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RU NA inica nova fase com o single “Forking Ways”.

há 23 minutos
7 min de leitura
Foto: Cléber Aleixo
Foto: Cléber Aleixo

Com trajetória iniciada no final de 2022, a RU NA é uma banda mineira de rock alternativo que constrói sua identidade entre a força melódica, a tensão atmosférica e a busca por canções capazes de transformar inquietações íntimas em paisagens sonoras amplas. que com o alt-rock e do post-rock.


Formada por músicos com passagem pela cena independente de Belo Horizonte, a banda reúne Alessandro Travassos (voz e guitarra), Cleber Aleixo (bateria e vocais), Clayton Vilaça (baixo) e Tiago Sales (guitarra e vocais). Seus integrantes carregam experiências em projetos como Valv, Kill Moves, Aldan e Vellocet, repertórios que ajudam a explicar uma banda movida pela construção coletiva e pela procura de uma sonoridade própria.


Em 2024, a RU NA lançou o EP de estreia, Heliades, em parceria com a midsummer madness., selo carioca que, desde os anos 1990, ocupa lugar central na circulação da música independente brasileira. O trabalho estabeleceu uma banda interessada em observar os infortúnios cotidianos e suas consequências, criando uma base conceitual que agora encontra novos desdobramentos.


Com “Forking Ways”, primeiro single do futuro EP Undercurrents, a RU NA apresenta um deslocamento importante. Se o trabalho anterior se aproximava de narrativas míticas para falar de perdas e reações humanas, a nova fase volta o olhar para dentro: para o esgotamento, os conflitos íntimos e as forças subterrâneas que conduzem a transformação humana.


Esse percurso aparece na própria arquitetura sonora da faixa. Inicialmente claustrofóbica e sufocante, a música avança entre contemplação, estado de alerta e tensão acumulada, até se abrir em ondas maiores. Referências como Deftones, Failure e Oceansize ajudam a situar a renovação estética da banda que concilia contraste, densidade e expansão sem abandonar o apelo melódico.


Produzida pela própria RU NA, “Forking Ways” teve as baterias registradas no estúdio Frango no Bafo, com Henrique Matheus. Guitarras, baixos e vozes foram captados e editados por Clayton Vilaça, em um processo que deu à banda liberdade para experimentar e amadurecer as versões de estúdio. A mixagem de Drey Henrique e a masterização do produtor grego Alexis Gotsis completam esse novo desenho sonoro, mais contemporâneo, textural e atento aos detalhes.


Além de “Forking Ways”, Undercurrents terá os singles “Leptomedusae” e “Chasing You” antes de seu lançamento completo, previsto para o fim de 2026, novamente pela midsummer madness. A proposta é que cada música funcione como um mergulho autônomo, mas que, reunidas, revelem um percurso coeso: o de quem atravessa o fundo para descobrir, em meio à correnteza, outra forma de seguir.


Na entrevista a seguir, a banda comenta os processos criativos por trás de “Forking Ways”, as mudanças que atravessam sua formação e sua sonoridade, o contraste entre clausura e expansão que orienta o novo EP, as parcerias técnicas do lançamento e a ideia de recomeço que move Undercurrents.


Liricamente “Forking Ways” transforma a fratura em passagem e a ruína em possibilidade de recomeço. Como essa ideia nasceu e de que forma ela orienta a narrativa do single e do futuro EP Undercurrents?


As letras das nossas músicas são escritas pelo Alessandro e, no caso desta canção em específico, a ideia veio da necessidade de dar voz a um ponto de virada inevitável, e a solução possível ou única saída seria uma “travessia”. A fratura, então, seria uma bifurcação que divide o que foi daquilo que resta. Nisso tudo, a ruína se apresenta não mais como um espaço estéril, mas como um lugar onde o recomeço, por mais doloroso que seja, se torna possível. Essa ideia, no contexto do EP, orienta a história da música de dentro pra fora, focada na exaustão e culminando na aceitação de estar à deriva. “Forking Ways” é a correnteza subterrânea que dá o tom de todo o projeto. O EP como um todo, explora exatamente essa força invisível que nos leva a novos lugares bons mas que, também, pode nos puxar para baixo sem que a gente perceba. Esse single é o epicentro disso: do momento em que você aceita submergir para, então, conseguir emergir transformado. 


A banda aponta uma abordagem mais contemporânea, aberta a novas referências musicais e artísticas. Quais influências ajudaram a construir a atmosfera de “Forking Ways”, entre o alt-rock, o post-rock, a contemplação e a tensão?


A sonoridade da RU NA passou por uma boa reviravolta com o Cleber, antes nosso baixista, indo para a bateria e o Clayton entrando para a banda e assumindo o baixo. A pegada mudou e as referências acompanharam essa nova fase. Deftones, Failure, Oceanzise, enfim, bandas que transitam por essas zonas metafísicas nos trouxeram até aqui. Isso pra falar somente da parte musical de influências. Também temos as contribuições literárias, cinematográficas e imagéticas que cada um trouxe pra mesa. Nós queríamos que a música (ou as músicas, pensando no contexto do EP) soasse como um espaço físico, claustrofóbico e sufocante no início, refletindo o esgotamento, mas que fosse capaz de se abrir em ondas gigantescas quando o arranjo deságua numa espécie de aceitação. Nossa intenção era expressar a contemplação, o estado de alerta e a calmaria tensa antes do empuxo da correnteza. 


Como funciona, hoje, o processo coletivo de composição da RU NA? O que a produção assinada pela própria banda permitiu descobrir ou aprofundar nesta nova fase?


“Forking Ways”, especificamente, nasceu a partir de um riff que o Tiago tinha criado durante a pandemia e estava guardado desde então. Até chegamos a tocar versões curtas e instrumentais dela em alguns dos nossos shows, como uma passagem de uma música pra outra. Ao longo dos ensaios, fomos maturando a ideia coletivamente, Alessandro, Cleber, Clayton e Tiago, cada um trazendo sua abordagem nas partes de seus instrumentos, assim como fazemos com tudo o que já lançamos. Isso tornou a música uma parada NOSSA. É algo comum no processo criativo de bandas: alguém chega com uma ideia embrionária (letra, melodia e harmonia - isoladamente ou somadas) e vamos construindo o arranjo, trabalhando juntos pra música virar o que é. E ela só fica como está pela soma daqueles ânimos presentes ali, tocando juntos. E aí é como já mencionamos: a mudança na formação trouxe uma abordagem diferente pras sonoridades, o jeito de tocar, enfim, renovou o resultado. A produção musical já faz parte do processo nas nossas  composições. Foi assim no “Heliades”, nosso primeiro EP, que contou com Fernando Bones na equipe de produção. A lógica continua no Undercurrents, potencializada pela entrada do Clayton, que tem muitas referências em comum com o resto da banda, mas que possui também outras sonoridades na sua forma de compor. Todos nós da banda contribuímos com ideias e analisamos enquanto estamos gravando pra ver se o que faz sentido no “ao vivo”, também faz numa versão “de estúdio” da canção. E isso às vezes resulta em mudanças em uma parte de guitarra, em uma melodia, em um bumbo que pode não estar batendo com o baixo, coisas desse tipo...é um processo de escuta e de entender o que funciona para a música comunicar o que gostaríamos que ela comunicasse. Achamos que é isso que desenvolvemos mais e mais a cada composição e não é diferente agora. Mesmo que uma visão de fora seja válida em alguns casos pra achar soluções, ter uma imagem clara do que queremos passar e poder dar a cara a tapa pra fazer isso, também nos agrada.


A faixa reúne a mixagem de Drey Henrique, a masterização de Alexis Gotsis e parte da captação no Frango no Bafo. O que essas parcerias acrescentaram à canção?


Pois é. Esse trabalho trouxe algumas peculiaridades que meio que definiram como tudo ia ser. Lá no Frango no Bafo nós gravamos apenas as baterias, com o queridíssimo Henrique Matheus. Todo o restante, vozes, baixos e guitarras (que somaram infinitas tracks, alvos de muita conversa, diga-se de passagem... hehehe) foi tudo captado e editado pelo Clayton em espaço próprio. Um trabalhão danado que ele puxou pra si, mas que valeu pra nós pela qualidade do resultado e pela liberdade de experimentar coisas sem a pressão de estar correndo contra o relógio em um estúdio convencional. Isso por si só já acrescentou muito na construção das versões “de estúdio” das músicas. Pro Undercurrents gravamos três faixas, sendo a “Forking Ways” a escolhida pra sair primeiro por traduzir bem, no nosso entendimento, o novo momento da banda. O próprio Clayton sugeriu o Drey pra mix, uma vez que já tinha trabalhado com ele em outras oportunidades e por ambos serem extremamente dedicados a essa parte técnica de gravação e mixagem de canções. A visão deles também trouxe uma modernização,  principalmente no sentido da cara nova que queremos estampar agora nas composições. Pra fechar o processo, o Clayton também fez a ponte com o Alexis, um amigo que mora fora, pra poder masterizar pra gente. E o resultado foi mágico pra nós. Ficamos extremamente satisfeitos e felizes com o produto final. Tanto que escutando os dois trabalhos em comparação (“Helíades” e o novo), deixam claras as intenções e contribuições presentes em cada um deles.


Depois de “Heliades”, que recorria aos mitos gregos para refletir sobre os infortúnios cotidianos, que deslocamento estético, narrativo e emocional este novo trabalho irá propor? E ainda: quais são os planos futuros?


“Heliades“ olhava para o passado e para o alto (as Heliades eram as filhas do Deus Sol - Hélios), para os mitos que narram todos os caminhos pelos quais passamos. A tragédia clássica grega serviu como tradutora para os infortúnios cotidianos. Este novo EP, Undercurrents, muda a perspectiva para o presente e para dentro, para o fundo,o subsolo. O deslocamento estético deixou a grandiosidade épica para se concentrar em uma atmosfera mais densa, claustrofóbica e textural. É a transição do mito coletivo para a fratura individual, deixamos o luto mítico e as figuras distantes para encarar um conflito puramente interno e visceral, mais próximo, presente. Com “Forking Ways” tentamos abranger o processo cíclico de uma respiração, que começa e termina, se renovando. A ideia para o futuro próximo é lançar os dois singles restantes do EP, "Leptomedusae"  e "Chasing you", em etapas. Esperamos que cada música proporcione um mergulho individual e autônomo em nossos próprios oceanos subterrâneos, mas que ao final, quanto ouvidas em conjunto, formem um todo coeso e marcante em quem se propuser a ouvir. Pro futuro, pensamos em nos movimentar com o que vier a partir disso.





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