Roger Deff fala sobre o lançamento do livro Negritude, Hip Hop e Território: BH Canta e Dança
- Bruno Lisboa
- há 3 horas
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Entre o microfone, os palcos e a pesquisa acadêmica, Roger Deff constrói uma trajetória em que arte e memória caminham juntas. MC, pesquisador e cronista dos territórios periféricos, ele transforma vivência em linguagem e linguagem em registro histórico. Ao longo dos anos Deff construiu uma carreira marcada pelo diálogo entre música e pesquisa, transformando suas vivências e investigações em obra artística. Seus álbuns, como Etnografia Suburbana, Pra Romper Fronteiras e Alegoria da Paisagem, refletem esse olhar atento ao território e à memória, evidenciando o rap como ferramenta de interpretação do mundo.
Agora o MC acaba de lançar o livro Negritude, Hip Hop e Território: BH Canta e Dança (Editora Dialética) . A obra parte da dissertação de mestrado do artista e pesquisador e volta o olhar para um capítulo central da cultura hip hop na capital mineira: o evento BH Canta e Dança, realizado entre 1986 e 1997.l Na obra o autor analisa uma história muitas vezes silenciada — a do hip hop em Belo Horizonte — reafirmando que “pessoas periféricas, sobretudo pessoas negras, tiveram esse direito à memória negado ao longo da história”. Mais do que um livro, a obra surge como gesto político e homenagem a uma geração que fez da cultura uma forma de existência e resistência.
Na entrevista, Roger Deff articula temas como memória, território e identidade no hip hop, destacando a importância de registrar histórias periféricas apagadas e valorizar seus protagonistas. Ele aborda a falta de documentação, o papel da oralidade, a potência de eventos como o BH Canta e Dança, a conexão entre contextos locais e globais do movimento, além de refletir sobre a relação entre periferia e academia. Ao recuperar personagens e trajetórias invisibilizadas, reforça o hip hop como ferramenta de resistência, produção de conhecimento e transformação social. Confira!
O que te motivou a transformar sua dissertação no livro Negritude, Hip Hop e Território: BH Canta e Dança?
Ao fazer a pesquisa para a dissertação me deparei com a ausência de documentos, de registros sobre a história do hip hop em Belo Horizonte.O próprio BH Canta e Dança, apesar de toda a sua importância, não é conhecido pelas gerações que vieram depois. A história das pessoas que deram os primeiros passos tanto no hip hop quanto no funk não estava registrada e a gente sabe da importância da memória e do quanto pessoas periféricas, sobretudo pessoas negras, tiveram esse direito à memória negado ao longo da história. Achei que essa dissertação deveria ser uma informação pública, disponível para quem tivesse interesse e era minha forma de homenagear todo este legado do qual resulta a minha história como artista, como cidadão.
Por que você considera o evento BH Canta e Dança um capítulo central da cultura hip hop em Belo Horizonte?
É um capítulo muito importante primeiro, por ter sua origem bem no início do Hip Hop em BH, no Brasil na verdade, uma vez que temos o marco do hip hop no país em 1983 e 1984, então o BH Canta e Dança teve início quando tudo ainda estava nascendo. E ele é importante por ser o primeiro grande evento a levar aquela cultura afro-diaspórica para o centro da capital mineira, evidenciando que havia algo novo acontecendo.
Quais foram os maiores desafios ao pesquisar um movimento que aconteceu entre 1986 e 1997?
O maior desafio é a falta de documentos oficiais desta memória. Os próprios organizadores não tinham material em mãos, então tudo (quase tudo) se baseia no que aquelas pessoas se lembram, de como elas interpretam aquele período. Foi um processo de muita escuta.
Durante sua pesquisa, houve alguma descoberta que mudou sua percepção sobre a cena hip hop da época?
Sim, algumas coisas na verdade. Eu compreendi muito melhor o valor do que foi realizado naquela época. O primeiro álbum de rap e funk produzido em Minas Gerais (Fábrica Ritmos - 1992) e tudo o que eles construíram. Os primeiros MCs, as primeiras MCs, DJs, B.boys, B.girls. Me chamou a atenção a história da MC Ellu, possivelmente a primeira mulher do funk a gravar no país, já que ela estava no álbum de 1992 que citei, cuja produção é assinada pelo DJ Joseph e o DJ A Coisa. O próprio MC Pelé é um personagem que merece mais respeito da nossa parte, aquele então jovem dançarino e MC que idealizou o BH Canta e Dança.
Como você vê a relação entre território e identidade dentro da cultura hip hop em BH?
De uma maneira geral o hip hop é muito sobre o território, sobre o bairro, a quebrada, e a identidade está neste lugar, valorizada pela música, pela dança dando destaque ao espaço negligenciado pelo poder público, valorizando as pessoas daquele lugar. BH segue muito bem essa tradição, essa escola e fizemos do hip hop nossa estratégia para ampliação dos territórios, ocupando além dos bairros, a região central, como fez o BH Canta e Dança.
O livro resgata a origem do hip hop com DJ Kool Herc e Afrika Bambaataa. Como esses referenciais dialogam com a realidade brasileira
Embora o hip hop nasça em um contexto estadunidense, o processo de abandono pelo Estado, a violência, a escassez, tudo parece muito. Contar a história deles foi um jeito de demonstrar como comunidades marginalizadas costumam encontrar na arte sua forma de resistir ao pagamento epistemológico e físico até. No Brasil o hip hop encontrou comunidades tão marginalizadas quanto e essa foi uma das formas de identificação, acredito. A dança, a música, o grafitti, transformaram jovens anônimos em protagonistas.
O que tornava o BH Canta e Dança um espaço tão potente de encontro para jovens da periferia? Que legado esse evento deixou para a cena cultural de Belo Horizonte hoje?
Acho que reunir uma juventude favelada, periférica, de maioria negra, em plena Praça da Estação, naqueles dias foi muito revolucionário. Ouvindo aquela música, vendo artistas que eram das suas comunidades, foi muito poderoso e significativo. Anos depois, muitos anos depois e cidade voltou a ser ocupada por outras juventudes, na Praça, com a Praia da Estação e no viaduto Santa Tereza com o Duelo de MCs, este tão importante quanto para o hip hop.
Você acredita que existem iniciativas atuais que cumprem papel semelhante ao do BH Canta e Dança na atualidade?
Sim, o Duelo de MCs, principalmente o Duelo Nacional é uma delas, além de festivais muito importantes como o Palco Hip Hop que segue celebrando as danças urbanas e demais elementos da cultura.
Como sua carreira musical dialoga com sua pesquisa acadêmica? De que forma álbuns como Etnografia Suburbana, Pra Romper Fronteiras e Alegoria da Paisagem refletem suas investigações sobre território e cultura? E ainda: como sua formação em Artes e Jornalismo influencia sua forma de produzir conhecimento?
Acho que minhas músicas também nascem de um olhar investigativo, de tentar entender e traduzir o território à minha volta e também vejo a música como uma ferramenta de resgate e preservação da memória, assim como o processo que desenvolvo na academia.
Este misto de valorização da memória e descoberta de novos “velhos” elementos. Quando faço rap eu sempre aprendo, ao me deparar com toda a estrutura técnicas construídas bem antes. Com a produção do conhecimento acadêmico é muito parecido.
Qual o papel da universidade na valorização de expressões culturais periféricas como o hip hop?
É um espaço importante de legitimação, não que a periferia e as culturas deste lugar precisem disso para existir, não precisam, mas a academia ganha muito ao se abrir para a discussão acerca destes conhecimentos.
Você acredita que a academia tem avançado na inclusão dessas narrativas?
Um pouco, sim. Ainda é um espaço elitista, embranquecido, mas há cada vez mais pesquisa sobre o rap, o funk, o hip hop.Isso é muito importante.
Que debates você espera provocar com o lançamento do livro?
Acho que principalmente sobre o quanto há de história no início do nosso hip hop, e evidenciar algumas coisas importantes, como o fato de que o hip hop começou em vários lugares no Brasil ao mesmo tempo, não houve uma cidade que fez este movimento ecoar para o resto do país, como muitos acreditam ser o caso de São Paulo. veja bem, é inegável a importância daquela cidade na profusão do rap brasileiro, mas o hip hop enquanto cultura foi assimilado através da dança e isso ocorreu em muitos lugares, todos influenciados pelo audiovisual.
Que conselho você daria para jovens artistas e pesquisadores da periferia que querem contar suas próprias histórias?
Para os artistas eu só digo para viverem suas jornadas, sem pressa. Tudo é importante e não são os algoritmos que dirão o que tem relevância neste sentido.. Para os futuros pesquisadores eu só diria para escreverem sobre o que faz sentido para vocês e suas comunidades. ‘É da periferia que a cultura explode”.

Serviço
Lançamento: Negritude, Hip Hop e Território: BH Canta e Dança (Editora Dialética)
Data: 19 de março, quinta-feira
Horário: 19h30
Local: Sede da Família de Rua – Rua Aarão Reis, 554, Centro, Belo Horizonte, ao lado do Teatro Espanca
Entrada: gratuita
O livro pode ser adquirido pelo site da Editora Dialética e também pela Amazon.
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