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Polivalência, poliamorismo e poliritmismo no Mercado do Cruzeiro

Estamos diante de uma das mais criativas e diversas cenas de música do país! É este o sentimento que fica a cada jornada de cobertura do Tranquilo. Não há exagero nem falsa modéstia, apenas a constatação de que Belo Horizonte se transformou num polo de produção musical sem precedentes. E há palco!


Última noite do mês, véspera de feriado, chuva e halloween (pra quem é disso). Desta feita, o Mercado do Cruzeiro foi o espaço contemplado para receber o evento que resignifica os lugares por onde passa. Na edição em que o Tranquilo convidou o duo Tom e Thomé, Lamparina e Tatá Aeroplano, fomos conferir in loco mais uma noite de experiência sonora à qual já estamos bem acostumados.



“Adoro Belo Horizonte! É uma cidade incrível”, dispara Tatá Aeroplano ao lado de seu cicerone, Luan Nobat, que participou do show. “Incrível como mesmo debaixo de chuva forte o público do Tranquilo sempre comparece em peso” constatou o músico Sereno, que já esteve no evento como artista e agora retorna como agenciador de Tom e Thomé. Aliás, a polivalência é uma das características do mercado da música contemporânea. Os músicos-agenciadores, por exemplo, se valem de sua sensibilidade artística para traçar trajetórias pensando públicos e caminhos que um artista pode percorrer.


Permita-me discorrer!


Desde o declínio daquele modelo mercadológico de música engendrado a partir das grandes gravadoras, houve uma diversificação e uma ampliação de nichos, o que multiplicou os artistas que se viram obrigados a assumir as várias funções de uma carreira musical: da produção à comunicação. Hoje em dia, as novas gerações compreendem melhor a importância de cada papel nesse ecossistema e se revezam de modo estratégico, o que vem profissionalizando a cena musical independente. Inclusive o próprio Thales Silva, idealizador do Tranquilo, também é músico e compositor e empreendedor.


Neste Tranquilo encontramos grandes exemplos desta polivalência: Emílio Dragão, produtor e músico que ficou conhecido pela banda Djambê, foi o mestre de cerimônias. Djambê que tinha como integrante Priscila Glenda, cantora e produtora cultural, que estava lá também atuando como social media.



Voltemos...


É uma tradição deste sarau que o mestre de cerimônias abra o evento com uma canção autoral. Desta vez, Dragão convidou Priscila para cantar uma música que faz parte de um novo projeto destes dois lindes que se chama .dois.ô.um.. Dragão e Priscila são companheiros de vida e a música apresentada é uma composição dele para ela. A canção versa sobre não-monogamia e poliamorismo e o refrão avisa, “nem vem de careta que o amor é doce”. Fizeram bonito, diante daquele público atento, com a desenvoltura de quem domina o que faz: da produção ao palco.



Durante o “No Escuro” - quando a plateia fecha os olhos e ouve um artista cantando à capela - tivemos a sorte de presenciar John Mueller que, com sua voz entre a fala, o canto e uma interpretação marcante, abrindo uma noite brilhante.



Logo após, subiu ao palco Tatá Aeroplano, músico, compositor, DJ e andarilho urbano que desde os anos 2.000 integra projetos musicais muito interessantes. Tatá se aproximou de Belo Horizonte de modo mais intenso via Hotel Catete, banda que era capitaneada por Bruno César, fã declarado de Tatá Aeroplano e amigo de Luan Nobat. Tatá é de uma verdade incontestável! Suas canções funcionam muito bem no formato voz e violão. Aliás, um violão ao contrário, de quem é canhoto e não inverte as cordas, o que intensifica aquilo que há de “torto” em seu canto e em sua forma única de tocar o instrumento.



Depois vieram Tom e Thomé, dupla de artistas que se conheceu pela internet a partir de uma admiração mútua que se concretizou em um projeto que está circulando o país. Tom e Thomé são uma dupla que, em parâmetros belorizontinos, seria uma união de Kadu Viana e Kristof Silva (!). Foi deslumbrante ver o domínio que eles têm de suas vozes e timbres e como suas canções coadunaram. Isso sem falar na habilidade de percutir sutilmente seus próprios corpos em canto e poliritmias.



Por fim, a banda Lamparina, representada pelo casal Marina Miglio (cantora) e Cotô Delamarque (cantor e baixista), cantou suas conhecidas canções em formato voz e violão em um show intimista e raro. Era como se estivéssemos no quintal da casa deles. A dupla arrancou do público reações como “Ah, que lindezas!". A propósito, os dois têm protagonizam vídeos impagáveis no Instagram do Lamparina que vale a pena conferir.



Que noite polivalente!


De fato, a cena musical da cidade captou bem a produção musical contemporânea. Seja na dinâmica polifuncional dos artistas, que se revezam na hora de fazer acontecer; nas temáticas que quebram barreiras conservadoras, tais como poliamorismo, não binarismo de gênero e engajamento interseccional e até no aspecto musical com sua exuberância de ritmos, estilos e diálogos artísticos. É Beagá... e isso é só o começo!



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