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Renan Benini revisita a juventude para inaugurar nova fase em seu primeiro disco solo


Fotos: Taylor Celestino
Fotos: Taylor Celestino

Existem discos que surgem como um gesto de ruptura. Outros, como um reencontro. São Francisco, 31, primeiro álbum solo de Renan Benini, pertence à segunda categoria. Conhecido por sua trajetória à frente da banda Lupe de Lupe, um dos nomes mais relevantes do rock independente brasileiro nas últimas duas décadas, o músico mineiro apresenta agora um trabalho que nasceu de forma lenta, orgânica e profundamente pessoal. Reunindo composições escritas ao longo de diferentes fases da vida — da adolescência ao início da vida adulta —, o disco funciona como uma espécie de cartografia afetiva, na qual memórias familiares, cidades, amizades, descobertas musicais e transformações íntimas se entrelaçam em canções que permaneceram guardadas por anos até encontrarem o contexto ideal para existir em conjunto.


Mais do que um simples projeto paralelo, São Francisco, 31 revela facetas da identidade artística de Renan que raramente encontravam espaço em sua produção com a banda. Se na Lupe de Lupe a urgência, a crueza e o ruído e a intensidade sempre ocuparam papel central, aqui emerge um compositor interessado nos detalhes dos arranjos, nas harmonias, na construção de atmosferas e nas influências que o formaram desde a infância. “Esse disco mostra um lado meu artístico mais harmonioso, talvez até mais calmo”, afirma. O próprio título do álbum sintetiza essa proposta ao reunir, segundo o músico, “lugares, sentimentos e momentos chave” de sua trajetória em uma única imagem capaz de organizar emocionalmente todo o repertório.


Ao longo desta entrevista, Renan fala sobre o processo de revisitar canções compostas em diferentes momentos da vida, as emoções despertadas por esse retorno, as lembranças de quando descobriu a música ainda criança e a maneira como a passagem do tempo transformou sua relação com essas composições. O artista também comenta a longa jornada de gravação do álbum, realizada entre 2025 e 2026, a colaboração de músicos e produtores que ajudaram a traduzir para o estúdio ideias que carregava há anos e os desafios de compartilhar com o público um trabalho que nasceu, durante muito tempo, em um território estritamente pessoal. Entre reflexões sobre família, amadurecimento, afeto, conflito e pertencimento, São Francisco, 31 surge não como um acerto de contas com o passado, mas como uma reafirmação dele. Um disco que olha para trás sem nostalgia excessiva e que, ao mesmo tempo, aponta para o futuro. Como o próprio Renan resume ao final da conversa: trata-se de “um novo capítulo”, talvez a apresentação mais direta, sincera e completa de quem ele é como compositor.


As músicas de São Francisco, 31 foram compostas em diferentes momentos da sua vida, entre a adolescência e o início da vida adulta. Em que momento você percebeu que existia um elo capaz de unir essas canções em um mesmo disco?


Acho que o elo foi se apresentando natural e progressivamente, não em um esforço arquitetado ou de súbito; eu tinha essa ideia de construir um disco solo com uma estética diferente daquilo que eu estava já lançando com a Lupe de Lupe, esse era meu “norte”, se pudermos chamar assim. Com o tempo, as músicas que eu, ou já tinha ou fui compondo e se enquadraram nessa premissa, acabaram por assumir essa identidade que eu buscava.


Como foi o processo de selecionar esse repertório entre tantas composições guardadas ao longo dos anos? O que fez essas dez músicas permanecerem?


Foram as que melhor conversavam entre si. Antes de iniciar as gravações, eu tinha cerca de vinte músicas meio que pré-selecionadas, nessa máxima de serem para um momento solo e destacado. Quando fui gravar, já reduzi esse número para quinze e, depois das primeiras guias das que eu sempre soube que iriam estar (como Em Família, Muriaé e São Francisco, 31), esse número caiu para dez. Só que como as coisas são curiosas na vida, uma delas não deu certo (por n razões), eu a exclui e fui gravar mais uma, que acabou se tornando o primeiro single do disco, a Valsas de um Bolero, que eu achei que iria lançar em um outro lançamento futuro.


Ao revisitar canções escritas há tanto tempo, quais memórias e emoções vieram à tona durante o processo de gravação?


Muitas, das mais diversas possíveis; felicidade, tristeza, euforia, depressão, ansiedade, angústia, etc. Como o disco foi uma jornada por vários momentos da minha vida, além do arcabouço final que chamo de agora, tudo isso se uniu e se somou, numa experiência bem intensa.


Quando você revisitou essas canções da adolescência, também reencontrou o jovem que estava descobrindo a música. Quais são as lembranças mais antigas que você tem da sua relação com a música e como elas ajudam a entender o artista que você se tornou?


Minha primeira lembrança musical, vem quando eu tinha entre cinco ou seis anos de idade, sentado no piano na casa da minha avó, batendo as teclas sem qualquer coordenação, inicialmente, e depois, aos poucos, tocando teclas individuais, meio que “tentando entender” o que eu estava fazendo. Essa é uma memória dessas bem nubladas pelo tempo, quase lúdica, mas nunca saiu da minha memória. Depois, vieram as aulas forçadas de piano e violão, que eu não gostava, aliás, mas foram dessas aulas que eu peguei a base para alguns anos depois, ouvindo nirvana e beatles, redescobrir os instrumentos que eu fui apresentado. Na minha adolescência, aí eu realmente comecei a ouvir música e me interessar por estudar esses instrumentos e, junto, compor. Faço isso desde os doze, eu acho.


Capa de  São Francisco, 31
Capa de São Francisco, 31

Hoje, depois de toda a sua trajetória como compositor e músico, o que essas músicas significam para você? Elas mudaram de sentido ao longo dos anos?


Significa muita coisa, do ponto de vista sentimental e de avanço de tempo. Uma trajetória, a minha. Elas têm um peso que ninguém pode realmente entender, que tem a ver comigo, de onde vim e para onde vou. Na verdade, as músicas carregam essa carga enorme que não dá para ser compartilhada, mas que pode afetar cada a um de sua única forma.


A faixa-título parece funcionar como um eixo conceitual do álbum. De que maneira São Francisco, 31 ajudou a dar sentido e unidade ao restante do repertório?


O título, “São Francisco, 31”, tem relação com minha família e crescimento. Foi um título que pensei durante um bom tempo, a muitos anos atrás (dá pra dizer, que foi a primeira coisa que eu decidi sobre o álbum), mas que eu sempre tive certeza. Ele compila lugares, sentimentos e momentos chave da minha vida, em um só nome.


Diferentemente do trabalho com a Lupe de Lupe, aqui você assume boa parte dos instrumentos e das decisões artísticas. Quais foram os maiores desafios e também as maiores liberdades desse processo?


A gravação do disco, como um todo, foi um processo muito diferente para mim. Não apenas por eu compor tudo (com exceção de alguns arranjos que foram fluindo), ou tocar boa parte dos instrumentos, mas por fazer esse processo ao longo prazo. Eu comecei as gravações em abril de 2025 e finalizei a última em fevereiro deste ano. Além disso, gravei em Belo Horizonte, no estúdio Frango no Bafo, enquanto morava em Muriaé, no interior mineiro. Foram poucos dias de gravação espalhados por meses, e todas as pausas entre datas, eu ficava pensando em cada música, a partir de cada etapa. Foi uma experiência única, que não sei se conseguirei repetir.


Embora o disco seja marcado por uma forte dimensão autoral, ele também contou com a colaboração de nomes como Leonardo Marques, Henrique Matheus e Thiago Corrêa. Como foi construir esse trabalho em diálogo com eles e de que forma essas parcerias ajudaram a transformar canções tão antigas na sonoridade que ouvimos hoje?


Acho muito legal uma coisa que o TC (thiago corrêa) sempre disse desde o início: “O meu trabalho é fazer o que está dentro da sua cabeça sair pro mundo real, mas é impossível eu tirar ele”. Eu gosto dessa frase, porque todo o processo de gravação foi assim, uma conversa. Eu falava o que eu queria e a gente buscava formas de concretizar. Eu já tinha a maior parte das linhas e melodias compostas na minha cabeça, cheguei já sabendo o que queria, a grande questão foi a tradução desse emaranhado de ideias em instrumentos, efeitos, sons. Além é claro de versos e arranjos que foram sendo criados ou aprimorados entre cabeças. Eu tenho muito a agradecer aos três por terem me ajudado demais nesse processo.



Muitas dessas músicas foram preservadas justamente porque apontavam para caminhos diferentes daqueles da banda. Que aspectos da sua identidade artística esse disco revela que talvez o público ainda não conhecesse?


Esse disco mostra um lado meu artístico mais harmonioso, talvez até mais calmo. Um retrato mais preocupado com os arranjos e com as influências que me construíram ao longo dos anos, que não tinham lugar no meu trabalho com a banda. Foi um processo sincero que pode até gerar estranhamento, mas que muito fala de mim.


O álbum conta com participações de músicos de diferentes formações e instrumentos. Como essas colaborações contribuíram para ampliar a paisagem sonora que você imaginava para o disco?


Contribuíram muito! O andar das gravações, a forma e intensidade dos arranjos, tudo passou por várias mãos, vamos dizer assim. Quando eu entrei no estúdio, eu já tinha as músicas feitas, pelo menos para mim. O processo de gravação, por outro lado, faz com que muita coisa se altere positivamente. Arranjos, notas, frases e intensidade de trechos vão sendo trabalhados por todos. As linhas de São Francisco, 31, por exemplo, eu só pensava no piano e em cordas que seriam, no mínimo, genéricas de acompanhamento. O Rodrigo e o Samuel, junto do TC e Henrique, ajudaram muito na construção das frases que, agora, caracterizam a música. A Bruna, depois de cantar a parte dela em Em Família, fez com que eu corresse muito mais atrás no vocal, por ela ter uma voz poderosa e ter performado de forma intensa. Essa construção é sempre ótima.


Existe uma forte presença de temas ligados à família, aos afetos e ao amadurecimento. Você enxerga São Francisco, 31 como um trabalho de encerramento de ciclo ou de reinterpretação dessas experiências?


Um pouco das duas coisas, mas acho que trabalha muito numa reafirmação do afeto que sinto por minha família e do lugar que eu vim. A grande questão, é que nem sempre, os sentimentos e relações são completamente harmoniosos; pelo contrário, o amor e carinho são advindos de uma construção que é baseada em proteção e conflito. Quantas vezes não praguejamos sobre nossas casas, reclamamos sobre nossa vida e entes queridos? O que a maturidade mostra é que quanto mais sólida a relação, mais ela foi abalada e reestruturada ao longo dos anos. É uma construção, não algo inato. O que mais vejo são famílias que nunca brigaram, mal se falarem ou se verem, quase como um artigo de decoração na vida de algumas pessoas. Acho isso muito triste.


Depois de tantos anos convivendo com essas canções apenas no âmbito pessoal, houve algum receio em finalmente compartilhá-las com o público?


Sempre há. Isso valeu muito fortemente para o São Francisco, mas eu sempre tenho receio em mostrar as músicas para os membros da Lupe. Acho que quando algo sai do âmbito pessoal, é natural que haja receio. Não que isso seja um problema, mas deve ser superado. É aquele frio que se sente quando se sobe em um palco, não importa quantas vezes se toque.


O que você espera que as pessoas encontrem ou sintam ao ouvir São Francisco, 31 pela primeira vez?


Isso deixo pras pessoas. Eu tenho ouvido muito as pessoas falarem que o álbum é extremamente pessoal, mas gostei muito de um review que falou que por mais que seja pessoal, é humano e, portanto, espelhável. A coisa que mais gosto de conversar com as pessoas que gostam do meu trabalho, são suas experiências pessoais tiradas dessas composições. Como me falam quando pediram alguém em namoro com uma música, ou lembraram da infância com outra, ou se separaram e tal música se tornou trilha sonora. Essas vivências são bem mais ricas do que só a música em si. Essa empatia que nos permeia é um dos traços mais bonitos da humanidade. Então, fico ansioso por ouvir como o disco conversou com as pessoas.


Agora que esse repertório saiu da gaveta e ganhou forma definitiva, você sente que está apresentando um novo capítulo da sua trajetória ou fechando uma história que precisava ser contada?


Um novo capítulo. O São Francisco, 31, é a melhor forma de apresentar quem eu sou musicalmente para além do que já apresentei com a Lupe. é a forma mais honesta de mostrar minhas composições. Eu já tenho outros trabalhos meio que engatilhados, mas ele tinha que ser o primeiro, exatamente para abrir para as pessoas esse meu outro lado.



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