Porcos, ratos e um quartinho psicodélico no LAVA
- Lucas Buzatti

- há 4 dias
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Cravando seu nome no calendário da música pesada de BH, evento contou com shows do quinteto inglês Pigs x7, dos icônicos grupos de hardcore brasileiros Mukeka di Rato (ES) e Leptospirose (SP), e do trio instrumental Quarto Sensorial (RS)
Texto: Lucas Buzatti Faria | Fotos: Luciano Viana
Ousada e certeira, a curadoria do “LAVA – Microfest de Música Extrema” fez encher de camisas pretas o espaço CentoeQuatro, no Centro de Belo Horizonte, no último sábado, dia 4 de julho. Realizado pela produtora Quente, o festival trouxe, pela primeira vez à capital mineira, a banda britânica Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs (normalmente abreviada como Pigs x7), em uma noite memorável que também contou com dois ícones do hardcore brasileiro – Mukeka di Rato (ES) e Leptospirose (SP) –, além de uma grata surpresa, o trio instrumental Quarto Sensorial (RS).

Debutando em BH, o grupo gaúcho pescou totalmente a atenção da plateia, que começava a chegar no rolê e já gostava do que ouvia. Um som pesado e experimental, na mesma proporção – ora denso e sujo, ora atmosférico e lisérgico. Ainda “à paisana”, o vocalista do Pigs x7, Matthew Baty, acompanhava discreta e atentamente o show do power trio, junto a alguns de seus companheiros de banda.

Formado por Bruno Vargas (baixo), Carlos Ferreira (guitarra) e Martin Estevez (bateria), o Quarto Sensorial desfilou faixas de sua discografia, composta por três álbuns e um EP. Vigoroso e dinâmico, o show alternou momentos de psicodelia e contemplação com estouros de intensidade e peso, em uma viagem instrumental que vai de Tortoise a Genesis, de Kyuss a Mogwai, de Melvis a Rush.

A escalação do trio gaúcho foi um dos grandes acertos da Quente nesta segunda edição do “LAVA”, cujo line-up colocou lado a lado bandas de diferentes gêneros da música pesada – tão vasta em suas cenas e ramificações. O “arco dramático” que a ordem dos shows criou também veio a calhar, explicando o fato de a próxima banda da noite ser a atração principal do evento. Depois da lisergia sonora do Quarto Sensorial, era hora de aterrar um pouco, com o som engordurado dos Pigs.

Densidão e sujeira stoner
Aproximadamente às 22h30, o quinteto de Newcasttle subiu ao palco do CentoeQuatro, já com o vocalista Matt Baty trajando sua usual roupa de show: shorts e camiseta de boxeador. Para delírio de um público mais avolumado – mas que, pela qualidade do evento, poderia ter sido bem maior –, a banda abriu a apresentação com a hipnótica “The Wyrm”, uma das mais famosas do repertório. Depois, vieram “Mr. Medicine” e “Ultimate Hammer”, ótimos cartões de visita para a mistura enfumaçada entre stoner, sludge e doom metal que os Pigs x7 propõem.

O show continuou com a arrastada “Carrousel”, música ancorada por riffs simples e pesados que traduzem as guitarras do grupo inglês: notas longas, muito fuzz e muita sujeira. Outra característica marcante são as camadas sobrepostas criadas por Sam Grant e Adam Ian Skyes – enquanto um segura o riff principal o outro adiciona harmonias e dissonâncias que fazem a sonoridade da banda parecer enorme. Tudo isso somado à ferocidade punk da “cozinha” de Ewan Mackenzie (bateria) e John-Michael Joseph Hedley (baixo), formação que, junta, já carrega quatro álbuns de estúdio na bagagem, sendo o último “Death Hilarious” (2025).

Mas, ao vivo, não tem jeito. A atenção do espectador fica mesmo presa na atuação enérgica de Baty. Baixinho, de bigodes e pés descalços, o cara vira um gigante no palco. Assumindo a persona de um insano lutador, bate as mãos no peito, estica e repuxa os fios do microfone, agacha e se levanta, anda de um lado para o outro, fecha e abre os olhos, joga água sobre a cabeça. E ainda presta atenção na pista: em dado momento, o vocalista deu um esporro em um grupo pequeno de bêbados vacilões que estavam sendo babacas no mosh e chegaram a passar a mão em uma mulher. Uppercut bem encaixado de Baty.

Vale ressaltar que, para além da presença de palco, o britânico é um vocalista potente e criativo – o que o público pôde atestar em “Stitches”, “Big Rig”, “Blockage” e “Collider”, arrebatadora sequência que rumou o show para seu ato final. A voz de Baty é naturalmente suja, com um drive cortante e uma projeção aberta que parece vir “de trás”, rachando a parede instrumental da banda. Por vezes, ele adiciona efeitos e ruídos que deixam a massa sonora ainda mais cheia e maluca – como em “Thumbsucker”, faixa que encerrou a apresentação de forma apoteótica, sacramentando a ótima estreia dos Pigs em BH.

A hora e a vez do hardcore brasuca
Lembra que falamos sobre o “arco dramático” do “LAVA”? Pois bem, depois de fazer o público viajar com o Quarto Sensorial e bater cabeça com o Pigs x7, o festival propôs, para a segunda metade do line-up, digamos, um considerável aumento de BPMs. Era a hora e a vez do hardcore nacional, com dois monstros do gênero: e quem abriu a roda, literalmente, foi o Leptospirose. A rapidez caótica que marca o fastcore da banda de Bragança Paulista tomou conta do recinto, eclodindo um mosh mais encorpado.

Comandada pelo carismático vocalista e guitarrista Quique Brown, o grupo começou o show com música nova, engatando logo de cara “Tatuagem de Coqueiro”, faixa-título do celebrado disco de 2012, e “O salário até que é seu, mas o dinheiro é meu”, do mesmo álbum. O vocal berrado de Quique dá o tom powerviolence do trio, formado também por João Della Vecchia (baixo) e Serginho Batera (bateria). Um marco da banda é a rapidez das músicas: é raro que passem de um ou dois minutos, e prova disso é o repertório do show ter 29 faixas (sendo cinco novas).

Outro ponto de destaque do Leptospirose são os temas e letras, que abarcam crítica social, humor ácido e doideira nonsense. Vários petardos apresentados em BH mostraram isso: “Prometo não parir mais poneys”, “Em maio todo mundo janta pipoca na minha cidade”, “Sanduíche de Pimenta” e “My name is Luis Henrique Camargo Duarte and yours”. No campo do protesto, entraram “Política” e “Votação em bloco por capricho, chama Bode Preto” – música em que Quique Brown, antes de puxar, reverenciou a deputada Érika Hilton por encampar a luta contra a escala 6X1, angariando aplausos da plateia.

Um showzaço do Leptospirose, brevemente atrapalhado apenas pelo bebum mala do mosh – que tomou uma latada de cerveja e foi colocado em seu lugar. E, então, para fechar a noite com mais gritaria e rapidez, ninguém melhor que o Mukeka di Rato. Os veteranos do hardcore de Vila Velha têm cadeira cativa em BH, por isso, a pista ainda estava povoada quando soaram as primeiras notas, por volta de meia-noite e meia.

A velocidade das músicas do Mukeka também é ponto pacífico, fator que desemboca em outro grande repertório, esse com 27 faixas. Formada nos anos 90, a banda capixaba tem nove discos na bagagem, sendo o mais recente “Generais de Fralda” (2025). Em blocos, o show trouxe sequências devastadoras como a da abertura, que misturou músicas antigas e do novo álbum: “Generais de Fralda”, “Predadores Armados”, “Se droga, Brasil!”, “Mickey”, “Cobra Criada” e “Minha Escolinha”.

No palco, a banda mostrou entrosamento com o “novo” vocalista Fepaschoal, o Fepas, que assumiu os vocais no lugar de Sandro, em 2021. Figura conhecida da cena capixaba, Fepas já havia colaborado com outros projetos do lendário Fábio Mozine (baixista e fundador do Mukeka), como o grupo Merda, e vem dando sequência ao legado vivo dessa que é uma instituição do HC brasileiro.

Também formado por Paulista (baixo) e Brek (bateria), o Mukeka di Rato brindou BH com vários hinos do protesto e da zoeira, como “Milico”, “Maconha”, “Nazi Tolices”, “Cachaça”, “Deturpação Divina” e “Só Capeta Cuspindo Fogo”. Depois de “Viva a Televisão” e “Rinha de Magnata”, o bis voltou pesado, misturando as antigas “Quer ir, vai” e “José é mau”, com as novas “Engenho de Sangue” e “Último Dia de Guerra”, fechando a apresentação da banda. A pedrada final dessa edição histórica do “LAVA”, festival agora cravado de vez no calendário da música pesada de BH.

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