.

Mesmo com as falhas técnicas, a noite em Santa Tereza foi um marco: uma reparação simbólica em uma cidade que, no passado, chegou a recusar o grupo, mas agora o recebeu de braços abertos — e pulmões cheios. A derradeira apresentação do Planet Hemp é também um marco de um grupo que moldou sua geração, influenciou e ainda influencia novas gerações, deixando como legado uma trajetória simbólica que envolve a poderosa e necessária junção entre arte e política, que, quando unidas, adquirem um poder inimaginável.


















































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